Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 15 de 46

Páginas do PDF

Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XIV. O Retrato Velado

XIV

O Retrato Velado

Os terrores, que as histórias de Annette haviam semeado no espírito de Emília, desvaneceram–se com os primeiros alvores do dia. Levantou–se e foi abrir a janela, admirando o grandioso espetáculo que se desdobrava a seus olhos. As montanhas, amontoadas umas sobre as outras, deixavam entrever por algumas quebradas os vales cobertos de espessas florestas. As fortes muralhas e outras construções abrangidas pelo castelo estendiam–se ao longo de um penhasco altíssimo e escarpado, no sopé do qual corria uma torrente fragorosa, que se precipitava espumante e desaparecia no coração do pinhal. Ligeira bruma velava o horizonte, bruma que os primeiros raios de sol dissipavam pouco a pouco, descobrindo as campinas distantes, o arvoredo, as colinas e rebanhos.

Distraída com o cenário esplêndido, reanimada com a frescura da manhã, Emília ergueu o pensamento para Deus e sentiu as forças renascer.

Quando abandonou a janela, aproximou–se da porta que na noite antecedente havia barricado com tantas precauções. Disposta a descobrir onde a escada ia dar, apressou–se a afastar a poltrona e os outros móveis, mas qual não foi a sua surpresa quando verificou estar a porta fechada pelo outro lado! Aterrada com a ideia de dormir outra noite naquele quarto onde se tornava tão fácil penetrar e onde ficava tão afastada de todos, decidiu avisar madame Montoni e pedir–lhe outro quarto.

Não sem grande dificuldade, encontrou o caminho para o vestíbulo e daí para a sala grande onde fora servido o almoço. A tia estava só. Montoni andava com Cario a inspecionar o castelo e o estado das fortificações. Emília notou que a tia havia chorado e teve pena dela, mas não o demonstrou, porque madame Montoni não gostava que a soubessem infeliz. Aproveitou a ausência de Montoni para falar no estranho caso da porta e pedir outro quarto. A tia disse–lhe que fosse ter com o marido.

Entretanto, Montoni entrou, sentou–se à mesa e começou a comer como se não houvesse mais ninguém na sala. O seu aspecto era ainda mais sombrio do que o habitual. Mesmo assim, Emília atreveu– se a fazer–lhe o pedido, explicando as razões por que o fazia.

— Não posso perder tempo com essas ninharias — replicou o castelão — Destinei–lhe aquele quarto, contente–se com ele. Não acredito que alguém se desse ao trabalho de subir a escada só para fechar a porta. Se não estava fechada quando entrou, foi talvez a força do vento que a fez bater e os ferrolhos fecharam com a pancada. Mas já lhe disse que não posso perder tempo com essas tolices.

A explicação não satisfez Emília. Os ferrolhos eram muito pesados e só com força poderiam ser corridos. No entanto, não disse o que pensava e limitou–se a insistir no pedido.

— Já lhe disse que não tinha tempo para ouvir tolices. Trate de fortificar a sua alma e esquecer esses disparatados terrores. Nada mais estúpido do que envenenar a vida com perpétuos receios.

Ao dizer estas palavras fitou, severamente, sua mulher, que corou. Depois saiu.

Emília ficou magoada com a dura repreensão que, em seu entender, não havia merecido. Quando a tia abandonou a sala, para se distrair, foi visitar o castelo. Saiu para a esplanada da muralha que, de três lados, se debruçava sobre o precipício. Pelo quarto, estava defendida pela sua altura. Desse lado ficavam os pátios e a porta abobadada por onde haviam entrado. Percorrendo o terraço, Emília não pôde deixar de admirar a gótica magnificência do castelo, a sua grandiosa irregularidade, as altas torres, as Janelas estreitas, enterradas na espessura das paredes, as torres de atalaia dispostas nos ângulos da muralha. Debruçou–se no parapeito a fim de avaliar a profundidade do abismo, semi–oculto pelo arvoredo que crescia nas suas paredes quase a pique. Por todos os lados só via montanhas altíssimas, negras florestas e desfiladeiros apertados, que se prolongavam até aos flancos inacessíveis dos Apeninos. A certa altura, avistou Montoni, acompanhado por dois homens, subindo um atalho talhado na rocha. Parou num alto e examinou as muralhas, falando ao mesmo tempo com os companheiros, em atitude enérgica. Um era Cario, o outro trajava à moda da região e era a ele a quem Montoni se dirigia.'

Prosseguiu, tranquilamente, o seu passeio, até que, de súbito, ouviu o rodar de muitos coches e logo a seguir a sineta do portão badalou. Teve o pressentimento de que era o conde Morano quem chegava e fugiu para o quarto, pensando poder assim adiar a visita que tanto temia. Os seus receios aumentaram quando ouviu passos no corredor e Annette entrou.

— Chegou o senhor Cavigny, mademoiselle! Como estou contente! Não vem sozinho. Acompanha– o o senhor Varezzi e também... adivinhe quem?

— O conde Morano! — exclamou Emília, deixando–se cair numa poltrona.

— Valha–me Deus! Sente–se mal, mademoiselle? Vai desmaiar... água, vou buscar água.

— Não... fica, não é preciso — balbuciou Emília — Abre a janela... o conde... está lá em baixo, disseste?

— O conde? ... Não falei nele. Não está no castelo.

— Tens a certeza?

— Tenho. Quando os coches chegaram, espreitei pela janela da torre. Finalmente, via outras caras neste deserto. Sentia–me tão feliz que, se pudesse, saltaria por entre os varões de ferro, só para lhe falar.

— A quem te referes?

— Ao Ludovico. Veio também. Mademoiselle não se recorda do Ludovico?

— Não — respondeu Emília, fatigada com tanta tagarelice.

— O que remava naquela linda gôndola que ganhou o prémio na última regata. Como pôde esquecê–lo? Cantava todas as noites lindas canções acerca dos mouros e o imperador Carlos... Carlos Magno, era esse o nome, debaixo da janela do meu quarto.

— Parece–me que essas canções, colhidas pelos teus ouvidos, te atingiram o coração. Acautela–te. Faz o possível por ele não descobrir o teu segredo.

— Eu sei guardar segredos, mas este parece–me muito difícil...

Emília sorriu e despediu–a:

— Podes ir, Annette, já me sinto bem.

— Queria perguntar–lhe como conseguiu dormir neste quarto a noite passada?

— Muito bem.

— Não ouviu barulho, não viu coisa alguma que a assustasse?

— Não. Qual a razão de tanta pergunta?

— Contam coisas sobre este quarto... coisas estranhas que eu não quero repetir–lhe para não a assustar.

— Se não querias assustar–me não devias ter começado. Agora tens de me dizer o resto.

— Dizem que ... santo Deus! Dizem que neste quarto aparecem fantasmas.

— Fantasmas muito habilidosos, que sabem correr ferrolhos — replicou Emília, sorrindo para ocultar o seu terror — Ontem à noite deixei aquela porta aberta e hoje de manhã encontrei–a fechada. Sabes se algum criado a fechou antes de eu me levantar?

— Não sei nada, mademoiselle, mas posso ir perguntar — ofereceu a criada, que se fizera muito pálida.

E já se precipitava para o corredor quando Emília a deteve.

— Espera. Primeiro tens de dizer–me tudo quanto sabes a respeito deste quarto e daquela escada.

— Não posso demorar–me mais tempo. A senhora deve precisar de mim.

E saiu a correr, sem dar tempo a protestos.

Tranquilizada sobre a presença de Morano, Emília não pôde deixar de sorrir com os supersticiosos terrores da rapariga, conquanto estivesse muito disposta a compartilhá–los. Quanto ao resto, visto Montoni ter–lhe recusado a passagem para outro quarto, forçoso seria resignar–se com o mal que não podia evitar, para tornar o ambiente o mais agradável possível, começou a dispor as suas bugigangas e a arrumar nas prateleiras os livros, companheiros dos dias felizes e a sua consolação nas horas tristes. Abriu um ao acaso, na intenção de ler um bocadinho para se distrair. Mas como não conseguiu fixar a atenção no que lia, fechou–o e dis–pôs–se a ir visitar o resto do castelo. Recordou a triste história da sua primeira proprietária e essa recordação trouxe–lhe outra: a do quadro encoberto com a cortina preta, que lhe despertara tanta curiosidade. Decidiu ir vê–lo. Ao atravessar as salas desertas, sentiu–se profundamente perturbada. Todos aqueles mistérios provocavam–lhe uma sensação de terror que não podia explicar.

Ao atingir a porta da sala vermelha, parou um instante, hesitando em abri–la. Por fim, decidiu–se. Abriu a porta, entrou e, sem olhar em volta dela, dirigiu–se para o canto mais escuro onde se encontrava o quadro tapado, que parecia enorme. Tornou a hesitar, estendeu a mão e ergueu a cortina... mas deixou–a cair no mesmo instante.

Não era de uma pintura que se tratava! ... Deu alguns passos pelo quarto e caiu desmaiada.

Quando recuperou os sentidos e se lembrou do que tinha visto, quase desmaiou pela segunda vez. Mal teve forças para sair da sinistra sala e alcançar o seu quarto. Ao encontrar–se ali, não teve coragem para ficar sozinha, porque o seu espírito desvairado pelo horror quase esquecia os males passados e o receio pelos males futuros, perante o tremendo espetáculo entrevisto pouco antes. Não se atreveu a mandar chamar Annette, mas sentou–se perto da janela, pois daí podia ouvir vozes e ver passar pessoas. Montoni e Varezzi foram os primeiros e logo a seguir Bertolini e Cavigny. Calculando que a tia estivesse sozinha, resolveu ir ter com ela.

Encontrou–a no quarto, preparando–se para o jantar. A palidez e a agitação de Emília assustaram– na, mas a sobrinha conseguiu guardar o seu segredo, embora muitas vezes estivesse quase a trair–se. Estiveram juntas e juntas desceram para a sala onde encontraram caras novas. Todos os companheiros de Montoni, porém, pareciam preocupados e dominados por um interesse muito exclusivo para poderem dar atenção a Emília ou à castelã. Falavam pouco e Montoni menos do que os outros. Emília tremia quando olhava para ele, mudava de cor e, por vezes, receou que a sua comoção a obrigasse a levantar–se da mesa.

Montoni parecia refletir e Cavigny não se mostrava tão animado como de costume. A conversa versou quase sempre as guerras que assolavam o país, a força dos exércitos venezianos e o caráter dos seus generais. Nem uma só vez proferiram o nome do conde Morano.

No fim do jantar, alguém anunciou que o fidalgo apunhalado pelos sicários de Orsini havia sucumbido aos ferimentos e que o criminoso era procurado pela polícia. A notícia pareceu alarmar Montoni que, no entanto, tentou ocultar a sua perturbação e, despreocupado, perguntou se alguém sabia onde Orsini se refugiara, porque todos os seus hóspedes, exceto Cavigny, ignoravam ter sido ele próprio a favorecer a fuga do assassino. Dissiparam–lhe os receios, informando que Orsini havia fugido de Veneza na mesma noite do crime e com tanta precipitação, que todos os seus amigos, mesmo os mais Íntimos, desconheciam o seu refúgio.

— Não admira que um homem tão sensato como Orsini não confiasse a ninguém esse segredo. Mais tarde ou mais cedo teremos notícias dele.

Quando os criados levantaram a mesa, madame Montoni, a um sinal de seu marido, retirou–se, seguida pela sobrinha, deixando os homens sozinhos. As duas passearam durante algum tempo pelos parapeitos das muralhas, caladas, cada uma delas entregue aos seus pensamentos. Emília empregou grande esforço de vontade para não revelar a sua tia o terrível segredo que não lhe saía da ideia.

Passando num ponto da muralha, viram alguns homens trabalhando. Madame Montoni perguntou– lhes o que faziam.

— Reparamos a muralha — respondeu um deles. Ficou surpreendida, tanto mais que supunha não deverem viver muito tempo no castelo. Pensativa, encaminhou–se para um arco elevado, ponto de passagem para a muralha do sul. Nesse ângulo do castelo erguia–se uma pequena torre de vigia da qual a vista abrangia todo o vale. Debruçando–se um pouco a fim de admirar o horizonte, avistou uma fila de soldados a cavalo, cujas armas cintilavam ao sol. Dirigiam–se para o castelo.

Madame Montoni ficou assustada e encarregou a sobrinha de ir avisar o marido. Emília obedeceu sem protestar.

Ao aproximar–se da sala onde Montoni se encontrava com os seus hóspedes, ouviu violenta discussão. Hesitou, mas como eles se calassem, atreveu–se abrir a porta. Montoni voltou–se, bruscamente, e escutou–a sem uma palavra, mas, logo que ela acabou de dar a sua mensagem, todos se levantaram e correram para a muralha.

Uma parte da cavalgada ainda se encontrava no vale. A outra subia as montanhas em direção ao norte, enquanto alguns homens, mais atrasados, ainda contornavam os precipícios. À frente, erguiam as trombetas e címbalos cujo som se repercutia por muito tempo. Montoni declarou que não havia perigo,

pois devia tratar–se de um grupo de {1} condottieri. Ainda assim, todos ficaram muito satisfeitos quando os viram afastarem–se sem pensarem em parar para examinar o castelo. Montoni não abandonou a muralha sem que o último homem desaparecesse e o som das trombetas se desvanecesse por completo.

Os homens cearam sozinhos. Madame Montoni, dominada por profunda agitação, que tentava ocultar à sobrinha, recolheu ao quarto e Emília fez o mesmo, limitando–se a pedir à tia que lhe cedesse a companhia de Annette até à hora de se deitar, mas como a rapariga tinha de ir cear com os criados, de qualquer forma ficaria, por algum tempo, sozinha no aposento triste e sombrio que lhe servia de quarto.

Ao atravessar os compridos corredores estremeceu. O silêncio que reinava naquele ponto do castelo, assustava–a, embora chegassem até ela as gargalhadas dos criados, reunidos numa sala afastada.

Quando passou diante das portas dos aposentos abandonados, visitados nessa manhã, afigurou–se– lhe ouvir gemidos surdos. Apressou o passo e, por fim, encontrou–se no quarto.

O fogão estava apagado. Sentou–se e pegou num livro, mas não pôde ler porque a luz do candeeiro também esmoreceu pouco a pouco. Annette não aparecia. A solidão e a obscuridade impressionaram–na, ainda mais por estar perto do teatro dos horrores que descobrira de manhã. Imagens e sombras fantásticas desfilavam diante dela. Tremendo, olhou para a porta da escada para se assegurar de que ainda se conservava fechada por fora. Aterrava–a a certeza de ter de dormir naquele quarto tão afastado de todos onde, na noite anterior, com certeza entrara alguém. Com febril impaciência, aguardava a chegada de Annette, no desejo de a interrogar e na esperança de obter dela informações, principalmente sobre o espetáculo terrível que lhe fora dado entrever... Annette gabara–se de o conhecer, mas, por certo, mentira... O que mais a espantava era o fato da sala vermelha estar aberta. Semelhante imprudência deixava–a estupefata.

A luz do candeeiro esmorecia cada vez mais. Emília levantou–se para ir buscar outro, antes que ele se apagasse de todo, quando, ao chegar ao corredor ouviu passos e viu uma luz que se aproximava. Era Annette acompanhada por Catarina que trazia lenha para acender o fogão. Quando as labaredas vermelhas subiram e aqueceram o ambiente, Catarina retirou–se, deixando as duas sozinhas.

O primeiro cuidado de Emília foi perguntar a Annette se indagara alguma coisa sobre o incidente da porta.

— Perguntei a todos, mademoiselle, mas ninguém soube informar–me. Quando falei com o velho Cario, observei–o com atenção, pois todos afirmam que conhece muita coisa estranha. De fato, achei–lhe um ar esquisito. Perguntou–me muitas vezes se eu tinha a certeza de que a porta não estava fechada. “Tão certa como de estar viva” disse–lhe. Na verdade, não sei o que pensar disto tudo e quase preferia dormir em cima do canhão que se encontra na muralha, do que neste quarto.

— Por que te referes ao canhão de preferência? — inquiriu Emília sorrindo — Como cama afigura–se um tanto dura.

— Falei do canhão — explicou em voz baixa a crédula rapariga — por me terem afirmado que, durante a noite, está um vulto perto dele, como que a guardá–lo.

— As pessoas que te contam essas histórias, minha nobre Annette, devem ficar contentes com semelhante ouvinte– Acreditas tudo às primeiras palavras...

— Mademoiselle pode certificar–se com os seus próprios olhos. O canhão avista–se da sua janela.

— E o fantasma que o guarda?

— Ver o canhão, é o principal. Quanto ao resto, a seu tempo virá.

Emília soltou uma gargalhada, o que muito espantou Annette.

Em face da extrema credulidade da rapariga, renunciou a interrogá–la sobre o assunto que tanto a preocupava e mudou de conversa, falando nas regatas de Veneza.

— Sim, mademoiselle, fale–me das gôndolas e das belas noites de luar. É essa a maior beleza de Veneza onde o luar parece mais claro do que noutro qualquer ponto do mundo. E a música é tão suave! Ludovico cantava muitas vezes debaixo da minha janela. Recorda–se dele, não é verdade? Aquele que me falou do quadro que tanto empenho demonstrou em ver.

— Qual quadro? — perguntou Emília, assustada e, ao mesmo tempo, ansiosa por interrogar Annette.

— O terrível quadro que está tapado com uma cortina preta.

— Viste–o?

— Eu! Nunca. Mas esta manhã — continuou, baixando a voz e olhando em volta com ar misterioso — como tinha grande desejo de o ver por causa das coisas estranhas que ouvi a seu respeito, fui até à porta da sala vermelha e teria entrado se não estivesse fechada.

Fechada! Emília receou que tivessem dado pela sua visita, visto terem fechado a porta pouco tempo depois dela sair. Tremia, receando um castigo de Montoni. Esforçou–se por ocultar estes receios e conversar com Annette em coisas indiferentes. Por muito simples e ingénua que fosse a criada, preferia a sua companhia a ficar sozinha.

Conversaram até à meia–noite, embora a rapariga muitas vezes manifestasse o desejo de se retirar. A lenha estava quase consumida e Emília ouviu ao longe o bater surdo da porta da sala, como se a fechassem. Resolveu deitar–se, mas pediu à criada para não se ir embora até que a visse na cama. Nesse instante, soou a sineta do castelo, toque que se repetiu com breve intervalo. Logo a seguir ouviram o rolar surdo de um coche ao passar debaixo da abóbada de entrada. Emília deixou–se cair numa cadeira quase inanimada.

— Deve ser o conde! — murmurou.

— A esta hora! — protestou Annette — Seria escolher muito mal o momento para se apresentar.

— Não percamos tempo a discutir, Annette–pediu Emília em voz trémula — Vai saber quem chegou, suplico–te.

Annette saiu, levando a luz consigo. A pobre menina ficou quase às escuras, fato que a teria assustado imenso momentos antes. Naquela altura, porém, quase nem o notou. Annette entrou quase logo.

— Tinha razão, mademoiselle. É o conde Morano — informou.

— Ele! — exclamou aterrada Emília, agarrando–se–lhe ao braço.

— Não trema assim! Em breve saberemos o que o conde pretende.

Correu a abrir a janela e foi buscar um copo de água.

Quando voltou para junto de Emília, esta perguntou–lhe logo se estava certa de ter reconhecido o conde.

— Estou, sim, mademoiselle — respondeu a criada de quarto — Viu–o distintamente. Fui até à grade da torre do norte, que dá para o pátio. Vi o coche do conde aguardando à porta, pois o porteiro já estava deitado. O carro estava rodeado pelos criados com archotes acesos e, quando entrou no pátio, o conde saltou para o chão, seguido por outro homem. Supunha que o senhor estava deitado, mas Ludovico, a quem encontrei na escada, disse–me que estava na galeria norte, reunido com os amigos. Depois, Ludovico levou o dedo aos lábios como se me recomendasse silêncio. Calei–me e corri para aqui a fim de lhe dizer o que se passava.

Emília quis ainda saber quem era o companheiro de Morano e se Montoni os havia recebido bem. Annette, porém, não soube responder–lhe. Não conseguindo dominar a sua inquietação, pediu a Annette para ir à sala onde os criados do conde se encontravam com os do castelo, a fim de descobrir, se lhe fosse possível, o motivo que trouxera o amo ao castelo.

— Não conseguirei encontrar o caminho, se não levar comigo o candeeiro.

— Vou contigo. Eu te alumiarei.

Saíram as duas. Para evitarem encontrar–se com o conde, tomaram por corredores escuros e por uma escada que ia ter, diretamente, à sala dos criados.

Regressando sozinha ao quarto, Emília teve medo de se perder e encontrar–se de novo na sala vermelha ou em outra qualquer tão terrível como esta. Parou à entrada do corredor, hesitante, sem saber qual das portas abrir. De súbito, teve a impressão de ouvir um soluço, mesmo a seu lado. Aproximou–se de uma das portas donde lhe pareceu ter ele partido. A compaixão foi superior ao medo e, deixando o candeeiro num recanto do corredor, abriu a porta. O aposento estava escuro, mas, ao fundo, havia uma porta envidraçada da qual partia luz. Aproximou–se sem fazer ruído e reconheceu madame Montoni que, encostada ao toucador, tapava os olhos com o lenço e chorava convulsivamente. Ficou imóvel de surpresa.

Sentado perto do fogão e com as costas voltadas para a porta estava um homem. Não pôde reconhecê–lo. Viu–o curvar–se para a tia e proferir em voz baixa algumas palavras que pareceram redobrar a dor de madame Montoni. Emília gostaria de conhecer a causa desta cena e saber quem era a pessoa que se encontrava no toucador da tia àquela hora. Todavia, receando agravar–lhe o desgosto, surpreendendo os seus segredos, retirou–se com precaução e tentou encontrar o seu próprio quarto onde Annette não tardou a reunir–se–lhe.

A criada de quarto, porém, não trazia informações satisfatórias. Todos os criados a quem interrogara ignoravam ou fingiam ignorar quanto tempo o conde tencionava demorar–se no castelo. Falavam, unicamente, nos maus caminhos percorridos, nos perigos passados, mostrando–se admirados pelo o conde ter empreendido semelhante viagem de noite.

— E agora dispense–me, mademoiselle. Estou a cair de sono. Se tivesse tanto como eu não me obrigaria a ficar mais tempo aqui, tenho a certeza.

Emília reconheceu a sensatez deste pedido e mandou–a embora, apesar de tremer só com a ideia de ficar sozinha ali.

— Tens razão. Não posso pedir–te para ficares comigo até eu adormecer. Levaria muito tempo. Mas, antes de te retirares, gostaria de saber se o conde Morano e Montoni já se tinham separado quando vieste ter comigo.

— Não, mademoiselle, ainda se encontravam na sala.

— Nesse caso, quem está com minha tia?

— Ninguém. Madame fechou–se no quarto e já deve estar a dormir.

Emília não revelou o que vira pouco antes. Lutava contra o medo, mas a sua bondade não lhe permitiu demorar Annette por mais tempo.

Ficou sozinha, refletindo na sua situação e na de madame Montoni, recapitulando as circunstâncias dolorosas da sua vida depois da morte do pai, e no mistério da miniatura encontrada entre os papéis cuja destruição Saint–Aubert lhe ordenara.

A miniatura encontrava–se diante dos seus olhos, em cima da mesa, juntamente com alguns desenhos que pouco antes tirara de uma caixa. Contemplou–a e a sua tristeza suavizou–se um pouco ao admirar as feições delicadas que lhe recordavam as do pai. O doce devaneio foi perturbado pela recordação das palavras que lera no manuscrito encontrado junto da miniatura e que tanto a haviam perturbado. Conseguiu, por fim. arrancar–se a estes pensamentos. Mas quando se levantou para se despir, o silêncio, a solidão e a semi–obscuridade que reinavam em sua volta, a dolorosa supressão causada pelos tristes pensamentos em que se absorvera pouco antes, tudo concorreu para a abater e roubar–lhe a coragem já tão abalada com as tagarelices de Annette que, embora muito frívolas, confirmavam em certos pontos o terrível espetáculo que presenciara na sala vermelha.

A porta pequena constituía também um motivo de terror, pois, ligando entre si as duas coisas, receava que a escada tivesse comunicação com a sala vermelha cuja recordação bastava para a fazer tremer. Decidindo não se despir, atirou–se para cima da cama. Manchon, o cãozinho que pertencera ao pai e do qual nunca se separava, deitou–se–lhes aos pés como vigilante sentinela.