Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 41 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XL. Os Contrabandistas

XL

 

Os Contrabandistas

O conde e Branca passaram quinze dias muito agradáveis no castelo de Sainte–Foix. Ficou combinado com o barão e com a baronesa que o filho casaria com Branca quando regressassem a Blangy. Entretanto, dispuseram–se a visitar o Vale, conforme o prometido. A estrada que conduzia de Sainte–Foix à residência de Emília, atravessava a parte mais agreste dos Pirenéus; erma e isolada, nunca um coche a percorrera. O conde alugou mulas para si e para Branca, assim como para o pessoal, contratou dois guias bem armados, que diziam conhecer todos os desvios da montanha, todos os atalhos da floresta e a mais humilde cabana de caçadores ou pastores, em todos os pontos por onde deviam passar.

Partiram cedo, no desejo de passar a noite numa hospedaria indicada pelos guias, a meio caminho entre o castelo e o Vale. Os almocreves espanhóis costumavam descansar ali quando vinham a França. Não tinha muitos recursos, mas não havia por onde escolher. Após um dia de fatigante jornada, os viajantes encontraram–se num vale coberto de arvoredo e cercado por altas montanhas. O Sol escondia– se no horizonte e as sombras da noite estenderam o seu véu uniforme sobre todos os objetos. Branca perguntou ao pai se a hospedaria ficava longe e se a estrada era segura durante a noite. O conde repetiu as perguntas aos guias, mas as respostas obtidas foram vagas. Seria bom aguardarem o nascer da Lua — disseram. E acrescentaram que devia aproximar–se uma tempestade. Olhando em volta na esperança de encontrarem um abrigo, distinguiram, no meio das trevas, uma sombra, avultando no alto de uma rocha. Não duvidando de que se tratasse da cabana de um pastor, encaminharam–se para lá. Mas quando atingiram o alto, encontraram–se diante de uma cruz, erguida como indicação de que naquele ponto fora cometido um crime.

Voltaram para trás. A Lua nascera, o vento soprava com força e ouviam–se trovões ao longe. O conde e os guias não sabiam para onde se dirigir, quando lhes pareceu ouvir um cão a ladrar. Persuadidos de vir o som da hospedaria que procuravam, prosseguiram o seu caminho nessa direção. Quando caminhavam por estreito desfiladeiro, avistaram uma dessas torres de observação, que era uso erguer–se nos Pirenéus a fim de assinalar a aproximação do inimigo, por meio de fogueiras acesas nos picos mais altos.

— Muitas destas torres — explicou o conde, dirigindo–se a Branca — foram abandonadas e servem agora de refúgio aos caçadores e pastores– Outras tornaram–se covil de contrabandistas franceses ou espanhóis. Esses bandidos infestam estas montanhas e várias vezes têm mandado tropas para os prender; mas como, acima de tudo, não desejam ser perturbados no seu negócio, raramente atacam quando a sua segurança não está em perigo.

Teria sido preferível continuarem até encontrar a tal hospedaria. Porém, os guias confessavam terem–se perdido e, por outro lado, a trovoada aproximava–se. De resto, não tinham motivo para ter medo. O grupo era numeroso e bem armado. Resolveram, portanto, procurar abrigo na torre.

Começaram a subir um atalho, cavado na rocha, ladeado por silvas. Depois de muita fadiga, conseguiram, não sem perigo, atingir o planalto e encontraram–se diante da torre em ruínas, ainda imponente, não obstante o seu aspecto de abandono. Alguns destroços das muralhas estavam espalhados pelo recinto imenso, solitário e coberto de ervas. A fortaleza devia ter sido das mais importantes e dominar todo o vale. O conde admirou–se por a terem abandonado assim.

Como se aproximassem, teve a impressão de ouvir vozes, partindo do interior da torre. Pouco depois, um cão ladrou, o mesmo que os guiara até ali. O conde ordenou a um dos seus criados que batesse na porta de entrada. À pancada sucedeu–se um murmúrio de vozes confusas e depois profundo silêncio. Bateram novamente.

Ouviu–se um passo pesado e uma voz perguntou:

— Quem bate?

— Amigos — respondeu o conde — Pedimos guarida por uma noite.

Correram os ferrolhos, a porta abriu–se e apareceu um homem armado, trajando como um caçador. — Entrem.

Dois outros, com trajo idêntico, apareceram por sua vez e convidaram os viajantes a passar a noite na torre e a partilhar a sua ceia. Conduziram–nos a uma sala imensa, sem móveis, mal iluminada pelo clarão do lume que ardia no fogão, colocado numa das extremidades.

No brasido assavam pedaços de carne.

— Sentem–se — convidou um dos homens — E tu, Jacques, esperta o lume. Mademoiselle, prove a nossa aguardente, a melhor que até hoje foi metida num barril.

Branca recusou com um sorriso, enquanto o pai, alegremente, levava o copo à boca. Sainte–Foix, sentado ao lado da noiva, apertava–lhe a mão, animando–a com o olhar. Branca, porém, preocupava–se com o homem a quem haviam chamado Jacques, que não deixava de observar o rapaz.

Nessa altura, lá fora, uma trompa soou, seguida por alguns gritos de apelo.

— São os nossos companheiros que regressam — explicou um dos homens.

Dois outros apareceram à porta, com a espingarda ao ombro e pistolas no cinto.

— Boa caça? — perguntaram os primeiros, aproximando–se dos recém–chegados.

— Excelente, com todos os demónios! Mas... que diabo têm vocês aqui? — acrescentaram em mau espanhol, designando o conde e os seus — Onde os encontraram?

— Um encontro muito agradável — afirmou em francês o homem que recebera os viajantes — Este fidalgo e os seus perderam–se no caminho e pediram–nos para passar aqui a noite.

Os outros não responderam e começaram a abrir os sacos para mostrar a caça que tinham apanhado. Uma das sacolas caiu, produzindo um som metálico e algumas moedas de oiro espalharam–se pelo chão. Admirado, o conde examinou o portador da singular presa. Era um homem alto, robusto, com fisionomia inquietante. Em vez de trajo de caçador, envergava um uniforme de soldado, bastante usado. Deste rosto, que não prometia nada de bom, o conde passou para o de Jacques e, assim como Branca, notou que não perdia de vista o filho de Sainte–Foix. Tudo isto lhe deu que pensar, mas era muito tarde para voltar para trás; tratava–se agora de não mostrar medo e estar alerta.

O soldado e Jacques saíram da sala, voltando pouco depois para comunicar que a ceia estava servida na galeria. Os outros caçadores convidaram o conde e o seu grupo a segui–los. De princípio, recusaram. Branca desejava ficar perto do lume e Sainte–Foix não queria deixá–la. Mas tanto insistiram e com modos tão corteses, que não foi possível recusar por mais tempo, salvo se desejassem manifestar uma desconfiança perigosa. Os dois homens seguiram adiante com a luz a fim de mostrar o caminho. O conde ia ao lado de Sainte–Foix e Branca caminhava atrás deles. A certa altura, o vestido prendeu–se– lhe num prego da parede. Parou a fim de o soltar. Entretanto, o grupo cortou para um corredor em ângulo reto e Branca encontrou–se sozinha e na escuridão. Gritou, mas um trovão cobriu–lhe a voz. Conseguiu, por fim, desprender o vestido e meteu pelo corredor por onde supunha ter o pai seguido. Uma luz, ao longe, confirmou–lhe a suposição; correu para uma porta aberta, calculando ser a da galeria. Ouviu algumas vozes e parou, no intuito de verificar se não estava enganada e, de repente, iluminados por um candeeiro suspenso no teto, viu três homens sentados a uma mesa, como se discutissem importante assunto. Um deles era Jacques. Falava com veemência, dirigindo–se aos outros dois, um dos quais era o soldado. Aterrada por se ver separada do pai e tão perto de desconhecidos, Branca dispunha–se a fugir, quando estas palavras a fizeram mudar de ideias:

— Quem lhes fala em perigos? Sigam o meu conselho e não correm nenhum. Apoderemo–nos dos dois, é o principal.

Branca parou toda trémula e pôs–se à escuta.

— Não seria melhor matá–los a todos? A nossa vida é tão preciosa como a deles. Se os poupamos, mandar–nos–ão enforcar; é preferível a morte para eles do que a forca para nós.

— Reconheci o filho logo que o vi — afirmou Jacques — ele não me conheceu. Quanto ao outro, não me lembro dele.

— É o barão? Não o reconheci, eu. No entanto, fui um dos que o atacaram com os nossos companheiros que morreram.

— Isso não importa! — interrompeu o terceiro — É raro termos destas pechinchas. Quando nos arriscamos para passar algumas jardas de seda ou para roubar um pobre viajante, não vamos agora deixar fugir tão boa presa. Sejam quem forem, são ricos. Deveriam ter muito dinheiro. Tratemos de os apanhar.

— Já os contaste? São nove ou dez, bem armados e nós, neste momento, somos apenas seis. Como atacá–los?

— Se têm medo, podemos empregar outros meios. Administremos a poção que tu conheces a alguns deles. Os outros serão, facilmente, vencidos.

— Vou indicar–lhes ainda outro — afirmou o terceiro — Aproximem–se um pouco.

Branca, que escutara a conversa com profundo terror, deixou de ouvir os três bandidos, pois começaram a falar em voz baixa. A esperança de salvar o pai e os companheiros restituiu–lhe as forças e tentou encontrar a galeria. Mas, apenas tinha dado alguns passos, tropeçou num degrau e caiu. Os malfeitores ouviram e correram para fora. Antes que Branca pudesse levantar–se, agarraram–na e arrastaram–no para o quarto e, como gritasse, vociferaram contra ela terríveis ameaças.

Consultaram–se entre si para saber o que deviam fazer. Aterrada, Branca pediu–lhes que a poupassem, ofereceu–lhes dinheiro e prometeu não dizer coisa alguma do que tinha ouvido se a levassem à família.

Os bandidos sorriram com ar significativo e dispunham–se a aproximar–se dela quando um barulho lhes chamou a atenção. Um deles apertou, fortemente, o braço de Branca como se receasse que fugisse e, como ela gritasse por socorro, puxou o punhal e ordenou–lhe para se calar. Entretanto, o barulho aproximava–se.

— Fomos atraiçoados! — exclamaram –Salvo se são os nossos camaradas de regresso das montanhas.

Ouviu–se uma descarga de fuzilaria, o chocar de armas, o tumulto de vozes e prolongados gemidos. Os salteadores prepararam as armas; a um toque de trompa, dois deles deixaram Branca à guarda do terceiro e correram para fora da sala.

Enquanto aterrada e trémula, a prisioneira implorava a proteção de Deus, reconheceu a voz de Sainte–Foix que a chamava; a porta abriu–se e o rapaz apareceu coberto de sangue. Quis correr para ele, mas não viu nem ouviu mais nada, porque acabou por cair desmaiada.

Quando voltou a si, à fraca claridade que reinava à sua volta, verificou encontrar–se no mesmo quarto; supôs–se sozinha quando, a seu lado, soou débil gemido. Levantou–se e viu um corpo estendido no qual reconheceu o noivo, pálido e desfigurado, com os olhos semi–cerrados. A mão em que pegou estava gelada e coberta de suor. Chamou–o e gritou por socorro. Alguém acorreu, mas não o conde. Com grande surpresa, reconheceu Ludovico!

Sem perder tempo a falar a Branca, examinou os ferimentos do rapaz. Chegando à conclusão de que a perda de sangue era a única causa da sua fraqueza, correu a buscar água. Entretanto, apareceu o conde de Villefort, ofegante, com a espada desembainhada, gritando pela filha e esta correu a lançar–se–lhe nos braços. Acalmados os primeiros transportes de alegria, ocuparam–se de Sainte–Foix, que começava a dar sinais de vida. Ludovico regressou, trazendo água e aguardente. Enquanto Branca lhe derramava algumas gotas nos lábios, Ludovico banhava–lhe a testa. Pouco depois, tiveram a satisfação de o ver abrir os olhos e perguntar pela noiva. A alegria que sentiram foi perturbada por Ludovico que lhes demonstrou a necessidade de saírem dali imediatamente. Os homens do conde, vitoriosos na luta, haviam fechado os bandidos na torre; mas os que estavam fora podiam regressar de um momento para o outro e libertá–los.

Não havia tempo a perder. O som das trompas dos camaradas por certo os sobressaltara e depressa os veriam regressar. Pensaram então na forma de transportar o ferido, que não suportaria o andar das mulas, embora pudesse montar. Mas nem isso. Ludovico foi buscar uma pele de urso, estendeu–a em duas compridas estacas, cobriu–a com outras peles de carneiro, arranjando assim uma espécie de maca onde o deitaram. Os guias levantaram–na nos ombros e todos se puseram a caminho, pois, conquanto alguns dos criados do conde tivessem sido feridos, depois de tratados, encontravam–se em estado de poder andar.

Desceram ao vale, por um caminho fácil que os primeiros alvores do dia lhes permitiam distinguir.

— Evitemos os desfiladeiros para oriente — aconselhou Ludovico — os bandidos, esta manhã, seguiram para esse lado.

Percorrida uma légua, Sainte–Foix começou a queixar–se. Pararam para descansar. Ludovico trouxera consigo algumas garrafas de vinho generoso, que distribuiu por todos a fim de os reanimar. O ferido, porém, não sentiu grande alívio com isso e a febre que o devorava redobrou. Todos ansiavam por chegar à hospedaria já procurada na noite antecedente.

Enquanto descansavam à sombra dos pinheiros, o conde pediu a Ludovico para lhe contar como havia desaparecido do quarto do castelo de Blangy, como caíra nas mãos dos bandidos e também como aparecera tanto a propósito para o salvar e a todos os seus. Ludovico dispunha–se a falar quando um tiro os sobressaltou e os obrigou a partir com precipitação.