Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 40 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XXXIX. Vestígios do Passado

XXXIX

Vestígios do Passado

Emília atravessou sem incidente as planícies do Languedoc. Ao chegar a Toulouse, donde tinha saído com madame Montoni, não pôde deixar de recordar com tristeza o desgraçado fim da infeliz senhora que, sem a sua imprudência, ainda podia viver. Também recordava o próprio Montoni tal como o vira nos seus dias de triunfo, orgulhoso, imperioso e altivo. Poucos meses haviam decorrido e o seu perseguidor já não podia prejudicá–la.

Outros pensamentos e outras emoções despertaram à medida que se aproximava do teatro dos seus primeiros amores. Atingiu o ponto, na montanha, onde, ao partir para Itália, se despedira da paisagem querida e o sítio onde, nessa manhã da partida dissera adeus a Valancourt. Tornou a vê–lo, pálido e abatido, no momento em que trocavam palavras de ternura e de esperança, e depois, encostado ao tronco da árvore, seguindo o coche com olhar desolado. Todas essas recordações lhe esmagaram o coração. Recostou–se no banco e absorveu–se nos seus pensamentos até o veículo parar diante da porta do palácio que fora da tia e agora era seu.

O porteiro abriu o portão. O coche deu a volta ao pátio e parou junto da entrada. Emília apeou–se e, atravessando o vestíbulo, entrou na sala com as paredes revestidas de cedro onde, em vez do tio, encontrou uma carta, apresentando desculpas pela sua ausência, pois um negócio importante o obrigara a sair de Toulouse dois dias antes da chegada da sobrinha. A ausência de Quesnel não a desgostou, pois via nela mais uma prova da indiferença que sempre lhe testemunhara.

Annette entrou trazendo uma bandeja com refrescos.

— Como esta casa me parece triste comparada com o que foi outrora! — comentou — Como é desagradável não existir aqui alguém para nos receber.

Emília, solicitada por sentimentos confusos e contraditórios, não se encontrava em condições para lhe responder. Resolveu recolher ao quarto e deitar–se. O sono restaurou–lhe as forças e, ao mesmo tempo, descansou–lhe o cérebro.

O dia seguinte foi consagrado a regularizar certos assuntos, mencionados nos apontamentos deixados por Quesnel. O seu primeiro cuidado foi informar–se da situação dos habitantes dos seus novos domínios e prover às suas necessidades. À tarde, considerou–se bastante forte para poder visitar o jardim, tantas vezes percorrido ao lado de Valancourt. Atravessou o pátio, seguiu pela alameda, testemunha da separação, e alcançou a escadaria que conduzia do jardim ao terraço. Sentia–se muito agitada e ainda hesitou, mas, por fim, subiu–a.

— Aqui estão as mesmas árvores, os mesmos maciços de flores, as roseiras e os jasmins que floriam a seus pés! Eis o banco e as plantas que Valancourt tratava com tanto cuidado. Nada mudou! Só ele...

Parou sem conseguir reprimir as lágrimas. Ainda deu alguns passos pelo terraço, mas sentiu–se muito fraca e foi obrigada a encostar–se ao muro do jardim. A tarde estava linda e calma. O Sol declinava no horizonte e os seus raios, atravessando espessa nuvem, coloriam com os mais variados tons o cimo das árvores e as plantas do caramanchão. Quantas vezes, com Valancourt, admirara os mesmos efeitos de luz e à mesma hora! Fora também naquele mesmo sítio que, na noite antecedente à partida, escutara os lamentos, os avisos e as apaixonadas súplicas do rapaz. Recordava as dúvidas sobre Montoni, dúvidas em breve confirmadas pelos acontecimentos! O seu amor profundo, a sua dor tão sincera, o desânimo, tudo revivia no espírito de Emília, tudo lhe recordava quanto havia sofrido quando, ao afastar–se de Valancourt, se afastava da ventura entrevista, quando a razão, mais forte que a paixão, a desviara do casamento secreto por ele exigido.

— Pobre de mim! — lamentava — Que ganhei eu com a renúncia? Valancourt afirmava que nunca seríamos felizes, sem poder calcular ser o seu próprio procedimento o verdadeiro obstáculo à nossa felicidade e a única causa do mal pressentido.

Em seguida, o coração revoltava–se e sugeria–lhe desculpas para o infeliz rapaz. Acusava as circunstâncias de se terem conjugado para o perder, arremessando–o para um meio tão diferente das suas inclinações e hábitos. Recordou a observação tantas vezes feita por Saint–Aubert: “Aquele rapaz nunca esteve em Paris”. Naquela altura, não compreendera quanta gravidade encerravam estas simples palavras, mas presentemente ... E então lamentou:

— Se um amigo como meu pai se encontrasse perto de ti em Paris, Valancourt, nunca a nobreza do teu caráter se macularia assim!

O Sol sumiu–se no horizonte. Emília prosseguiu o seu passeio, respirando a frescura da tarde e o perfume das flores. Involuntariamente, encaminhou–se para o pavilhão, situado numa das extremidades do terraço. Ali esperavam–na outras recordações. Aí tinham decorrido os momentos mais felizes da sua vida, quando a tia aprovara o seu amor e formara o projeto de os casar. Ela bordava e ele lia ou tocava. Outras vezes, conversavam ou ficavam calados, mergulhados num silêncio mais eloquente do que as palavras. E que entusiasmo ele manifestava quando lia certas passagens de um poeta inspirado! Que generoso enternecimento quando falava de uma nobre ação! Seria possível que um espírito e um coração como os dele tivessem sido arrastados pela abjeta depravação de uma grande cidade? E as doces recordações tornaram–se muito dolorosas para ela.

Para fugir às miragens de uma felicidade perdida, abandonou o pavilhão e tomou o caminho do castelo. De repente, ao atravessar o terraço, avistou ao longe, por entre as árvores do parque, um homem que passeava, lentamente, com ar abatido. A meia luz do crepúsculo não lhe permitiu distinguir quem fosse. Tomou–o por um dos criados da casa. Depois, quando se aproximou e ele voltou a cabeça, julgou reconhecer] Valancourt.

Fosse quem fosse, meteu pelo atalho, à esquerda, e desapareceu.

Sem poder desviar a vista do ponto onde o vulto se sumira, Emília ficou tão trémula e comovida que não conseguiu dar um passo. Precisou de algum tempo para recuperar as forças e a serenidade. Apressou–se a entrar em casa e não se atreveu a perguntar qual dos criados se lembrara de passear pelo jardim àquela hora. Causava–lhe espanto que Valancourt — se, de fato, tivesse sido ele — se encontrasse em Toulouse, mas sempre que se dispunha a perguntar se alguém deixara entrar um estranho no parque, receava trair–se e calava–se.

A noite passou–se na incerteza e em vãos esforços para desviar o pensamento do incidente. Tentava persuadir–se de que não desejava tivesse sido Valancourt, mas o coração parecia apostado em provar– lhe o contrário. Em todo o caso, a prudência e a delicadeza foram superiores à fraqueza. Para evitar novos encontros com o desconhecido, decidiu abster–se de passear pelo jardim durante alguns dias.

Decorrida uma semana, resolveu dar uma volta acompanhada por Annette, mas limitou o passeio às alamedas perto da casa. Estremecia ao mais leve agitar das folhas, receando encontrar alguém. Como a patroa se mantivesse calada, Annette, incapaz de suportar tão prolongado silêncio, observou:

— Está tão inquieta, mademoiselle! Por acaso, está ao fato da aventura?

— Qual aventura?

— A que se passou na noite de anteontem.

— Não sei coisa alguma. Explica–te.

— Entrou um ladrão no jardim.

— Um ladrão! — repetiu Emília, estremecendo.

— É o que todos supõem. Não sendo ladrão, quem seria?

— Onde o viram? — perguntou Emília, olhando em volta.

— Não fui eu quem o viu, mas sim o João, o jardineiro. Era meia noite quando, atravessando o pátio para recolher ao quarto, descobriu um vulto a passear na alameda, mesmo diante da porta. Calculando ser um ladrão, foi buscar a espingarda.

— A espingarda!

— Exatamente. Depois voltou para o pátio a fim de espiar o intruso. O homem aproximou–se, encostou–se à porta e começou a examinar as janelas uma por uma, como se escolhesse aquela por onde devia entrar.

— E a espingarda ... a espingarda? — insistiu Emília.

— Lá chegaremos, mademoiselle. Tudo vem a seu tempo. O João viu–o abrir a porta para entrar no pátio. Chegara a altura de o interpelar. Foi o que fez, intimando–o a dizer quem era. O homem não lhe respondeu e afastou–se. O João, confirmadas as suas suspeitas, meteu a espingarda à cara e disparou.

— Santo Deus!

— Foi assim mesmo. Atirou–lhe um tiro, mas. Virgem Santa... sente–se mal? Tranquilize–se. O homem não morreu, posso garantir–lhe ou, então, os companheiros levaram o corpo. De manhã, o João foi procurá–lo e não o encontrou. Viu apenas um rasto de sangue que atravessava o jardim, seguia pela relva e….

Emília, desmaiara e teria caído se Annette não a amparasse a tempo, levando–a para um banco onde a estendeu. Quando recuperou os sentidos, recolheu ao quarto e mandou Annette embora para poder refletir mais à vontade. Tentou recordar–se do homem a quem avistara no parque; a sua imaginação só lhe representava Valancourt. Tinha a certeza de que o jardineiro atirara sobre ele. A narrativa de Annette não indicava que tivesse sido um ladrão, pois um ladrão não viria sozinho atacar um palácio.

Quando supôs ter recuperado por completo as forças, mandou chamar o jardineiro. O homenzinho, porém, não pôde dar–lhe qualquer indício por onde reconhecesse a pessoa atingida pelo tiro. Censurou– o, severamente, por ter usado a arma com tanta precipitação, ordenou que tirassem informações na vizinhança, mas quando João saiu não se encontrava mais sossegada. Toda a sua ternura por Valancourt despertara de novo ao pensar no perigo por ele corrido. Já não tinha dúvidas. Havia sido ele o atingido. Quanto mais pensava, mais se convencia disso. Valancourt viera ao jardim para, como ela, suavizar o desgosto com as recordações do passado. Depois tentou raciocinar para acalmar a sua ansiedade. Se, de fato, fosse Valancourt, tinha vindo sozinho e, portanto, ninguém o auxiliara a sair do jardim, o que não poderia ter feito se o ferimento fosse grave. Entretanto, os criados procediam a indagações, mas o dia decorreu sem conseguirem obter mais esclarecimentos. Emília, por fim, sucumbiu ao peso de tanta aflição e tormentos e uma febre lenta começou a miná–la. A conselho de Annette, mandou chamar o médico que lhe receitou exercício e distração. Mas como encontrá–la? Pensou ser o único meio para ocupar o pensamento dar aos outros a felicidade agora já perdida para ela. Passou a visitar as choupanas dos pobres, realizando os desejos dos seus habitantes, muitas vezes antes de terem tempo para exprimi– los.

Entretanto, a doença e os assuntos a tratar prolongaram a sua permanência em Toulouse muito para além do prazo fixado. Por outro lado, não se resolvia a afastar–se do único sítio onde poderia obter esclarecimentos sobre o deplorável acontecimento. Chegou, no entanto, um momento em que a partida se impôs. Recebeu uma carta de Branca, indicando–lhe a data em que ela e a família a visitariam. Respondeu–lhe que antes desse dia estaria em sua casa e começou a fazer os preparativos para a viagem, consolando–se com a ideia de que, se alguma coisa tivesse acontecido a Valancourt, já o teria sabido.

Chegou ao Vale ao anoitecer. A casa onde tinha vivido com os pais e que presenciara os anos descuidados da sua infância, era para ela o refúgio ambicionado pelo seu coração. O tempo suavizara– lhe a dor. Parecia–lhe que os pais adorados ainda viviam ali onde tinham sido tão felizes os três. Foi sentar–se na poltrona que o pai costumava ocupar e começou a recordar os dias passados, já tão longe dela.

Um dos seus primeiros cuidados foi procurar Teresa, a antiga criada da casa. Recordava–se do que o tio a despedira quando tinha alugado o Vale, sem mesmo se lembrar de a socorrer por qualquer forma. Disseram–lhe que vivia numa casita perto. Foi imediatamente visitá–la, sentindo–se feliz quando, ao aproximar–se, verificou, o excelente aspecto e magnífica situação de pobre moradia, erguida numa espécie de clareira, tapetada de relva e rodeada por frondosos castanheiros. O interior não desdizia do exterior. Encontrou a velha criada ocupada a construir uma latada. Quando reconheceu Emília, a velhota saltou–lhe ao pescoço e quase ia morrendo de alegria.

— A minha querida menina! Quando soube que a levavam para um país estranho, julguei nunca mais a ver neste mundo! E quanto sofri durante esse tempo! Como poderia eu imaginar que, na minha idade, me expulsariam de casa do meu falecido patrão?

Emília prometeu velar para que, de futuro, não lhe faltasse coisa alguma e congratulou–se por a ver instalada em tão linda casa.

Teresa agradeceu–lhe com as lágrimas nos olhos.

— É muito bonita, não acha? Vivo aqui graças ao amigo caridoso que me tirou da miséria. Mademoiselle estava muito longe para poder valer–me e foi ele quem me amparou. Nunca contei que... mas não falemos mais nisso.

— Como se chama esse excelente amigo? Seja quem for, passarei também a estimá–lo.

— Proibiu–me de divulgar a sua boa ação e ainda menos o seu nome. Como está mudada, desde que nos separámos! Tão pálida e magrinha! Mas sempre o mesmo sorriso bondoso, o sorriso de seu pai! Meu pobre senhor! Mademoiselle não é a única a chorá–lo. Os pobres também ficaram órfãos quando ele morreu.

Como Emília se mostrasse muito comovida, a velhota mudou de assunto.

— Ouvi dizer que madame Chéron tinha casado com um cavaleiro estrangeiro e fora viver para a terra dele?

Emília confirmou e revelou–lhe a morte da tia.

— E aquele cavaleiro tão simpático, tão bom, o senhor Valancourt, como está ele?

Emília ficou muito perturbada com a pergunta para poder responder–lhe.

— Que Deus o abençoe — continuou Teresa –Não tome esse ar severo, mademoiselle. Sei muito bem que se amavam. Depois da sua partida, ele vinha muitas vezes ao castelo, passeava pelas salas, queria entrar em todos os quartos. Por vezes, sentava–se numa poltrona e para ali ficava horas e horas calado, como se estivesse a sonhar. Preferia o gabinete da ala sul por eu lhe afirmar ter sido o seu. Demorava–se a admirar os seus desenhos, a tocar no seu alaúde, a ler os seus livros. Quando anoitecia, voltava para casa do irmão e então...

Emília quis interrompê–la, mas não se tornava fácil fazê–lo.

— E como ele gostava de falar a seu respeito, por vezes comigo, outras sozinho. Sozinho, sim. Um dia, ao aproximar–me do gabinete, ouvi uma voz. Quem poderia ser? Não tinha deixado entrar ninguém senão o cavaleiro. Mas era ele quem chamava por si a chorar, afirmando que nunca mais a veria! ... Receei que estivesse louco. Não quis que me visse e retirei–me devagarinho.

— Basta, Teresa! Não me interessam essas tolices — declarou Emília, tomando um ar severo.

— Tolices! — protestou a velha criada no auge do espanto — Quando o senhor Quesnel alugou o castelo a estranhos, supus que o cavaleiro morresse de desgosto.

— Basta, já te disse. Não quero saber disso. Nunca mais pronuncies esse nome diante de mim.

— Não falar dele! Eu, que estimo o cavaleiro quase tanto como a seu pai e a si!

— Receio, Teresa — declarou Emília que mal conseguia reprimir as lágrimas — que tenhas empregado muito mal a tua afeição. Eu e o cavaleiro Valancourt nunca mais nos veremos.

— O que diz, mademoiselle! — exclamou Teresa, mal podendo acreditar no que ouvia — Nunca mais verá um rapaz tão atraente? E acha que empreguei mal a minha afeição? Pelo contrário, ninguém a merece mais do que ele, pois foi, justamente, o senhor Valancourt quem me deu esta casa e amparou a minha velhice desde que o senhor Quesnel me expulsou do castelo.

— Será possível! — exclamou Emília a tremer — Foi o cavaleiro Valancourt, dizes tu?

— Ele mesmo. Tinha prometido guardar segredo, mas como guardá–lo quando ouço dizer mal dele? Deve arrepender–se e chorar, mademoiselle, se o tratou severamente. Não conheço coração mais bondoso, mais dedicado e generoso. Encontrou–me na miséria e não só me deu a casa como de três em três meses me envia uma pensão para eu viver. Quem poderia ter feito mais? Receio, simplesmente, que tanta generosidade ultrapassasse os seus recursos, pois o trimestre acabou e, pela primeira vez, eu não recebi a pensão. Não chore, mademoiselle, e não se zangue comigo por eu lhe contar estas coisas.

— Zangar–me! — exclamou Emília que não podia contar as lágrimas — Mas dize–me, há quanto tempo não o vês?

— Há muito tempo.

— E não recebeste notícias?

— Nenhumas, desde que acabou o trimestre. Não veio nem me mandou a pensão. Começo a recear não lhe tenha acontecido qualquer coisa.

Emília estremeceu.

— Se estivesse mais perto de Estuviére — continuou Teresa –ou se pudesse andar melhor, já teria ido informar–me; infelizmente, não posso nem tenho ninguém para lá mandar.

A ansiedade de Emília era indescritível. Não podia, sem infringir as conveniências, entrar em comunicação com o irmão de Valancourt; mas pediu a Teresa para mandar alguém em seu próprio nome, sem mencionar o dela, falar com o intendente para saber do cavaleiro. Em seguida, entregou–lhe o dinheiro necessário para viver sem privações e voltou ao Vale, radiante e, ao mesmo tempo, desolada com o que tinha sabido. Como seria possível um coração tão generoso como o de Valancourt estar maculado pelo vício? E a bondade para com a criada daquela a quem adorava, não constituiria uma expiação para as suas faltas?