Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XII. Preparativos para o Casamento
XII
Preparativos para o Casamento
Logo que teve ocasião para falar com o tio, Emília demonstrou o seu descontentamento pela forma como ele dispusera do Vale. Quesnel respondeu lhe como alguém que tem consciência da sua autoridade e não admite que lhe contestem. A medida impunha–se, segundo afirmou, e a sobrinha ainda devia agradecer–lhe por ter salvaguardado assim o pouco que possuía.
— De resto — acrescentou — quando casares com o conde Morano, cuja proposta aceitaste, ficarás livre desta tutela, que tanto te pesa. Como teu parente, felicito–te por esta circunstância tão feliz quanto inesperada.
Emília ficou muda de espanto, mas, quando conseguiu falar, tentou explicar ao tio a confusão estabelecida com a carta de Montoni. Quesnel, porém, devia ter motivos especiais para não aceitar explicações. Como se não as tivesse escutado, acusou–a de volúvel e caprichosa. Finalmente, quando teve de se render à evidência e não pôde ter mais dúvida sobre a aversão da sobrinha pelo conde, deixou–se arrebatar pela cólera. O seu amor–próprio, lisonjeado com a aliança da sua família com um nobre, reagiu contra a sobrinha e tornou–o insensível ao sofrimento daquela que se opunha como obstáculo aos seus ambiciosos projetos.
Verificando todas as dificuldades da situação em que se encontrava, Emília opôs às violentas censuras do tio uma atitude digna, mas firme, que mais exasperou Quesnel, obrigado a reconhecer assim a sua própria inferioridade. Mandou–a retirar, declarando que, se ela persistisse naquela loucura, ele e Montoni a abandonariam.
A calma que conseguira manter diante de Quesnel abandonou Emília logo que se encontrou sozinha. Chorou amargamente, balbuciando por entre soluços o nome do pai, o pai adorado que nunca mais veria, mas cujos últimos conselhos recordou.
— Pobre de mim! — exclamava — Reconheço agora como tinha razão quando me recomendava que não me abandonasse a inúteis sensibilidades! Vou tentar cumprir a promessa que lhe fiz–continuou, enxugando as lágrimas — e em vez de perder tempo em lamentações inúteis, chamarei a mim toda a minha coragem para suportar sem desfalecimentos a opressão que não posso evitar.
Uma tarde, as senhoras foram tomar fresco para as margens do Brenta. Contemplando os Apeninos, que no horizonte erguiam os seus cumes cobertos de neve, Emília pensou no castelo de Montoni e estremeceu de horror quando se lembrou que em breve se encontraria ali, completamente em poder de semelhante homem, que, por certo, empregaria todos os meios para a constranger a obedecer–lhe. Mas não estava ela em seu poder tanto no castelo como em Veneza?
Já era tarde quando regressaram a Marienti. A ceia foi servida sob as arcadas do pórtico onde Quesnel, Montoni e os outros cavalheiros aguardavam as senhoras. De repente, uma embarcação encostou à escadaria e Morano apareceu. Emília recebeu–o com acentuada frieza, o que o desconsertou. Os outros acolheram–no com tolas adulações, mas só Emília notou quanto elas aborreciam o conde.
Quando se encontrou sozinha no quarto, refletiu por muito tempo, procurando a forma de obrigar Morano a desistir das suas pretensões. Não encontrou melhor meio do que confessar–lhe, com franqueza, o seu amor por outro e evocar a sua generosidade. No dia seguinte, porém, quando o conde renovou as suas instâncias, renunciou ao projeto, pois feria a sua sensibilidade tomar o seu perseguidor por confidente, Limitou–se, portanto, a repetir a recusa nos termos mais categóricos, lamentando–se, amargamente, pela forma como procediam para com ela. O conde mostrou–se pesaroso, mas teimou nos seus protestos apaixonados.
Desta forma, durante a permanência em casa da Tia, infeliz teve de suportar as importunidades de Morano e a autoridade combinada dos que se diziam seus protetores. Os dois homens, durante uma conversa particular, estabeleceram o plano para triunfar da resistência de Emília e quando Montoni se preparou para regressar a Veneza, Quesnel prometeu–lhe visitá–lo depois da celebração do casamento.
No dia seguinte, Montoni declarou com autoridade a Emília que estava farto daquela brincadeira e que o casamento com o conde teria de realizar–se sem demora. A pobre recorreu às súplicas, mas tudo em vão. Levada ao último extremo, perguntou–lhe com que direito ele exercia sobre ela aquela autoridade despótica.
— Com que direito! — repetiu Montoni com ironia — Com o direito que me confere a minha vontade. Tente libertar–se e eu não lhe perguntarei com que direito o faz. Recordo–lhe pela última vez: está longe da sua pátria, é estrangeira, não tem outro protetor aqui senão eu. Todo o seu interesse é ter– me como amigo. Se, pelo contrário, me obriga a ser seu inimigo, a minha' vingança, não receio dizê–lo, ultrapassará todas as suas previsões. Já deve saber que não sou homem para consentir que me resistam.
Emília ficou como esmagada perante a consciência da sua impotência e contando com o pior.
Sobreveio, porém, um acontecimento que a deixou respirar durante alguns dias.
Certa noite, Orsino apareceu no palácio, dando sinais da mais viva agitação. Como Montoni se encontrasse no Casino, mandou–o chamar por um criado de toda a confiança. Eis o que acontecera: um fidalgo veneziano a quem Orsino odiava havia sido apunhalado por assassinos contratados por ele. O assassinado pertencia à família do Doge e o Senado foi informado do crime. Um dos criminosos, interrogado, acabou por denunciar Orsino que, aterrado, correu a refugiar–se em casa de Montoni. Este consentiu em o esconder, porque a polícia da cidade andava à sua procura. Logo que a vigilância afrouxasse, fá–lo–ia sair de Veneza sem perigo, pois ele próprio sabia ao que se expunha se o criminoso fosse encontrado em sua casa. As suas obrigações para com aquele homem, no entanto, eram de natureza tal que o Italiano não julgou prudente recusar–lhe asilo.
Era esta a personagem a quem Montoni concedia a sua estima, testemunhando–lhe tanta amizade quanto o seu caráter comportava.
Enquanto Orsino se conservou no palácio, Montoni não se atreveu a celebrar o casamento de Emília com o conde, com receio de chamar sobre si as atenções, mas quando a fuga do criminoso fez cessar o obstáculo, comunicou à desolada noiva que o casamento se realizaria na manhã seguinte. Em vão ela opôs nova recusa. Montoni, sem se comover, declarou que o conde com o padre se apresentariam no palácio logo de manhã e aconselhou–a a não se opor por mais tempo a uma resolução tomada no seu interesse e que era irrevogável.
— Esta noite não estarei em casa, mas lembre–se de que amanhã de manhã pertencerá ao conde Morano.
Emília que, depois das ameaças daquele homem, já contava com a crise suprema de um dia para o outro, não ficou tão acabrunhada como à primeira vista poderia supor–se. Tentou tranquilizar–se a si própria, dizendo de si para si que o casamento não seria possível se ela não anuísse, se diante do padre declarasse que não queria casar. Contudo, à medida que as horas passavam, a sua coragem desfalecia e tremia com a ideia de semelhante provação. Receava a autoridade de Montoni e sabia–o capaz de tudo. Chorou dolorosamente, implorando com fervor o auxílio de Deus e do pai querido, esperando que a recordação de Valancourt lhe desse forças para resistir.
Já era tarde quando madame Montoni lhe entrou no quarto para lhe entregar as prendas que o conde enviava a sua futura mulher. Todo o dia evitara encontrar–se com a sobrinha, talvez por não querer presenciar o seu desespero ou então porque a consciência, cuja voz poucas vezes se fazia ouvir, a acusasse da dureza do seu procedimento para com uma órfã, filha de seu irmão que, moribundo, lhe confiara.
Emília nem sequer olhou para os presentes do noivo e fez a última tentativa para levar madame Montoni a interessar–se pela sua sorte. Esta, mais comovida do que desejava, esforçou–se por lhe provar que seria loucura opor–se a um casamento que faria a sua felicidade.
— Podes ter a certeza de que se eu não fosse casada e o conde me oferecesse a sua mão, ficaria lisonjeada com tal distinção. Quanto mais tu, minha sobrinha, que não tens fortuna! Admira–me, confesso, pela condescendência que manifesta para contigo. Se eu estivesse no seu lugar já teria sabido pôr–te no teu. Trata–te com muita indulgência e isso levou–te a formar alta opinião da tua pessoa, como se ninguém fosse digno de aspirar a casar contigo. Mas enganas–te. Não encontrarás um apaixonado como o conde. Se fosse outro já teria voltado as costas, deixando–te entregue a um arrependimento tardio.
— Como eu desejaria que o fizesse! — protestou Emília, soltando profundo suspiro.
— Felizmente para ti, ele não é como os outros. Se o conde Morano não te satisfaz as ambições muito gostaria de saber a quem pretendes tu?
— Não tenho ambições. O meu único desejo é conservar–me tal como estou.
— Hipocrisia! — exclamou madame Montoni — Continuas a pensar em Valancourt, já vejo. Esquece essas fantasias e torna–te uma rapariga sensata. De resto, coisa alguma poderá modificar a situação. Casarás amanhã, quer queiras ou não. O conde não deve nem quer ser por mais tempo joguete dos teus caprichos.
Emília nem se deu ao trabalho de lhe responder, pois seria tempo perdido. Madame Montoni colocou os presentes de Morano em cima da mesa, junto da sobrinha, deu–lhe as boas noites e retirou–se.
A infeliz rapariga ficou entregue aos seus dolorosos pensamentos, fixando a porta por onde a tia havia desaparecido. Passava da meia–noite. Todos dormiam no palácio, só ela velava. O seu espírito perturbado por tantos desgostos cedeu a terrores imaginários e via–se sozinha, abandonada, envolta em trevas, perdida! ... E, de fato, para ela a vida tornara–se um deserto! ... Para afastar estes tristes pensamentos, deitou–se, não para dormir, mas para tentar acalmar a desordem do seu cérebro e para se concentrar e orar a Deus, suplicando–lhe para lhe dar forças para sustentar a luta que teria de travar no dia seguinte.