Os Mistérios do Castelo de Udolfo
IX. Um Lampejo de Felicidade
IX
Um Lampejo de Felicidade
A casa de madame Chéron, situada nos arredores de Toulouse, era rodeada por vasto jardim. Emília levantou–se cedo, percorreu–o todo e acabou por ir encostar–se à balaustrada do terraço, do qual se avistavam as planícies da Gasconha.
— Por onde andaste esta manhã? — inquiriu madame Chéron quando a sobrinha regressou — Não gosto que saias tão cedo sem ser acompanhada. Uma pessoa dá entrevistas ao luar, precisa ser vigiada.
Apesar de ter consciência da sua inocência, Emília corou e baixou os olhos, enquanto a tia sorria com ar sarcástico, vangloriando–se pela sua penetração. Depois, passando de um assunto para outro não menos doloroso, madame Chéron começou a falar de Moteville e da enorme perda que Emília teria de sofrer, acentuando os deveres de humildade e reconhecimento que a sobrinha assumia, infringindo–lhe as maiores humilhações, pondo–a não só na sua dependência, como na dos criados.
Em seguida, avisou–a de que, nesse dia, teria muitos convidados para jantar, acrescentando que desejava vê–la trajada com elegância e requinte próprios para fazer honra às suas reuniões, afamadas pelo seu bom gosto e riqueza.
Mas quando os salões se encheram e Emília se apresentou, a sua atitude era tão tímida e acanhada, que a tia a fulminou com olhares severos. O trajo de luto, a modéstia do porte, a tristeza expressa no semblante, no entanto, mais interessante a tornaram aos olhos de todos. Voltou a encontrar Montoni e o amigo Cavigny que conhecera em casa de Quesnel. Ambos pareciam familiares da casa, o primeiro, sempre com os seus modos altivos e imperiosos, o outro, insinuante e melífluo.
Quinze dias se passaram em festas e visitas. Emília acompanhava a tia para toda a parte, divertindo–se por vezes, aborrecendo–se quase sempre. Os momentos mais felizes da sua vida eram aqueles que passava no pavilhão do terraço para onde levava um livro ou o alaúde. Não deixava de pensar em Valancourt, embora nunca mais ouvisse falar a seu respeito desde que se encontrava em Toulouse. Esta absoluta falta de notícias mais lhe fazia sentir quanto lhe queria.
Certo dia, madame Chéron mandou–a chamar. Estava rubra de cólera e tinha uma carta na mão.
— Conheces esta letra? — perguntou furiosa, observando a sobrinha, enquanto ela examinava a carta.
— Não, tia, não conheço.
— Não negues — insistiu madame Chéron — Tenho a certeza de que, às minhas escondidas, tens recebido cartas deste impertinente rapaz. Como poderia ele tomar a liberdade de me escrever, se não fosse encorajado por ti?
E como Emília, magoada com a grosseria destas observações, não lhe respondesse, prosseguiu:
— Desde já te declaro que não estou para ser importunada com visitas ou cartas de todos aqueles que pretendem adorar–te.
— Como pode tratar–me assim? — protestou Emília, começando a chorar.
Tinha a consciência da injustiça destas censuras, mas, ao mesmo tempo, censurava–se pela sua falta de reserva, nas entrevistas no Vale. A sua delicadeza e sensibilidade sobrecarregavam–se com escrúpulos injustos.
Foi sentar–se no jardim, no banco habitual, interrogando–se para se certificar da inocência do seu procedimento. Recordava a cena durante a qual Valancourt lhe declarara o seu amor e teve a impressão de lhe escutar os passos, de o ver dirigir–se para ela, Passou a mão pelos olhos, mas tudo quanto supusera filho da imaginação, de fato, era real: Valancourt estava ali, na sua frente.
O coração palpitou–lhe num misto de terror e surpresa, ao mesmo tempo que o do rapaz estremecia de alegria. Recuperando a calma, Emília acolheu–o com meigo sorriso e, levando–o para uma das ruas do jardim, perguntou–lhe se havia falado com madame Chéron.
— Ainda não. Disseram–me que não podia receber–me agora e, sabendo que se encontrava aqui, vim ter consigo. Atrever–me–ei a revelar–lhe o motivo da minha visita? Não me acusará de precipitação por me ter aproveitado tão depressa da autorização que me –concedeu para falar a sua família?
Emília não sabia o que responder, mas a sua perplexidade deu lugar ao terror quando viu madame Chéron que se aproximava. No entanto, como tinha a consciência da sua inocência, não perdeu a calma e dirigiu–se para ela. Pelo descontentamento, impaciência e altivez manifestados na sua atitude, Emília adivinhou que a tia supunha a existência de prévia combinação entre eles. Depois de ter apresentado Valancourt à tia, não teve coragem para assistir à conversa e correu a fechar–se no quarto, extremamente inquieta pelo resultado da entrevista.
Decorrida uma hora, madame Chéron regressou a casa de muito mau humor.
— Despedi Valancourt — declarou — e espero não tornar a receber visitas desta natureza. O assunto está encerrado. Fiz–lhe ver que não me deixava enganar, nem era bastante indulgente para admitir que se correspondam às minhas escondidas.
Emília quis protestar, mas a tia prosseguiu:
— O teu pai fez muito mal em me deixar o encargo de velar por ti. Gostava de te ver casada, na verdade, mas se devo ser importunada por pretendentes como esse Valancourt, terei de acabar por te meter num convento. Recorda–te bem disto. Aquele cavalheiro não teve a impertinência de me confessar que a sua fortuna era pequena e que o seu futuro depende da sua carreira militar? Devem ocultar–se estes pormenores quando se deseja ganhar a batalha. Que presunção! Supor que eu iria casar a minha sobrinha com um pobretão que se confessa como tal!
De si para si, Emília ficou satisfeita por Valancourt ter confessado a sua pobreza, embora essa confissão tivesse destruído todas as suas esperanças.
— Também teve o descaramento de me dizer — continuou madame Chéron — que só se consideraria repelido se o ouvisse da tua boca, pretensão que eu saberei desiludir. Demonstrar–lhe–ei que as minhas determinações são categóricas e definitivas. E volto a dizer–te que, se te atreves a ter qualquer entrevista com ele sem minha licença, sairás, imediatamente, de minha casa.
— Não me conhece, tia. Senão saberia que essa recomendação se torna desnecessária.
A partir desse dia, a pobre rapariga, para não ser censurada, teve de fingir, constantemente, uma alegria que estava muito longe de sentir, e a tal ponto que, iludida, a tia a levou consigo a casa de madame Clairval, senhora de idade, rica e viúva, que se instalara em Toulouse havia pouco tempo. Essa senhora, que vivera muitos anos em Paris no meio do maior luxo, marcava na sociedade de Toulouse. Madame Chéron, que não podia rivalizar com ela em riqueza, pretendia, pelo menos, tê–la por amiga. Rodeava–a de atenções e deixava todos os compromissos quando madame Clairval a convidava. — Citava o seu nome a propósito de tudo e orgulhava–se com o conhecimento. Naquela noite, madame Clairval dava grande baile, seguido por esplêndida ceia. Enquanto uns dançavam, outros passeavam no jardim ou sentavam–se sobre a relva, conversando, criticando as toilettes, tomando refrescos ou cantando, acompanhados pelas guitarras. Emília contemplava o encantador quadro com melancólica tristeza, Mas, qual não foi o seu espanto quando entre os pares reconheceu Valancourt. Dançava com uma gentil rapariga por quem parecia muito interessado. Quis afastar–se, mas a contradança acabou e Valancourt aproximou–se do grupo. Saudou a tia com respeito e a sobrinha com tristeza como se lhe censurasse a forma como agravava o seu desgosto, tratando–o com tanta frieza.
— Conhece–o? — perguntou madame Chéron a Cavigny, que se encontrava perto dela — É um impertinente que se permitiu pretender minha sobrinha.
— Se para merecer essa classificação basta admirar mademoiselle Saint–Aubert, devem existir muitos impertinentes nesta sala e eu sou um deles.
— O senhor é mestre na arte dos cumprimentos, mas deve ter cuidado, porque as mulheres, muitas vezes, tomam a lisonja pela verdade.
— Existem mulheres — volveu Cavigny com um olhar significativo a confirmar as palavras — para quem essas duas palavras são sinónimos.
— Conhece alguma? — Inquiriu madame Chéron, que corara de prazer.
— Uma, pelo menos.
— Quem é ela? — perguntou madame Chéron, requebrando–se.
— Pergunte–o a Montoni, que conversa além com o marquês de Lariviére. O assunto deve ser importante, caso contrário, já teria vindo apresentar–lhe as suas homenagens.
Pelo que ouvia, Emília depreendeu que Montoni cortejava a tia e que esta lhe aceitava a corte. Que madame Chéron, na sua idade, pretendesse tornar a casar, já era ridículo, mas que Montoni, com o seu espírito e a sua situação, pensasse em escolhê–la para sua mulher, era coisa que Emília não podia compreender.
Montoni aproximou–se pouco depois, apresentando desculpas por não ter ido ainda cumprimentar as duas senhoras. Madame Chéron acolheu–o com atitude despeitada, mais própria para uma rapariguinha, mostrando–se muito interessada com a conversa de Cavigny.
A ceia foi servida nos pavilhões do jardim e na sala. Com grande espanto de Emília, Valancourt sentou–se na mesa principal, presidida pela dona da casa, onde ela própria e a tia estavam instaladas.
— Quem é Valancourt para se sentar à nossa mesa? — perguntou madame Chéron com acentuado desdém.
— Ignora que é sobrinho de madame Clairval?
A fisionomia de madame Chéron modificou–se instantaneamente e, para escurecer a sua tolice, começou a elogiar Valancourt com o mesmo entusiasmo empregado, tempo antes, para o censurar.
Emília, que não escutara a conversa, ficou muito admirada ao ouvir a tia falar de Valancourt naqueles termos. Retiraram–se logo depois da ceia. Montoni acompanhou–as à carruagem, dando a mão à tia, enquanto Cavigny oferecia a sua à sobrinha.
No dia seguinte de manhã, quando almoçavam, Emília recebeu uma carta cuja caligrafia a fez estremecer. Sem a ler, entregou–a à tia.
Grande foi a sua surpresa quando madame Chéron, muito sorridente, lhe devolveu, dizendo:
— Podes lê–la, minha filha.
Valancourt pedia–lhe para o receber naquela tarde, pois só se o ouvisse da sua boca, acreditaria na sua infelicidade.
— Que resposta lhe darei?
— Dize–lhe que venha. Veremos o que tem para alegar em sua defesa. Ou antes, eu própria lhe respondo.
Nessa mesma tarde, Valancourt apresentou–se e foi recebido por madame Chéron. Após demorada conversa, esta mandou chamar a sobrinha, que entrou na sala muito pálida, quase sem forças para andar.
— O cavaleiro de Valancourt acaba de me dizer que o marido de madame Clairval era irmão de sua mãe. Se mais cedo tivesse sido informada desta circunstância, mais cedo teria acolhido, favoravelmente, as suas pretensões. Embora não me prenda com promessas definitivas — continuou — dei–lhe licença para vir aqui fazer–te a sua corte e admitirei como possível o casamento que ambos desejam, mas daqui a alguns anos, quando o cavaleiro de Valancourt for promovido.
Emília quase não podia acreditar no que ouvia e estava tão confusa que mal se atrevia a erguer os olhos. Por seu lado, Valancourt não sabia como explicar tão rápida mudança.
— Madame — disse, quando a tia de Emília acabou de falar — por muito lisonjeira que seja para mim a sua bondade, gostaria que mademoiselle Saint–Aubert a confirmasse e me autorizasse...
— Eu me encarrego de responder por ela — atalhou madame Chéron — Emília foi–me confiada pelo pai e a minha vontade deve ser a sua.
Dito isto, saiu da sala, deixando os dois namorados sozinhos.
O procedimento de madame Chéron havia sido ditado pela vaidade. Desejava um belo casamento para a sobrinha, não pela felicidade que esta pudessse encontrar, mas pela consideração que ela própria alcançasse com ele. Quando soube que Valancourt era sobrinho de madame Clairval, admitiu, não a perspectiva de grande fortuna, porque madame Clairval tinha uma filha, a gentil rapariga com quem Valancourt dançava na noite da festa, mas, pelo menos, um futuro brilhante, dado o meio em que vivia essa senhora, alvo da inveja e admiração de todos.
Desde esse dia, Valancourt frequentava, assiduamente, a casa de madame Chéron, passando junto de Emília muitas horas que esta considerava as mais felizes da sua vida, desde a morte do pai. Amavam– se e abandonavam–se a esse amor sem poder calcular que, em breve, essa ternura mútua seria para eles origem do maior desespero e sofrimento. Entretanto, a amizade entre madame Clairval e a tia de Emília tornava–se cada vez mais íntima e esta última não se cansava de apregoar por toda a parte a paixão do sobrinho da amiga pela sua própria sobrinha.
Ao mesmo tempo, Montoni cada vez se tornava mais assíduo em casa de madame Chéron sobre quem exercia grande influência.
Emília e Valancourt passaram todo o Inverno entregues ao seu amor. O regimento do rapaz estava aquartelado próximo de Toulouse e, desta forma, os dois namorados podiam ver–se com a maior facilidade. Reuniam–se, habitualmente, no pavilhão do terraço. Madame Chéron e a sobrinha levavam os seus trabalhos, Valancourt um livro e, conversando ou lendo, os dois jovens não podiam deixar de reconhecer terem nascido um para o outro. Em ambos, os mesmos gostos, os mesmos entusiasmos–, a mesma nobreza de sentimentos.