Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 19 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XVIII. O Mistério Continua

XVIII

O Mistério Continua

Entretanto, Montoni mandava proceder a rigoroso inquérito sobre a estranha circunstância que tanto o havia assustado. Não tendo conseguido descobrir coisa alguma, acabou por atribuir a voz misteriosa a estúpida brincadeira de qualquer dos criados do castelo e deixou de se preocupar com o assunto. As questões com sua mulher cada vez se tornavam mais frequentes e tempestuosas. Decidiu encerrá–la no próprio quarto, ameaçando–a com tratamento mais rigoroso se não cedesse ao que exigia.

Se madame Montoni fosse mais sensata, teria pressentido o perigo de irritar com a prolongada resistência, um homem como Montoni, estando como estava, completamente, à sua mercê. No seu modo de proceder, porém, não predominava a razão, mas sim o desejo de vingança sempre pronto a opor desafios às ameaças, a obstinação à violência.

Obrigada a permanecer no quarto, sentiu necessidade da convivência que havia rejeitado, visto serem Annette e Emília as duas únicas pessoas com quem lhe consentiam falar.

Uma noite, Emília, que já passara junto da tia algumas bastante tristes, recolheu ao quarto no desejo de descansar. Preparava–se para se deitar quando uma pancada muito forte soou na porta e um corpo pesado caiu no corredor. Chamou para saber quem era, mas ninguém lhe respondeu. Veio–lhe à ideia que um dos homens, dos recém–chegados ao castelo, descobrira onde era o seu quarto, e só de pensar que estava ali sozinha, longe de todos, sentiu–se enlouquecer de terror. De súbito, ouviu leve suspiro e adquiriu a certeza de que alguém se encontrava atrás da porta. Quase logo, o suspiro repetiu–se, prolongando–se numa espécie de gemido. Não era, portanto, um inimigo, mas sim uma pessoa que talvez precisasse do seu auxílio. Abriu a porta e quase tropeçou num corpo estendido no chão. Soltou um grito e reconheceu Annette. A pobre rapariga estava desmaiada. Emília prestou–lhe todos os cuidados ao seu alcance até que a criada voltou a si. Logo que recuperou os sentidos e pôde falar, Annette afirmou, num tom susceptível de convencer os mais incrédulos, que tinha visto um fantasma no corredor.

— Contaram–me — prosseguiu — estranhas coisas sobre um dos quartos deste castelo, Porém, como fica perto deste, mademoiselle, não as quis repetir com receio de a assustar. Hoje, quando me encaminhava para aqui sem pensar em coisa alguma, súbito clarão obrigou–me a voltar e vi, tão distintamente como a estou vendo a si, um vulto muito alto que saía do quarto a que me referi, um quarto que está sempre fechado e cuja chave está na mão do senhor... Depois a porta fechou–se sozinha.

— Era o senhor Montoni? — perguntou Emília.

— Não, mademoiselle, não era ele, pois o deixei a questionar com a senhora, no seu toucador.

— Contas–me coisas muito singulares, Annette! — Se pudesse encontrar–me de novo no meu Languedoc — protestou a pobre rapariga — não seria eu quem tornaria a viajar! Podia lá supor que viria enterrar–me neste castelo medonho, no meio de pavorosas montanhas, correndo o risco de me matarem.

— De te matarem! Quem te meteu isso na cabeça?

— Admira–se porque não acredita em coisa alguma, mademoiselle, nem mesmo no fantasma que eu vi há pouco…

— Falaste de crime. Explica–te.

— É o que lhe digo, mademoiselle. Estão aqui para nos matar a todos.

— Quem?

— Todos esses homens que se encontram no castelo. Ontem vieram mais. Foi o Ludovico quem me disse. E como eram muito numerosos e não tinham alojamento, deixaram os cavalos nas cavalariças e foram instalar–se nas choupanas dos arredores. Era isto que vinha dizer–lhe. Por que razão o senhor mandou fortificar o castelo e mandou vir tantos homens? Para quê tantos conselhos secretos e por que anda com aquela cara de meter medo?

— É tudo quanto sabes, Annette? — perguntou

Emília.

— E não é bastante, mademoiselle? — Bastante para me esgotar a paciência, mas não para me convencer de que nos queiram matar.

Depois mandou–a calar e consentiu que passasse a noite no seu quarto.

No dia seguinte, ao atravessar a sala para dar o habitual passeio pelos parapeitos, Emília ouviu no pátio grande vozearia e o tropear de muitos cavalos. O tumulto excitou–lhe a curiosidade. Espreitou por uma das janelas gradeadas e avistou um grupo de cavaleiros com uniformes estranhos e variados. A maior parte envergava curta jaqueta com riscas vermelhas e pretas, outros estavam completamente ocultos por amplos mantos negros... Como um dos cavaleiros afastasse um pouco o manto, viu que trazia suspensos no cinto alguns punhais de vários tamanhos. Outros usavam alabardas e dardos. Emília não se recordava de ter visto reunidos tantos rostos ferozes e terríveis. Recordou os temores de Annette e supôs–se rodeada de bandidos. Ocorreu–lhe, de súbito, uma ideia estranha. Pensou que Montoni era capitão desses bandidos e o seu castelo o ponto onde se reuniam.

Entretanto, Cavigny, Varezzi e Bertolini apareceram no pátio, trajando como os outros, mas arvorando nos chapéus grande plumas vermelhas. Quando montaram a cavalo, os seus rostos irradiavam alegria. Montoni apareceu também à porta do vestíbulo, mas sem uniforme. Examinou com cuidado o porte de um dos cavaleiros e conversou durante algum tempo com os seus chefes. Depois despediu–se e a tropa, dando a volta ao pátio, sob o comando de Verezzi, passou debaixo da abóbada e saiu. Montoni seguiu–a com a vista durante algum tempo. Para onde iriam? Seria partida definitiva ou apenas expedição? Só os acontecimentos seguintes poderiam revelá–lo.

Emília, quando tudo ficou deserto, porque os soldados haviam partido todos e as muralhas já estavam reparadas, foi ter com a tia a fim de a informar do que tinha presenciado. Annette também apareceu muito assustada, conforme o costume, e não se fez rogada para repetir todos os boatos que circulavam entre os criados.

De repente, Montoni entrou no quarto de sua mulher e Annette, toda trémula, retirou–se a toda a pressa. Emília dispunha–se a fazer o mesmo, mas a tia deteve–a sem que Montoni obstasse ao seu desejo. A sobrinha havia sido tanta vez testemunha das suas questões, que já não se importava com a sua presença.

— Pode dizer–me a significação de tudo isto? — perguntou madame Montoni a seu marido — Quem são esses homens armados cuja chegada e partida, quase simultâneas, acaba de me ser revelada?

Montoni limitou–se a responder–lhe com desdenhoso olhar.

Emília aproximou–se da tia e, baixinho, pediu–lhe para ser prudente.

— Quero lá saber de prudência! — protestou ela– Exijo que me diga o que se passa e com que intuito mandou fortificar o castelo.

— Tenho mais em que pensar do que responder–lhe — retorquiu Montoni — Exijo, por meu lado, no entanto, que me entregue, imediatamente, os seus títulos de propriedade, Estou farto de discussões e não quero que zombe de mim por mais tempo.

— Nunca! — protestou madame Montoni — Volto a perguntar–lhe quais são os seus projetos? Receia um ataque? Espera inimigos?

— Se deseja saber tudo, assine este papel.

— Quem é esse inimigo? — prosseguiu a tia de Emília sem fazer caso do que dizia o marido — Donde partirá o assalto? Seremos todos mortos ou terei de ficar aqui presa até morrer?

— É isso que acontecerá se não aceder ao meu pedido, pois lhe juro que não sairá do castelo, enquanto não o satisfazer.

Madame Montoni soltou gritos agudos, mas logo se calou, persuadida de que as ameaças do marido não passavam de um estratagema para obter o que pretendia. Teimando nas perguntas, acabou por afirmar com ironia que os intuitos do marido, por certo, deviam ser muito louváveis porque, provavelmente, era capitão de bandidos e tencionava reunir–se aos inimigos de Veneza para assolar o país.

Montoni relanceou–lhe terrível olhar. Emília estremeceu e madame Montoni, pela primeira vez, receou ter ido longe demais.

Recuperando o domínio próprio, Montoni decidiu em tom firme e glacial:

— Esta noite será conduzida à torre de leste onde terá muito tempo para refletir no perigo de provocar e ofender um homem cujo poder sobre si é ilimitado.

Emília lançou–se–lhes aos pés e, chorando, pediu–lhe para poupar a tia. Esta, num misto de terror e indignação, tão depressa soltava exclamações e vociferava, como juntava as suas súplicas às da sobrinha. Montoni respondeu–lhes com uma praga terrível e afastou Emília, que se lhe agarrava à capa. Esta caiu e bateu com a cara no chão e ele, sem se dignar levantá–la, saiu do quarto. Chamada à realidade pelos gemidos da tia, levantou–se e correu para madame Montoni que revirava os olhos e se debatia em convulsões.

Falou–lhe, mas não obteve resposta. Aos seus gritos, acudiram Cario e Annette. Levaram madame Montoni para a cama. A crise era violenta e os três reunidos mal conseguiram dominá–la. Annette tremia e soluçava e o velho Cario mostrava–se muito comovido

Por fim, a doente acalmou.

— Agora deve descansar. Vá, meu bom Cario. Se precisar de auxílio voltarei a chamá–lo. Por seu lado, se tiver ocasião, interceda por minha tia junto do seu amo.

— Não tenho influência no senhor — respondeu Cario, abanando a cabeça — Já vi tanta coisa! Mas a menina também deve tratar de si. Parece sofrer muito.

— Obrigada, meu amigo — agradeceu Emília.

Cario saiu e ela continuou à cabeceira da tia. Madame Montoni, por fim, voltou a si e soltou um suspiro.

— Ele persiste em me tirar daqui? — perguntou.

Emília disse–lhe que não voltara a falar com Montoni e depois empregou todos os seus esforços para lhe desviar o pensamento para outros assuntos. A tia, porém, não lhe dava ouvidos e parecia dominada por uma ideia fixa. Emília entregou–a aos cuidados de Annette e correu a procurar Montoni, que encontrou no terraço, no meio de um grupo de homens de terrível aspecto. Pequena parte do grupo que partira de manhã havia ficado no castelo e as suas fisionomias pareciam ainda mais ferozes do que as dos companheiros. Entre eles, reconheceu os três aventureiros da véspera.

No momento em que chegou, Montoni dava as suas ordens em voz baixa e quando os homens se afastaram ouviu–os murmurar: Esta noite começa a guarda, ao esconder do Sol.

Quando Montoni ficou sozinho, Emília dirigiu–se–lhe, embora ele demonstrasse o desejo de a evitar. Teve a coragem de lhe falar, suplicando–lhe que tivesse compaixão da tia, cujo triste estado lhe descreveu.

— Sofre por sua culpa e não merece que a lamentem. Sabe muito bem o que deve fazer para evitar os males que a ameaçam. Obedeça e assine o que pretendo e não voltarei a importuná–la.

À força de rogos, Emília conseguiu que madame Montoni não fosse transportada para a torre naquela noite. O marido concedia–lhe mais doze horas para refletir.

Apressou–se a ir comunicar à tia a alternativa e a concessão do marido. Madame Montoni não fez comentários e ficou pensativa. Como a sobrinha a aconselhasse a submeter–se às exigências de Montoni, único caminho que a prudência lhe indicava, observou:

— Não sabes o que me pedes. Recorda–te de que, se eu persistir na recusa, as propriedades que disputo a meu marido virão a pertencer–te por minha morte.

— Ignorava–o. Nesse caso, o que me revelou mais me impele a incitá–la a tomar uma resolução da qual dependem o seu repouso e até a própria vida. Que essa insignificante circunstância não obste a submeter–se.

— És sincera no que dizes, Emília?

— É possível que duvide?

Madame Montoni parecia muito comovida.

— Mereces herdar a minha fortuna. Demonstras um desinteresse com o qual eu não contava.

— O meu desinteresse não tem mérito algum, porque não sou obrigada a lutar contra a tentação.

— Não pensas em Valancourt — retorquiu a tia, observando–a com atenção.

— Peço–lhe para mudarmos de conversa, tia, e não me suponha, tão odiosamente, egoísta.

Com efeito, mudaram de conversa, embora Emília ficasse ao pé da tia até muito tarde.

Quando recolheu ao quarto tudo estava sossegado e todos no castelo deviam dormir. Ao percorrer o corredor que a ele conduzia, recordou–se do incidente da noite anterior e do terror de Annette. Estremeceu, pensando poder ter visão idêntica à que a criada tivera. Sem saber muito bem a qual dos quartos se referira Annette, tinha a certeza de ser obrigada a passar–lhe pela frente. Com olhar inquieto sondava as trevas e avançava com passo leve e cauteloso. Ao atingir uma das portas, teve a impressão de ouvir ligeiro ruído. Trémula, parou, sem forças para dar mais um passo. De repente, a porta abriu–se e um homem que lhe pareceu ser Montoni apareceu no limiar e, vendo–a, recuou e fechou a porta sobre si. No entanto, durante o curto espaço de tempo em que a manteve aberta, à fraca claridade do candeeiro que iluminava o quarto, Emília entreviu outro homem sentado perto do fogão, em atitude melancólica. O medo dissipou–se para dar lugar à surpresa. O mistério daquela visita de Montoni a um homem fechado num quarto que todos supunham desocupado, era de natureza a excitar–lhe a curiosidade. Sem fazer barulho, abriu a porta do quarto contíguo, escondeu o candeeiro, ocultou–se num recanto do corredor e ficou muito quieta. Em breve a outra porta se abriu e o homem apareceu. Tratava–se de Montoni, não podiam restar– lhe dúvidas, que perscrutou, atentamente, as trevas, puxou a porta e seguiu pelo corredor, não tardando a desaparecer. Ao mesmo tempo, alguém fechou a porta do quarto, correndo os ferrolhos interiores. A curiosidade e espanto de Emília atingiram o auge.

Era meia–noite quando entrou no quarto. Em baixo, no terraço, ouviu passos cadenciados, o tinir de armas e algumas vozes trocando a senha. Recordou–se da ordem dada por Montoni e compreendeu que, pela primeira vez, no castelo, rendiam a guarda.

Quando tudo caiu em silêncio, foi deitar–se e adormeceu.