Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXIV. Ainda a Aparição
XXIV
Ainda a Aparição
No dia seguinte de manhã, Montoni mais uma vez se escusou a receber Emília. Surpreendida com esta atitude, calculou que a consciência o acusava e ele recuava perante a explicação.
À tarde, voltou um dos bandos que havia partido para uma incursão pela montanha. No seu quarto, apesar de afastado, Emília ouviu os seus clamores e cânticos de vitória, espécie de urros tão ferozes e violentos, que chegou a temer não fossem eles o prelúdio de um ato de selvageria. Annette desvaneceu– lhe a apreensão, revelando–lhe terem sido provocados pela quantidade e qualidade dos despojos. Isto confirmou–lhe a ideia de ser Montoni capitão de bandidos, tentando refazer a sua fortuna com pilhagens e resgate dos viajantes que surpreendia. Quando meditava na situação quase inacessível do castelo, alcandorado no alto de um monte escarpado e solitário, à beira de uma estrada por onde passavam ricos mercadores e senhores poderosos, reconhecia estar este lindamente colocado para servir os projetes de rapina do seu dono. O caráter violento e audacioso de Montoni também estava de acordo com semelhante profissão. Adorava as batalhas e a vida movimentada, desconhecia os sentimentos de compaixão e bondade e a sua coragem cega tinha qualquer coisa da ferocidade das feras.
Contudo, a suposição de Emília, por muito verosímil que fosse, não era completamente exata. Ignorava a situação da Itália naquela época e os interesses múltiplos dos diversos Estados em que se encontrava dividida, sempre em luta uns com os outros. Alguns desses Estados não possuíam rendimentos bastantes para a manutenção de um exército, mesmo pequeno. Surgiu então uma classe de homens, desconhecidos nos nossos dias e dos quais a História nos descreve o caráter. Entre os soldados licenciados nos intervalos das guerras, poucos deles, durante o tempo de paz, se ocupavam com profissões lucrativas.
A maior parte alistava–se nos exércitos dos que estavam em luta. Umas vezes organizavam–se em bandos separados e independentes, outros serviam debaixo da bandeira de qualquer chefe popular, ao serviço de um príncipe ou de uma república, que não lhes regateava a coragem. A esses homens chamavam condottieri, nome temido em Itália durante o extenso período, que só terminou em princípios do século XVII.
As guerras entre os diversos Estados não eram mais do que expedições. As probabilidades de êxito calculavam–se pela bravura pessoal do chefe e dos seus soldados. Desprezava–se a táctica militar, bastava surpreender o inimigo ou retirar em boa ordem. O capitão devia arriscar–se nas situações mais perigosas a fim de estimular os soldados e, muitas vezes, entre dois partidos ignorantes das respectivas forças, o ataque inicial decidia o resultado. Quase sempre, os condottieri constituíam a maioria das tropas; à vitória seguia–se a pilhagem e esses homens, devido aos seus instintos belicosos e vícios, eram temidos pelos próprios aliados. Quando não estavam a soldo de ninguém, o capitão descansava no seu castelo e os seus homens, instalados nos arredores, entregavam–se a completa ociosidade. Viviam à custa dos povoados que pilhavam, ou então os despojos alcançados com as últimas aventuras bastavam–lhes para viver sem sobrecarregar o chefe.
Os governos, por vezes, pensavam em dissolver estas associações militares, mas, além de ser difícil a tarefa, gostavam de ter à mão tropas adestradas para utilizarem em tempo de guerra e que, em tempo de paz, não representavam qualquer encargo. Os capitães contavam tanto com esta política, que não receavam exibir–se nas próprias capitais dos Estados. Montoni passara muito tempo em Pádua e Veneza, gastando a sua fortuna nas casas de jogo, e depois a ruína sugeriu–lhe a ideia de se fazer condottiere. Para isso reuniu–se com alguns aventureiros, entre os quais Orsino, pondo em comum os bens que lhes restavam.
Emília, mais do que nunca ansiosa por falar com Montoni, mandou Annette pedir–lhe nova entrevista, que este se dignou conceder–lhe. Chamando a si toda a sua coragem, dirigiu–se à sala de cedro onde o encontrou rodeado pelos seus homens. Alguns deles voltaram–se quando ela entrou e não puderam reprimir um grito de admiração. Para se subtrair a tantos olhares atrevidos, Emília passou para outra sala, onde Montoni, com ar descontente, pouco depois apareceu. Quando viu diante de si aquele semblante feroz e sombrio, a pobre rapariga não pôde deixar de tremer, lembrando–se de ter na sua frente o assassino da tia. Transtornada pelo terror que ele lhe inspirava, não conseguiu dizer palavra, até que Montoni lhe perguntou:
— Finalmente, o que pretende? Não tenho tempo para perder com bagatelas. Diga o que deseja e depressa.
Emília declarou–lhe então que desejava voltar para França e para isso vinha pedir–lhe autorização.
Montoni olhou–a com surpresa e teve a curiosidade de conhecer os motivos que a impeliam a tal pedido. Como a visse empalidecer, tremer e quase desmaiar, indiferente a tanta emoção, intimou–a a falar. Caso contrário, poderia retirar–se.
— Não devo continuar aqui — respondeu ela num esforço de vontade — e pergunto–lhe com que direito me prende no castelo.
— Com o direito conferido pela minha vontade. Não se atrevendo a lutar abertamente, a pobre tentou justificar o pedido.
— Enquanto minha tia foi viva — murmurou tremendo –a minha situação podia explicar–se. Mas agora ela morreu, e é justo que me deixe partir. A minha presença no castelo não deve ser–lhe agradável e a mim só me causaria aborrecimentos.
— Quem lhe disse que madame Montoni tinha morrido? — perguntou o castelão, fixando–a com olhar penetrante.
Emília hesitou. Ninguém lhe dissera, mas não se atrevia a revelar o que tinha visto no quarto da torre.
— Então, quem lhe disse? –insistiu ele.
— Perdoe–me se não lhe revelo. Sei–o e é quanto basta.
E, já sem forças, deixou–se cair numa cadeira.
— Se quiser vê–la, pode visitá–la. Está na torre de leste.
E, sem mais uma palavra, voltou costas e regressou à sala onde se encontravam os seus homens. Estes não conheciam a sobrinha, e começaram a gracejar com Montoni sobre a entrevista que acabava de ter com ela. O castelão, porém, não lhes admitiu os gracejos e mudou de conversa.
Entretanto, Emília, depois da declaração de Montoni, não mais se lembrou do pedido que lhe fizera para abandonar o castelo. Todos os seus pensamentos convergiam para a infeliz castelã. Encontrava–se, segundo o marido afirmara, na torre de leste. Estaria morta e ele levaria a Lutou por muito tempo com sentimentos contraditórios até que, por fim, se decidiu a aproveitar a licença de Montoni e ir prestar a última homenagem aos restos da infeliz senhora. Chamou a si toda a sua coragem para afrontar o espetáculo inevitável, sentindo que a consciência de ter cumprido esse último dever seria para ela uma consolação no futuro. Annette tentou em vão desviá–la desse propósito, mas, por fim, consentiu em acompanhá–la até à porta da torre. Nenhuma consideração humana seria bastante forte para a obrigar a ir mais longe e a entrar no quarto de uma morta.
Quando chegaram à porta da torre, que Emília já conhecia, Annette deixou–a subir sozinha. Ao ver mais uma vez o rasto de sangue, o coração quase lhe saltou do peito. Obrigada a parar, esteve a ponto de voltar para trás. Decorridos uns momentos, porém, retomou a coragem e recomeçou a subir.
Ao atingir o último patamar, receou encontrar a porta fechada, como da primeira vez que ali estivera, mas não foi assim. Abriu a porta sem esforço e encontrou–se num quarto sombrio, escassamente mobilado. Assustada, olhou em volta de si e deu alguns passos para um dos cantos donde lhe pareceu ouvir uma voz que lhe recordou, vagamente, a de madame Montoni. Numa cama, cujos cortinados arredou, viu um vulto descarnado, quase esquelético. O seu primeiro gesto foi de recuo. Depois dominou–se e a tremer tomou nas suas a mão exangue que a desgraçada lhe estendeu. Era, de fato, madame Montoni, mas tão desfigurada que só de longe lhe recordou a tia. Fitando a sobrinha com olhar febril, esta murmurou:
— Onde tens estado? Supus que também tu me tivesses abandonado.
— É a tia quem me fala ou uma aparição? — perguntou Emília, apertando a mão gelada como a de um cadáver — Fale–me, por Deus! Reconhece–me, diga–me?
— Reconheço, sim. Estou viva, mas sinto que vou morrer.
A sobrinha curvou–se para ela e apertou–a nos braços. Conservaram–se assim durante algum tempo, confundindo as lágrimas. Por fim, Emília perguntou–lhe quem a tinha reduzido àquele estado.
Montoni, ao encerrar sua mulher naquela torre, exigiu dos seus cúmplices o mais absoluto segredo. Pretendia privá–la do amparo da sobrinha e poder matá–la em segredo, se as suas suspeitas se confirmassem. A consciência dos seus erros e culpas e o ódio que sua mulher alimentava contra ele, bastavam para o levar a admitir, mais do que a razão o permitia, a tentativa de envenenamento de que a acusara. Encerrou a infeliz na torre e, sem piedade e sem remorsos, mesmo quando adquiriu a certeza da sua inocência, deixou–a debatendo–se com a doença e com a febre que a minavam, lentamente, até a levarem às portas da morte.
O rasto de sangue que tanto assustara Emília fora produzido pelo ferimento recebido durante a luta, por um dos acólitos de Montoni. Quando, na primeira visita, tentara abrir a porta sem o conseguir, a tia estava profundamente adormecida e daí o silêncio que lhe inspirara a certeza da morte de madame Montoni, Quanto ao espetáculo terrível perante o qual desmaiara, o cadáver ensanguentado era o do desgraçado, mortalmente ferido, o mesmo que fora transportado para a sala onde ela se ocultara. Os sofrimentos do pobre homem duraram dois ou três dias. Depois da sua morte, transportaram–no no mesmo colchão onde havia expirado, deixando–o ali para ser sepultado na cova aberta na capela subterrânea, que Emília atravessara na companhia de Bernardino.
Depois de conversar, longamente, com a tia, deixou–a para ir falar com Montoni. O interesse pela moribunda levou–a a afrontar a cólera do vingativo castelão, sem pensar nas fracas possibilidades de êxito da tentativa.
— Madame Montoni está a morrer — disse–lhe quando o encontrou — Não creio que a sua cólera a persiga até ao último suspiro. Dê ordem para a levarem outra vez para os seus aposentos e para lhe prestarem os cuidados que o seu estado exige.
— Para quê, se está a morrer? –retorquiu Montoni com a mais perfeita indiferença.
— Para lhe evitar remorsos, quando um dia se encontrar na mesma situação.
Irritado, ordenou–lhe que saísse imediatamente; Emília, porém, não querendo deixar a tia morrer naquelas condições, resignou–se à humilhação e passou às súplicas, ajoelhando aos pés de Montoni, que por muito tempo resistiu.
Por fim, como se uma parcela da compaixão que enchia o coração da sobrinha passasse para o dele, acabou por consentir que transportassem madame Montoni para os seus antigos aposentos, onde Emília poderia tratá–la. Esta mal teve tempo para lhe agradecer, correndo para fora do quarto com receio de chegar tarde ou Montoni se arrependesse. Auxiliada por Annette, preparou a cama para a tia, preveniu–se com um cordial a fim de lhe sustentar as forças durante o trajeto e, chamando alguns criados, conseguiu reinstalá–la no antigo quarto.
Durante todo o dia a vigiou com a mais carinhosa solicitude. Esquecia a tutora imperiosa para ver em madame' Montoni a irmã do pai adorado, com direito tanto à sua compaixão como à sua ternura.
Quando chegou a noite, dispunha–se a permanecer no quarto, mas a tia exigiu que fosse deitar–se. Annette bastaria para ficar junto dela. Emília obedeceu e seria meia–noite quando se retirou, mas não para se deitar.
Com o coração dilacerado pela desesperada situação da tia, não pôde deixar de refletir na sua própria desgraça para a qual não encontrava remédio. Fechada naquele castelo isolado, longe dos amigos, se por acaso lhe restasse algum, como libertar–se do poder de um homem capaz de tudo até do crime, se o seu interesse e ambição lho aconselhassem?
Entregue a estas tristes reflexões, desejou respirar um pouco de ar fresco antes de se deitar e foi abrir a janela. A Lua subia por cima do arvoredo, iluminando a paisagem com a sua doce claridade. Encostada ao parapeito, Emília chorava, esmagada pela consciência da sua desventura. Quando tirou o lenço dos olhos, avistou no terraço, mesmo diante da sua janela, o mesmo vulto que na véspera lhe chamara a atenção, Estremeceu e o terror foi superior à curiosidade. Afastou–se da janela, mas não por muito tempo. Quando voltou, ele ainda não mudara de lugar, conservando uma imobilidade de pedra. Pôde examiná–lo à vontade, mas não lhe falou, como antes decidira. O vulto fez um movimento e estendeu o braço, como se pretendesse saudá–la. Emília ficou transformada em estátua, até que ele repetiu o gesto. Trémula, tentou falar–lhe, mas as palavras expiraram–lhe nos lábios. Saiu da janela para ocultar a luz, tal como fizera na véspera, quando ouviu um gemido.
— Meu Deus! Que quer isto dizer?
Escutou com atenção, mas não ouviu mais nada. Quando daí a bastante tempo voltou à janela, o vulto, ainda se encontrava no mesmo sítio e de novo estendeu o braço e deixou ouvir os mesmos gemidos.
“Só um ente humano pode gemer assim. Quero saber quem é esta criatura! — murmurou.
— Quem está aí? — perguntou em voz alta — Quem passeia pela muralha a estas horas?
A aparição ergueu a cabeça. De súbito, porém, começou a andar e afastou–se. Emília seguiu–o com a vista e viu–o desaparecer na sombra. Não ouviu mais nada até ao momento em que a sentinela se aproximou. O homem parou debaixo da Janela de mademoiselle de Saint–Aubert e chamou–a baixinho. Admirada, hesitava em responder–lhe, quando ele voltou a chamá–la. Quando Emília apareceu, o soldado perguntou–lhe, respeitosamente, se não tinha visto passar ninguém. Como ela afirmasse ter tido a impressão de distinguir um vulto, ele deu–lhe as boas noites e prosseguiu a ronda pelo terraço, desaparecendo quase logo. O soldado estava de sentinela e não podia ultrapassar certos limites; Emília aguardou o seu regresso.
Não tardou a ouvi–lo soltar grandes gritos. Uma voz mais afastada respondeu–lhe, o posto deu sinal de alarme e um destacamento inteiro passou a correr debaixo da sua janela.
Se fosse vaidosa, Emília teria suposto que um habitante do castelo se aventurara a vir até ali para a contemplar e declarar–lhe os seus sentimentos, mas essa ideia nem sequer lhe ocorreu. Além disso, esse alguém guardara silêncio e quando ela tentara falar–lhe, afastou–se.
Enquanto ela se perdia em conjecturas, duas sentinelas passaram, conversando. Por algumas palavras, depreendeu que um dos homens havia desmaiado. Pouco depois, mais três homens se aproximaram devagar. Dois deles amparavam o terceiro, que falava em voz fraca. Quando chegaram perto, Emília chamou–os e perguntou–lhes se alguma coisa se tinha passado. Os homens pararam, informando–a de que Roberto, o companheiro por eles amparado, tivera uma alucinação e, ao desmaiar, soltara um grito.
— Costuma ter dessas visões?
— Costumo, sim, mademoiselle — declarou Roberto — Mas embora já as tivesse tido, o que vi esta noite bastaria para assustar o próprio Papa.
— O que viu então? — perguntou Emília a tremer.
— Não posso bem dizer. Não sei como apareceu nem como desapareceu — respondeu o soldado, que estremecia só de o recordar.
— Seria a pessoa que perseguiu quando passou aqui quem lhe provocou tão grande terror? –insistiu Emília, tentando dominar o seu mau estar.
— A pessoa! Diga antes o diabo, faz favor. Não foi a primeira vez que o vi.
— E não será a última — acrescentou um dos camaradas, soltando uma gargalhada.
— Podes fazer troça à vontade, Sebastião. Mas não rias tanto quando há dias estavas de sentinela com o Lancelot.
— Há dias? Quando?
— Há uma semana. O mesmo vulto apareceu na muralha, do outro lado, mademoiselle. Eu estava de guarda com o Lancelot. De repente, o meu camarada perguntou me: “Vês alguma coisa, Sebastião?”
“Não” — respondi, olhando para a esquerda. “Repara além, ao pé do canhão”. Olhei e, de fato, pareceu– me ver qualquer coisa. Mas, como não havia luar, não pude distinguir bem. Ficámos calados. Essa tal coisa deslizou ao longo da muralha e aproximou–se de nós.
— Deviam ter tentado agarrá–lo — observou o outro soldado que até aí se conservara em silêncio.
— Se lá estivesses tê–lo–ias feito? Serias capaz de agarrar o diabo? Só se estás habituado a essas familiaridades com ele. Mas, como ia dizendo, o vulto desapareceu de repente e durante o resto da noite não voltou a aparecer. No dia seguinte de manhã, contámos aos nossos camaradas, mas eles não quiseram acreditar e ainda troçaram de nós. Só esta noite, segundo afirma o Roberto, tornou a mostrar–se.
— Quando deixou de o ver, meu amigo? — perguntou Emília a Roberto.
— Depois de lhe falar, mademoiselle, continuei ronda até à muralha de leste. Como estava luar, vi uma sombra, fugindo diante de mim. Parei junto da torre e segui–a com a vista até ela desaparecer debaixo do arco. Ouvi também um som estranho: não era suspiro nem grito nem gemido, mas uma coisa muito diferente de tudo quanto tenho escutado até hoje. Não sei o que depois aconteceu. Quando' voltei a mim, encontrei–me no meio dos meus camaradas.
— Vamos — ordenou Sebastião — regressemos ao nosso posto. Boa–noite, mademoiselle.
— Boa noite, meus amigos. Que a Santa Virgem os proteja!
Fechou a janela e foi sentar–se na poltrona para refletir melhor no estranho incidente que tão bem se relacionava com as aparições anteriores. Procurou tirar conclusões mais racionais, mas a sua imaginação estava ainda muito exaltada e o raciocínio muito obliterado pelos terrores supersticiosos para conseguir formular ideias claras.