Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 16 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XV. Visita Noturna

XV

Visita Noturna

Seriam duas horas quando Emília, em cujo espírito perturbado se confundiam imagens confusas e aterradoras, conseguiu adormecer. Poucos minutos decorreram, quando despertou com ligeiro ruído que partia do próprio quarto. Trémula, pôs–se a escutar. Não ouviu coisa alguma, o silêncio era profundo. Supondo ter sido despertada por um desses barulhos imaginários que muitas vezes ouvimos em sonhos, voltou a deitar a cabeça na almofada.

No mesmo instante, o ruído recomeçou e partia do lado da escada. Recordou o estranho incidente da noite anterior e o fato de alguém ter fechado a porta. Gelada de terror, soergueu–se no leito, afastou os cortinados devagarinho e olhou. O candeeiro, que ainda estava aceso em cima do fogão, projetava uma claridade muito fraca, que deixava na sombra os recantos do quarto. O ruído que partia do lado da porta continuava a fazer–se ouvir. Era uma espécie de ranger surdo e contínuo, como se tentassem abrir os ferrolhos. Emília fixava a porta quando a viu abrir–se, lentamente, para dar passagem a alguém que, devido à escuridão, não pôde distinguir quem era. Quase morta de medo, teve, contudo, a força de vontade suficiente para reprimir o grito de terror prestes a sair–lhe dos lábios. Observava o vulto que deslizava rente às paredes, parando de vez em quando. O intruso chegou junto do fogão, parou, agarrou no candeeiro e caminhou direito à cama. Nesse momento, a luz despertou o cão que dormia aos pés de Emília. O animal saltou para o chão e, ladrando furioso, atirou–se ao desconhecido, que o repeliu com a espada metida na bainha. Quando se aproximou mais, Emília reconheceu o conde Morano.

Aterrada, via–o aproximar. Quando chegou junto dela, o conde suplicou–lhe que não tivesse medo e, largando a espada, quis pegar–lhe na mão.

Bendizendo o receio profético que lhe inspirara a ideia de se deitar vestida, Emília saltou da cama e correu para a porta pequena. Morano alcançou–a na altura em que punha o pé no primeiro degrau, no mesmo instante em que ela recuara por ter visto outro homem parado a meio da escada.

Soltou um grito. Não podia haver dúvida. Montoni entregara–a ao conde.

Este, tendo conseguido pegar–lhe na mão, arrastou–a para o meio do quarto.

— Escute–me, Emília! Não venho para lhe fazer mal porque a amo, demasiado talvez para o repouso da minha alma.

— Largue–me! — gritou Emília desvairada — Largue–me, imediatamente.

O conde não obedeceu e continuou:

— Amo–a e estou desesperado, sim, desesperado. Como posso olhar para si, pensando que será talvez esta a última vez que a vejo, e não morrer de dor? Não será assim, não! Há–de ser minha a despeito da vontade de Montoni, das suas sórdidas manobras.

— A despeito da vontade de Montoni? — repetiu

Emília — O que diz?

— Que Montoni é um miserável! — exclamou Morano com violência — Estava disposto a vendê– la ao meu amor e ...

— Aquele que estava disposto a comprar–me seria menos miserável do que ele? — protestou Emília num brado de indignação, olhando–o com desprezo — Saia, saia imediatamente, ou darei alarme a todo o castelo e obterei da justa cólera de Montoni a proteção que não consegui da sua piedade.

Bem sabia a infeliz quanto a ameaça era vã e que ninguém poderia ouvir os seus apelos.

— Não espere coisa alguma de Montoni. Atraiçoou–me por forma indigna, mas a minha vingança será tremenda. Quanto a si, Emília, tenho a certeza de que planeia a seu respeito um negócio mais vantajoso do que o primeiro.

Em seguida, aproveitando o espanto em que as suas palavras mergulhavam a sua vítima, prosseguiu:

— Não estou aqui para falar de Montoni, mas sim para a libertar. Venho implorar–lhe piedade para o meu sofrimento, pedir–lhe que nos salve, a mim do desespero e a si mesma das maiores desgraças. Emília, os projetos de Montoni são de tal forma que nem sequer pode concebê–los. Aquele homem não tem princípios nem honra quando a ambição e o interesse o inspiram, E eu que a adoro não posso deixá– la em seu poder. Fuja desta sinistra prisão! Comprei os criados, as portas estão abertas. Amanhã de manhã poderemos estar em Veneza.

Emília estava aniquilada. Sentia–se perdida por todos os modos. Incapaz de responder ao conde ou mesmo de pensar, deixou–se cair numa cadeira. Começava a compreender e a adivinhar como as coisas se haviam passado. Montoni vendera–a ao conde, mas, talvez engodado por promessas mais vantajosas, mudara de opinião. Só de pensar no que a esperava no castelo de Udolfo a enchia de horror. Seria possível que a sua única salvação fosse a proteção daquele homem, Junto de quem os perigos seriam ainda maiores, perigos cuja perspectiva não podia prever?

O seu silêncio reanimou as esperanças de Morano que a olhava com impaciência. A despeito de todos os seus esforços, pegou–lhe na mão, comprimiu–a contra o peito e suplicou–lhe que se decidisse. Cada minuto de demora — afirmava — mais perigosa tornava a fuga; um instante perdido poderia proporcionar a Montoni ocasião para os surpreender.

— Acabe com essas importunidades — intimou Emília numa voz que tentava tornar firme — Sou infeliz, é verdade, mas terei de continuar assim. Deixe–me entregue ao meu destino.

— Nunca! — protestou o conde com energia –Nunca, antes morrer! Perdoe–me esta violência, mas a ideia de que posso perdê–la transtorna–me a razão. Ignora até que ponto Montoni pode chegar? Sim, deve ignorá–lo. Doutra forma, não hesitaria entre o meu amor e a sua tirania.

— Não hesito — declarou Emília.

— Nesse caso, partamos — decidiu Morano, beijando–lhe a mão — O carro espera–nos junto dos muros do castelo.

— Está enganado, conde. Agradeço–lhe o interesse que manifesta por mim, mas permita–me que eu própria seja o árbitro do meu destino. Fico sob a proteção de Montoni.

— Sob a sua proteção! — exclamou Morano — Pois não lhe disse já o que essa proteção significa?

— Desculpe–me se, nestas circunstâncias, eu não confio em palavras. Exijo provas.

— Provas! Como se eu tivesse tempo para lhes dar!

— E eu não tenho tempo para o escutar, conde.

— Zomba da minha paciência e da minha dor? O casamento com um homem que a adora afigura– se–lhe assim tão terrível? Alguém me roubou o coração que devia pertencer–me. Se é assim, desgraçado dele!

Ao proferir estas palavras, o conde passeava de cá para lá no aposento, como se estivesse louco.

— Esses arrebatamentos e essa violência, conde Morano — protestou Emília em voz branda — mais confirmam a minha resolução. Não posso amá–lo nem vou consigo, porque, se tivesse a desgraça de confiar em si, sairia de uma opressão para ficar debaixo de outra. Se pretende levar–me a mudar de ideias, deixe de perseguir–me. Caso contrário, obrigar–me–á a expô–lo à cólera de Montoni.

— Pode fazê–lo! Sempre quero ver se ele se atreve a desafiar–me e afrontar o homem a quem ofendeu! Mostrar–lhe–ei em que consiste a justiça, a moral e, principalmente, a vingança. Ele que venha e eu lhe mostrarei com a espada na mão.

A cólera do conde foi para Emília novo motivo para susto. Levantou–se, mas as pernas tremiam– lhe tanto que não conseguiu dar um passo. Olhou com ansiedade para a porta do corredor que se encontrava fechada. Não poderia fugir sem Morano dar por isso.

Recorreu às súplicas.

— Conde Morano — murmurou, quando conseguiu falar — acalme–se, suplico–lhe. Está tão enganado no seu ódio como no seu amor. Não posso corresponder–lhe e com certeza me faz a justiça de reconhecer que nunca o encorajei. Quanto a Montoni, como poderia ele ofendê–lo? Com que direito dispunha de mim? Que promessas poderia o conde exigir dele? Esqueça isto tudo, será melhor e abandone o castelo; não queira arrostar com as consequências de uma vingança injusta e com os remorsos por ter aumentado os meus sofrimentos.

— É a minha segurança ou de Montoni que defende assim? — perguntou o conde, fitando Emília com ar irônico.

— Ambas — respondeu ela com firmeza.

— Vingança injusta! — protestou o conde como se fosse essa a única frase de Emília a impressioná–lo — O castigo será sempre inferior à natureza do ultraje que me infligiu. Sairei do castelo, mas não sozinho. Não quero ser, por mais tempo, joguete e vítima nas suas mãos. O que as súplicas não conseguiram, consegui–lo–à a força. Os meus criados estão ali. Vão levá–la para o meu coche. Serão inúteis choros e gritos. Bem sabe que ninguém pode ouvi–los. Submeta–se e deixe–se conduzir em silêncio.

A intimação tornava–se supérflua. Emília, esmagada pelo terror, não poderia levantar–se da cadeira onde se deixara cair, pálida e trémula, nem conseguiria gritar. Morano aproximou–se dela para a auxiliar a erguer–se. Emília limitou–se a protestar com voz fraca:

— Conde Morano, estou em seu poder, mas lembre–se de que com semelhante procedimento nunca alcançará de mim a afeição que pretende. Prepara um futuro de remorso, abusando de uma órfã sem amigos, que o Destino pôs à sua mercê. Só um coração muito endurecido poderá ser testemunha impassível dos sofrimentos a que me condena.

Foi interrompida pelo ladrar do cão que se precipitou entre ela e Morano, como se adivinhasse ser ele o único defensor da sua dona. O conde, porém, dirigindo–se ao homem que se encontrava na escada, gritou: “Cesário!”

Depois voltou–se para a infeliz rapariga e num tom resoluto, afirmou:

— É a Emília quem me impele a empregar meios extremos para a obrigar a ser minha mulher. Mas, por Deus o juro, não consentirei que Montoni a venda a outro e, para o evitar, vou raptá–la. Vamos, Cesário. avia–te!

O homem precipitou–se no quarto e atrás dele, na escada, ouviram–se os passos de muitos outros. Emília soltou um grito, enquanto Morano lhe pegava no braço e a arrastava. De repente, ouviu–se barulho no corredor, o cão precipitou–se para a porta ladrando, o conde hesitou um instante e esta abriu–se com estrondo. Montoni, seguido pelo velho criado e por outros homens, entrou no quarto.

— Em guarda! — gritou, empunhando a espada.

O conde não esperou por segundo desafio. Entregado Emília aos seus homens que enchiam a escada, voltou–se' desembainhando também a sua — Vamos, infame! — gritou, caindo a fundo.

Montoni aparou o golpe e tentou, por seu lado, atingí–lo, enquanto alguns dos presentes procuraram separá–los, os outros tiravam Emília das mãos dos criados de Morano.

— Foi para isto, conde — protestou Montoni com ironia — foi para isto que o acolhi em minha casa e lhe permiti, a si, meu inimigo declarado, passar aqui a noite? Paga a minha hospitalidade com indigna traição, raptando minha sobrinha?

— Como se atreve a falar de traição sem corar? Se existe um traidor aqui, é o senhor, Montoni!

— Covarde! — vociferou o Italiano, conseguindo libertar–se das mãos daqueles que tentavam agarrá–lo.

Saíram os dois para o corredor e o combate foi tão furioso, tão encarniçado, que ninguém se atreveu a aproximar–se dos contendores. De resto, Montoni jurava que se alguém tentasse separá–los o atravessaria com a sua espada.

O ciúme e a vingança dementavam Morano. Montoni, mais hábil, tinha ainda a vantagem de conservar o sangue frio.

O primeiro ferimento foi ligeiro em qualquer deles; depois, Montoni vibrou terrível golpe ao conde, que caiu nos braços de um criado. Apoiando–lhe a ponta da espada no peito, o vencedor exigiu que lhe pedisse desculpa. Morano balbuciou algumas palavras de recusa. Montoni dispunha–se a enterrar–lhe o punhal no coração, mas Cavigny deteve–o e a muito custo conseguiu convencê–lo a renunciar à vingança total. Mas, apesar do seu adversário estar vencido e inanimado, ordenou que o levassem para fora do castelo.

Nesse instante, Emília, que não tivera a coragem de sair do quarto durante o duelo, correu para o corredor e, evocando os deveres de humanidade, implorou a Montoni que concedesse ao ferido os cuidados necessários ao seu estado. Montoni, porém, insensível à compaixão, parecia mais do que nunca desejoso de vingança e repetiu a ordem, sabendo que, nos arredores, estava tudo coberto de neve e só existia uma cabana para abrigar o moribundo.

Os criados do conde, no entanto, juraram que não o levariam sem ele dar sinais de vida. Os de Montoni também não davam um passo para obedecer. Cavigny arriscou, timidamente, algumas objecções. Só Emília, com a coragem inspirada pela compaixão, se atreveu a afrontar a cólera do Italiano. Foi buscar água e ordenou aos criados que tratassem do ferido. Montoni, por fim, sentindo dores na própria ferida, retirou–se para a examinar.

Entretanto, o conde voltou a si pouco a pouco e a primeira pessoa a quem viu foi Emília, curvada para ele, observando–o com inquieta solicitude.

— Mereci o castigo — murmurou — mas não da mão de Montoni. Era de si, Emília, e a sua compaixão inflige–me.

Como o conde tivesse recuperado os sentidos, Emília dispunha–se a recolher ao quarto, quando um criado apareceu com uma ordem de Montoni, intimando–a a abandonar o corredor. Acrescentava ainda que, se o conde Morano ainda não tinha partido, lhe ordenava que saísse imediatamente do castelo. O conde corou de raiva e indignação.

— Diga ao seu amo que deixarei o castelo quando me convier e abandoná–lo–ei como se abandona o covil de uma fera. Mas não será a última vez que ouve falar de mim, garanto–lhe. Quero afirmar–lhe que, se o puder impedir, não consentirei que sobrecarregue a sua consciência com novo crime.

— Conde Morano — interrompeu Cavigny — sabe o que está a dizer?

— Muito bem e ele também compreenderá o que pretendo dizer. A consciência avivar–lhe–á a memória.

— Conde Morano! — bradou Varezzi, que até ali se limitara a desempenhar o papel de espectador — Se continua a insultar o meu amigo, enterro–lhe este punhal no coração.

— Faça–o. Essa ação será digna do amigo de um infame.

A violência da indignação deu–lhe forças para se erguer, amparado pelo criado. A sua energia, porém, era fictícia. Esgotado pelo esforço, voltou a cair. Os criados de Montoni levaram Varezzi, que parecia disposto a pôr em prática a ameaça. Cavigny, menos brutal, obrigou–o a sair dali. Emília que, retida pela compaixão, se conservara no corredor, dispunha–se a recolher ao quarto quando Morano a deteve; com a voz e com o gesto, o ferido pediu–lhe para se aproximar. Compadecida pelo sofrimento expresso nas feições transtornadas, acedeu e curvou–se para ele.

— Deixo–a para sempre. Se nunca mais a vir, gostaria que me concedesse o seu perdão e ... também um pouco de interesse.

— Dou–lhe o meu perdão e faço votos pela sua rápida cura.

— Apenas pela minha cura?

— E pela sua felicidade — acrescentou Emília.

— Devia estar contente, porque não mereço mais... mereço muito menos, até. Mas ainda me atrevo a pedir–lhe, Emília, para pensar algumas vezes em mim. Esqueça as ofensas e recorde, simplesmente, a paixão insensata que me inspirou e que foi a causa...

Emília mostrava–se impaciente por se retirar.

— Conde, suplico–lhe. Pense na sua vida e não fique aqui mais tempo. Tremo ao pensar nas consequências que poderiam ter os arrebatamentos de Varezzi e o ressentimento de Montoni, se soubessem que ainda não se tinha ido embora.

Morano corou.

— Interessa–se pela minha sorte? Sendo assim, obedecer–lhe–ei.

E pegou–lhe na mão para a levar aos lábios.

— Adeus, conde Morano.

Nessa altura, recebeu novo recado de Montoni, ordenando–lhe que lhe fosse falar. Apressou–se a obedecer.

Estava na sala contígua à sala grande. Estendido num sofá, sofria cruelmente, mas não se queixava. Poucas pessoas teriam demonstrado tanta coragem. O semblante sombrio e duro exprimia ódio e vingança, mas não sofrimento pelas dores que suportava. Nunca cedera à dor física, mas apenas às crises violentas da alma.

Emília, tremendo, aproximou–se do sofá. Recebeu dura repreensão por ter teimado em ficar no corredor e reconheceu que Montoni atribuía a desobediência a sentimentos que nem sequer lhe passavam pela cabeça.

— Eis uma prova do capricho das mulheres! — exclamou o ferido — Já devia calcular. Quando eu protegia o conde, recusou–o, e quando eu o afasto, favorece–o.

— Eu! — protestou Emília — Não compreendo. Com certeza, não vai supor ter eu aprovado ou solicitado a visita do conde ao meu quarto.

— Suponho que um interesse anormal a levou a defendê–lo e, a despeito das minhas ordens, a permanecer junto de um homem cuja presença sempre evitou até hoje.

— Receio que nesta casa a compaixão seja considerada, de fato, um sentimento anormal. Como poderia eu presenciar o estado em que o conde se encontra sem procurar socorrê–lo? ... Só o senhor teve coragem para o fazer.

— Temos sarcasmos! — comentou Montoni, franzindo a testa — Mademoiselle faz ironia! ... Mas antes de pensar em dar lições aos outros, pense primeiro em praticar as virtudes que temos direito de exigir de todas as mulheres, isto é, a sinceridade, a modéstia e a obediência.

Emília, que toda a sua vida se esforçara por pautar o seu procedimento conforme as leis da delicadeza e das virtudes citadas por Montoni, ficou magoada com esta linguagem imerecida e não respondeu.

Nesta altura, Ludovico apareceu para comunicar que o conde Morano fora transportado para uma cabana que ficava perto do castelo e Montoni, tranquilizado com esta notícia, voltou–se para Emília e disse–lhe que Podia retirar–se.

A sobrinha de madame Montoni obedeceu com prazer a esta ordem, mas, não podendo conformar– se com ideia de se deitar, novamente, naquele quarto onde todos podiam entrar à vontade, foi bater à porta do quarto da tia, a fim de lhe pedir para lhe ceder Annette.

Madame Montoni estava muito tranquila. Calculando que ignorasse o acontecido e a forma como o marido havia sido ferido, Emília contou–lhe com grande precaução. Todavia, reconheceu, com grande espanto, que a tia já estava ao fato de tudo. Não ignorava ter madame Montoni razões de sobejo para não amar o marido, mas nunca a supôs capaz de semelhante indiferença. Obtida a autorização para levar Annette consigo, retirou–se logo.

Um rasto de sangue tingia o corredor até à porta do seu quarto e, no sítio onde os dois homens se tinham batido, havia grande poça. Emília começou a tremer e viu–se obrigada a amparar–se ao braço de Annette.

Quando entrou no quarto, o seu primeiro cuidado foi examinar a porta que dava para a escada. Encontrou–a aferrolhada por fora e o máximo que pôde fazer foi pedir a Annette para a auxiliar a barricá–la com os móveis mais pesados que puderam arrastar.

Por fim, deitou–se, e Annette acomodou–se numa poltrona, perto do fogão onde ardiam ainda uns restos de lenha.