Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XLIII. História da “Signora” Laurentini de Udolfo
XLIII
História da “Signora” Laurentini de Udolfo
Estranhas circunstâncias distraíram Emília das suas preocupações, despertando–lhe tanta surpresa como horror.
Poucos dias depois da morte da Italiana, o seu testamento foi aberto na presença da superiora do convento e de Bonnac. Verificaram que legava um terço da sua fortuna à parente mais próxima da marquesa de Villeroy e essa parente era Emília.
Havia muito tempo que a superiora conhecia o segredo, mas Saint–Aubert, ao confiá–lo ao padre que lhe assistira nos últimos momentos, pedira para nunca o revelarem à filha. No entanto, as singulares palavras proferidas pela signora Laurentini e a confissão feita à hora da morte tornaram necessária uma explicação entre a superiora e Emília. Ficou então sabendo pormenores que muito a impressionaram.
Como a narrativa da superiora não mencionou certas circunstâncias, que podem interessar o leitor, e como a história da religiosa estava, estreitamente, ligada à da marquesa de Villeroy, substituiremos a conversa das duas por uma narrativa sucinta da vida da falecida irmã Inês.
A signora Laurentini era a única descendente da casa de Udolfo. A primeira infelicidade da sua vida, a origem de todas as outras, foi a indesculpável indulgência dos pais que, em vez de moderarem a violência das suas paixões nascentes, deixaram desenvolver, livremente, todos os seus instintos. Para mais, a morte prematura levou–os, deixando–a numa idade perigosa, nova e bonita. A Italiana adorava os divertimentos, embriagava–se com os elogios e desprezava a opinião pública, sempre que esta se encontrava em contradição com as suas inclinações. Possuía espírito brilhante, vivacidade e todo o encanto próprio para subjugar os outros. O seu procedimento foi de molde a deixar adivinhar que a fraqueza dos princípios igualava a força das paixões.
Entre os seus numerosos admiradores, figurava, em primeiro lugar, o marquês de Villeroy, um dos mais atraentes fidalgos franceses. Encontrou Laurentini em Veneza e apaixonou–se, loucamente, por ela. Por seu lado, a signora ficou logo subjugada pela boa aparência e qualidades do marquês. Soube tão bem ocultar–lhe os defeitos de caráter e as manchas da passada conduta, que o fidalgo pensou desposá–la.
Porém, antes do casamento, foi obrigada a ir ao castelo de Udolfo e o noivo acompanhou–a. Ter– se–ia ela mostrado menos prudente, menos cautelosa do que fora até ali, a ponto de o marquês conceber certas dúvidas sobre a conveniência daquele casamento? Fosse como fosse, abriu um pouco os olhos sobre os perigos que a sua honra poderia correr, e a mulher que devia ser sua esposa tornou–se, simplesmente, sua amante.
Depois de passar algumas semanas em Udolfo, foi chamado a França. Partiu contrariado, pois continuava sempre muito apaixonado pela Italiana a quem prometeu regressar logo que os seus negócios estivessem resolvidos e até levar por diante o projeto de casamento.
Animada com a promessa, Laurentini não opôs obstáculos à partida. Entretanto, Montoni visitou Udolfo e renovou as propostas de casamento já rejeitadas em tempos e de novo rejeitadas naquela altura. O marquês de Villeroy era o único senhor do seu coração. Exaltada pelo delírio da paixão, contava os dias e as semanas que a separavam da época provável do regresso do amante. Porém, o prazo terminou e o marquês não apareceu. Então tornou–se insuportável e o seu cérebro, preso a uma ideia fixa, começou a dar indícios de desarranjo. Decorreram muitos meses e não recebia notícias de Villeroy. Os seus dias passavam–se em violentos ataques de desespero ou em períodos de extremo abatimento. Isolava–se, fechava–se no quarto semanas seguidas, sem querer ver ninguém. Escrevia cartas, relia as que em tempos recebera do marquês e contemplava o seu retrato, ora para lhe dirigir ásperas censuras, ora para o cobrir de lágrimas e protestos de amor.
A certa altura, correu o boato de ter Villeroy casado em França. Devorada pelo ciúme, louca de cólera, decidiu partir para esse país e, se fosse verdade, vingar–se. Confiou o projeto à criada de quarto a quem convenceu a acompanhá–la. Reuniu todas as suas joias, cujo valor era imenso, partiu em segredo para Livorno e daí embarcou para França.
Quando chegou ao Languedoc soube que, de fato, o marquês estava casado havia algum tempo. A notícia quase lhe roubou a razão. Concebia projetos sobre projetos para logo os abandonar, pensando apunhalar o marquês, sua mulher, e até apunhalar–se a si mesma. Acabou por decidir–se a procurá–lo, censurar–lhe a indignidade e matar–se a seus pés. Mas quando encontrou o homem que sempre fora o alvo dos seus pensamentos e do seu amor, a cólera desvaneceu–se, a coragem enfraqueceu e, vencida pelo embate de tantos pensamentos contraditórios, caiu desmaiada a seus pés.
O marquês não ficou insensível a tanta beleza e paixão. O ardor dos antigos sentimentos despertou, pois tinha sido a razão e não a indiferença que o havia afastado da amante. Reconheceu não lhe consentir a honra desposá–la e afastou–se. Escolheu uma companheira digna, por quem professava profunda estima e de quem gostava com uma afeição calma, sem transportes de paixão. Por seu lado, a nova marquesa, não conseguiu, com as suas virtudes e ternura, ocultar–lhe uma espécie de frieza. O marido começara a suspeitar de que o coração de sua mulher já estava preso antes de casar com ele, quando a Italiana apareceu. Desde o primeiro encontro, esta adivinhou não ter enfraquecido o império que exercia no coração do amante e, acalmado o ciúme com esta convicção, resolveu envolvê–lo cada vez mais na teia dos seus encantos para o levar a cometer um crime diabólico. Seguiu à risca este plano com infernal dissimulação e imperturbável paciência, acabando por afastar o marquês da bondosa e honesta esposa, cuja tímida meiguice formava completo contraste com os ardentes transportes da Italiana. Procurou excitar nele o ciúme do orgulho e amor próprio, visto não existir amor, chegando a ponto de lhe apontar o homem com quem, afirmava, a marquesa o atraiçoava. Ao mesmo tempo, exigiu–lhe a promessa de não tirar vingança do rival; era, segundo calculava, o meio de concentrar toda a cólera vingativa do marido sobre a cabeça de sua infeliz mulher e prepará–lo para executar o horrível crime tantas vezes meditado, única forma de destruir o obstáculo que a separava da felicidade.
Entretanto, a inocente marquesa verificava, com doloroso espanto, a mudança operada nos modos do marido. Tornou–se pensativo, reservado, tratando–a com frieza e até com dureza. Quantas vezes a deixava lavada em lágrimas, abandonada durante muitas horas, lamentando a sua indiferença e formando mil projetos para lhe reconquistar o coração. Este procedimento desprezador e injusto feria–a ainda mais porque, tendo casado com o marquês por obediência ao pai, lhe sacrificara sem pensamento reservado outra afeição na qual esperava encontrar a verdadeira felicidade. A cruel Laurentini, ao fato deste segredo, soube tirar partido deste primeiro amor, tão corajosamente dominado pela marquesa de Villeroy. Apontou ao marquês tantas provas da aparente infidelidade da esposa, que, no auge da cólera provocada pelo suposto ultraje, este proferiu odiosas ameaças, que significavam uma sentença de morte. Ministrou um veneno lento a sua mulher, que morreu vítima do duplo ciúme, ou antes, da aliança de um ódio hábil e de culposa fraqueza.
Porém, o triunfo da Laurentini pouco durou e o instante que supunha ser o da felicidade foi, de fato, o início de um suplício que durou toda a sua vida.
A sede de vingança, uma vez satisfeita, deixou–a a braços com o remorso inútil e profunda compaixão pela vítima. Os anos de felicidade, que sonhara ter junto do marquês, foram ensombrados por tristes recordações, porque também ele vergava ao peso dos remorsos e a sua cúmplice tornou–se–lhe odiosa. As provas consideradas irrefutáveis, com o tempo tornaram–se em simples fantasias e, aterrado, descobriu, quando já não havia remédio, ter castigado uma inocente.
Sob o impulso do desespero, pensou entregar–se à justiça com a pérfida a mulher que o impelira para o abismo. Atenuada esta crise, mudou de resolução, mas quando voltou a encontrar–se com a Laurentini, amaldiçoou–a, como responsável pelo crime. Afirmou poupar–lhe a vida apenas para que ela a dedicasse a expiação, à oração e à penitência. Esmagada pelo ódio e desprezo do homem por cujo amor se manchara com um assassínio inútil, cheia de horror por si mesma, esta vítima de uma paixão desenfreada, abandonou o mundo e professou no convento de Santa–Clara.
O marquês abandonou o castelo de Blangy onde nunca mais voltou. Tentou adormecer os remorsos no tumulto da guerra e nas dissipações da capital, mas em vão. Como final de uma vida de dolorosa agitação, que os amigos não conseguiam explicar, morreu dilacerado por torturas morais idênticas às da antiga amante. O médico, que examinara a marquesa depois de morta, fora reduzido ao silêncio a peso de oiro. As suspeitas dos criados não passaram de vagos boatos e o caso nunca mais foi falado. Se ele chegou aos ouvidos do pai da marquesa e não perseguiram o marido por falta de provas, ninguém pôde afirmá–lo. A família chorou–a sinceramente, sobretudo Saint–Aubert, seu irmão — era este o parentesco entre o pai de Emília e a marquesa–que suspeitou da causa da morte da irmã adorada. Por várias vezes escreveu ao marquês que lhe respondeu e esta correspondência, conjuntamente com as cartas da marquesa, confiando ao irmão os seus desgostos, constituíam os papéis que Saint–Aubert, ao morrer, pedira à filha para destruir. O interesse pelo seu repouso inspirou–lhe o desejo de mantê–la sempre na ignorância desta trágica história. Por outro lado, o desgosto provocado pela morte prematura da irmã impediu–o de falar nela, principalmente diante de Emília, cuja excessiva sensibilidade receava. Exigira também à outra irmã, madame Chêron, que guardasse segredo e esta cumpriu, escrupulosamente, este desejo.
Ao ler as cartas da irmã e ao beijar o seu retrato, Saint–Aubert chorara na véspera da partida. O cruel fim da infeliz explicava a comoção sentida quando Voisin proferira o nome da marquesa e desejou ser sepultado junto do mausoléu dos Villeroy, porque a marquesa ali dormia o seu último sono.
Na altura em que chegou a França, a signora Laurentini ocultou, cuidadosamente, o seu nome e, quando professou no convento de Santa–Clara, para dissimular a sua verdadeira história, inventou outra, a mesma que mais tarde a irmã Francisca contou a Emília. Os remorsos e a recordação do seu fatal amor acabaram por lhe transtornar o juízo. Às violentas crises de desespero sucediam–se períodos de profunda melancolia. Durante muitos anos comprazia–se em vaguear pelo bosque, tocando alaúde e cantando com voz melodiosa. O médico que a tratava recomendou à superiora que não a contrariasse, para não provocar ataques mais perigosos. Deixavam–na, portanto, de noite, percorrer os bosques em redor do castelo, acompanhada pela criada de quarto que levara consigo. Mas como esta tolerância era contrária a todas as regras da ordem, combinaram mantê–la secreta; eis por que a música, além de outras circunstâncias misteriosas, confirmou o boato de ser o castelo e seus arredores frequentados pelos espíritos.
Antes de pronunciar votos, a signora Laurentini fez testamento. Além do importante legado feito ao mosteiro, dividiu a sua fortuna entre a esposa de Bomnac e a mais próxima parente da marquesa de Villeroy.
Contudo, o crime que, iludida pela confissão e remorsos da Italiana, Emília supôs ter ela cometido no próprio castelo de Udolfo, não passava de imaginação. O espetáculo terrível, que tão grande impressão lhe causara, não era verdadeiro.
Por certo, se recordam de existir numa das salas do castelo de Udolfo um quadro coberto com uma cortina preta, que Emília se atrevera a levantar. E o espetáculo gelou–a de horror. Em vez de quadro viu um corpo cujo rosto estava desfigurado pela lividez da morte, meio coberto com uma mortalha e deitado numa espécie de caixão. O fato do corpo aparentar estar já roído pelos vermes, tornava o quadro ainda mais tremendo. Tanto nas faces, como nas mãos tornavam–se evidentes os vestígios dessa destruição. Compreende–se como Emília não se atreveu a olhar duas vezes para coisa tão repugnante. Deixou cair o cortinado e nunca mais lá voltou. No entanto, se tivesse tido a coragem de o observar melhor, o terror e o erro ter–se–iam desvanecido e reconheceria não passar o suposto cadáver de um boneco de cera. Não era raro encontrarem–se figuras como esta, naquela época em que a humanidade vivia subjugada pela superstição monástica. Um dos membros da casa de Udolfo atreveu–se a ofender a supremacia da Igreja e foi condenado a contemplar, durante algumas horas em cada dia, a figura de um cadáver, feita de cera. Esta penitência, destinada a lembrar–lhe a sorte inevitável de todos nós, era o castigo do seu orgulho que tanto ofendera Roma. Não só ele o suportou, rigorosamente, como pensou transmiti–lo aos seus herdeiros. Exigiu fosse o boneco conservado e encaixado numa espécie de nicho na parede do seu quarto. Infelizmente, os seguintes senhores de Udolfo pouco ou nenhum caso fizeram deste instrumento de mortificação.
Emília, que ouvira falar na estranha desaparição da castelã e tendo fortes razões para suspeitar de Montoni, facilmente acreditou ser aquele corpo o dela e o Italiano o seu assassino.
Sabendo ser a marquesa de Villeroy irmã de seu pai, foi dominada por sentimentos bem diversos. À tristeza causada pelo fim prematuro de uma pessoa tão' infeliz, sucedeu–se a alegria por ver desvanecidas as suspeitas sobre o seu nascimento e honra de seus pais. Custava–lhe duvidar dos princípios rígidos de Saint–Aubert e de admitir ser filha de outra mulher que não fosse aquela a quem sempre respeitara e adorara como sua mãe. No entanto, a sua semelhança com a defunta marquesa, o procedimento de Doroteia, as exclamações da signora Laurentíni e os misteriosos laços que supunha existirem entre a marquesa e o pai, tudo isso lhe inspirara dúvidas cuja confirmação a razão não podia admitir nem por outro lado destruir; quando, porém, as viu desvanecidas, sentiu–se imensamente feliz.
Restou–lhe no coração uma compaixão infinita pelo infortúnio da sua infeliz tia e pelo terrível castigo sofrido pela culpada, o que constituía proveitosa lição.
A indulgência para com os seus defeitos, conduziu gradualmente a Italiana a um crime, cuja hipótese, no princípio da sua vida, bastaria para a fazer recuar espavorida e cuja recordação não pôde ser apagada, nem mesmo atenuada na sua consciência, por muitos anos de penitência e de remorso.