Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXII. A Cilada
XXII
A Cilada
No dia seguinte, Annette comunicou a Emília um recado de Bernardino, relativo à entrevista da véspera. Pedia–lhe para ir ter com ele, sozinha, à uma hora da noite, ao mesmo ponto onde se haviam encontrado. Ele a conduziria à torre onde a tia estava presa. Quando recebeu este recado, todas as suspeitas de Emília, ou antes, os pressentimentos, despertaram de novo. Pensou que Bernardino a enganava e que, tendo já sido o carrasco da tia, continuava a ser o instrumento de Montoni, disposto a sacrificá–la à sua cupidez.
— Annette, como será possível eu atravessar o terraço a semelhante hora? As sentinelas deter–me– ão e o senhor Montoni ficará sabendo.
— Foi, justamente, o que Bernardino me disse, mademoiselle. Ele pensou em tudo. Entregou–me esta chave, encarregando–me de lhe dizer que É a de uma porta que fica na extremidade da galeria abobadada, e comunica, precisamente, com a muralha de leste. E não receie ser surpreendida pelos guardas. Pediu–lhe para ir ter com ele ao terraço para poder levá–la onde deseja sem passar pela sala grande cuja grade faz muito ruído ao abrir–se.
Esta explicação, muito natural, tranquilizou Emília.
— Por que exige ele que eu vá sozinha?
— Também lhe fiz essa pergunta. “Por que razão não posso acompanhar a minha senhora? Que mal tem? ” Respondeu–me com um não brutal. Mademoiselle sabe onde vai, calculo?
— Ele não te disse?
— Não, mas desconfio.
Emília verificou estar Annette ao corrente da prisão de madame Montoni na torre principal. Como soubera? Annette não quis revelá–lo, para provar que também sabia guardar um segredo.
Durante todo o dia, o espírito de Emília se debateu entre sentimentos contraditórios de dúvida, receio e hesitação. A noite chegou sem ela ter tomado uma resolução. O relógio bateu as onze, depois as doze e ela ainda hesitava. Mas o tempo corria e impunha–se tomar uma decisão. O desejo de ver a tia acabou por sobrelevar o medo. Saiu do quarto, pedindo a Annette que a acompanhasse até à galeria. O castelo estava mergulhado no silêncio e quando atravessaram a sala grande só os seus passos despertavam o eco das profundas arcadas; à fraca claridade das lanternas, as duas sombras deslizavam como dois fantasmas. Por vezes, Emília parava, tendo a impressão de que via alguém escondido atrás dos pilares; depois reconhecia o erro e prosseguia. Chegando à extremidade da galeria, abriu a porta, pediu a Annette para não se afastar, entregou–lhe a lâmpada e saiu para o terraço. As trevas eram profundas. Avançou, apurando o ouvido, procurando em vão distinguir Bernardino. Teve um sobressalto quando ele lhe falou, mesmo a seu lado. Exato à entrevista, já a aguardava, encostado ao parapeito da muralha. Censurou–a por chegar atrasada, afirmando terem já perdido uma boa meia–hora. Emília não lhe respondeu, limitando–se a segui–lo quando ele se encaminhou para outra porta. Quando ia a transpô–la, olhou para trás e viu a débil claridade da lanterna que entregara a Annette. A criada continuava no seu posto, esperando pela patroa. “Voltarei?” — foi o pensamento de Emília, enquanto seguia o seu guia. para lá da porta havia uma espécie de corredor, iluminado por um archote pousado no chão. Emília teve medo e recusou–se a ir mais adiante, se Annette não a acompanhasse. Bernardino, porém, protestou, entremeando palavras duras com pormenores sobre madame Montoní, que excitaram por tal forma sua compaixão que mais uma vez cedeu e o acompanhou até à porta principal.
Bernardino ia adiante, iluminando o caminho com um archote. No fim do corredor, abriu uma porta. Alguns degraus conduziam à capela em ruínas. Emília examinou com terror as paredes fendidas, cobertas de bolor esverdeado, a abóbada desmoronada em muitos pontos, as janelas góticas cujos vitrais haviam desaparecido para dar passagem à hera e outras trepadeiras bravas cujas folhagem se enroscava em volta dos capitéis. Bernardino tropeçou numa pedra e soltou tremenda praga, que ecoou, estranhamente, naquele santo lugar. O coração de Emília tremeu mas, mesmo assim, continuou a segui–lo até uma das caves laterais da capela.
— Vamos descer–avisou o homem, apontando nova escada que devia ir ter à cripta
Parou e a tremer perguntou–lhe para onde a conduzia.
— Para a torre da porta principal.
— Não podíamos ir pela porta da capela?
— Não, signorina. Teríamos de atravessar o segundo pátio, e eu não quero arriscar–me a ser descoberto. Este caminho conduz–nos lá sem perigo. Vamos, não posso ficar aqui toda a noite.
Depois destas palavras proferidas com impaciência, continuou a andar, levando a luz, o que obrigou Emília a segui–lo, apesar dos seus receios cada vez maiores. No fim da escada meteram por um corredor subterrâneo cujas paredes ressumavam humidade. A espécie de nevoeiro que os envolvia era tão intensa que Bernardino chegou a recear se lhe apagasse o archote. Parou um instante para dar tempo a que ele se ateasse. Durante esta paragem, Emília distinguiu a seu lado uma grade, para lá da qual viu um monte de terra que parecia tirado de uma cova, recentemente aberta. Fosse onde fosse, semelhante espetáculo infundir–lhe–ia pavor, mas naquelas circunstâncias pior ainda. Ocorreu–lhe ser a cova da tia e que o porteiro a levava ali para a matar também. Aquele local oculto nas profundezas da terra parecia– lhe o mais próprio para se consumar um assassinato sem perigo, sem que ninguém pudesse descobri–lo. Trémula de medo, não sabia o que fazer. Fugir, nem pensar nisso. A extensão do caminho percorrido e as mil voltas dadas impediam–na de voltar a fazê–lo sem ter quem a guiasse. Além disso, as pernas vergavam–lhe e não podia dar um passo. Pálida de terror e ansiedade, aguardou que Bernardino reavivasse o archote. Não conseguia desviar a vista da cova e não pôde deixar de perguntar para quem a destinavam. O porteiro, porém, contentou–se em abanar a cabeça e continuou a andar sem lhe responder. Atingiram, por fim, nova escada de pedra que subiram e encontraram–se no pátio principal, limitado pelas altas muralhas. Profundas arcadas, fechadas por grades, deixavam entrever o vulto do castelo com os seus torreões atarracados, que formavam estranho contraste com as imensas torres da entrada. Neste cenário sombrio, destacava a figura lúgubre e disforme de Bernardino, envolta no clarão do archote. Estava embuçado num capote cinzento, comprido, por baixo do qual apareciam as grossas sandálias presas com fitas entrelaçadas nas pernas e a ponta do sabre que trazia a tiracolo. Na cabeça, uma espécie de boina preta adornada com pequena pluma. As feições, fortemente acentuadas, revelavam instintos perversos e caráter astucioso, rabugento e intratável.
Todavia, quando se encontrou no pátio, Emília ficou mais sossegada. Começou a confiar em Bernardino e a considerar insensatos os seus receios. Ao atravessar o vasto quadrilátero, olhou para a janela que ficava por cima do arco abobadado e perguntou ao seu guia se era a do quarto onde estava presa madame Montoni, estranhando por não ter luz. Como falou em voz baixa, talvez o homem não a tivesse ouvido, porque não lhe respondeu. Continuaram a andar até que, parando junto de uma das torres, ele declarou:
— A signora está presa lá em cima. Suba.
O clarão do archote, batido pelo vento, iluminou em cheio o rosto sinistro do guia e o aspecto sombrio do local onde se encontravam! Paredes ásperas, uma escada de caracol, escura e antiga, de cujas paredes pendiam algumas armaduras ferrugentas e armas seculares.
Chegando ao primeiro andar, Bernardino abriu uma porta.
— Entre para este quarto e espere aqui por mim. Vou avisar a signora da sua visita.
— É desnecessária a precaução — protestou–Emília — minha tia ficará contentíssima quando me vir.
— Como pode garanti–lo? Entre para aqui — teimou, apontando–lhe o quarto — Eu já volto.
Ficou surpreendida e magoada com estes modos bruscos, mas não se atreveu a protestar. Como ele se preparasse para levar o archote, suplicou–lhe para não a deixar às escuras. O homem olhou em volta de si e, vendo o candelabro de três braços suspenso do teto, dependurou–o, acendeu–o e entregou–lhe.
Depois dele fechar a porta, a prisioneira teve a impressão de que tinha descido em vez de subir. Todavia, o assobiar do vento engolfando–se na escada não lhe permitiu que o som dos passos chegasse, distintamente, até aos seus ouvidos. Por cima, no quarto que Bernardino afirmara ser, o da tia, não se percebia o mais pequeno ruído. A sua ansiedade era cada vez maior. No entanto, pensou que numa torre daquelas, a espessura das paredes devia ser obstáculo para a transmissão do som. Pouco depois, no entanto, quando o vento abrandou um pouco, ouviu os passos de Bernardino no pátio e até a sua voz. Aproximou–se da porta e tentou abri–la devagarinho. Porém, verificou estar fechada pela parte de fora. Então, todos os seus temores renasceram. Tudo aquilo era a confirmação dos pressentimentos que tivera sobre o seu destino fatal. Madame Montoni devia ter sido assassinada naquele quarto onde acabava de ser encerrada para sofrer a mesma sorte.
Ao clarão de um archote colocado, possivelmente, sob o arco da entrada, viu, projetada no pavimento do pátio, a sombra de um homem, mas outras sombras que se moviam à volta indicaram–lhe não estar ele sozinho.
Quando conseguiu recuperar um pouco de sangue frio, pegou no candelabro e percorreu todos os recantos do quarto, na esperança de encontrar meio de fugir. O aposento era vasto, com as paredes revestidas de madeira de cedro. Além da porta por onde havia entrado, viu uma janela gradeada. Como mobiliário, uma única cadeira de ferro, colocada ao centro da casa, do qual pendia forte corrente, presa ao teto por um anel do mesmo metal. Examinando este objeto, reparou, num misto de surpresa e horror, numas barras de ferro que deviam servir para prender os pés, e em argolas soldadas aos braços da cadeira. Adivinhou que aquela máquina infernal devia ser um instrumento de tortura e que, possivelmente, um desgraçado preso com aquelas cadeias teria morrido de fome. Sentiu–se gelar até à medula dos ossos e recuou para o fundo do quarto. Olhou em volta, procurando uma cadeira ou banco onde pudesse sentar–se. Só então reparou numa espécie de cortinado negro, que pendia do teto até ao chão, ocultando uma parte do aposento. No estado de espírito em que se encontrava, aquela cortina inspirou–lhe instintivo terror e ficou imóvel, sem poder dar um passo para se aproximar dela. Qualquer coisa lhe dizia que por trás se ocultava um mistério. Desejava, e ao mesmo tempo receava, afastá–la. Duas vezes estendeu a mão e duas vezes a deixou cair, recordando o terrível espetáculo entrevisto na sala vermelha do castelo. De súbito, ocorreu–lhe o pensamento de que o corpo da tia assassinada se encontrava ali escondido. Então, sem hesitar, afastou a cortina... Viu, efetivamente, o cadáver de um homem, lívido, com as feições contraídas pelo sofrimento desfiguradas pela morte. O sangue inundava o sofá baixo em que estava estendido e corria para o chão das inúmeras feridas que tinha no rosto. Emília fitou o tremendo quadro com olhar alucinado; o candelabro caiu–lhe da mão e a pobre menina tombou no chão sem sentidos.
Quando voltou a si, viu–se rodeada por desconhecidos e nos braços de Bernardino, que a transportava para fora do quarto. Teve a consciência do que se passava, mas a fraqueza não lhe permitiu articular um som ou opor a menor resistência. Desceram a escada, passaram o arco em abóbada e depois pararam. Um dos homens tirou o archote das mãos de Bernardino e abriu a porta da esplanada. Lá fora encontravam–se numerosos cavaleiros. Talvez o ar fresco reanimasse Emília ou o aspecto daqueles homens lhe restituísse a consciência do perigo. Fosse pelo que fosse, conseguiu gritar e debater–se nos braços que a prendiam, tentando libertar–se.
Entretanto, Bernardino pedia para lhe restituírem o archote. Responderam–lhe vozes afastadas. Arrastaram Emília para fora e levaram–na para junto de um homem que auxiliava outro a selar o cavalo. Rodeavam–nos outros homens, cuja fisionomia aterradora sobressaía ao clarão dos archotes.
— Para que perdem tempo! — protestou Bernardino, soltando uma praga, apurando o ouvido para os lados do castelo — Vamos, aviem–se! — Está quase pronta — replicou o homem que compunha a sela, enquanto Bernardino praguejava de novo contra o descuido que ocasionava tanta demora.
Emília, que gritava por socorro sem que os seus débeis gritos pudessem ouvir–se, foi arrastada para o meio dos cavaleiros, que discutiam para resolver qual deles lhe cederia o cavalo, visto o dela ainda não estar pronto.
Nessa altura, a porta do castelo abriu–se para dar passagem a um grupo tumultuoso. Emília distinguiu a voz esganiçada de Annette e viu Montoni e Cavigny aproximarem–se, seguidos por numerosos homens de armas. A sua aparição não lhe causou medo, mas antes alegria, pois não pensava sequer nos perigos que a esperavam no castelo donde ansiava por fugir, Os novos perigos entrevistos afiguravam–se–lhe muito maiores.
Travou–se rápida luta da qual Montoni e os seus homens saíram vitoriosos. Os cavaleiros, em menor número e talvez pouco interessados na aventura em que se haviam metido, fugiram a galope. Bernardino aproveitou a escuridão da noite para desaparecer e Emília foi reconduzida ao castelo.
Durante o trajeto, recordou com horror o que tinha visto no quarto da torre e, quando ouviu a porta fechar–se com estrondo e cair a grade que de novo a prendia entre aquelas sinistras paredes, estremeceu e, esquecendo o perigo que acabava de correr, pensou, quase com pesar, que estivera a dois passos da vida e da liberdade.
Montoni ordenou–lhe que fosse esperá–lo na sala de cedro onde pouco depois apareceu para a interrogar com severidade sobre a misteriosa aventura. A infeliz, conquanto visse nele o assassino da tia e mal conseguisse ocultar o horror que a sua presença lhe inspirava, conseguiu responder–lhe com firmeza e dignidade e convencê–lo de que não tinha sido cúmplice da conspiração. Montoni mandou–a embora quando na sala entrou todo o pessoal do castelo, convocado para ver se descobria o culpado.
Quando recolheu ao quarto, Emília encontrava–se em tal estado que mal podia recordar o que se havia passado. Não conseguia afastar do pensamento o cadáver oculto atrás da cortina. Soltou um gemido que assustou Annette, a quem não tinha revelado a terrível ocorrência com receio da vingança de Montoni.
Obrigada a guardar consigo mesma tão pavoroso segredo, quase se sentia enlouquecer. Fixava a criada com olhar alucinado e sem expressão, quando esta lhe falava não a ouvia ou respondia–lhe com palavras sem nexo; depois voltava a confinar–se num mutismo e imobilidade assustadores. De vez em quando, soltava um suspiro, mas não podia chorar.
Annette assustou–se e correu a prevenir Montoni do estado da patroa. O castelão, que acabava de interrogar os criados, sem ter conseguido saber o que pretendia, apressou–se a segui–la até ao quarto da sobrinha.
Quando lhe ouviu a voz, a pobre menina, como se débil raio de luz lhe tivesse penetrado no cérebro, levantou–se e recuou, lentamente, até ao fundo do quarto. Enquanto Montoni lhe falava num tom mais brando do que o habitual, examinou–o com expressão misto de curiosidade e terror e respondeu–lhe com um sim a todas as perguntas, como se de tantas impressões recebidas, apenas subsistisse a do medo.
Quando Montoni saiu, voltou–se para Annette e perguntou–lhe quem era aquele homem. A criada disse–lhe o nome que ela repetiu, maquinalmente, voltando a cair na sua apatia. Cada vez mais assustada, Annette encaminhou–se para a porta, no intuito de ir pedir a uma das criadas para passar a noite com ela. Emília. Porém, vendo–a afastar, chamou–a e, em tom lamentoso, suplicou–lhe para não a abandonar ali sozinha.
— Todos me abandonaram depois da morte do meu querido pai! — lamentou.
Ao recordar o pai, as lágrimas subiram–lhe aos olhos. O choro aliviou–a, restituindo–lhe a calma. Annette auxiliou–a a meter–se na cama e, tão dedicada como simples, esqueceu o terror que lhe inspirava aquele quarto e toda a noite velou pelo sono da desventurada rapariga.