Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 20 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XIX. A Torre de Leste

XIX

A Torre de Leste

No dia seguinte de manhã, Emília foi visitar a tia, logo que se levantou. Esta, reanimada por uma noite calma, recuperara o espírito combativo e mostrava–se mais do que nunca decidida a resistir a Montoni.

A sobrinha, prevendo as consequências desta obstinação, empregou todos os esforços para a dissuadir, esforços que tiveram como resultado irritar–lhe o orgulho, que sempre exigira e conseguira obediência. Se algum dia pudesse fugir do castelo, contava afrontar a tirania do marido, conseguir que a lei lhe consentisse separar–se dele e continuar a viver na abastança com o dinheiro que lhe restava. Emília, conquanto partilhasse estes desejos, não tinha ilusões sobre a impossibilidade de os realizar. Fez–lhe ver a dificuldade de transpor as portas do castelo, guardadas como estavam, o extremo perigo de se confiar a um criado, que poderia atraiçoá–la de propósito ou por estupidez, e como seria terrível a vingança de Montoni se descobrisse a conspiração. Madame Montoni debatia–se em pensamentos contraditórios quando o marido apareceu.

Sem atender ao estado de saúde de sua mulher, vinha para saber o resultado do ultimato e dava–lhe todo o dia para se resolver. Se não cedesse, nessa noite já iria dormir para a torre de leste. Entretanto, intimava–a a fazer as honras da casa a uma dezena de cavaleiros que deviam jantar no castelo. Emília também teria de a acompanhar. Depois desta ordem categórica, que não admitia réplica, saiu do quarto.

Emília ficou apavorada com a ideia de aparecer diante de semelhantes convidados. No entanto, não podia recusar–se e foi preparar–se para o jantar. Vestiu–se ainda com maior simplicidade do que de ordinário, a fim de passar despercebida. Mas quando voltou ao quarto da tia, Montoni censurou–lhe os hábitos, que classificou de puritanos e ordenou–lhe para se preparar com o trajo e joias destinados às festas do seu casamento com o conde Morano. Esses vestidos que não haviam sido feitos segundo o figurino de Veneza, mas sim de Nápoles, cingiam–lhe o busto de modo a evidenciar–lhe as formas perfeitas. Os lindos cabelos castanhos, entrançados com pérolas, caíam–lhe pelas costas. Uma simplicidade e gosto requintado caracterizavam este trajo, e a beleza de Emília nunca atingira tanto esplendor. Quando entrou na sala onde fora servida a magnífica refeição, Montoni e os seus convidados já se encontravam sentados à mesa. Dispunha–se a sentar–se ao lado da tia, quando o dono do castelo fez um sinal e dois dos cavaleiros levantaram–se, dando–lhe lugar entre eles. Oito pessoas, além dos senhores do castelo, assistiam ao banquete e todos eles tinham no semblante um cunho de ferocidade, astúcia ou libertinagem. A festa desenrolava–se numa grande sala cuja abóbada assentava em colunas de mármore, formando uma espécie de nave, que se prolongava até ao fundo, sombria como uma igreja. Uma só janela, alta, de estilo gótico, iluminava a cena; pela porta aberta, de par em par, avistava–se a torre de oeste e, ao longe, as montanhas dos Apeninos.

Emília, inquieta, observava Montoni e os outros convidados, recordando a pátria, a sua linda casa, os amigos tão dedicados que talvez não voltasse a encontrar.

Notou que o castelão mantinha para os outros uma atitude autoritária bem vincada e que, por seu lado, eles lhe demonstravam não servilismo, mas uma espécie de deferência.

O assunto da conversa foi sempre a guerra e a política. Falaram de Veneza, dos perigos de ali viver, do caráter do Doge e dos senadores. Quando a refeição estava quase no fim, os convidados levantaram–se e, enchendo os copos de cristal, saudaram Montoni e beberam ao triunfo das suas empresas.

Montoni, para agradecer, levantou–se também e levou o copo aos lábios. De repente, porém, o vinho espumou, transbordou e o copo estilhaçou–se. Servia–se, habitualmente, de um copo desse cristal de Veneza cuja propriedade consiste em estalar quando lhe deitam vinho alterado por certos venenos.

Suspeitando de que um dos seus convidados tentara contra a sua vida, Montoni mandou fechar todas as portas, desembainhou a espada e com olhar fulgurante bradou para a estupefata assistência:

— Entre nós está um traidor! Que todos os inocentes me auxiliem a encontrar o culpado.

O tumulto foi tremendo e, num instante, todos desembainharam as espadas. Os criados, arrastados para o meio da sala, protestaram a sua inocência. No entanto, estava provado que o vinho servido a Montoni tinha veneno. O mordomo, pelo menos, devia ser cúmplice do assassino. Por ordem do castelão, esse homem e outro criado, cuja fisionomia revelava uma consciência culpada, foram atirados para uma masmorra. Montoni teria tratado da mesma forma todos os seus convidados, se a tanto se tivesse atrevido. Contentou–se em Jurar que não deixaria sair ninguém dali enquanto o caso não estivesse esclarecido. Quanto a sua mulher, ordenou–lhe, duramente, que recolhesse aos seus aposentos, permitindo a Emília que a acompanhasse. Todavia, mal as duas entraram no quarto, alguém fechou a porta à chave pelo lado de fora.

Entretanto, o tumulto e a confusão eram cada vez maiores na sala donde partia uma vozearia e até o tinir das espadas. As provocações de Montoni, o seu arrebatamento e violência levaram–no a declarar que só pelas armas o caso podia ser resolvido. A ansiedade que dominava as duas pobres senhoras mais aumentou quando alguém bateu com força na porta. Sossegaram quando ouviram a voz de Annette.

— Abram a porta — pedia — Tenho muito para lhes contar.

— Está fechada e não temos a chave.

— Santo Deus! O que vai ser de nós!

— Auxilia–nos a sair daqui — pediu madame Montoni — Vai buscar socorro. Onde está Ludovico?

— Na sala, lutando com os outros.

— Meu Deus! — exclamou Emília — Já há feridos?

— Há, sim, mademoiselle. Estão muitos caídos no chão, cobertos de sangue. Meu Deus! Faça o possível para eu entrar. Vêm aí, ouço–o na escada. Vão matar–me!

— Foge, foge! — gritou Emília — Nós não podemos abri–te a porta.

Annette gritou outra vez que os ouvia chegar e fugiu.

— Acalme–se, tia — pediu Emília, pois madame Montoni tremia como varas verdes — acalme–se. Talvez Montoni tenha sido vencido e venham libertar–nos.

Mas a chave girou na fechadura, a porta abriu–se e o próprio Montoni apareceu.

Emília estremeceu ao ver–lhe o aspecto ameaçador e olhar fulgurante.

— Foi então a senhora quem me obrigou a verter o sangue dos meus melhores amigos? A senhora, a autora da criminosa tentativa de envenenamento?

Madame Montoni ficou muda de espanto.

— De nada lhe serve negar. Tenho provas do seu crime. Confesse e talvez lhe perdoe. O seu cúmplice já confessou tudo.

Emília, morta de medo, sentiu as forças renascer perante acusação tão atroz. Madame Montoni nem conseguia falar e as suas faces passavam do tom lívido ao rubor da indignação.

— Nada de protestos! — bradou Montoni, vendo–a disposta a defender–se — Bastava a sua atitude para a trair. Vai ser conduzida para a torre de leste.

— Senhor! — bradou madame Montoni que recuperara o uso da fala — Essa indigna acusação não passa de um pretexto odioso, inspirado pela sua crueldade. Não me rebaixo a defender–me.

— Está enganado, senhor! — protestou Emília por sua vez — Essa acusação é falsa. Juro–o pela minha vida.

— Se tem amor à vida, cale–se! — ordenou Montoni. Depois voltou–se para sua mulher que, refeita do primeiro choque, repelia com veemência tão injustas suspeitas. A sua cólera redobrava com a consciência da injustiça. Emília, temendo as consequências, lançou–se entre os dois. Ajoelhou e abraçou–se aos joelhos daquele homem cruel, implorando–o sem palavras, apenas com um olhar que comoveria uma fera. Ele, porém, não abrandou nem com o estado de sua mulher nem com as lágrimas da sobrinha e, chamando os dois acólitos que o acompanhavam, ordenou–lhes:

— Cumpram o que lhes disse.

Madame Montoni soltou um grito, mas os homens agarraram–na e levaram–na, imediatamente.

Emília caiu desmaiada na cadeira a que se amparava. Quando voltou a si estava só. Percorreu o aposento com olhar desvairado, como se perguntasse a tudo quanto a rodeava qual fora o destino da tia. No primeiro momento, nem a lembrança do perigo que ela própria corria, nem a ideia da fuga lhe ocorreram ao pensamento.

Por fim, levantou–se e aproximou–se da porta, sem esperança de poder sair dali. Felizmente, encontrou–a aberta. Percorreu a galeria em passo vacilante. O seu primeiro impulso foi saber o que acontecera a madame Montoni. Desceu à sala onde os criados costumavam reunir–se. Encontrou–a deserta. Enquanto descansava um bocadinho para prosseguir as pesquisas, ouviu um murmúrio de vozes que, pouco a pouco, se tornava mais forte. Levantou–se na ideia de fugir, mas os homens aproximavam– se pelo único caminho que poderia tomar. Resolveu aguardar a sua entrada na sala e ocultou–se num recanto. Ouviu também fortes gemidos que a gelaram de terror. Quatro entraram, trazendo nos braços um ferido, coberto de sangue e arquejante. A infeliz quase desmaiou com o tremendo espetáculo. Chamando a si toda a sua coragem, conseguiu por fim deslizar para a porta e fugir da sala sem olhar para trás, sem ver quem era o ferido nem os quatro homens, que o estenderam no chão. Estes também não haviam dado por ela.

Percorrendo corredores desviados e tortuosos, conseguiu, por fim, chegar ao seu quarto.

Trémula, sentou–se perto da janela, escutando com atenção e observando toda a extensão da muralha que o seu olhar podia alcançar. Não viu nem ouviu ninguém, Muitas horas se passaram no meio deste silêncio e abandono. Nem visitas nem qualquer recado. Dir–se–ia que Montoni a havia esquecido.

O Sol ocultou–se atrás das montanhas, os seus raios, atravessando as nuvens, tomaram um tom de púrpura cada vez mais carregado e em breve se desvaneceram, afogando a paisagem em sombras... As sentinelas tomaram os seus postos e a ronda começou.

Com a noite e a obscuridade que reinava no quarto, o medo de Emília redobrou. A sua imaginação febril criou imagens fantásticas e pensamentos terríveis.

“Meu Deus! — pensava — Se um daqueles homens aproveita as trevas para se introduzir no meu quarto!

Depois recordou–se do quarto misterioso que ficava tão perto do seu e novos terrores a assaltaram.

“Embora esteja ali fechado, aquele homem não deve ser um prisioneiro, porque não foi Montoni quem fechou a porta. É esse desconhecido quem a fecha por dentro”.

O seu primeiro cuidado foi, como habitualmente, ir verificar se a portinha que dava para a escada secreta estava fechada e barricou–a com todos os móveis que conseguiu arrastar.

A tarefa durou até à meia noite. Vagarosamente, o relógio da torre bateu as doze badaladas. Ouviu o passo do soldado que ia render o camarada. Devagarinho, abriu a porta para o corredor. A calma e o silêncio eram absolutos. Pegou no candeeiro e saiu do quarto, tomando por uma galeria que conduzia à escada do lado sul, calculando que daí lhe seria mais fácil encontrar o caminho para a torre onde a tia se encontrava presa. Parava de vez em quando para escutar e habituar–se à escuridão dos grandes corredores. Quando conseguiu atingir a escada que procurava, encontrou–se diante de duas galerias. Qual delas escolher? Meteu por uma delas que, por sua vez, terminava noutra galeria mais larga. A solidão e o silêncio que reinavam naquelas paragens aterravam–na. O eco dos próprios passos metia–lhe medo.

De súbito, teve a impressão de ouvir falar. Parou, sem se atrever a avançar ou recuar. Mal se atrevia a erguer os olhos do chão. Ouvia alguém soltar tristes lamentos. Supondo ser madame Montoni, recuperou a coragem e dirigiu–se para o ponto donde lhe parecia vir a voz. Ao mesmo tempo, temia revelar a sua presença, com receio de encontrar algum indiscreto que fosse denunciá–la a Montoni. Enquanto hesitava, a voz mais uma vez se fez ouvir. Chamava por Ludovico. Emília reconheceu Annette e, contente, aproximou–se.

— Ludovico! — soluçava Annette num tom desesperado — Ludovico!

— Não é o Ludovico, sou eu, Emília! A criada deixou de gemer.

— Se abrisses a porta eu poderia entrar — pediu Emília — Nada tens a recear.

— Ludovico, meu Ludovico! — gemeu de novo Annette.

Emília perdeu a paciência e dispunha–se a retirar. Depois pensou que talvez Annette soubesse indicar–lhe o caminho da torre, insistiu e acabou por obter resposta. Porém, não foi a desejada. Annette desconhecia o destino de madame Montoni. Entre lágrimas, limitou–se a suplicar que lhe dissesse onde estava Ludovico. Emília, que desconhecia tudo quanto se havia passado, perguntou–lhe como se encontrava ali fechada.

— Foi ele quem me fechou aqui. Depois de ter batido à porta de madame Montoni, fugi espavorida e encontrei Ludovico na galeria. Mandou–me entrar para este quarto e fechou–me à chave, a fim de não me acontecer mal, segundo afirmou. Prometeu voltar para me libertar quando tudo sossegasse. Mas já passou muito tempo e ele não aparece nem ouvi falar dele! Que teria acontecido, meu Deus!

De repente, Emília recordou o ferido que haviam transportado para a sala. Calculou ter sido Ludovico, mas não o disse a Annette. Impaciente por saber o que havia sido feito da tia, pediu à criada para lhe indicar o caminho para a torre.

— Não vá, mademoiselle! Não me deixe sozinha.

— Não posso entrar nem tu sair. Não pensas por certo que eu vá passar a noite na galeria. Indica– me o caminho para a torre e amanhã de manhã pensarei em fazer–te sair daí.

— Virgem Santa! Terei de passar aqui a noite? Morrerei de medo e de fome.

Noutra qualquer altura, Emília teria rido das perplexidades de Annette. Com muitos rogos, conseguiu obter dela vagos esclarecimentos sobre o caminho a seguir para a torre e, depois de várias voltas, encontrou, por fim, a escada. Parou um instante para fortificar a coragem com a consciência do dever. E precisava de muita. A imagem da tía apunhalada por Montoni obcecava–a. Expulsou do pensamento estas ideias sinistras e começou a subir, encomendando–se à misericórdia de Deus. A certa altura, baixou os olhos e descobriu um rasto de sangue. Todos os degraus e até as paredes estavam salpicados. Cambaleou e quase deixou fugir o candeeiro da mão. Para se amparar, encostou a mão a parede, sentindo–a viscosa debaixo dos dedos, que também ficaram tintos de vermelho. Estremeceu de horror, mas, chamando a si toda a sua coragem, continuou a subir. Não se ouvia o mais pequeno ruído, dava a impressão de que na torre não existia um ente humano. Emília, de si para si, lamentou ter empreendido semelhante aventura, mas, estando tão perto do fim, como poderia recuar? Chegando a meia altura da escada, viu uma porta e abriu–a, a fraca claridade do candeeiro iluminou uma espécie de patamar de paredes nuas e húmidas do qual partia nova escada, cujos degraus também estavam manchados de sangue. Continuou a subir. As manchas vermelhas eram sempre maiores. Trémula, atingiu por fim o topo onde esbarrou com outra porta. A escada acabava ali. Emília mal se tinha de pé. Ia adquirir a certeza daquilo que suspeitava, porém, no último momento hesitava. Tentou abrir a porta, mas não conseguiu. Bateu, chamou pela tia e não obteve resposta. O silêncio era profundo.

— Morreu! — exclamou — Mataram–na. É o seu sangue que tinge estes degraus!

Quase desfalecida, pousou o candeeiro no chão e sentou–se num degrau. Quando sentiu renascer as forças, levantou–se e voltou a chamar... sempre o mesmo silêncio! Depois de ter renovado a tentativa para abrir a porta sem o conseguir, abandonou, precipitadamente, a torre, e resolveu regressar ao seu quarto.

Ao entrar no corredor avistou Montoni. Ocultou–se num recanto para não ser descoberta. Ouviu–o fechar uma porta, a mesma da véspera, e os seus passos desvanecerem–se pouco a pouco. Só então entrou no quarto. Deitou–se, mas não apagou a luz.