Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 34 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XXXIII. O Solar de Blangy

XXXIII

 

O Solar de Blangy

Voltemos ao Languedoc, para junto do conde de Villefort, o herdeiro dos domínios do marquês de Villeroy, situados nas proximidades do mosteiro de Santa–Clara. Não esqueceram, por certo, que a propriedade não estava habitada quando o acaso levara Emilla e o pai àquelas paragens. Recordam também a comoção de Saint–Aubert quando soube encontrar–se perto do castelo de Blangy e das palavras que haviam despertado a curiosidade de Emília.

Em 1584, no ano em que Saint–Aubert morreu, Francisco de Beauveau, conde de Villefort, tomou posse do imenso domínio de Blangy, herdado por morte do marquês de Villeroy, seu parente, homem de caráter sombrio e modos extremamente reservados. Durante os últimos anos da sua vida, o marquês havia abandonado, completamente, o castelo. E como o velho porteiro e sua mulher, em vez de tomarem conta dele, o abandonaram também, este chegou ao mais triste estado de ruína. O conde decidiu–se, por fim, a passar ali o Outono, a fim de assistir às reparações, vencendo com muito custo a resistência da condessa sua mulher, que não desejava sair de Paris e afastar–se dos salões onde a sua beleza imperava. A sombra misteriosa dos bosques, a grandiosidade das montanhas, a solidão imponente dos grandes salões góticos e das compridas galerias cujos ecos o passo vacilante do velho criado mal conseguia despertar, as badaladas sonoras do antigo relógio, tudo isso constituía triste perspectiva para a elegante parisiense. Do seu primeiro casamento, o conde tinha um filho e uma filha, a quem resolveu levar consigo: Henrique, com vinte anos e já no exército, e

Branca, que ainda não tinha dezoito anos e fora educada num convento em Paris, onde a madrasta a internara. O receio de que a beleza nascente da enteada ofuscasse a sua, levou–a a prolongar a reclusão de Branca; foi, portanto, com íntimo desgosto que teve conhecimento da resolução do marido. Consolava–a a ideia de que a enteada saía do convento para enterrar essa beleza num sítio ermo onde não poderia prejudicá–la.

Quanto a Branca, foi considerado como um dos mais belos dias da sua vida aquele em que abandonou o convento para gozar a sua liberdade num mundo onde — supunha — ela– reinava o prazer e a bondade. Quando a sineta tocou e ela viu no pátio o coche do pai. saltou de alegria, e a religiosa que foi buscá–la para a conduzir à sala onde a condessa aguardava, afigurou–se–lhe um anjo encarregado de lhe abrir as portas do céu. Isso não a impediu de chorar ao separar–se das condiscípulas e ao dizer adeus para sempre à clausura que supunha abandonar a rir.

A companhia do pai e as distrações da viagem deram novo curso aos seus pensamentos. Sem dar atenção à conversa que a condessa mantinha com mademoiselle Béarn, sua dama de companhia, entregou–se à contemplação das belezas que a Natureza radiosa desdobrava ao seu olhar.

Na tarde do sétimo dia, os viajantes avistaram Blangy, cuja situação romântica causou profunda impressão no espírito da rapariga, À medida que se aproximavam, notava os pormenores da arquitetura gótica do velho edifício: primeiro a torre fortificada que se erguia por cima do bosque, a arcada em ruínas da gigantesca porta. Quase o considerou um castelo feudal, teatro de antigas lendas, onde os cavaleiros traidores, espreitando pelas ameias, aguardavam a chegada do campeão, revestido com a sua armadura negra, que vinha arrancar a dama dos seus pensamentos à tirania do seu rival. Lera uma aventura semelhante na biblioteca do convento que, como todas as dessa época, estava cheia de antigas crónicas.

Os coches pararam diante da porta que conduzia ao parque. A grande sineta que devia servir para anunciar a chegada de visitas, não se encontrava no seu lugar. Um criado trepou ao muro meio arruinado para avisar os guardas do castelo da chegada do senhor.

A porta abriu–se por fim e o coche avançou pela alameda ladeada de frondosos castanheiros, que mal deixavam passar a claridade do dia. Era a mesma pela qual Emília se aventurara, no dia em que procurava auxílio para o pai doente.

— Que feia moradia! — comentou a condessa, à medida que avançava — Com certeza não vai obrigar–me a passar neste deserto selvagem todo o Outono? — concluiu, voltando–se para seu marido, que logo demonstrou o seu desagrado.

— Decidirei conforme as circunstâncias — replicou o conde — E este deserto selvagem, esta feia moradia, foram o berço dos meus antepassados.

O coche parou no pátio onde o velho porteiro aguardava o amo com os criados chegados de Paris dias antes, a fim de prepararem o castelo.

Branca notou que nem toda a habitação era de estilo gótico. Haviam–lhe acrescentado novas construções mais modernas. A sala imensa e escura onde entrou não era, porém, desse número, nem tão pouco a sala revestida de madeira de cedro onde a condessa se dispôs a descansar. O veludo verde dos estofos que cobriam os móveis antigos, adornados com franjas de oiro, mais contribuía para o aspecto lúgubre do estranho aposento.

Enquanto a condessa pedia para lhe servirem alguns refrescos e o conde com o filho visitava o resto da casa, Branca foi obrigada a presenciar o mau–humor da madrasta.

— Como conseguem viver nesta triste habitação? — perguntou a condessa à criada, quando esta entrou para a cumprimentar — Há quantos anos aqui estão?

— Faz vinte anos para o S. Jerónimo, senhora condessa– informou a velhota.

— E vivem sozinhos neste ermo, quase sem socorros?

— Não habitávamos o palácio. Quando o defunto senhor marquês partiu para a guerra e a casa ficou deserta, eu e meu marido julgámos morrer. Fomos viver para a orla da floresta, perto dos lenhadores e, de tempos a tempos, vínhamos aqui para ver como estava tudo. A guerra acabou, mas o senhor marquês aborreceu o castelo e nunca mais voltou a habitá–lo nem sequer o visitou. Como tudo está diferente do que foi noutros tempos! Como a minha falecida ama apreciava isto! Ainda me lembro do dia em que chegou aqui, recém–casada. Era tão linda! Nunca mais verei outra como ela!

A condessa ficou ofendida com as apreciações da boa mulher. Mandou–a embora com modos bruscos e recolheu aos seus aposentos.

Entretanto, Branca, aproveitando a pouca claridade do dia, que estava prestes a findar, corria de galeria em galeria, de janela em janela, admirando ora a majestade dos bosques, ora os tons purpurinos do relvado, batido pelos raios do Sol já no ocaso, ora o distante oceano prateado pelo luar nascente. Era tudo tão belo que não podia dominar o seu entusiasmo.

— Como pude viver tanto tempo sem contemplar este espetáculo, sem experimentar estas deliciosas sensações? A mais humilde camponesa dos domínios de meu pai pôde admirar estas maravilhas desde criança, e eu, metida num convento, ignorava todos os esplendores da Natureza! Nunca, até hoje, assisti ao declínio do Sol e amanhã, pela primeira vez também, vê–lo–ei nascer em toda a sua glória. Como se pode viver em Paris, com as suas ruas sujas e os prédios altos e sombrios, quando aqui, em pleno campo, se contempla o azul do céu e as galas verdejantes da Natureza!

A sua exaltação foi perturbada pelo ruído dos passos de alguém que entrou na sala onde se encontrava. Voltou a cabeça e viu a velha Doroteia que se dispunha a fechar as janelas. Ao vê–la, recuou.

— Assustei–me. Ainda bem que, é a mademoiselle.

O tom em que proferiu estas palavras surpreendeu

Branca.

— Sim, parece assustada, Doroteia — observou.

— Não, não estou assustada. Mas sou velha e tudo me perturba, eis o que foi. Sinto–me feliz por o senhor conde se ter instalado aqui. Deus seja louvado, o castelo vai reviver. Mas... como veio ter a esta sala? Perdeu–se? Vou conduzi–la à outra ala do castelo.

Branca seguiu–a. Pelo caminho perguntou–lhe onde conduzia uma porta existente na extremidade de uma galeria que lhe indicou.

Doroteia empalideceu e persignou–se. Em voz sumida, elucidou que a porta abria para uma enfiada de aposentos onde, havia muitos anos, não entrava ninguém.

— Foi ali que faleceu a minha pobre ama — acrescentou — e desde então nunca mais tive coragem para lá entrar.

Branca absteve–se de fazer novas perguntas à velhota, cujos olhos estavam rasos de água. Retirou– se para os seus aposentos e, cheia de reconhecimento pelo Criador, ergueu aos céus uma prece mais fervorosa do que todas as que rezara no convento.

No dia seguinte, amarrado ao tronco de uma árvore, um barco preparado e enfeitado sob as ordens de Henrique, aguardava a família. A certa distância, a meio do arvoredo, erguia–se uma espécie de pavilhão, onde o conde mandara servir o café e alguns refrescos. Foi para ali que os remadores dirigiam o barco, seguindo ao longo da margem. Decorrida uma hora de passeio, desembarcaram e subiram o estreito atalho, atapetado de relva e de perfumadas flores. O pavilhão, sombreado pelo arvoredo, havia sido preparado à pressa; estava bonito, mas as pinturas das paredes e os estofos rasgados indicavam o abandono em que o haviam deixado. A refeição foi deliciosa. Os senhores do castelo tinham na sua frente o oceano, sob as suas cabeças uma abóbada de verdura, enquanto ao longe as trompas de caça acordavam os ecos da floresta.

Após prolongado passeio a pé, regressaram ao barco. A beleza da tarde incitou–os a demorarem– se um pouco, e a afastarem–se mais para o largo. Quando Já se encontravam a meio da baía, olharam para terra e viram, elevando–se por cima do arvoredo, as pesadas torres de um edifício e, ao mesmo tempo, chegou–lhes aos ouvidos um coro de vozes femininas.

— Cantam as vésperas — afirmou Branca — No convento, ouvia muitas vezes este hino.

— Estamos então perto de um mosteiro? — perguntou o conde.

Como, justamente nessa altura, o barco acabasse de dobrar um cabo bastante elevado, o convento de Santa Clara apareceu. Erguia–se mesmo à beira–mar, na margem de pequena enseada. O arvoredo que o rodeava deixava a descoberto grande parte do edifício: o grande portão de entrada, a janela gótica do claustro e um lado da capela. Um arco venerável que outrora ligava o convento e outras construções, agora demolidas, conservava–se ainda de pé como ruina majestosa, destacando do resto do edifício; das janelas da capela pendiam como grinaldas, hastes de hera e de outras plantas trepadeiras.

O conde ordenou aos remadores para pararem. As religiosas continuavam a cantar, acompanhadas pela harmonia solene de um órgão. Branca sentia–se comovida até às lágrimas e o seu pensamento subia para Deus, nas asas do canto. Silenciosos, dominados por estranho encantamento e respeito, os passeantes viram sair do claustro uma procissão composta de religiosas de hábito branco, que meteu pela floresta a fim de dar a volta ao edifício.

A condessa foi a primeira a falar:

— Tudo isto, a paisagem, o canto e as freiras, inspira mortal tristeza. E está a escurecer. Regressemos depressa ao palácio; quando lá chegarmos será noite cerrada.

O conde ergueu a cabeça e verificou ser a escuridão devida a pesadas nuvens amontoadas no firmamento. Aproximava–se forte trovoada. As aves marinhas voavam baixo, fugindo, rapidamente, para algum refúgio ignorado. Os remadores deram toda a força aos remos, mas o primeiro trovão e algumas gotas de chuva determinaram o conde a procurar abrigo no mosteiro. O barco mudou de rumo. À medida que as nuvens caminhavam para ocidente, fortes relâmpagos sulcavam–nas em todas as direções. O arvoredo e o convento pareciam incendiados.

Os gritos de terror da condessa e de mademoiselle Béarn assustavam o conde e perturbavam os remadores. Branca, partilhada entre o terror e admiração, tentava do minar–se.

O barco parou em face do convento. O conde mandou um dos seus criados pedir asilo à superiora. A ordem de Santa–Clara não era das mais rigorosas; no entanto, só as mulheres puderam ser admitidas. Desembarcaram, atravessaram, rapidamente, o relvado ensopado pela chuva e foram recebidas pela superiora que estendeu a mão para as abençoar. Entraram em seguida numa sala enorme onde encontraram algumas religiosas com hábitos negros e véus brancos. Entretanto, a superiora erguia um pouco o seu, deixando ver o sorriso doce, impregnado de calma dignidade. Conduziu a condessa, Branca e mademoiselle Béarn para a sala do convento, deixando o conde e Henrique no locutório.

Entretanto, os relâmpagos sucediam–se e os trovões ribombavam quase sem interrupção. O sino tocou, convidando as freiras para a oração. Passando junto de uma janela, Branca relanceou a vista para o mar largo e viu, à luz dos relâmpagos, um navio que, sacudido pelas ondas, tão depressa desaparecia no abismo como era elevado nas cristas das vagas altíssimas.

Pálida e trémula, ajoelhou na capela, no meio da comunidade, orando com fervor pelos viajantes em perigo. Entretanto, os criados do conde haviam seguido para o castelo a fim de trazerem carruagens. Chegaram quando o ofício religioso estava a acabar. A trovoada abrandara. O conde e a família despediram–se da superiora e regressaram a casa, admirando–se Por ser tão Perto, pois as sinuosidades da estrada haviam–lhes feito acreditar estarem muito mais longe

Mal se encontravam reunidos na sala para descansar quando, entre dois trovões, se ouviu um tiro de canhão. O conde reconheceu o sinal de navio em perigo e Branca recordou o que tinha avistado da janela do convento. Correram à janela e puderam ver ainda, quando o céu se inflamava com a claridade azulada dos relâmpagos, o navio desarvorado, lutando com dificuldade contra o assalto das vagas. O conde deu imediatamente as suas ordens, enquanto Branca se lhe agarrava ao braço com olhar suplicante. Mandou acender fogueiras no cimo dos rochedos, como faróis para indicar os escolhos. Henrique saiu para dirigir os criados que corriam de todos os lados com os archotes acesos na mão; outros, também com archotes, desciam para a praia e soltavam grandes gritos, chamando os marinheiros do navio. Ouviam–se os apitos e as vozes sumidas da tripulação, que procurava responder, dominando o ruído do vento. Os gritos aumentaram o terror de Branca, cuja ansiedade diminuiu quando Henrique apareceu, correndo, para anunciar ao pai que o navio havia conseguido ancorar na baía. O conde mandou que preparassem o barco a fim de trazer para o palácio todos aqueles que não pudessem alojar–se no povoado mais próximo.

Neste número contavam–se Emília Saint–Aubert, Annette, Dupont e Ludovico que, tendo embarcado em Livorno, atravessavam o golfo de Lyon quando a tempestade assaltou o navio. Foram acolhidos pelo conde com extrema afabilidade. Emília desejava acolher–se no convento de Santa–Clara nessa mesma noite; mas, extenuada pelo cansaço e pelo terror, não conseguia dar mais um passo.

O conde reconheceu Dupont como um dos seus amigos e esse encontro foi festejado com alegria. Também conhecia o nome de Saint–Aubert e a forma como acolheu Emília desvaneceu o ligeiro embaraço que de início a tolhera. Os cuidados afetuosos de Branca estabeleceram logo uma corrente de simpatia entre as duas raparigas, pois desde o primeiro instante, a órfã reconheceu na filha do conde uma alma gémea da sua

Entretanto, Annette descrevia aos outros criados os perigos por que acabavam de passar. Radiante por se ver livre de Montoni, assim como Ludovico, transmitiu com a sua presença e alegria, desusada animação aos companheiros, até que, irritada com a algazarra, a condessa os intimou a irem deitarem–se.

Emília recolheu ao quarto que lhe haviam destinado, no desejo de descansar, mas estava muito nervosa para poder dormir. O regresso à pátria reanimava–lhe fagueiras esperanças. A recordação dos dolorosos acontecimentos e de tudo quanto havia sofrido desde a sua partida, desvanecia–se ao pensar em Valancourt. Encontrar–se de novo na terra onde ele vivia, após tão prolongada separação, transportava–a de uma alegria sem nome. Mas quando calculava o tempo decorrido desde que recebera a última carta do rapaz, a sua ansiedade renascia. Pensar que Valancourt podia ter morrido ou, se vivesse, a esquecera, era tão terrível para o seu coração, que nem sequer podia admitir semelhantes hipóteses. Decidiu escrever–lhe logo no dia seguinte, a fim de o avisar do seu regresso. Tranquilizada com esta resolução e animada pela esperança de poder saber em breve que o noivo estava vivo e ainda lhe queria, o sentir–se tão perto dele, acalmou–a; conseguiu adormecer por fim e as doces ilusões continuaram em sonhos.