Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 32 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XXXI. A Fuga

XXXI

A Fuga

Decorridos alguns dias, Ludovico conseguiu saber por um dos soldados que havia um prisioneiro no quarto indicado e que esse prisioneiro era um militar francês, apanhado durante uma escaramuça.

Emília conseguira fugir à perseguição de Varezzi, fechando–se nos seus aposentos. Por vezes, atrevia–se a passear no corredor, mas o homem nunca mais apareceu. Começava a fazer–se sentir a proteção de Montoni, que cumpria melhor a segunda promessa do que a primeira. Além disso, não desejava abandonar o castelo antes de obter a certeza e saber se o prisioneiro era ou não Valancourt.

Um dia, Ludovico participou–lhe que tinha esperança de falar com o francês, graças à cumplicidade do soldado que o vigiava naquela noite. Com efeito, a pretexto de lhe levar água, entrou no cárcere, mas pouco se demorou com receio de ser surpreendido. A prudência aconselhou–o a ocultar à sentinela o verdadeiro motivo da visita.

Emília, enquanto esperava, contava os minutos. Ludovico prometera–lhe vir falar–lhe ao corredor logo a seguir à entrevista. Quando o viu aparecer, correu para ele e uma única palavra lhe fugiu dos lábios: Valancourt, e ficou toda trémula.

— O prisioneiro não quis confiar–me o seu nome — declarou — mas quando proferi o seu, ficou transportado de alegria, embora menos surpreendido do que eu calculava.

— Recorda–se de mim? — perguntou Emília.

— Muito bem. E demonstra ter tanto interesse por si como mademoiselle por ele. Perguntou–me como descobrira que se encontrava aqui e se estava ali por seu mandado. Não pude responder à primeira pergunta, mas à segunda respondi com uma afirmativa. Se visse como ficou radiante! Cheguei a ter receio de que a sua atitude me prejudicasse aos olhos da sentinela.

— Entregou–lhe alguma coisa para me dar?

— Entregou — respondeu Ludovico, procurando nas algibeiras — Não dispunha de papel e lápis para lhe escrever, mas deu–me isto.

E entregou–lhe uma miniatura, que Emília recebeu com mão trémula. Como explicar o que sentiu quando viu o seu próprio retrato, o mesmo que sua mãe perdera no pesqueiro, pouco tempo antes de morrer!

— “Afirme à sua ama — continuou Ludovico — que este retrato nunca me abandonou um momento e foi a minha única consolação nas horas de sofrimento. Trouxe–o sempre junto do coração e nem todos os poderes do mundo conseguiriam tirar–me. Separo–me dele para me dar a conhecer, com a esperança de que ela própria em breve me devolverá”. Foram estas as suas palavras. Nesse instante a sentinela entrou e o prisioneiro não pôde dizer–me mais nada. No entanto, ainda teve tempo para me pedir se conseguia proporcionar–lhe uma entrevista consigo.

— Como poderei recompensar a sua dedicação, Ludovico? Presentemente, não disponho de meios para o fazer. Quando volta a visitar o prisioneiro?

— Ignoro–o. Depende das sentinelas; entre eles só a dois me atrevo a pedir para entrar na prisão.

— Diga–lhe que recebi o retrato e que os meus sentimentos são aqueles que ele deseja. Diga–lhe também que tenho sofrido muito e ainda mais terei que sofrer.

— Posso dizer–lhe também que está disposta a vê–lo?

— Quando e onde?

— Depende das circunstâncias.

— Quanto ao sítio, não existe em todo o castelo outro onde possamos encontrarmo–nos em segurança como neste corredor — alvitrou Annette — Quanto à hora, teremos de escolher aquela em que os senhores estão a dormir... se por acaso dormem.

— Diga isto ao prisioneiro, Ludovico — decidiu Emília– Quanto ao resto, entrego–me ao seu critério e à Providência. Diga–lhe que o meu coração não mudou, e, principalmente, procure falar–lhe o mais breve possível. Será inútil dizer–lhe com que impaciência o espero.

Ludovico despediu–se e retirou–se. Quanto a Emília, deitou–se, mas não conseguiu dormir. A alegria roubou–lhe o sono, tal como havia sucedido com os pesares. Montoni, a sua tirania, aquele horrível castelo, sumiram–se como terrível pesadelo e só a perspectiva da felicidade e as ilusões do amor lhe enchiam o pensamento.

Decorridos alguns dias, Ludovico veio participar–lhe que tinha conseguido falar outra vez com o prisioneiro. Tudo corria bem. Haviam confiado ambos na sentinela que, a peso de oiro, lhe consentia meia hora de liberdade na noite seguinte, enquanto Montoni e os seus amigos se entregavam às habituais orgias. Este favor, segundo declarou Ludovico, podia comprometer o carcereiro, porque seria impossível o preso abrir as grades e a porta sem a sua cumplicidade. O cavaleiro implorava de Emília a felicidade de lhe falar naquela noite, nem que fosse só por um instante.

Emília estava tão comovida com a perspectiva de tornar a ver Valancourt, que durante algum tempo não conseguiu proferir palavra. Por fim, ficou combinado que o cavaleiro viria falar–lhe ao corredor, deixando a Ludovico a escolha do momento mais propício.

Pode supor–se como passou o dia, debatendo–se num misto de alegria, ansiedade e impaciência. Contava as horas e espiava os passos dos soldados que rendiam a sentinela. Finalmente, ouviu dar meia– noite. Abriu a porta do quarto, para se certificar se o corredor estava deserto. Chegou–lhe aos ouvidos o ruído de gargalhadas e de vozes animadas. Montoni e os seus amigos encontravam–se à mesa. Estava na hora. Não tardou a ouvir passos leves e apressados que revelavam uma impaciência idêntica à sua. Correu... e encontrou–se nos braços de um desconhecido! ... O rosto, o som da voz, tudo constituiu para ela tremendo desengano que os seus nervos não puderam suportar. Desmaiou.

Quando voltou a si, continuava nos braços do rapaz que a contemplava com um olhar de ternura e compaixão. Não teve forças nem para o interrogar nem para lhe responder; começou a chorar e libertou– se–lhe dos braços. O desconhecido mudou de semblante. Surpreendido e consternado, olhou para Ludovico como se lhe perguntasse a significação de tudo aquilo. Foi Annette quem a deu, até ao próprio Ludovico, que estava estupefato.

— Não é o senhor Valancourt! Como pudeste enganar–te assim, Ludovico? Que desilusão para a minha pobre ama! Nunca se consolará!

E começou a chorar também.

O desconhecido, que parecia muito agitado, tentou falar sem o conseguir. As palavras morreram– lhe nos lábios. Batendo no peito com desespero, retirou–se para a extremidade do corredor.

Annette enxugou as lágrimas e, dirigindo–se a Ludovico, lembrou:

— Talvez exista no castelo outro prisioneiro e Valancourt ainda se encontre lá em baixo.

— Não — respondeu Ludovico — Se não é este, Valancourt nunca esteve preso. Se o cavaleiro tivesse querido revelar–me o nome, nunca se teria dado este desagradável equívoco.

— Tem razão — concordou o rapaz em péssimo italiano– mas para mim era de extrema importância que Montoni o ignorasse. Mademoiselle — prosseguiu em francês, dirigindo–se a Emília — permita–me algumas palavras de desculpa pelo pesar que, involuntariamente, lhe causei e consinta que lhe diga, mas só a si, quem sou e quais as circunstâncias que me levaram a este deplorável erro.

Emília que, pouco a pouco, recuperava o sangue–frio, pediu a Ludovico para ir ver se alguém se aproximava. Quanto a Annette, disse ao desconhecido para falar em italiano, visto a criada não saber esse idioma. Desta forma, não saberia o que ia revelar–lhe. Refugiaram–se os três num recanto do corredor. O desconhecido soltou profundo suspiro e depois começou a falar:

— Mademoiselle, começo por lhe dizer que para mim não é uma desconhecida, embora eu tenha a infelicidade de o ser para si. Chamo–me Dupont, sou francês e oficial. Nasci na Gasconha e há muito tempo, mesmo muito, que a admiro ou antes, para que ocultá–lo, a adoro...

Com um gesto, Emília deteve estas efusões. O rapaz ergueu os olhos ao céu e continuou:

— Com certeza, conhece a minha família, mademoiselle. Vivíamos a pouca distância do Vale e muitas vezes tive ocasião de a encontrar durante os seus passeios pela vizinhança. Deus me livre de a ofender, revelando–lhe o profundo interesse que me inspirou, o prazer que sentia em percorrer os sítios onde passava, a visitar, principalmente, o pesqueiro, e como lamentava as circunstâncias que me impediam de lhe confessar o meu amor. Tentei revelar–me por meio de versos ou pelos acordes do seu próprio alaúde; mal me atrevo a confessar–lhe a tentação que me levou a apoderar–me do inapreciável tesoiro, do retrato que há dias lhe confiei, na esperança que hoje foi, cruelmente, desiludida. Bem castigado estou! Conceda–me o seu perdão e, se não aceita o meu amor, aceite a minha desinteressada dedicação, embora, prisioneiro como estou também, de pouco lhe possa servir. Não importa. Confie nos esforços de um coração dedicado e não me recuse a ventura, a única a que posso aspirar, de tentar tudo para alcançar o direito ao seu reconhecimento.

Sensibilizada com tanta generosidade, ao escutar uma linguagem a que já não estava habituada, Emília estendeu–lhe a mão.

— Aceite os meus agradecimentos e perdoe–me se lhe recordo o perigo que afronta, prolongando esta entrevista. Será uma consolação para mim, acredite, quer as suas tentativas sejam infrutíferas ou não, a certeza de que um cavaleiro, um nobre coração, um compatriota, se empenha em proteger–me.

Dupont levou aos lábios a mão de Emília e beijou–a com respeito.

— Faço ardentes votos pela sua felicidade, sem tentar vencer uma paixão, cuja violência...

— Ensinar–te–ei a vencê–la! — vociferou um homem que, de súbito, apareceu no corredor, com um punhal na mão, atirando–se a Dupont, que estava desarmado.

Este, porém, com um movimento ágil, esquivou–se ao ataque, atirou–se a Varezzi — pois era ele — e conseguiu arrancar–lhe o punhal. Entretanto, Emília e Annette correram à escada para chamar Ludovico, mas não o encontraram. Enquanto a criada partia à sua procura, Emília voltou para junto dos dois adversários, tentando separá–los. Dupont, finalmente, aproveitando a embriaguez de Varezzi, que lhe diminuía as forças, atirou–o ao chão, onde ficou estendido, atordoado com a queda. Emília suplicou–lhe para fugir antes que Montoni ou algum dos seus aparecesse, mas ele recusou, pois não queria abandoná– la sem defesa. De súbito, ouviram passos na escada.

— Está perdido! — exclamou Emília — São os homens de Montoni.

Dupont amparou–a com um dos braços, enquanto erguia o outro armado com o punhal roubado a Varezzi. Mas em vez dos soldados viram aparecer Ludovico, que lançou em volta um olhar assustado.

— Sigam–me, sigam–me depressa! — intimou — Venham, se têm amor à vida.

Sem hesitar, seguiram–no. Desceram a escada e percorreram a passagem abobadada. Emília perguntou por Annette.

— Está à nossa espera — respondeu Ludovico em voz baixa e arquejante — Depressa, depressa! Abriram a porta para entrar um destacamento que regressa da montanha e receio que a fechem antes de podermos alcançá–la. Cautela, mademoiselle — acrescentou, baixando a luz — há aí dois degraus.

Emília corria, tremendo, desde que sabia depender a fuga de alguns instantes. Dupont amparava–a e tentava animá–la.

— Fale baixo, senhor — aconselhou Ludovico — estes corredores fazem um eco que se ouve em todo o castelo — Cuidado com a luz também — recomendou Emília — Vai tão depressa que pode apagar–se.

Ludovico abriu uma porta atrás da qual encontraram Annette e desceram ainda alguns degraus. A medida que avançavam, o tumulto confuso que partia do pátio interior assustou Emília. — Não tenha medo — sossegou Ludovico — a nossa salvação está, justamente, neste barulho. Enquanto os homens do castelo se ocupam com os recém–chegados, temos probabilidades de fugir sem eles darem por nós. Calem–se — pediu ao aproximar–se da grade que fechava a saída para o pátio principal — Fiquem aqui um instante, enquanto eu vou ver se as portas continuam abertas e se alguém as guarda. O senhor — continuou, entregando a lanterna a Dupont — apague essa luz se me ouvir falar e deixem–se ficar aqui quietos, sem fazer barulho.

Abriu a grade e fechou–a atrás de si. Atravessou o pátio, que estava silencioso, enquanto no outro o barulho era insuportável.

— Coragem. Daqui a alguns momentos estaremos livres — segredava Dupont ao ouvido da companheira — Coragem. Tudo há–de correr bem.

De repente, ouviram Ludovico e outra voz que lhe respondia. Dupont apressou–se a apagar a lanterna. Mas o cão de Emília, que os seguira, começou a ladrar.

— O cão vai denunciar–nos. Vou pegar–lhe ao colo.

— Se não nos denunciou já — murmurou Emília. Felizmente, enganava–se. Depois de Dupont acalmar o animal, Ludovico continuou a falar com a sentinela.

— Eu fico no seu lugar — oferecia.

— Não é preciso. Mais alguns minutos e não terá essa maçada. Vão meter os cavalos nas cavalariças e fechar as portas. Depois já posso abandonar o meu posto.

— Não considero isso como maçada. Qualquer outro dia, prestar–me–á o mesmo serviço. Vá provar o vinho, ande. Os rapazes divertem–se e bebem–no sem esperar por si.

O soldado hesitou e chamou para saber se iam levar os cavalos e fechar as portas, mas, mesmo que pudessem ouvi–lo, os outros estavam muito ocupados para lhe responder.

— Não são tão tolos que interrompam tão agradável tarefa — observou Ludovico — Se espera até que venham buscar os cavalos, já não encontrará vinho quando chegar. Eu já bebi a minha parte e, se o meu amigo não quer a sua, vou aproveitá–la.

— Isso não — protestou a sentinela — Fique aqui um bocadinho, não demorará muito tempo.

— Não se apresse — retorquiu Ludovico — Estou habituado a fazer sentinela, já sei o que isso é. Dê–me o mosquete.

— Aqui o tem, meu valente. Já viu das boas essa arma, Hei–de contar–lhe uma história a seu respeito quando tiver tempo.

— Contá–la–á melhor depois de beber.

— Tem razão — concordou a sentinela, afastando–se à pressa.

Ludovico dispunha–se a atravessar o pátio quando a sentinela voltou para trás.

— Não se afaste muito, meu amigo. Não sei se será melhor ficar aqui.

— Como queira. De resto, já não deve ter muito vinho. Segundo me parece, os seus companheiros vão voltar.

— Eu lá vou! — gritou o soldado, afastando–se a correr.

Ludovico, por sua vez, correu a abrir a grade. Emília quase desmaiava com a ansiedade causada por tão grande demora.

— Sigam–me, o pátio está livre.

Dupont e Ludovico apoderaram–se de dois cavalos que haviam saído do pátio interior para comer a erva que brotava no pátio principal.

Transpuseram, sem obstáculo, a porta e tomaram o caminho que conduzia à floresta. Emília, Annette e Dupont seguiam a pé. Ludovico montara um dos cavalos e levava o outro pela rédea. Quando saíram do bosque, as duas raparigas saltaram para a garupa dos cavalos montados pelos seus protetores. Ludovico seguia na frente para indicar o caminho; fugiam tão depressa quanto lhes permitia a natureza do terreno, guiados pela fraca claridade derramada pela Lua, que acabava de aparecer.