Os Mistérios do Castelo de Udolfo
V. O Castelo das Torres
V
O Castelo das Torres
No dia seguinte de manhã, Saint–Aubert encontrou–se em estado de poder continuar a viagem. Era perto de meio–dia quanto atingiram uma estrada tão perigosa que tiveram de descer da carruagem. Era ladeada por bosques de faias, de pinheiros e castanheiros, semeados por agradáveis e frescas clareiras onde os viajantes podiam descansar.
Valancourt e Emília entendiam–se cada vez melhor e ela não podia enganar–se sobre as sensações que também compartilhava.
Saint–Aubert, fingindo preocupar–se com os livros, contemplava, tristemente, os dois jovens, tão simples, tão nobres, tão em harmonia com a natureza que os rodeava, e que não podiam conceber a felicidade senão no enlace dos seus corações puros.
Já era tarde quando começaram a descer montanhas que rodeavam o Rouseillon. Emoldurada por estas barreiras majestosas, a bela província só está descoberta pelo lado do mar. Os viajantes alcançaram a cidade de Aries onde encontraram acomodações simples, mas asseadas; teriam dormido bem se a ideia da próxima separação não os afligisse. Saint–Aubert desejava partir no dia seguinte e dirigir–se ao Languedoc, seguindo ao longo do Mediterrâneo. Valancourt, já restabelecido, não tinha pretexto para acompanhar os seus amigos. Aquela noite foi a mais triste das que haviam passado juntos. Saint–Aubert mostrou–se afetuoso, mas triste. Emília estava séria, embora, por vezes, tentasse aparentar alegria.
Na manhã seguinte, Saint–Aubert mostrou–se abatido e a filha, mais preocupada do que nunca, não deixava de o observar.
O almoço não foi menos silencioso do que a ceia da véspera. Quando o rolar da carruagem lhes recordou que chegara a hora da separação, Valancourt ergueu–se muito comovido. Saint–Aubert disse– lhe que contava vê–lo no Vale, convite que o rapaz lhe agradeceu. Emília tentava sorrir, a despeito da sua profunda tristeza. Pai e filha entraram para o coche e Valancourt ficou encostado à portinhola, sem que qualquer deles encontrasse coragem para pronunciar as palavras de despedida. Saint–Aubert foi o primeiro a fazê–lo. Emília repetiu a palavra fatal do adeus e Valancourt, com um sorriso forçado, correspondeu. Depois o coche pôs–se a caminho.
Emília debruçou–se na janela e viu Valancourt parado no ponto onde o haviam deixado, seguindo com a vista o coche que se afastava. Viu–a e acenou–lhe com a mão. Emília correspondeu–lhe, agitando o lenço até que uma volta da estrada o ocultou.
— É um rapaz muito simpático — comentou Saint–Aubert — A sua franqueza e ingenuidade são como um sopro vivificante para o coração de um velho e doente como eu.
Emília apertou–lhe, ternamente, a mão como se lhe agradecesse o elogio que apreciara mais do que se lhe fosse dirigido.
Saint–Aubert estava ansioso por chegar a Perpignan onde devia encontrar cartas de Quesnel. Era noite quando chegaram e as cartas do cunhado provocaram–lhe grande comoção. A filha pediu–lhe que lhe revelasse o motivo de tanta aflição, mas o pai limitou–se a responder–lhe com lágrimas. No dia seguinte, contudo, mostrou–se tão magoada com o silêncio do pai, que este resolveu abandonar a sua reserva.
— Gostaria, pelo menos durante esta viagem, de poder ocultar–te certas circunstâncias que um dia deves conhecer. Mas reconheço que a inquietação te faz sofrer também. Vou contar–te a verdade. Já te falei de Motteville, mas não sabes que a maior parte da minha fortuna se encontrava nas suas mãos. Depositava nele a maior confiança e não posso, ainda hoje, admitir a sua indignidade. Seja como for, está arruinado e eu com ele.
— Teremos de vender o Vale? — perguntou Emília depois de breves minutos de silêncio.
— Não sei ainda — respondeu Saint–Aubert — Como sabes, a minha fortuna não era grande e agora está, praticamente, reduzida a nada... O fato desola–me por tua causa, minha filha.
Emília sorriu–lhe com ternura.
— Não se aflija por minha causa, meu querido pai... Se podermos ficar com o Vale, seremos felizes, acredite. Nunca vivemos com luxo e a pobreza não poderá roubar–nos as doces alegria do lar, nem fazer–nos perder a própria estima e a dos outros.
Saint–Aubert apertou a filha contra o peito e as suas lágrimas confundiram–se, mas não eram lágrimas de tristeza. Após demorado silêncio, recuperou a calma e pôde conversar em coisas indiferentes.
Chegando a pequena vila do Languedoc, quiseram parar, mas a festa das vindimas chamara ali muita gente e as hospedarias estavam todas cheias. Forçoso foi, portanto, continuarem a viagem.
Por todos os campos do Languedoc ecoavam risos e cantigas, mas o pobre doente não podia tomar parte naquela alegria. A sua tristeza contrastava com ela. Pensava que em breve cerraria os olhos para o espetáculo sublime da Natureza. Depois, quando olhava para a filha e pensava que ia deixá–la sozinha no mundo e sem proteção, sentia–se esmagado pela dor. Como o seu estado se agravasse, mandou parar o coche a fim de indagar a que distância ficava o povoado mais próximo.
— A quatro léguas, pouco mais ou menos.
— Não conseguirei chegar até lá. Procuremos uma casa, mais perto, onde possam receber–me por esta noite.
O cocheiro fez estalar o chicote e os animais partiram a galope até que, quase a desfalecer, Saint– Aubert fez sinal à filha para mandar parar. Aflita, Emília deitou a cabeça pela portinhola e viu um camponês o que se aproximava. Quando ele chegou perto perguntou–lhe se havia por ali casa onde pudessem abrigar–se.
— Existe um castelo na floresta, mas creio que não recebe ninguém. De resto, não poderia indicar– lhe o caminho porque eu próprio sou estranho à terra.
E afastou–se depressa.
De momento a momento, se tornava mais escuro. A noite aproximava–se. Passou outro camponês.
— Qual é o caminho para o castelo? — perguntou o cocheiro.
— Para o castelo! Referem–se às Tourelle?
— Não sei se o nome é esse — replicou Miguel — Mas desejo saber o caminho para lá.
— Aconselho–os a mudarem de ideia. Não vão ao castelo.
— Nesse caso — perguntou Saint–Aubert — está desabitado?
— Não sei — respondeu o homem, afastando–se tão bruscamente como o primeiro.
Miguel dispunha–se a meter pelo bosque, quando Saint–Aubert, pegando na mão da filha, gemeu:
— Sinto–me tão mal!
— Meu Deus! E nós aqui sem socorro! Que fazer? E amparava a cabeça do pai que lhe descaíra sobre o ombro.
Nesse instante, soou ao longe uma música suave.
— Estamos perto de alguma habitação! — exclamou Emília — Vamos pedir auxílio.
A música afastava–se. Por entre o arvoredo, Emília teve a impressão de avistar pesado edifício parecido com um castelo. Mas como ir até lá se o pai desmaiara?
Pediu ao cocheiro para ir buscar um pouco de água no chapéu e salpicou com ela a cara do pai. Estava pálido como um cadáver.
Emília, confiando o pai aos cuidados de Miguel, saltou para o chão e tentou alcançar o castelo entrevisto por entre o arvoredo. A música longínqua guiava–lhe os passos. Caminhou por um atalho, no meio da escuridão, porque o luar não conseguia filtrar através da folhagem. De repente, a música cessou. Sem ter como orientar–se, caminhou ao acaso, sem encontrar uma casa, um ente vivo ou sequer um animal. O silêncio era profundo. Por fim, avistou uma alameda que terminava numa clareira. Dispunha se a segui–la, quando um ruído de vozes e de risos lhe chegou aos ouvidos. Correu para a clareira e viu alguns rapazes e raparigas sentados na relva. Em volta viam–se umas poucas de choças. Festejavam as vindimas com música, cantos e danças. Emília correu para eles, descreveu–lhes a situação em que se encontrava e pediu–lhes auxílio. Muitos deles se levantaram e a seguiram até à estrada onde se encontrava o coche.
Saint–Aubert recuperara os sentidos, mas estava vivamente inquieto. Quando viu chegar a filha ficou mais sossegado. Informou–se logo se havia perto castelo, hospedaria ou cabana onde pudesse ficar aquela noite.
— O castelo não pode recebê–los — declarou um velho que seguira Emília — mas se quer dar–me a honra de aceitar a minha hospitalidade, venha até à minha choça onde encontrará uma cama para se deitar.
Puseram–se a caminho. As danças pararam quando os viajantes se aproximaram. Por fim, detiveram–se diante de uma casinha de modesta aparência. O velho auxiliou Saint–Aubert a descer e amparou–o e conduziu–o a um aposento de tetos baixos onde o doente se deixou cair numa cadeira de braços.
O ar fresco e os aromas balsâmicos que entravam pela janela aberta, reanimaram o pobre viajante. O velho, que se chamava Voisin, serviu–lhes fruta, nata e todos os modestos recursos de que podia dispor. Já um pouco restabelecido, Saint–Aubert começou a conversar com o seu hospedeiro, que lhe contou a sua vida.
— Só tenho uma filha, que fez excelente casamento e é tudo na minha vida. Quando Deus chamou para Si a minha pobre mulher, vim para casa de Agnés. Tenho muitos netos, robustos e alegres como passarinhos. Deus os conserve assim. Espero morrer aqui. É uma consolação sabermos que morreremos nos braços dos nossos filhos.
— Não pense em morrer, meu amigo — retorquiu
Saint–Aubert — Há–de viver ainda muitos anos para felicidade sua e dos seus.
— Já tenho muita idade e não desejo viver muito, porque tenho esperança de ir encontrar–me com a minha pobre mulher que morreu há muitos anos. Quantas vezes me parece vê–la errar por estes bosques que ela amava tanto!
— Acredita que as nossas almas possam voltar à terra?
— O nosso futuro é como noite escura. A fé e a esperança, como dois faróis, guiam–nos pelo caminho. A esperança de que as almas dos entes queridos velam por nós, suaviza a dor da separação.
— Como eu desejaria ter a certeza de encontrar depois da morte aqueles a quem tanto quis na vida!
— Não duvide. A separação seria superior às nossas forças se a considerássemos eterna. Sim, encontrar–nos–emos um dia no Além.
Ao mesmo tempo erguia os olhos ao céu e a sua expressão tornou–se sublime.
Voisin, não querendo insistir mais no assunto, mandou acender a luz, mas Saint–Aubert protestou:
— Não acenda. Sinto–me tão bem assim! Gosto desta atmosfera perfumada e esta música suave embala–me. Quem toca assim?
— Ouve–se muita vez esta música na floresta, mas ninguém sabe quem toca. Por vezes, é acompanhada por canto, por uma voz tão doce que chegamos a acreditar que seja a de um fantasma. Muitas noites, perto da meia–noite, ouço–a quase por baixo da minha janela. Recordo–me então da minha pobre mulher e choro. Afirmam que este canto é um prenúncio de morte, mas há muito que o escuto e ainda estou vivo.
— E ninguém teve ainda a coragem de seguir a direção da música? Se o fizessem, descobririam quem toca.
— Já o fizeram. O som, porém, fugia e parecia sempre à mesma distância. Os curiosos, então, tiveram medo e não foram mais longe. É raro ouvir–se tão cedo como hoje. Em geral, só se ouve à meia– noite, quando se esconde para lá da floresta o brilhante planeta que se avista por cima dos torreões.
— Não os vejo...
— Além. Não vê um deles batido pelo luar? Em frente estende–se a alameda e o castelo fica oculto pelo arvoredo.
— A quem pertence esse castelo?
— Ao marquês de Villeroy.
Saint–Aubert estremeceu ao ouvir este nome.
— Estamos então perto de Blangy?
— Exatamente. Este castelo era, antigamente, a morada favorita do marquês. Depois aborreceu–o e havia muitos anos que não o visitava. Morreu há pouco mais de um mês e o castelo passou para outras mãos.
— Morreu! É extraordinário!
E absorveu–se em profunda meditação, que abandonou para perguntar o nome do actual possuidor do castelo.
— Disseram–me o nome, mas esqueci–o. Sei que vive em Paris e não se mostra disposto a vir habitar esta propriedade. O castelo está fechado, a cargo de um casal já de idade que vive perto e vai lá arejá–lo de vez em quando. Mesmo assim, aquilo parece um deserto sombrio e nem por todo o dinheiro do mundo me resolveria a passar lá a noite.
Saínt–Aubert voltou a estremecer. Depois, para desviar atenções, perguntou a Voisin há quanto tempo vivia naquela região.
— Nasci aqui, senhor.
— Lembra–se da defunta marquesa? — perguntou Saint–Aubert com voz alterada.
— Muito bem. Ninguém conseguiria esquecê–la.
— Ninguém, sim, e eu tanto como os outros.
— Era uma boa senhora e merecia melhor sorte.
— Cale–se, meu amigo! — pediu o viajante com as faces inundadas pelas lágrimas. Emília, embora surpreendida, não se atreveu a fazer perguntas, e Saint–Aubert, para mudar de conversa, observou:
— Falávamos da música que se fazia ouvir no bosque.
— É verdade e ... escute, ei–la que recomeça. Com efeito, ouvia–se ao longe uma voz suave e melodiosa, mas tão fraca que não podiam distinguir–se as palavras. Depois calou–se e foi substituída pelos acordes de um instrumento mais sonoro do que a guitarra e mais melodioso e comovente do que o alaúde. Decorrido alguns instantes, tudo recaiu em silêncio.
— É estranho! — murmurou Saint–Aubert.
— Muito estranho, sim — concordou Voisin — Há–de haver dezoito anos que pela primeira vez ouvi esta música. Era no Verão e, precisamente, a esta hora. Passeava sozinho pela floresta, muito aflito porque tinha um filho doente e receava perdê–lo. Quando a música se fez ouvir, supus que fosse o Cláudio a tocar flauta diante da porta de casa, como era costume. Mas quando cheguei a um ponto onde as árvores eram mais raras, a música soou mais perto e tão bela... dir–se–ia um concerto tocado por anjos. Nunca poderei esquecê–lo. De regresso a casa contei o que me tinha acontecido e todos zombaram de mim. Na noite seguinte, porém, minha mulher também ouviu e ficou tão assustada como eu. A Irmã Francisca ainda nos assustou mais, dizendo–nos que talvez o Céu nos mandasse uma espécie de aviso para nos preparar para a morte do nosso filho, e que aquela música, em geral, se fazia ouvir perto da casa onde se encontrava um moribundo. No entanto, a criança salvou–se e viveu, a despeito dos tristes presságios da Irmã Francisca.
— Uma freira, não? Estamos então perto de um convento?
— Sim, o convento de Santa Clara, que fica à beira–mar.
— O convento de Santa Clara! — repetiu o doente com uma expressão misto de horror e de tristeza.
Fez–se muito pálido e mais parecia uma dessas estátuas de mármore que adornam os túmulos.
— Paizinho — lembrou Emília para o distrair dos seus pensamentos — Não seria melhor ir deitar– se? Se o nosso bom hospedeiro me permite, irei preparar–lhe a cama.
— Tens razão–concordou, tristemente, Saint–Aubert — Amanhã, se estiver melhor, partiremos muito cedo e voltaremos para trás. No estado em que me encontro não desejo prolongar a viagem. Quero regressar ao Vale quanto antes.
Emília, conquanto desejasse esse regresso, alarmou–se com a resolução do pai.
Quando este se deitou, por sua vez recolheu ao seu quarto. Por muito tempo, refletiu na conversa sobre as almas dos mortos e sua sobrevivência, problema que muito a preocupava desde a morte da mãe e desde que se via ameaçada de perder também o pai. Abriu a janela e encostou–se ao parapeito. Ao erguer os olhos para o céu, picado por miríades de estrelas pensou que, talvez, elas fossem habitadas pelos espíritos libertos do corpo. Conservou–se ali até que o brilhante planeta indicado por Voisin desapareceu para lá da floresta. Recordava a atitude de Saint–Aubert quando o velho lhe revelara a morte do marquês. Que segredo lhe ocultava?
Aguardou, desejando e ao mesmo tempo temendo que a misteriosa música se fizesse ouvir, mas coisa alguma perturbou o silêncio da noite. Então, pensando nas fadigas que o dia seguinte lhe reservava, se tivesse de partir, procurou no sono um lenitivo para os seus sofrimentos e temores.