Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXXVI. Uma Figura Humana
XXXVI
Uma Figura Humana
Voltemos a Montoni. Pode calcular–se o seu espanto e a raiva quando deu pela fuga de Emília. Estes sentimentos, porém, foram sobrelevados por cuidados mais insistentes. Os excessos e violências praticados por ele e pelos seus homens multiplicaram–se por tal forma, que o Senado de Veneza, composto por mercadores, não pôde suportá–lo por mais tempo. Importante corpo de tropas marchou contra Udolfo. O oficial que o comandava ocultou–se nos arredores e soube arranjar cumplicidades com diversos condottieri. Montoni e os acólitos foram surpreendidos por um destacamento, que se apoderou da ala onde viviam, enquanto o resto das tropas, após breve combate, obrigou a guarnição do castelo a render–se. Entre os prisioneiros encontrava–se Orsino que, como sabemos, se refugiara em Udolfo. Morano havia denunciado a sua presença no castelo e o desejo de se apoderar do assassino foi uma das principais razões que impeliu o Senado a preparar a expedição. Ficaram tão contentes com o bom resultado dela, que restituíram, imediatamente, Morano à liberdade. A rapidez e a facilidade do ataque foram grandes e Emília, então no Languedoc, não chegou a saber da derrota do seu perseguidor.
De resto, sentia–se muito acabrunhada e não tinha ânimo para pensar fosse no que fosse. Assim, decorreu muito tempo antes de poder desviar o pensamento de Valancourt para escutar a história que a velha Doroteia lhe havia prometido. Foi a própria criada quem lhe recordou. Certa noite, bateu–lhe à porta do quarto e, quando Emília lhe abriu, entrou toda a tremer.
— Passei agora diante da porta do quarto onde a minha pobre ama morreu. Estava tudo tão calmo e silencioso, que tive quase a sensação de a ver no seu leito de morte.
Emília obrigou–a a sentar. Quando recuperou um pouco de calma, começou a falar:
— Há mais de vinte anos que a senhora marquesa chegou ao castelo. Era mais ou menos da sua idade e, como já lhe disse, parecia–se muito consigo. Apesar de aparentar alegria, tive logo a impressão de não ser grande a sua felicidade. Uma vez, surpreendia–a no quarto a chorar. Não me atrevi a perguntar–lhe a causa do pranto, mas adivinhei o que se passava. O pai, segundo me disseram, obrigara– a a casar com o marquês, cuja fortuna era enorme; mas ela estava apaixonada por outro, que também a adorava. Chorava por tê–lo perdido, supus, embora nunca me tivesse falado a esse respeito. De repente, o senhor marquês começou a tratá–la com dureza. Talvez tivesse ciúmes. Fazia mal. A senhora marquesa tinha muitos admiradores, mas era muito honesta para merecer a mais pequena suspeita. Entre os fidalgos frequentadores do castelo, havia um que me pareceu talhado para ela. Tão delicado, tão bondoso! Notei que a sua presença tornava o senhor marquês mais sombrio e sua mulher mais triste. Meteu–se–me na cabeça ser aquele a quem amara e com quem devia casar, mas nunca adquiri a certeza. No entanto, o marquês tornava–a muito infeliz. Não a deixava ver ninguém e abandonava–a. Era eu quem a servia e adivinhava quanto a pobre senhora sofria, conquanto ela nunca se queixasse. Decorrido um ano, a senhora marquesa adoeceu. De princípio, calculei que fosse de desgosto, mas depois comecei a recear ter a doença causa mais terrível...
— Como?
— Deram–se acontecimentos muito estranhos, mademoiselle. O senhor marquês ...
— Cale–se Doroteia! Não ouve?
A criada empalideceu. Escutaram as duas e ouviram uma voz de singular doçura.
— Não é a primeira vez que a ouço — murmurou Emília, recordando a voz que, na véspera da morte do pai tanto a impressionara.
— Julgo ter–lhe dito já que esta voz começou a fazer–se ouvir pouco depois da morte da senhora marquesa– murmurou a velha criada, muito comovida — Estava a pensar nela, tinha a impressão de a ver diante de mim, quando, de repente, no silêncio da noite, se elevou este canto. nunca esquecerei o que então senti. Acreditei ter sido a voz da minha pobre senhora! ... E nunca mais deixou de se fazer ouvir por intervalos. Ha meses já que se havia calado e agora recomeça.
— É extraordinário como ainda não conseguiram descobrir quem canta.
— Se fosse uma pessoa viva, há muito tempo o saberíamos. Mas os espíritos andam por onde querem. Hoje estão aqui, amanhã acolá e num instante desaparecem.
— Continue a falar–me da marquesa. Já se calou. Dizia que o senhor marquês...
— O senhor marquês tomava aspecto cada vez mais sombrio e a senhora piorava de dia para dia. Uma noite, pediu–me para ir chamar o marido e dizer–lhe ter ela um segredo para lhe comunicar. Quando ele entrou no quarto, mostrou–se muito aflito ao verificar o seu estado. Dispus–me a sair a fim de os deixar sozinhos e nunca esquecerei o olhar que a senhora me lançou nesse momento. Pouco depois, atraída pelos seus gritos, entrei no quarto e encontrei–a debatendo–se em convulsões. O senhor marquês ordenou–me para ir, imediatamente, chamar o médico e manifestou tão grande desespero, falou à doente com tanta bondade, pedindo–lhe perdão pelas suas suspeitas que, se de fato as havia concebido, deviam estar completamente desvanecidas. E, como se mostrava cheio de remorsos pela forma como a tratara, a senhora marquesa comoveu–se muito e desmaiou. Obrigámos o senhor marquês a sair do quarto. Ele cedeu e foi fechar–se no seu gabinete, atirando–se para o chão, sem querer ouvir ninguém. Entretanto, a infeliz expirava nos meus braços, com a calma de uma criança e a serenidade de um anjo!
Calou–se, chorando. Emília chorava também, comovida com a história da marquesa e com os seus sofrimentos.
— O médico chegou demasiado tarde — prosseguiu Doroteia, pouco depois — Mostrou–se admirado ao ver a minha senhora, cujo rosto se tornara negro. Mandou sair toda a gente para me fazer estranhas perguntas sobre a falecida e sobre a natureza da sua doença. A cada uma das minhas respostas abanava a cabeça, como se adivinhasse mais do que deixava entender. Por meu lado, eu compreendi muito bem, mas guardei para mim as suspeitas ou, pelo menos, não o disse senão a meu marido, que me aconselhou a calar–me. Quando o senhor marquês soube da morte de sua mulher, fechou–se no quarto onde só deixou entrar o médico. Estiveram mais de uma hora fechados e depois disso o doutor nunca mais falou na senhora. Nunca assisti a desgosto tão profundo como o do senhor marquês. Tinha verdadeiros ataques de desespero que o desvairavam. Pouco tempo depois, foi reunir–se ao seu regimento e nunca mais voltei a vê–lo. Morreu lá para o norte da França, sem nunca mais voltar ao castelo, sem concluir a construção da ala mandada acrescentar para ocidente e que se conservou fechada até à chegada do senhor conde, seu herdeiro. Aqui tem a trágica história. Disse–lhe tudo quanto pensava; não se esqueça de que me prometeu não o repetir a ninguém.
— Cumprirei a minha promessa — assegurou Emília — A história interessou–me mais do que pode supor. Gostaria, simplesmente, de saber o nome do fidalgo que, segundo sua opinião, seria o apaixonado da marquesa.
Doroteia, porém, recusou–se a revelá–lo, dizendo poder a revelação ter muitos inconvenientes, Depois voltou a falar na semelhança de Emília com a marquesa.
— Existe outro retrato nos aposentos que se conservam fechados. Foi pintado antes do casamento e ainda se parece mais consigo do que a miniatura.
Emília mostrou muito interesse em o ver e, como Doroteia tivesse grande relutância em entrar no quarto, afirmando ser como uma profanação, recordou–lhe ter o conde deixado adivinhar a intenção de o abrir em breve. Em consequência, Doroteia, pensando ser preferível visitá–lo sozinha com Emília, prometeu vir buscá–la na noite seguinte.
Foi pontual à promessa e, à hora combinada, apareceu com as chaves do quarto, situado na ala norte, na parte primitiva do palácio. Para lá chegar impunha–se descer uma escada e subir outra, isto é, atravessar quase todo o castelo. Seguiram ao longo do corredor que contornava o salão, para onde davam os aposentos do conde, da condessa e de Branca.
Quando chegaram junto da escada, Doroteia parou e olhou em volta de si.
— Escutemos. Não ouve ninguém?
— Quem poderia estar acordado a esta hora, exceto nós?
— Diz bem, mademoiselle. Justamente por nunca aqui ter vindo a semelhante hora, os meus receios são justificados.
— Por que diz isso?
— Agora não há tempo para conversas. Subamos! A porta do quarto fica à esquerda.
Chegando diante da porta, Doroteia meteu a chave na fechadura.
— Como não se abre há muito tempo, talvez não o possamos fazer — disse, esforçando–se por dar a volta à chave.
Emília, mais habilidosa, experimentou por sua vez com maior êxito. Encontraram–se num quarto bastante amplo, em estilo gótico.
— A última vez que transpus esta porta foi atrás do corpo da senhora marquesa — murmurou a criada.
Percorreram uma enfiada de salas e chegaram a outro aposento, que apresentava ainda uns restos de magnificência.
— Paremos aqui um bocadinho — pediu Doroteia prestes a desfalecer — Vamos entrar no quarto onde a minha querida senhora morreu. A porta é esta.
Arrastaram duas poltronas das que mobilavam a sala e sentaram–se.
— Como isto me recorda o passado! — exclamou Doroteia — Parece–me que tudo se passou ontem.
— Que barulho é este? — perguntou Emília. Doroteia estremeceu e percorreu o quarto com a vista. Escutaram com atenção. Estava tudo sossegado. A criada prosseguiu, baixando a voz sem querer:
— Esta sala era uma das mais belas do castelo. Foi a senhora quem a decorou a seu gosto. Não pode apreciar as tapeçarias. Estão cobertas de poeira e a claridade é pouca. Como tudo isto era brilhante no tempo da senhora! Este móvel veio de Paris. Fizeram–no segundo um modelo existente no Louvre; os espelhos foram comprados em países estrangeiros, assim como os estofos, hoje debotados, mas, naquele tempo, com lindas cores e representando uma história completa, tirada não sei de que livro.
Um pouco mais calma com a conversa, Doroteia levantou–se e foi abrir a porta fatal.
Encontraram–se num quarto com os tetos muito altos, e as paredes cobertas com tapeçarias escuras. Era muito vasto e a claridade do candelabro que levava na mão não conseguia iluminar todos os recantos. Doroteia atirou–se para uma cadeira, muda, imóvel, comovida, mal se atrevendo a olhar para as coisas às quais se ligavam tantas recordações. A seu lado, dispersos sobre a mesa, viam–se diversos objetos de uso da marquesa; sobre a poltrona, um vestido e alguma roupa; no chão, um par de chinelas de cetim preto; em cima do toucador, um véu e um par de luvas. Estava tudo como se ela acabasse de sair dali. Emília olhou para a cama onde morrera a marquesa. Estava encostada à parede, ao fundo do quarto, abrigada sob um dossel de seda verde. Os cortinados estavam meio corridos, tal como os haviam deixado vinte anos antes e o leito coberto com um pano de veludo preto descido até ao chão. Emília estremeceu, recordando o horror sentido no dia em que fora encontrar madame Montoni, expirando num dos quartos do castelo de Udolfo.
Ao mesmo tempo, Doroteia exclamou:
— Santo Deus! Tenho a impressão de ver a minha querida ama estendida ali, tal como a vi pela última vez.
Assustada, Emília olhou para o leito tapado com o negro pano. Doroteia encostou–se a uma das colunas, deixando correr as lágrimas.
— Encontrava–me aqui, precisamente, naquela noite terrível. Eu pegava na mão da minha adorada ama, escutando as suas últimas palavras. Apoiava a cabeça nesta almofada e tinha o rosto já desfigurado pela aproximação da morte. Com este pano preto cobriram o seu caixão e só depois o estenderam na cama.
Emília fixou o leito como se em pensamento ressuscitasse a cena. Viu a almofada alvejando sobre o veludo negro. Mas, enquanto, maquinalmente, olhava a cobertura sombria, teve a impressão de a ver agitar. Agarrou o braço de Doroteia que, surpreendida com o gesto e com o terror da companheira, também olhou para a cama e viu, distintamente, o veludo erguer–se e baixar–se ...
Emília quis fugir. Doroteia, gelada de medo, continuava a fixar o pano de veludo. Por fim, conseguia acalmar e sossegou:
— Não tenha medo, mademoiselle. Foi um sopro de vento. Deixámos as portas abertas. Veja como a chama das velas se agita também. Foi o vento, com certeza.
Mal tinha acabado de proferir estas palavras quando a cobertura voltou a levantar–se. Envergonhada por se ter mostrado tão medrosa, Emília quis verificar se, de fato, tinha sido o vento; aproximou–se do leito e afastou os cortinados; o pano de veludo voltou a mover–se, levantou–se, afastou–se um pouco, deixando entrever... um rosto humano.
As duas soltaram um grito e, deixando todas as portas abertas, fugiram tão depressa quanto lhes permitia a tremura que as fazia cambalear.
Chegando à escada, Doroteia abriu a porta do quarto onde dormiam duas criadas e caiu desmaiada em cima da cama. Emília, tendo perdido por completo a presença de espírito, deixou fugir algumas palavras, como explicação do seu terror. Pouco depois, quando Doroteia voltou a si, tentou gracejar a propósito da estranha aventura e Emília fez o mesmo; as criadas, porém, assustadas, não quiseram passar o resto da noite nas proximidades do misterioso quarto.
Doroteia acompanhou Emília aos seus aposentos. Mais calmas, comentavam ambas o acontecido. Emília quase chegaria a duvidar do testemunho dos seus olhos se a criada não confirmasse a realidade. Recordaram–se então do ligeiro ruído produzido na sala.
Emília perguntou se não seria possível alguém ter conseguido entrar naqueles aposentos e a criada respondeu que tal não poderia acontecer, pois as chaves nunca saíam da sua mão e, quando vinha ao castelo passar revista, mais de uma vez examinara as portas encontrando–as sempre fechadas.
— Não, não é possível entrar ali alguém. E, mesmo se isso acontecesse, como se lembraria de se deitar num quarto tão triste e abandonado?
Por fim, afirmou não ter o rosto entrevisto por ambas nada de humano. Não era mais do que terrível aparição.
Fosse como fosse, o estranho incidente ocorrido no quarto onde a marquesa morrera, inspirou a Emília supersticioso terror. A explicação dada às vãs fantasias concebidas no castelo de Udolfo, devia ter–lhe servido de lição; no entanto, as circunstâncias terríveis que haviam acompanhado a morte da marquesa, fizeram grande impressão no seu espírito e não se encontrava em estado de raciocinar.
— Só o tempo pode explicar esta misteriosa aventura — decidiu — Aguardemos.
Doroteia concordou. De súbito, recordou–se de ter deixado todas as portas abertas, mas não se sentiu com coragem para ir fechá–las, nem mesmo a que dava para a escada. Emília ofereceu–se para a acompanhar e aguardar que ela subisse e a fechasse. Mais tranquila com esta promessa, Doroteia acedeu e ambas se dirigiram para o misterioso quarto. Quando chegou ao pé da escada fraquejou e parou alguns momentos para escutar. Tranquilizada pelo silêncio que reinava à sua volta, subiu a correr e, sem se atrever a olhar para dentro, deitou a mão ao puxador, fechou a porta e, arquejante, foi ter com Emília, parada ao fundo da escada à sua espera.