Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXXVIII. Irmã Inês
XXXVIII
Irmã Inês
O conde dormiu pouco e levantou–se muito cedo. Ansioso por saber notícias de Ludovico, correu para a ala norte. A porta da escada estava fechada por dentro. Bateu e chamou cada vez mais alto, mas nem as pancadas nem os gritos foram atendidos. Supôs o rapaz adormecido e retirou–se disposto a voltar mais tarde. Decorrida uma hora repetiu a tentativa com idêntico resultado. Começou a temer que tivesse acontecido alguma coisa ao criado ou estivesse desmaiado com um susto. No entanto, como a porta que deitava para a escada ficava muito longe do quarto onde se instalara, podia muito bem não ter ouvido chamar. Fizeram muito barulho debaixo da janela desse quarto e gritaram por Ludovico. Resposta nenhuma. O conde não hesitou e mandou arrombar a porta. Foi o primeiro a entrar, seguido pelo filho e pelos criados mais corajosos; os outros aguardaram no fundo da escada.
Nas salas, o silêncio era profundo. Passando de uma para a outra, o conde ia chamando, mas não obteve resposta. Chegou ao quarto de dormir. Nem o mais leve ruído, nem mesmo o da respiração, indicava a presença de alguém, dormindo ou acordado. No entanto, as janelas estavam fechadas e o aposento mergulhado em profunda escuridão, que não deixava distinguir coisa alguma.
O conde ordenou a um dos criados para abrir uma das janelas. O rapaz obedeceu. Ao atravessar o quarto, tropeçou num objeto, caiu e soltou um grito, que assustou toda a criadagem. Henrique foi em pessoa abrir a janela. Quando a claridade entrou, viram ter o criado esbarrado com a poltrona onde Ludovico se instalara, mas o quarto estava vazio e o rapaz não se encontrou em parte alguma. O conde procurou na cama, pensando encontrá–lo ali, mas enganou–se. Contudo, exceto a poltrona atirada ao chão pelo criado, tudo estava em ordem; a mesa perto do fogão onde o lume se apagara, a espada desembainhada, o candelabro, o livro e meia garrafa de vinho; no chão, o cesto ainda com algumas provisões e um molho de lenha.
O conde não ocultou o seu espanto. Possivelmente, sob o império de medo, Ludovico fugira do quarto durante a noite, mas não pela porta, que encontrara fechada por dentro. Quanto às janelas, eram defendidas por varões de ferro, demasiado unidos para darem passagem a um homem. De resto, Ludovico não precisava de arriscar a vida, tomando esse caminho para fugir, quando tinha a porta à sua disposição. Sendo assim, só existindo uma porta secreta. E como explicar a fuga? Estava tudo em ordem e nos seus lugares.
Todos eles, o conde, o filho e os criados, começaram a levantar as tapeçarias no desejo de encontrar saída, mas não conseguiram descobri–la. Desapontado, o conde saiu e fechou a porta à chave. Ordenou em seguida minuciosas buscas por todo o castelo e nas vizinhanças, buscas que resultaram Inúteis. Em consequência, o terror dos criados cresceu a tal ponto que muitos abandonaram, imediatamente, o castelo, enquanto os mais corajosos acederam a ficar, mas só até o conde encontrar quem os substituísse. A pobre Annette estava desesperada.
Emília, cujo espírito já se encontrava muito abalado com a triste morte da marquesa e com os misteriosos laços que supunha existirem entre ela e seu pai, ficou impressionadíssima com tão extraordinário acontecimento. Mais do que nunca, desejava refugiar–se no convento, principalmente quando teve conhecimento da próxima chegada de Dupont cujos sentimentos, segundo afirmava o conde, continuavam a ser os mesmos. Emília não podia dar–lhe esperanças nem recusar–lhe a sua compaixão, por isso decidiu separar–se dos seus amigos e recolher ao convento de Santa–Clara. Foi acolhida com maternal ternura pela abadessa e com fraternal carinho pelas outras freiras. A comunidade já estava ao fato do estranho desaparecimento do criado. Nessa noite, depois da ceia, pediram a Emília para a descrever com todos os pormenores. No fim da narrativa, todas concordaram em a atribuir a uma influência sobrenatural.
— Durante muito tempo — afirmou uma das freiras, chamada Francisca — se acreditou que o castelo estava assombrado por espíritos e ficámos até muito admiradas quando soubemos ter o conde decidido habitá–lo. O antigo castelão tinha, segundo penso, algum pecado na consciência. Deus permita que as virtudes do atual possam atenuar o castigo merecido pelo primeiro, se, de fato, ele era um criminoso.
— Oremos pela sua alma! — pediu em voz surda uma das religiosas, que até ali guardara silêncio — Se foi criminoso, o que sofreu neste mundo deve ter aplacado a cólera de Deus.
Estas palavras foram proferidas num tom solene que impressionou Emília.
— Qual o crime de que o acusam? — perguntou uma noviça, sem ter notado a interrupção.
— Não me atrevo a dizê–lo — replicou a irmã Francisca — Ouvi contar muita coisa estranha a respeito do marquês de Villeroy. Pretendem, por exemplo, que logo a seguir à morte de sua mulher, abandonou o castelo para nunca mais voltar. Não me encontrava aqui nessa altura e falo apenas pelo que me disseram. Quando professei, a marquesa já tinha morrido havia muito tempo e com a maior parte das irmãs que aqui estão aconteceu o mesmo.
— Comigo não — protestou a religiosa que já falara e se chamava irmã Inês.
— Conhece circunstâncias que nos possam revelar se o marquês era ou não um criminoso? — inquiriu a noviça.
— Conheço, mas quem se atreverá a penetrar–me os pensamentos e violar o segredo da minha consciência? Poderei ser juiz dos seus atos? Não, esse juiz será Deus, só Deus, e esse homem já compareceu perante o tribunal divino.
Emília olhou com espanto para a irmã Francisca, Esta fez–lhe um sinal significativo.
— Vamos orar a Deus! — repetiu a irmã Inês, levantando–se e soltando profundo suspiro. Depois saiu.
— Que significa isto? — perguntou Emília depois dela sair.
— Não se admire — respondeu irmã Francisca — está muitas vezes assim. As suas ideias são um pouco incoerentes. Tem o cérebro desarranjado. Nunca assistiu a um dos seus ataques? — – Nunca — afirmou Emília — Por vezes, via–lhe no olhar uma expressão melancólica e alucinada, mas nunca notei qualquer coisa de estranho na sua linguagem. Pobre mulher! Rezarei a Deus por ela.
— As suas orações, minha filha, juntar–se–ão às nossas. A pobre irmã precisa muito delas, infelizmente.
— Minha mãe–perguntou a noviça, dirigindo–se à abadessa — Posso saber o que pensa do defunto marquês? Os estranhos acontecimentos desenrolados no castelo excitaram–me a curiosidade. Perdoe–me a pergunta. Qual o crime de que o acusam? A que castigo se referia a irmã Inês?
— Minha filha — respondeu a superiora com ar grave e reservado — É sempre perigoso arriscarmos suposições sobre assunto tão delicado. Não tomarei a responsabilidade de acusar o marquês nem de revelar o crime que lhe atribuíram. Quanto ao castigo de que a irmã Inês falou, presumo querer ela referir–se ao cruel tormento imposto pelo remorso. Tomem cautela, minhas filhas, nunca incorram em semelhante e terrível castigo. é ele o verdadeiro purgatório nesta vida de provações. Imitem antes a santa marquesa de Villeroy, que foi modelo de virtudes neste mundo, mesmo para quem viva neste convento. Os seus despojos mortais foram sepultados na nossa igreja, mas a sua alma, não duvidem, subiu para os céus.
Quando acabava de proferir estas palavras, a sineta tocou. A abadessa levantou–se.
— Vamos orar por todos os infelizes e por todos os pecadores. Confessemos também os nossos pecados e procuremos purificar a nossa consciência para merecer o céu onde a santa marquesa nos precedeu.
Emília ficou comovida com a exortação e, recordando o pai, murmurou:
— O céu onde ele me espera também!
E, reprimindo as lágrimas, seguiu a comunidade para a capela.
Entretanto, o conde de Villefort recebeu uma carta do advogado de Aix, incitando Emília a fazer valer os seus direitos à fortuna de madame Montoni. Pouco mais ou menos na mesma altura, Quesnel escreveu à sobrinha sobre o mesmo assunto, afirmando não se tornar necessário recorrer à lei, visto a única pessoa que podia opor obstáculos às pretensões da herdeira, já não existir. Um amigo, residente em Veneza, participara–lhe a morte de Montoni. Julgado ao mesmo tempo do que Orsino, foi declarado cúmplice deste na morte do nobre Veneziano. Orsino, considerado culpado, foi condenado e executado na roda. Quanto a Montoni, não encontraram bases para o condenar à morte. Mas o Senado, que o considerava, por diversos motivos, um homem perigoso, não achou conveniente pô–lo em liberdade e, pouco tempo depois, o Italiano morria na prisão por forma bastante misteriosa. Suspeitou–se de que o veneno apressara o seu fim. Fosse como fosse, a sua morte era certa e Quesnel dizia a Emília ser suficiente reclamar a herança da tia para a obter, acrescentando que a auxiliaria a cumprir todas as formalidades necessárias. Ao mesmo tempo, informava–a de estar quase a terminar o aluguer do Vale, aconselhando–a a instalar–se no palácio de Toulouse, que passara a pertencer–lhe, onde iria visitá–la, pois a prosperidade da sobrinha despertara–lhe súbita ternura pela herdeira, desprezada quando não passava de uma pobre órfã.
Porém, aquele para quem Emília desejara ser rica, já não podia gozar essa fortuna. Este pensamento ensombrou bastante a alegria causada pela reviravolta do Destino. No entanto, não deixou de agradecer a Deus tão grande benefício e ao conde as suas bondades. Quando este veio comunicar–lhe a resposta do advogado, não pôde deixar de notar a tristeza refletida na sua fisionomia e não hesitou em perguntar–lhe o motivo.
— É sempre o mesmo — replicou o conde — Continuo preocupado com a sorte do pobre Ludovico. Apesar de tudo quanto tentámos, eu e meu filho, não conseguimos descobrir coisa alguma a seu respeito nem a causa do seu desaparecimento.
E como Emília lhe perguntasse se considerava os antigos aposentos da marquesa assombrados pelos espíritos, tomou grave expressão. Depois de ter refletido durante algum tempo, tentou sorrir:
— Minha querida Emília, não se deixe influenciar por semelhantes ideias. As freiras chegariam a persuadi–la da existência de um fantasma em cada quarto desabitado. Mas, acredite–me — concluiu, soltando fundo suspiro — os mortos não voltam a este mundo por motivos frívolos, nem para se divertirem a assustar os pobres mortais. Só por causa muito grave. Deus consentiria que eles viessem até nós.
Calou–se um instante e logo concluiu:
— Não falemos mais nesse assunto.
Quando ele se retirou, Emília foi ter com as freiras e ficou surpreendida ao saber uma circunstância que o conde lhe ocultara: ele e seu filho Henrique tinham ousado passar uma noite no quarto de onde Ludovico havia desaparecido. Quando saíram de lá, no dia seguinte, ambos estavam pálidos e pensativos. Mostraram–se muito reservados nas respostas dadas a todas as perguntas que lhe fizeram, suplicando para não os interrogarem mais a tal respeito. As religiosas tinham conhecimento de todos estes pormenores pelos camponeses que iam levar fruta ao convento e os sabiam pelos próprios criados do castelo.
Emília escutava em silêncio os comentários das freiras sobre a temeridade do conde. A maior parte delas condenava–a, afirmando que penetrar nos domínios do demónio, era o mesmo do que provocá–lo. A irmã Francisca, pelo contrário, afirmava ter o conde demonstrado a bravura de uma alma nobre e generosa. Não sendo culpado por qualquer crime, não podia temer o espírito maligno, pois tinha direito à proteção de Aquele que castiga os maus e premeia a inocência.
A irmã Inês, cujas pupilas cintilavam, exclamou:
— Os culpados não podem invocar essa proteção: o conde deve examinar a sua consciência e verificar se tem direito a ela. Quem, entre os mortais, se pode considerar inocente de culpas? O mais inocente, só por comparação pode sê–lo, porque existe muita distância entre uma falta pequena e o crime. Em que abismos podemos ser precipitados, santo Deus!
E soltou doloroso suspiro que impressionou o coração de Emília. Erguendo a vista deu com o olhar da religiosa fixo em si.
— É nova e inocente — afirmou irmã Inês, pegando–lhe na mão — quero dizer, inocente de grandes crimes, mas tem em si o germe das violentas paixões, como todos nós. As paixões são como serpentes que dormem enroscadas no nosso coração. Procure não as despertar. Mordê–la–ão mortalmente.
Comovida com estas palavras e com a forma como haviam sido proferidas, Emília não conseguiu reter as lágrimas.
A irmã Inês observava–a com acuidade, e, por fim, mostrou–se perturbada.
— Chora? Tão nova e já infeliz? Somos então irmãs? Irmãs! Que disse eu? Os criminosos podem ter irmãos?
E, com olhar desvairado, acrescentou:
— Nunca mais terei repouso, paz e esperança! E todos esses bens os possui. Os meus olhos já não sabem chorar, queimam. A minha sorte está fixada, acabaram–se a fraqueza e as lágrimas! — Minha irmã — exortou uma das religiosas — oremos e arrependamo–nos. Ensinam–nos que a oração e a penitência podem salvar–nos. A esperança não morre na terra nem no céu para o pecador arrependido.
— Para todos, mas não para mim! — replicou a irmã Inês, num tom lúgubre e aterrador.
E, bruscamente, exclamou:
— A minha cabeça arde, estou doente! O passado! Se pudesse apagá–lo da memória! Estas sombras que se erguem diante de mim para me atormentarem, vejo–as quando durmo, quando velo, por toda a parte e sempre! Lá estão elas... aqui!
E ficou imóvel, com o dedo estendido, numa atitude de horror.
O seu olhar percorria o quarto, como se seguisse qualquer coisa. Uma das freiras pegou–lhe na mão para a levar consigo.
Inês acalmou, passou a mão pela testa e exclamou com um suspiro de alívio:
— Foram–se embora... partiram! Quando tenho febre não sei o que digo. Estou muitas vezes assim, mas isto passa. Daqui a pouco já estarei boa. Este toque é o das vésperas, não é assim?
— Não — respondeu a irmã Francisca — já terminaram. A irmã Margarida vai conduzi–la à cela.
— Tem razão — concordou a irmã Inês — lá estarei melhor. Boa noite, irmãs. Lembrem–se de mim nas suas orações.
E deixou–se conduzir, docilmente. Depois dela sair, a irmã Francisca, vendo a comoção de Emília, explicou:
— A nossa irmã tem muitos destes ataques, mas nunca a vi tão exaltada como hoje. Habitualmente, entrega–se à melancolia.
— De princípio, falava com sensatez — observou Emília — Os seus pensamentos eram coerentes e lógicos.
— É o costume. Já a tenho ouvido raciocinar assim e, momentos depois, falar como uma louca.
— Parece não ter a consciência muito tranquila. Sabe como chegou a tão deplorável estado?
— Sei — afirmou a religiosa em voz baixa para não ser ouvida pelas outras — Mas agora não posso dizer–lhe. Se quiser saber mais, vá ter comigo à minha cela na hora da meditação, antes ou depois das matinas.
Era mais de meia–noite quando Emília foi procurar a irmã Francisca. Encontrou–a de joelhos a orar diante de uma mesa sobre a qual se via uma imagem ao lado de alguns ossos humanos, uma ampulheta e pequena lamparina. Quando ouviu abrir a porta, voltou–se e, vendo Emília, fez–lhe sinal para entrar. Esta, sem proferir palavra, sentou–se na cama da religiosa e aguardou o fim da oração. Pouco depois, a irmã Francisca levantou–se e foi sentar–se–lhe ao lado.
— A curiosidade, minha irmã — disse sorrindo — tornou–a pontual. Mas eu pouco mais tenho a dizer–lhe de especial a respeito da irmã Inês. Evitei falar diante das outras irmãs por não poder denunciar, publicamente, uma pecadora.
— Agradeço a confiança que me demonstrou e não abusarei — afirmou Emília.
— A irmã Inês pertence a nobre família. Já o devia ter adivinhado pela dignidade do seu porte. Não serei eu quem desonre o seu nome, revelando–o. O amor foi a causa da sua desgraça e do seu crime. Amava um fidalgo pobre e o pai obrigou–a a casar com outro muito rico e a quem detestava. Não teve coragem para vencer a paixão, esqueceu os seus deveres e profanou o santo sacramento do matrimónio. O crime foi descoberto e o marido ultrajado tê–la–ia sacrificado à sua vingança, se o pai não interviesse, levando–a para um convento onde teria de professar. Correu o boato da sua morte e o pai, para a subtrair a novas tentações, confirmou–o. Agora já sabe tudo, minha irmã. Acrescentarei que a luta desencadeada no coração da irmã Inês, entre o amor, o remorso e a noção dos deveres impostos pelo hábito, acabou por lhe transtornar o cérebro.
Emília ficou impressionada com a história que, em parte, lhe recordou a da marquesa de Villeroy, também obrigada pelo pai a renunciar ao homem a quem amava. No entanto, pelo que Doroteia lhe contara, nada fazia acreditar ter a marquesa deixado de trilhar o caminho da honra. Desta forma, Emília, embora condoída com o sofrimento da religiosa, não pôde deixar de considerar com maior simpatia os infortúnios da outra vítima. Além disso, recordando certas palavras da irmã Inês, teve a impressão de existir outro crime a pesar naquela consciência já tão carregada. Perguntou à irmã Francisca se na sua mocidade a irmã Inês tinha sido muito formosa.
— Não estava aqui quando ela professou — respondeu a religiosa — mas recordo–me de que, quando a vi pela primeira vez, ainda podia considerar–se uma linda mulher. Atualmente, se o seu porte ainda é elegante, as feições estão envelhecidas e a custo se descobrem os vestígios da beleza de outrora.
— É singular — murmurou Emília — Há momentos em que me parece reconhecê–la. Vai considerar–me ridícula, com certeza, pois nunca a vi antes de entrar neste convento. Talvez tivesse encontrado, em qualquer parte, uma pessoa muito parecida com ela, mas o seu rosto não me é estranho.
— Talvez efeitos da sua imaginação, impressionada com o estado em que a irmã Inês se encontra. Nunca saiu do convento para onde entrou antes da minha Irmã nascer.
— Pouco mais ou menos na altura em que a marquesa de Villeroy morreu?
— Tem razão ... como lhe ocorreu essa ideia?
— Não sei dizer–lhe — declarou Emília.
Ficaram ambas caladas e pensativas até que a sineta, tocando a matinas, as arrancou da abstração.
Alguns dias depois, Emília recebeu a visita do conde, que lhe pareceu preocupado e sombrio como nunca o vira.
— Estou desorientado — respondeu quando Emília o interrogou — Vou ausentar–me durante algum tempo a fim de recuperar a tranquilidade. Minha filha e eu vamos acompanhar o barão de Sainte–Foix ao seu castelo, situado nos Pirenéus, perto da Gasconha. Pensei que, se está na disposição de regressar ao Vale, poderíamos fazer juntos parte da viagem. Seria para nós um grande prazer acompanhá–la a sua casa.
Emília agradeceu, lamentando não poder aproveitar tão agradável companhia, pois se via forçada a ir primeiro a Toulouse. Mas, quando se encontrasse no Vale, visto estarem tão perto uns dos outros, contava tornar a vê–los.
Alguns dias decorridos depois desta conversa com o conde, Emília recebeu nova carta de Quesnel, insistindo pela sua visita a Toulouse antes de se instalar no Vale, que já se encontrava desabitado. Emília não hesitou. Despediu–se das suas amigas do convento e, acompanhada por Annette e por um criado de confiança posto pelo conde à sua disposição, meteu–se ao caminho.