Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 36 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XXXV. A Entrevista

XXXV

A Entrevista

No dia seguinte, o conde mandou chamar Emília que logo adivinhou do que se tratava. Valancourt encontrava–se no castelo. Quando se aproximava do gabinete de trabalho do conde, a sua emoção foi tão forte que a obrigou a parar; no entanto, chamando a si toda a sua coragem, entrou no aposento. Com efeito, Valancourt encontrava–se ali. Quando a viram, os dois homens levantaram–se e depois o conde retirou–se, deixando–os sozinhos.

Emília conservava–se de olhos baixos e respirava a custo. Valancourt não se mostrava menos comovido. Por fim, foi ele quem quebrou o silêncio, dizendo em voz trémula:

— Desejei falar–lhe hoje, para sair da terrível incerteza que a sua mudança de atitude me causou. Em poucas palavras, o conde de Villefort acaba de me explicar em parte. Verifico ter inimigos invejosos, empenhados em me destruir a felicidade. Reconheço também que o tempo e a ausência enfraqueceram os seus sentimentos por mim.

Estas últimas palavras quase lhe morreram nos lábios. Emília não conseguiu responder–lhe.

— Que encontro o nosso! — exclamou Valancourt, erguendo–se e começando a passear de um lado para o outro — Que encontro este depois de tão longa separação”

Voltou a sentar–se e insistiu:

— Cruel Emília, por que não me responde?

E com uma das mãos ocultou o rosto, enquanto com a outra pegava na de Emília, que não lhe retirou. Vendo que ela não conseguia reprimir as lágrimas, o seu amor exaltou–se ao máximo, e um vislumbre de esperança iluminou–lhe a alma.

— Chora por minha causa! Nesse caso, ainda me ama, não mudou! Continua a ser a minha Emília! É assim que interpreto as suas lágrimas.

— Sim, choro por sua causa, mas como poderei amá–lo? Continua a ser o Valancourt de quem me orgulhava noutros tempos?

— Orgulhava... noutros tempos... o mesmo! Calou–se um instante, esmagado pela dor, para prosseguir quase logo: — Não, não sou o mesmo. Estou perdido! Já lhe disse que não me considerava digno de si!

E voltou a tapar o rosto com as mãos. Emília ficou muito impressionada com a confissão para poder responder–lhe imediatamente. Lutava contra o seu próprio coração e compreendia que corria o risco de fraquejar na presença de Valancourt. Em consequência, estava ansiosa por terminar a entrevista; contudo, quando pensava que, provavelmente, seria a última, toda a sua coragem a abandonava e esquecia tudo, menos o seu amor e sofrimento.

Valancourt, entretanto, esmagado pela dor e pelos remorsos, não tinha nem forças nem ânimo para expressar todos os sentimentos que o agitavam. Nem parecia dar pela presença de Emília. Apertava a cabeça nas mãos e soluçava.

— Poupe–me o desgosto de lhe repetir o que se passou. Temos de nos separar. Encontramo–nos hoje pela última vez.

— Não! — protestou Valancourt — Não pensa o que diz! Não pode expulsar–me da sua presença para sempre!

— Temos de nos separar, repito. O seu procedimento obriga–me a afastá–lo para sempre.

— Diga antes que obedece ao conde — replicou ele com amargura — Com que direito ele se coloca entre nós?

Proferindo estas palavras, voltou a levantar–se e percorreu o aposento em largas passadas.

— Não se iluda — protestou Emília, não menos comovida — A resolução foi minha. O meu repouso assim o exige.

— O seu repouso exige que nos separemos para sempre? Nunca esperei escutar semelhantes palavras da sua boca!

Calou–se um instante e depois, na exaltação da sua dor, começou a chorar.

— Descai da minha própria estima, confesso — disse por fim — Mas, apesar das minhas culpas, a Emília não teria renunciado a mim com tanta facilidade se não tivesse deixado de me querer, se não cedesse às sugestões de outra pessoa, aos seus projetos, quem sabe. Não, Emília, não, não consentiria em semelhante coisa, se no seu coração ainda existisse uma centelha de afeto por mim. De qualquer forma, tentaria realizar a sua felicidade e a minha.

— A minha felicidade! Como pode falar assim? — protestou' ela — Eu teria desculpa se lhe confiasse? E se me estima, como pode aconselhar–me a fazê–lo?

— Se a estimo? — exclamou Valancourt–Como pode duvidar do meu amor? ... Pois bem, sim, faz bem em pensar assim. Receio menos perdê–la do que envolvê–la na minha ruina... porque estou arruinado, sem recursos, crivado de dívidas.

O olhar era desvairado e exprimia profundo desespero. Emília, obrigada a fazer justiça à sinceridade de Valancourt, lutava contra os próprios sentimentos. Por fim, conseguiu recuperar um pouco de calma.

— Não podemos prolongar esta conversa, cujo resultado será sempre o mesmo e apenas serve para nos ferir. Valancourt... adeus!

— Não, não se vá embora, não me deixe assim! — protestou, impetuosamente — Não me abandone antes do meu espírito recuperar as forças para poder suportar este golpe!

Aterrada com a expressão sombria do olhar, Emília disse–lhe em voz branda:

— Reconhece que devemos separar–nos. Se deseja provar que ainda me ama, terá de conformar– se.

— Nunca, nunca! — protestou ele, fora de si — Fui um louco quando me resignei. É demasiado, Emília. Confessei–lhe os meus erros, mas não são eles a barreira que nos separa. Não, não é isso, é a vontade do conde e ele, juro–o, não será por muito tempo obstáculo à minha felicidade! — Desgraçado!

— Agora é que fala como um louco. O conde não é seu inimigo, Valancourt. É meu amigo e esse título bastaria para o tornar sagrado a seus olhos.

— Seu amigo! — replicou Valancourt com vivacidade — Desde quando é ele seu amigo, um amigo com influência para lhe fazer esquecer o seu amado? É seu amigo por desejar que se incline para Dupont, para aquele que, segundo me contou, a trouxe de Itália e, sou eu quem o afirma, me roubou o seu coração? Não tenho o direito de a interrogar, eu sei. É livre para dispor dele à sua vontade. Mas o meu rival não aproveitará o seu triunfo por muito tempo, juro–o!

Aterrada com a exaltação de Valancourt, Emília suplicou:

— Acalme–se, seja razoável, peço–lhe! Nem Dupont é seu rival, nem o conde o protege. O seu único inimigo, Valancourt, é o senhor mesmo. Reconheço agora que já não é aquele Valancourt a quem tanto amei.

O rapaz não lhe respondeu. Com as mãos apoiadas na mesa, contemplava–a em silêncio, numa atitude acabrunhada. Por seu lado, Emília, muda e trémula, não se atrevia a sair da sala.

— Desgraçado! — exclamou ele de repente — Acuso os outros quando deveria acusar–me a mim próprio! Para que acedi a ficar em Paris? Por que não me defendi das seduções que me arrastariam e me tornariam desprezível a meus próprios olhos?

Voltando–se para Emília, reparou como estava pálida e calculou quanto devia sofrer. Adivinhando– a tão infeliz como ele, acalmou.

— Não a importunarei por mais tempo, Emília — declarou com esforço — Mas, antes de partir, permita–me que lhe afirme: seja qual for o meu destino, por muito grandes que sejam os meus sofrimentos no futuro, nunca deixarei de amá–la apaixonadamente! ... Vou deixá–la para sempre, Emília!

A voz sumiu–se–lhe, as lágrimas sufocaram–no e não conseguiu levantar–se. Por seu lado, Emília não tinha coragem nem para lhe dizer adeus nem para sair. Quase esquecia os erros de Valancourt. Sabia, unicamente, que sofria e tinha pena dele.

Conseguindo dominar–se, o rapaz prosseguiu:

— Sou um desgraçado, mas não quero ser cobarde. Não tentarei modificar–lhe a resolução, evocando um amor egoísta. Renuncio a si, Emília. E se o Destino me for adverso, consolar–me–ei pensando que não a arrastei comigo. Na verdade, não tenho o mérito do sacrifício e nunca teria tido, sinto–o, a coragem de a libertar, se a prudência não me impusesse a separação.

Calou–se um instante e Emília, mal podendo reprimir as lágrimas, dispunha–se a dizer–lhe: “Reconheço, enfim, a linguagem de outros tempos! ” Mas calou–se. Valancourt viu as lágrimas que, a despeito da sua vontade, lhe corriam pelas faces e com novo e violento esforço, conseguiu acrescentar:

— A recordação deste doloroso momento será a minha salvaguarda para o futuro. Desde este instante desafio os maus exemplos e a tentação. As lágrimas que chora por mim fortificar–me–ão a vontade e elevar–me–ão acima de todos os perigos.

Um pouco mais animada com esta promessa, Emília respondeu–lhe:

— Separamo–nos para sempre, Valancourt. Mas se deseja a minha felicidade, recorde–se de que coisa alguma neste mundo poderá contribuir tanto para ela como sabê–lo reconciliado consigo mesmo.

Valancourt pegou–lhe na mão e tentou despedir–se, mas as palavras foram sufocadas pelos soluços. Decorridos alguns instantes, Emília, num esforço, proferiu a palavra fatal:

— Adeus, Valancourt. Seja feliz.

E tentou libertar a mão. Ele, porém, prendeu–a e cobriu–a de lágrimas.

— Para quê prolongar estes momentos tão dolorosos para si como para mim? — observou Emília com voz sumida.

— Sim, muito dolorosos, muito! — exclamou Valancourt, largando–lhe a mão e deixando–se cair na cadeira.

Depois de algum tempo, empregado a lutar contra a dor, conseguiu reagir.

— Adeus, Emília — despediu–se em voz trémula — Será sempre a única no meu coração, sempre! ... E quando pensar em mim, seja com piedade, se não pode ser com estima. O que será para mim a vida sem o seu amor? ... Mas não, não quero prolongar as despedidas. Adeus, Emília!

Voltou a pegar–lhe na mão, beijou–a, contemplou–a demoradamente, e saiu da sala.

Emília ficou como que pregada ao chão, tão comovida que mal conseguia respirar. Escutou o ruído dos passos que, pouco a pouco, se desvanecia. Foi arrancada aos seus tristes pensamentos pela voz da condessa que, no jardim, ria contente. Com olhar triste fixou a poltrona onde Valancourt se sentara pouco antes. A comoção da despedida havia sido muito forte e nem conseguira chorar. Naquela' altura, porém, deixou correr as lágrimas e foi refugiar–se no quarto.