Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XLV. Conclusão
XLV
Conclusão
O casamento de Emília e de Branca realizaram–se no mesmo dia, no castelo de Blangy, com um esplendor pouco habitual naquela época.
O salão foi revestido com tapeçarias novas, representando Carlos Magno e os Doze Pares. Viam– se os altivos sarracenos, marchando para o combate, assim como todos os encantamentos mágicos do feiticeiro Merlim. Os sumptuosos estandartes da casa de Villeroy, tirados dos armários onde por tanto tempo haviam estado encerrados, voltaram a esvoaçar ao vento, no alto das janelas ogivais de vitrais coloridos. A música, soando por todos os lados, despertava, alegremente, os ecos das compridas galerias.
Annette afirmava nem nos mais belos contos encontrar descrições tão esplêndidas, e que os próprios duendes não faziam melhor quando se reuniam. Quanto à velha Doroteia afirmava ter o castelo regressado ao esplendor de outros tempos.
Depois de ter contribuído para a magnificência destas festas, Emília e Valancourt despediram–se dos seus amigos e regressaram ao Vale, onde a velha Teresa os acolheu com sincera alegria. Naquele agradável retiro encontraram recordações que, de futuro, podiam encarar sem amargura. Percorrendo o castelo onde tanto tempo vivera com o pai e a mãe, Emília mostrava ao marido os lugares preferidos por eles e supunha vê–los ainda a seu lado, sorrindo–lhe.
Valancourt conduziu–a para junto do plátano onde pela primeira vez lhe confessara o seu amor. A recordação dos desgostos, dos perigos e das tristezas, sofridos depois desse dia, mais profunda tornava a sensação da atual felicidade. Naquele ponto, tão querido por Saint–Aubert, juraram um ao outro tornarem–se dignos dele, imitando a sua bondade, não só nos seus gestos de caridade, como também na sua vida sem mancha, consagrada a honrar Deus e a servir a Humanidade.
Logo depois do regresso do casal ao Vale, o irmão de Valancourt visitou–os para os felicitar e apresentar as suas homenagens a Emília. Ficou tão encantado com as perspectivas de felicidade proporcionadas ao irmão pelo casamento, que lhe doou, imediatamente, metade da sua fortuna e, como não tinha filhos, considerou–o herdeiro do resto.
As propriedades de Toulouse foram vendidas. Emília comprou a Quesnel o antigo castelo do pai. Dotou Annette e instalou–a em Espourvillec com Ludovico. Quanto a ela e Valancourt, preferiram o Vale a qualquer outra residência. Todos os anos, porém, respeitando a memória de Saint–Aubert, passavam algumas semanas na moradia onde decorrera a sua infância.
Emília consultou o marido, pedindo–lhe para ceder à família de Bonnac o legado recebido da signora Laurentini. Valancourt compreendeu quanta delicadeza havia na cedência da avultada herança a um amigo que lhe era devedor. Desta forma, o castelo passou a pertencer à esposa de Bonnac, a mais próxima parente dos senhores de Udolfo, e esta família, tanto tempo infeliz, pôde enfim alcançar o repouso e a prosperidade de que era digna
Gostaríamos de falar ainda de Valancourt e de Emília, descrever a sua alegria ao sentirem–se livres da opressão, vingados das injustiças e restituídos ao amor um do outro! Contar como, avançando de mãos dadas pela estrada do bem que conduz à felicidade, saborearam em comum os prazeres de uma inteligência cultivada e da bondade ativa, e como os arvoredos do Vale se transformaram numa espécie de templo consagrado à sabedoria e à tranquilidade doméstica.
Possa ao menos esta história demonstrar uma verdade útil: o crime pode obter passageiro triunfo, mas a virtude, amparada com a paciência, mais cedo ou mais tarde acaba por vencer a injustiça e a desgraça.
E se a mão que a escreveu conseguiu, com as suas discrições e consoladora moral, suavizar momentos de tristeza, e reanimar a coragem de algum infeliz, os seus esforços não terão sido Inúteis e o autor terá recebido a sua recompensa.
Fim
{1} mercenários
{2} Hoje são bem conhecidos os efeitos da electricidade atmosférica.
{3} Antiga moeda de ouro fabricada e utilizada na Itália.
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Ann Radcliffe
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