Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXVI. A Canção da Gasconha
XXVI
A Canção da Gasconha
Quando, na manhã seguinte, Montoni soube que sua havia morrido sem lhe ter dado a assinatura que dela exigira, nem o mais simples sentimento das conveniências pôde conter a explosão da sua cólera. Emília fez o possível por lhe evitar a presença e durante dois dias e duas noites, velou o corpo da tia.
Profundamente emocionada com o trágico destino da infeliz, esqueceu todos os agravos, as injustiças e dureza, para se recordar apenas de quanto havia sofrido.
As suas orações não foram interrompidas por Montoni, que evitava o quarto onde dormiam os restos de sua mulher assim como aquela ala do castelo, como se receasse o contágio da morte. Apesar das insistentes súplicas de Emília, coisa alguma indicava preparativos para o enterro. Chegou a recear que, como supremo insulto pela memória de madame Montoni, ele lhe recusasse sepultura cristã. Ficou mais tranquila quando Annette lhe comunicou, da parte do castelão, que o enterro teria lugar nessa noite. Como Montoni lhe mandasse dizer que não assistiria, pareceu–lhe cruel que os despojos da sua infortunada tia descessem ao túmulo sem que um parente ou amigo lhes prestasse a última homenagem. Decidiu acompanhá–la, embora estremecesse de horror só com a perspectiva de ter de descer à capela, entre homens com caras patibulares, sozinha, à meia–noite, hora escolhida por Montoni para entregar ao esquecimento de um sepulcro ignorado os restos de uma mulher cujo fim fora obra da sua cruel perseguição.
Compenetrada pela dor e pelo respeito, com o auxílio de Annette vestiu a tia, envolveu–a na mortalha e aguardou a meia–noite. Quando chegou a hora, ouviu os passos dos homens que deviam levar à sepultura aquela vítima torturada que, na morte, repousava serena. Mal conseguiu reprimir um gesto de repulsa quando encarou os seus rostos grosseiros e cruéis. Dois deles, sem proferir palavra, carregaram, o caixão aos ombros, o terceiro precedeu–os com um archote aceso e todos se encaminharam para a capela subterrânea onde havia sido aberta a cova.
Impunha–se atravessar dois pátios, cuja escuridão e silêncio pouca impressão causaram no espírito de Emília, então ocupado com ideias bem tristes; pouca atenção deu ao piar' lúgubre dos mochos, aninhados nas ruínas e ao voo pesado dos morcegos, atraídos pela luz. Os dois homens entraram na capela e, depois de percorrerem as naves em ruínas, pararam junto de pequena escada de pedra que conduzia a uma porta baixa. O portador do archote desceu primeiro e abriu–a, patenteando aos olhos de Emília uma espécie de tenebroso abismo. O caixão foi conduzido até ao último degrau onde o terceiro bandido se encontrava para o receber. Esmagada pela dor e pelo terror, Emília tomou o braço de Annette, que tremia tanto como ela. Parada no primeiro degrau, não encontrava em si forças para continuar e para ali ficou até que o fraco clarão do archote começou a desvanecer–se e o martelar dos passos se afastou. Então, como se a escuridão que começava a envolvê–las despertasse de novo os seus receios e o sentimento do dever fosse superior a tudo, recuperou a coragem. Guiada pelo débil clarão e pelo ranger da grade que girava nos gonzos, desceu e penetrou no subterrâneo; viu os homens que depunham o caixão no chão, junto de uma cova recém–aberta. Estavam ali um criado de Montoni e um padre de aspecto venerável, que rezou as orações fúnebres em voz baixa e comovida. Quando o corpo desceu à terra, o quadro era daqueles que tentaria o pincel de um Dominiquino. O semblante feroz e o trajo estranho dos condottieri, inclinados para a cova sobre a qual faziam incidir o clarão dos archotes, as feições ascéticas e a barba branca do religioso, envolto no comprido hábito branco, a atitude comovente de Emília, encostada ao braço de Annette, revelando ambas profundo abatimento, os reflexos da luz na abóbada, os montículos de terra, indicando outras sepulturas, as sombras que envolviam a cena, todas estas circunstâncias reunidas teriam dado a um espectador estranho ao que se passava a impressão de um acontecimento ainda mais terrível do que o enterro da infeliz castelã.
Quando a cerimónia acabou, o sacerdote olhou para Emília com atenção e surpresa. Parecia animado pelo desejo de lhe falar, mas a presença dos condottieri inibia–o de o fazer. Enquanto o reconduziam através dos pátios não se coibiam de fazer indecentes comentários sobre o sacerdote e a santa cerimónia que acabava de realizar–se. Suportou tudo em silêncio, considerando como milagre se conseguisse entrar são e salvo no convento. Chegando ao último pátio, abençoou Emília e seguiu o homem que o acompanhou à porta principal. O semblante do venerando monge comoveu Emília. Fora ela quem, à força de muito suplicar, conseguira que Montoni mandasse chamar o padre para prestar as últimas homenagens aos despojos da tia. Annette disse–lhe que o santo homem pertencia a um convento situado na montanha, a poucas milhas de distância. O superior, que temia Montoni e os seus homens, com receio de o ofender com uma recusa, ordenou a um dos religiosos que fosse oficiar no enterro. A caridade cristã e a santidade do dever a cumprir, foram superiores à repugnância do frade, que entrou no castelo a tremer; além disso, o chão da capela era considerado como terreno sagrado e nenhum padre poderia recusar–se a abençoar a cova da infeliz senhora.
Emília passou os dias seguintes no mais absoluto recolhimento, chorando a tia e devorada de angústia e ansiedade pelo seu próprio destino. Por fim, decidiu fazer nova tentativa para obter de Montoni licença de regressar a França, embora o horror que lhe inspirava semelhante homem a obrigasse a adiar o projeto de dia para dia. Foi Montoni quem pôs ponto na hesitação, mandando–a avisar de que pretendia falar–lhe e marcando–lhe a hora para a entrevista. De princípio, animou–a o pensamento de que, tendo morrido a tia, ele se dispunha a renunciar à autoridade que exercia sobre ela. Em seguida, porém, lembrou–se das propriedades que Montoni pretendia e eram agora propriedade sua. Por certo, iria exigi–las. Essa ideia, em vez de lhe quebrantar a coragem, mais a reanimou. Tudo teria sacrificado pelo sossego da tia, mas não estava resolvida a concessões para evitar as brutalidades do castelão! Por causa de Valancourt, desejava conservar a herança e assegurar uma certa abastança, penhor da felicidade de ambos. Ao pensar no seu amado, reconhecia quanto lhe queria e de antemão vivia o momento em que lhe revelasse estar de posse de tão grande fortuna. Via o sorriso que lhe animaria o semblante, o olhar de reconhecimento que a recompensaria e tudo isto era o bastante para a levar a afrontar todos os males que a infernal maldade de Montoni pudesse inventar. Recordou–se, pela primeira vez depois da morte da tia, de que esta lhe revelara o esconderijo onde se encontravam os títulos de propriedade e prometeu a si própria ir buscá–los quando terminasse a entrevista.
Nesta disposição de espírito, dirigiu–se para a sala onde o castelão se encontrava com Orsiní e outros dos seus habituais companheiros. Estava de pé, junto de uma mesa sobre a qual se viam alguns papéis.
— Emília — disse levantando a cabeça — mandei–a chamar para me servir de testemunha num assunto delicado que acabo de tratar com Orsini. Limitamo–nos a pedir–lhe que assine este documento e seja discreta.
Pegou num documento que leu entre dentes, voltou a pô–lo em cima da mesa e entregou a caneta a Emília, indicando–lhe onde devia assinar. Ela dispunha–se a fazê–lo quando lhe ocorreu súbita ideia. Recordou a carta escrita a Quesnel e temeu nova cilada. Pousou a caneta e recusou–se a assinar sem ter lido primeiro. Montoni esboçou um sorriso, voltou a pegar na folha, releu com voz tão indistinta como da primeira vez e restituiu–lhe. Emília, porém, recusou–se categoricamente, a assinar. Compreendendo então que havia sido adivinhado, o castelão mudou de tom e ordenou–lhe que o acompanhasse.
Quando se encontraram sozinhos na sala contígua, declarou–lhe ter sido seu desejo, tanto por ele como por ela, evitar questões inúteis num assunto em que a sua vontade estava de acordo com a justiça e valia como lei. Preferia fazer–lhe ver que o seu dever consistia na submissão e obediência.
— Como viúvo da signora Montoni — acrescentou — sou seu herdeiro e os bens que me recusou em vida pertencem–me por sua morte. Gostaria, para seu bem, de lhe tirar da cabeça as tolas ideias que alimenta sobre os seus supostos direitos. Considero–a muito sensata e inteligente, muito mais do que é hábito serem as do seu sexo, para provocar o meu ressentimento com reclamações infundadas.
Calou–se. Emília também deixou passar em silêncio as interesseiras lisonjas.
— Eis a alternativa que lhe proponho — continuou Montoni –Se fizer uma ideia justa deste assunto, em breve se encontrará em França. Se, pelo contrário, for tão tola que persista nas quiméricas pretensões sugeridas por sua tia, considere–se minha prisioneira até que a reflexão a torne mais razoável.
Com calma, Emília respondeu:
— Não ignoro a justiça das leis do meu país e não me deixo iludir pelas afirmações seja de quem for. As leis conferem–me a posse dos bens a que aludiu. Invoco–as e a minha mão não atraiçoará, cobardemente, os meus direitos.
— Muito bem — retorquiu Montoni com frieza — Verifico ter–me enganado na opinião que formei sobre o seu bom senso. Faz afirmações audaciosas e presunçosas sobre um assunto que desconhece completamente. Por hoje, perdoo–lhe a ignorância, mas se teima nessa cegueira, de antemão lamento a fraqueza de espírito que a expõe aos mais severos castigos.
— Espero que a minha força de alma corresponda a justiça dos meus direitos — volveu Emília com tanta calma como dignidade –Deus me dará coragem para sofrer e suportar a opressão.
— Fala como uma heroína — comentou Montoni com ironia — Veremos se sabe também sofrer como elas.
Em seguida saiu, bruscamente, da sala.
Emília foi procurar os papéis no esconderijo, indicado pela tia. Encontrou ali todos os títulos relativos aos seus bens. Mas, como não conhecia sítio mais seguro para os ocultar, deixou–os onde estavam, sem mesmo os ler, com receio de ser surpreendida.
De regresso ao quarto, meditou, longamente, nas ameaças de Montoni e nos perigos a que se expunha, afrontando a vontade e a cólera de semelhante homem. A perspectiva, porém, não lhe inspirou a ideia 'de ceder. Não lutava com o pensamento posto nos interesses de Valancourt?
Uma gargalhada que partiu da esplanada arrancou–a a estas reflexões. Correu à janela e ficou muito admirada quando viu três damas, trajando à moda de Veneza, que passeavam com vários cavaleiros. Quando o grupo passou debaixo da janela, uma delas levantou a cabeça. Emília reconheceu a signora Livona, cujos modos agradáveis a haviam conquistado, durante a sua permanência em Veneza. Esta presença provocou–lhe um misto de alegria e ansiedade. Podia considerar–se a mais agradável das surpresas a visita de uma pessoa amável; mas, por outro lado, essa visita a um castelo tão pouco próprio para atrair as mulheres, o trajo luxuoso que excluía a hipótese de constrangimento, inspiraram–lhe involuntárias e dolorosas suspeitas sobre os princípios e caráter de sedutora criatura.
Quando Annette entrou no quarto, dirigiu–lhe várias perguntas sobre a presença dos novos hóspedes.
Annette sentia–se tão ansiosa por falar como Emília por saber, apressou–se a informar:
— Chegaram há pouco de Veneza com dois cavaleiros. Estou muito satisfeita, asseguro–lhe, por ver caras de pessoas cristãs. Mas não deixo de perguntar a mim mesma o que vêm elas fazer aqui. Só uma pessoa maluca se atreve a visitar um lugar destes. Não pode dizer–se que fossem trazidas à força. Estão muito alegres para isso.
Emília pediu–lhe para saber ao certo quem eram aquelas damas e tudo quanto se relacionasse com elas.
Quando ficou só, tentou distrair–se com a leitura de uma dessas cenas imaginárias que os poetas se aprazem em descrever. Mas impõe–se ter o espírito desanuviado para poder apreciar–se os prazeres, mesmo os de ordem mais elevada. As inspirações do génio, por muito vivas e brilhantes que fossem, pareciam–lhe insípidas, sem beleza. Ao folhear o livro, não podia deixar de pensar: “Serão estas as páginas que tanto apreciei? ... Onde estava o seu encanto? No meu espírito ou no do seu autor? Nos dois — concluía após alguns momentos de reflexão — O génio do poeta perde o seu calor, se o espírito do leitor não atinge a mesma vibração. Para que ele a sinta, torna–se necessário que essa vibração se comunique”.
À noite, com receio de encontrar os hóspedes de Montoni se desse o habitual passeio pela esplanada, limitou–se, para tomar ar, a passear pela galeria que conduzia ao seu quarto. Quando atingiu uma das extremidades, chegou–lhe aos ouvidos o eco das gargalhadas, não as manifestações de inocente alegria, mas os transportes tumultuosos da orgia e do deboche. Partiam da ala habitada por Montoni. Tais manifestações, tão poucos dias depois da morte da tía, indignaram–na. Escutando com mais atenção, pareceu–lhe ouvir vozes de mulher e isso deu–lhe a certeza de que Livona e as outras não estavam ali contra vontade. Tremeu ao pensar na sua própria situação. Encontrava–se isolada no castelo, na solidão dos Apeninos, rodeada por homens rudes, ferozes, a quem considerava como bandidos, sendo testemunha involuntária de escândalos cuja ideia bastava para a fazer estremecer.
Todavia, como não desejasse voltar para o quarto antes do regresso de Annette, prosseguiu no seu passeio pela galeria. Ao passar diante da porta da sala vermelha, estremeceu ao recordar o dia em que lá entrara e o terrível espetáculo entrevisto quando se atrevera a erguer a cortina que encobria o suposto quadro. Todas as crueldades de que Montoni seria capaz lhe ocorreram ao pensamento. Estugou o passo mas, nesse instante, pressentia alguém atrás de si. Supôs tratar–se da criada e voltou–se. Viu então um vulto que a seguia e, poucos momentos depois, sentiu–se apertada nos braços de um homem que lhe murmurava ao ouvido palavras ininteligíveis.
Quando teve forças para falar, perguntou quem estava ali.
— Sou eu, não se assuste.
Tentou reconhecer quem lhe falava, mas não o conseguiu, porque a claridade derramada pela janela era muito fraca.
— Seja quem for — suplicou em voz trémula — pelo amor de Deus, largue–me.
— Encantadora Emília, para que se esconde, quando no castelo reina a alegria? Acompanha–me à sala. Será o mais belo ornamento da nossa festa e verá como gosta.
Emília não lhe respondeu e tentou libertar–se.
— Prometa–me que vem e largá–la–ei imediatamente. Antes, porém, desejo a minha recompensa.
— Quem é o senhor? — perguntou Emília num misto de terror e indignação, redobrando de esforços para fugir — Quem é para ter a cobardia de me insultar assim?
— Insultá–la? — protestou o homem –Eu que venho arrancá–la à solidão para a levar para o seio de uma companhia alegre e divertida! ... Não me reconhece?
Emília reconheceu, vagamente um dos acólitos de Montoni, o mais feroz dos três desconhecidos que um dia encontrara na esplanada.
— Venha, encantadora Emília, venha eclipsar todas as belezas reunidas para nos encantar! É a única, juro–lhe, a única a quem considero com direito ao meu amor.
Tentou beijar–lhe a mão, mas a indignação de Emília foi tanta que lhe deu forças para libertar–se– lhe dos braços e fugir para o quarto. O homem seguiu–a, mas ela teve tempo de fechar a porta antes dele chegar. Barricou–a com móveis e, por fim, deixou–se cair numa poltrona, esgotada pelo esforço e pelo terror. Ouviu as tentativas que ele fez para abrir a porta e as súplicas que lhe dirigiu. Acabou por se cansar e, desiludido, foi–se embora. Emília conservou–se na defensiva por muito tempo ainda, mas, como não ouvisse mais nada, sossegou. De repente, lembrou–se da escada secreta pela qual, facilmente, podiam entrar–lhe no quarto. Apressou–se a encostar–lhe os mais pesados móveis, como tanta vez havia feito e voltou a sentar–se. Tomadas estas precauções, já mais calma, começou a refletir nas ameaças de Montoni. Seria o ataque do homem obra do castelão? Via a sua honra exposta a inúmeros perigos e começou a arrepender–se por ter desafiado semelhante bandido. A luta tornava–se impossível. O próprio Valancourt lhe pediria para não persistir na posse da fortuna por aquele preço. A si mesma prometeu que, se escapasse dos perigos daquela noite, cederia às exigências de Montoni a troco do seu imediato regresso a França.
Logo que tomou esta resolução, sentiu–se mais calma. Por muito tempo se deixou ficar para ali, sem mesmo acender a luz. Por vezes, erguia–se da cadeira e aproximava–se da porta na esperança de ouvir os passos de Annette, mas tal não aconteceu. Decidida a velar toda a noite, deitou–se vestida e começou a pensar nos seus queridos pais e em Valancourt, tão longe dela como se estivesse morto. Por vezes, murmurava–lhe o nome e a sensação deliciosa que ele lhe dava servia–lhe de lenitivo aos pesares que a afligiam.
De súbito, chegaram–lhe aos ouvidos os acordes longínquos de deliciosa música. Escutou com atenção e teve a impressão de ser a mesma que certa noite se fizera ouvir, precisamente à meia–noite. Levantou–se e abriu a janela devagarinho. Os sons pareciam partir do quarto que ficava mesmo por baixo.
Pouco depois, acompanhando a música, fez–se ouvir uma voz muito doce e expressiva, entoando triste canção. Emília teve a impressão de não ser a primeira vez que escutava acordes tão suaves e penetrantes. A recordação, no entanto, era muito fraca. A música dissipou–lhe as preocupações tal como um raio de sol dissipa as nuvens, harmoniosas, comovente como o murmúrio do zéfiro aos ouvidos do caçador, quando este desperta do mais belo dos sonhos durante o qual foi embalado pelo concerto dos “espíritos da montanha”.
Mas como descrever a sua emoção quando a voz começou a entoar uma canção da sua terra, uma dessas canções populares tantas vezes escutada na sua infância e que o pai também cantava para ela! Sim, não podia duvidar, tratava–se da mesma canção, entoada com tanto gosto como suavidade. O coração palpitou–lhe com as recordações do passado. Os encantadores e aprazíveis campos da Gasgonha, a ternura dos pais, as alegrias calmas de criança, tudo lhe desfilou diante dos olhos como num belo quadro, tão delicioso, que o contraste dessa felicidade tão pura com as cenas e pessoas que a rodeavam no castelo, tornou mais pungente, como cruel espinho, a consciência dos seus males. Não conseguiu suportar por mais tempo aquela canção, que tantas vezes a encantara nos dias de felicidade. Fechou a janela e retirou–se para o ponto mais afastado do quarto. Em breve, porém, a voz se calou apenas por alguns instantes. O ritmo mudou e dessa vez Emília reconheceu uma canção outrora ouvida no pesqueiro e que, devido às misteriosas circunstâncias que a tinham acompanhado nessa altura, nunca lhe saíra da memória. Mais ainda, não duvidou de que a voz que a cantava naquele momento fosse a mesma desse dia tão distante já. A partir desse momento, o espanto deu lugar a outras' sensações, a esperanças tão inesperadas, tão estranhas, que mal se atrevia a concebê–las e, ao mesmo tempo, não conseguia expulsá– las do coração. De pé, junto da janela, respirou a plenos pulmões e debruçou–se para melhor ouvir. Debatendo–se entre a esperança e a dúvida, pronunciou, timidamente, o nome de Valancourt e deixou–se cair na cadeira. Valancourt! Seria possível que estivesse tão perto? Recordou certas circunstâncias que a haviam levado a reconhecer–lhe a voz, embora o rapaz nunca tivesse cantado para ela. E depois, não lhe tinha ele dito certa vez ser o pesqueiro o seu passeio favorito, mesmo antes de a conhecer? Desta forma, como duvidar ter sido Valancourt o músico desconhecido que um dia a encantara e também o autor dos versos que exprimiam terna admiração por ela? Não sendo ele, quem poderia ser o desconhecido? Nos primeiros tempos, perdera–se em conjecturas sobre a personalidade do cantor e do poeta tão misterioso um como outro. Mas depois da sua ligação com Valancourt, depois, acima de tudo, dele lhe ter falado no pesqueiro, não hesitara em atribuir–lhe os versos e o canto, tão carinhosamente, guardados no seu coração.
À medida que a reflexão confirmava as suas suposições, a alegria, o receio e o amor faziam, alternada–mente, palpitar o coração de Emília. De repente, porém, a música deixou de se fazer ouvir. Hesitante, não querendo, se de fato, fosse Valancourt, cometer a imprudência de lhe pronunciar o nome, mas, ao mesmo tempo, temendo perder a oportunidade de esclarecer as suas dúvidas, debruçou–se na janela e perguntou em voz alta:
— Cantou uma canção da Gasconha, não é verdade?
Atenta, inquieta, ansiosa, aguardou a resposta que não veio. O silêncio era profundo. A ansiedade aumentou com a impaciência. Repetiu a pergunta, mas o resultado foi o mesmo– Só o assobiar do vento, passando pelas ameias, interrompia a calma da noite. Tentou então animar–se com o pensamento de que o misterioso cantor se havia retirado antes dela falar. Se Valancourt tivesse ouvido a sua voz, não deixaria de lhe responder. Ou então, não seria a prudência que o obrigara a calar–se?
Este pensamento, que, de repente, lhe acudiu, transformou–lhe a alegria em terror e receio. Valancourt encontrava–se no castelo por fazer parte das tropas francesas que combatiam em Itália e havia sido aprisionado na altura em que tentava falar–lhe. Sendo assim, não existia motivo para admiração no seu silêncio. Devia estar vigiado e não pudera responder–lhe.
Conservou–se à janela, sempre de ouvido à escuta, até que o ar refrescou e o firmamento, por cima das montanhas, começou a tingir–se com os primeiros clarões da aurora. Fatigada, voltou a deitar–se. Mas, agitada por tantos sentimentos contraditórios de alegria, amor, dúvida e receio, não conseguiu dormir.
De espaço a espaço, levantava–se e corria à janela. Depois, como tudo continuasse mergulhado em silêncio, voltava a percorrer o quarto e, tristemente, atirava–se para cima da cama. Nunca as horas lhe pareceram tão compridas como as daquela tormentosa noite. Toda a sua esperança residia no regresso de Annette. Por ela, tentaria obter uma certeza, fosse ela qual fosse, que pusesse fim à sua ansiedade.