Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 22 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XXI. Entrevista Noturna

XXI

Entrevista Noturna

Logo de manhã, Annette entrou, precipitadamente, no quarto de Emília.

— Mademoiselle, trago–lhe grandes novidades. Descobri quem é o prisioneiro. Isto é modo de dizer, porque não está preso, é ele quem se fecha a si mesmo naquele quarto. E eu que o tomei por um fantasma!

— Quem é, afinal?

— Adivinhe. Uma pessoa muito sua conhecida.

— Não sei adivinhar — replicou Emília já impaciente.

— Vou dar–lhe os sinais. É um homem alto, rosto comprido, com uma pluma vermelha no chapéu, baixa os olhos quando lhe falam e observa as pessoas de soslaio. Tem sobrancelhas negras e espessas. Viu–o dezenas de vezes em Veneza. É um amigo do senhor. Encontrei–o há pouco sobre a muralha. Sempre me meteu medo, mas nunca quis dar–lho a perceber. “Seja benvindo ao castelo, senhor Orsini” — disse–lhe ...

— É então Orsini?

— O próprio, aquele que mandou matar o fidalgo veneziano e que, desde então, todos diziam andar a monte.

— Santo Deus! — exclamou Emília — Esse homem refugiou–se em Udolfo! Não poderia encontrar melhor esconderijo.

— Se deseja esconder–se, não poderia, de fato, encontrar melhor do que este castelo, mesmo sem viver fechado num quarto. Quem se lembraria de vir procurá–lo aqui?

Sempre preocupada com a música que lhe chegara aos ouvidos na noite anterior, Emília perguntou à criada se lhe parecia existir alguém no castelo que soubesse tocar.

— O Benedetto toca tambor na perfeição — respondeu Annette — Lancelot é exímio a tocar clarim e o próprio Ludovico também não o toca mal. Mas como está doente... recordo–me de que uma vez, em Veneza...

— Nunca descobriste se alguém toca outra espécie de instrumento, desde que nos encontramos no castelo? Não ouviste música esta noite?

— Não, mademoiselle. Nunca ouvi música, exceto o som dos tambores, como lhe disse. E esta noite dormi e sonhei com a minha falecida patroa.

— Com a tua falecida patroa! — repetiu Emília, cheia de ansiedade — Que sabes tu a esse respeito?

— Absolutamente nada. Tanto como mademoiselle — Mas todos ignoram o que foi feito dela. Naturalmente, tomou o mesmo caminho que a antiga castelã, quem nunca mais se ouviu falar!

Emília encostou a face à mão e ficou calada. Pouco depois, pediu a Annette para a deixar só.

A sua inquietação pelo destino da tia aumentara com as palavras da criada. Resolveu, por fim, fazer nova tentativa Junto de Montoni para obter algumas Informações.

Entretanto, Annette reapareceu e, com ar misterioso, disse–lhe que o porteiro do castelo desejava falar–lhe, pois afirmava ter qualquer coisa de muito importante a revelar–lhe.

Emília estremeceu. Andava com os nervos tão excitados, que a mais pequena coisa bastava para a transtornar. O ar feroz do porteiro sempre lhe metera medo. Naquela ocasião, porém, a si própria censurou a fraqueza.

— Está bem, vou falar–lhe. Ele que me espere no corredor.

Annette saiu e voltou pouco depois.

— Mademoiselle, o Bernardino não se atreve a vir aqui. Tem receio de ser surpreendido e, além disso, afasta–se muito do seu posto, que não pode abandonar agora... Esta noite, porém, se quiser ir ter com ele junto da porta de leste, fará o possível por lhe ir falar e confiar o seu segredo.

Tão assustada como surpreendida com o mistério em que o homem se envolvia, Emília hesitou em fazer a promessa exigida. Por fim, acabou por se decidir, supondo que talvez ele quisesse avisá–la de algum perigo.

— Quando o Sol se esconder, irei ter com o Bernardino. Nessa altura, porém, as sentinelas já se encontram no seu posto. Como conseguirá ele passar sem ser notado?

— Fiz–lhe, Justamente, essa pergunta, mademoiselle. Afirmou ter a chave da porta de comunicação do pátio com a muralha, e que utilizaria essa porta. Quanto às sentinelas, não costumam colocar nenhuma nesse ponto, porque a torre de leste tem paredes grossíssimas essas bastam para defender o castelo. E, por muito pouco escura que esteja a noite, não haverá perigo de o ver a sentinela que está do outro lado.

— Ainda bem. Irei falar com ele e peço–te para me acompanhares ao terraço. Recomenda ao Bernardino que seja pontual. Se me demorar posso ser surpreendida pelo senhor Montoni. Onde está ele? Gostaria de lhe falar.

— Está na sala de cedro, reunido com os seus hóspedes. Vai dar um banquete para compensar a aventura daquela noite. Na cozinha está tudo em alvoroço. Pobre Ludovico! Como ficaria contente se pudesse assistir! Felizmente, não tardará a estar bom. O conde Morano esteve pior do que ele e agora já está curado e em breve deve voltar para Veneza.

— Tens a certeza?

— Soube–o ontem e esqueci–me de lhe dizer.

Quando Annette saiu para ir falar a Bernardino, Emília pediu–lhe para vir avisá–la quando Montoni se encontrasse sozinho. Porém, o castelão esteve muito ocupado durante todo o dia, e assim, Emília não teve ocasião de esclarecer as terríveis suspeitas que a assaltavam sobre a situação da tia.

À medida que se aproximava a hora da entrevista com o porteiro, a sua impaciência e ansiedade eram cada vez maiores. Por fim, o Sol começou a declinar. Emília ouviu as sentinelas tomarem os seus postos e, quando Annette apareceu, desceu com ela. Como demonstrasse receio de encontrar Montoni ou qualquer dos seus amigos, a criada tranquilizou–a:

— Não tenha medo. Estão ainda à mesa e não se levantarão tão cedo. O Bernardino escolheu bem a ocasião.

Uma das sentinelas deteve–as, mas Emília deu–se a conhecer e o homem deixou–a seguir, o mesmo acontecendo com a segunda sentinela. Este incidente aborreceu–a. Desagradava–lhe encontrar–se ali tão tarde, à mercê daqueles homens. Quando chegou ao local combinado, Bernardino ainda não tinha aparecido. Pensativa, encostou–se ao parapeito da muralha. O vale e a floresta estavam envoltos em trevas e uma aragem ligeira agitava as copas das árvores. De tempos a tempos, chegava–lhe aos ouvidos o rumor das vozes vindas do castelo.

— Que vozes são estas? — perguntou baixinho.

— A do senhor Montoni e as dos seus convidados — respondeu Annette.

— Virgem Santa! Como é possível que aquele homem possa divertir–se e estar contente quando faz sofrer ou causou a morte de uma pessoa?

Com terror, olhou para a torre de leste junto da qual se encontrava. Por uma das janelas gradeadas do primeiro andar filtrava débil claridade, mas nas mais altas não havia luz. Teve a impressão de ver passar uma sombra na janela iluminada, mas o fato não a tranquilizou a respeito de madame Montoni a quem procurara em vão naquele mesmo quarto. No entanto, prometeu a si mesma fazer nova tentativa para lá entrar, depois de falar com Bernardino.

O tempo corria e este não aparecia. Mas quando Emília, preocupada com a demora, perguntava a si mesma se o homem teria sido descoberto, uma chave deu volta na fechadura da porta que conduzia à muralha e o porteiro apareceu. Emília pediu–lhe para ser breve, pois já era tarde e a noite estava muito fria.

— Mande embora a sua criada, mademoiselle — intimou o homem com modos sinistros que lhe meteram medo — Não quero que outros ouçam o que tenho para lhe dizer.

Emília hesitou, mas acabou por pedir a Annette para se afastar um pouco.

— Agora já pode falar — acrescentou, voltando–se para Bernardino.

O homem continuou calado durante breves instantes e depois começou em voz baixa:

— Perderia o meu lugar se o patrão soubesse que lhe falei. Prometa–me, mademoiselle, que nunca dirá uma palavra do segredo que vou revelar–lhe.

Emília prometeu e, novamente, lhe pediu para ser breve.

— Annette — declarou o homem — falou a seu respeito na sala onde nos reunimos; disse–nos quanto estava inquieta pela sorte de madame Montoni e como desejava saber onde se encontrava.

— Sabe–o, meu amigo? Se sabe, diga–me. Por muito cruel que seja a realidade, não hesite em me revelar!

Ao mesmo tempo, encostava–se ao parapeito, quase desfalecida.

— Sim, posso dizer–lhe, mas...

— Mas o quê?

— Vejo–a tão impressionada...

— Estou preparada para tudo — declarou Emília, tentando reagir — Suportarei melhor a certeza cruel do que esta dúvida mortal.

— Sendo assim, vai saber tudo. Dizem que o senhor está furioso com a mulher, mas isso não é comigo nem me interessa falar sobre o assunto. Há dias mandou–me chamar e dísse–me: “Bernardino, até hoje tens sido um criado fiel. Julgo poder confiar em ti”. Assegurei–lhe a minha dedicação e ele então confiou–me o que pretendia. Era qualquer coisa com respeito à senhora, mas não quero revelar–lhe.

— Que fez, Bernardino?

O homem pareceu hesitar, mas não disse nada.

— Desgraçado! Que demónio os impeliu, a si e a ele, a um ato tão condenável? — perguntou, gelada pelo terror e quase a desfalecer.

— Sim, talvez fosse um demónio — concordou o porteiro em voz surda.

Decorreu algum tempo sem que um ou outro falasse. Emília não se atrevia a interrogar e Bernardino temia falar. Todavia, acabou por dizer:

— O senhor foi muito cruel, mas exigia obediência... e eu não podia recusar–me... Se não o fizesse, outros menos escrupulosos do que eu o teriam feito.

— Matou–a? — perguntou a infeliz menina com voz desfalecida — Falo com um assassino?

Bernardino não lhe respondeu. Horrorizada, deu alguns passos para ir ter com Annette.

— Não se vá embora, mademoiselle. Merecia que a deixasse nessa convicção, como castigo por me ter considerado capaz de cometer tal crime.

— Se está inocente, diga–me. Não tenho forças para suportar por mais tempo esta ansiedade.

— Mande essa rapariga embora — disse Bernardino, designando Annette, que se aproximara para amparar a patroa, ao vê–la prestes a desmaiar.

— Não, não. Ela pode ouvir tudo quanto deseja dizer–me.

— Sendo assim, não saberá mais nada. E deu alguns passos para se afastar.

A ansiedade de Emília foi superior ao terror que lhe inspirava aquele homem. Ordenou a Annette que se afastasse e, voltando–se para cie, disse–lhe:

— Agora pode falar.

— A senhora está viva, mas ninguém o sabe. É minha prisioneira. Sua excelência fechou–a lá em cima, na torre, por cima da porta grande e encarregou–me de a vigiar. Vinha dizer–lhe que poderia vê–la. Mas depois das suspeitas que concebeu a meu respeito, não sei se merece que eu a ajude.

Liberta da terrível angústia que a oprimira, Emília pediu–lhe desculpa e rogou–lhe que a deixasse ver a tia.

O homem cedeu com maior facilidade do que seria de esperar e prometeu, se ela quisesse na noite seguinte ir ter com ele à porta exterior do castelo, conduzi–la até onde se encontrava madame Montoni.

Quando lhe testemunhava o seu reconhecimento por tão inesperada condescendência, teve a impressão de que no olhar do porteiro perpassava um lampejo de maligna satisfação, como se um pensamento diabólico lhe atravessasse o cérebro e o enchesse de alegria. Procurou desvanecer essa ideia e de novo lhe agradeceu, pedindo–lhe que olhasse pela tia, pois saberia recompensá–lo. Recomendou– lhe também pontualidade para o dia seguinte, e apressou–se a recolher ao quarto.

Decorreu algum tempo antes que se desvanecesse a alegria causada pela revelação de Bernardino e pudesse avaliar a sangue–frio os perigos que a ameaçavam e também a madame Montoni.

Acalmada a primeira excitação, recordou o modo estranho de Bernardino, quando lhe prometera levá–la para junto da tia. Assaltaram–na terríveis suspeitas e hesitou em se lhe confiar. Pensou que madame Moutoni poderia muito bem ter sido assassinada e que o miserável, como instrumento do patrão, procurasse, por ordem dele, atraí–la a uma cilada para a sacrificar também à cupidez de Montoni. Dessa forma, ficaria, legalmente, na posse das propriedades do Languedoc, visto ser ela a herdeira da tia. A monstruosidade deste duplo crime levou–a a repelir semelhante pensamento; mesmo assim, não se desvaneceram de todo os receios inspirados pela atitude do porteiro e pensou com terror na entrevista da noite seguinte.

Já era muito tarde. Emília por muito tempo escutou as gargalhadas de Montoni e dos seus convidados, as vozes e as canções entoadas em coro, que pareciam abalar as paredes do velho castelo. Pouco depois, o ruído cessou e ouviram–se os passos das pessoas que recolhiam aos seus aposentos. As portas do castelo fecharam–se com estrondo. Chegara a hora em que, na véspera, a deliciosa música começara. Abriu a janela devagarinho e ordenou a Annette que se fosse embora. O planeta, que na noite anterior pudera admirar, ainda não havia nascido. Cedendo a uma impressão supersticiosa, fixava a ponto do céu onde ele devia brilhar, contando que a música se faria ouvir no instante da sua aparição.

Porém, quando ele nasceu por cima da torre de leste, tudo continuou em silêncio.

— Não, não era uma melodia terrestre —, pensou — Meu pai contou–me que, pouco depois da morte de minha mãe, fora obrigado a saltar da cama, atraído por uma melodia de incomparável suavidade. Abriu as janelas. Foi para ele uma consolação, segundo me disse, contemplar o céu com confiança, pensando que minha mãe repousava no seio de Deus, no meio de harmonias celestes.

Estas recordações comoveram–na, profundamente, e arrancaram–lhe lágrimas.

“Pode ser — pensou — pode ser que estes doces acordes tenham descido do céu para me consolar, para me reanimar a coragem. Pode ser que, neste momento, meu pai, lá em cima, vele por mim.”

O tempo passou. Embalada por estas doces meditações, Emília deixou–se ficar sentada perto da janela, mas a música não se fez ouvir. Só quando a madrugada começou a tingir o firmamento e expulsou as trevas do vale, se foi deitar.