Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XLII. A Morte de uma Pecadora
XLII
A Morte de uma Pecadora
No dia seguinte, a chegada dos Blangy serviu de derivativo à tristeza de Emília. O Vale voltou a ser acolhedor e a sua dona recebeu os seus amigos com a mais graciosa hospitalidade. No entanto, a desagradável aventura dos Pirenéus inspirou ao conde o vivo desejo de regressar quanto antes a sua casa. Demoraram–se alguns dias em casa de Emília que, por sua vez, decidiu acompanhá–los ao Languedoc. Entregou o Vale aos cuidados de Teresa, renovando as recomendações feitas a respeito de Valancourt.
Partiram juntos para Blangy onde a condessa, Henrique e Dupont — a quem Emília ficou muito surpreendida por encontrar–os receberam com a maior alegria–. Emília verificou que o conde não havia desanimado o rapaz, cujos sentimentos por ela eram mais vivos do que nunca. Na tarde do segundo dia, o conde de Villefort chamou–a de parte para lhe apresentar de novo o pedido de Dupont, observando, em face da sua tristeza e abatimento, que por uma afeição mal colocada se arriscava a envenenar os mais belos dias da sua vida. Terminou, dizendo:
— Não desejo insistir, mademoiselle. Tenho esperança de que um dia deixará de desesperar um homem a todos os respeitos digno da sua estima e que muito a ama.
Sem lhe dar tempo a responder, continuou o seu passeio. Por seu lado, Emília, absorvida em tristes pensamentos, encontrou–se, de repente, sem dar por isso, no bosque que rodeava o convento de Santa– Clara. Lembrou–se então de ir ver a superiora e as religiosas tão suas amigas.
Introduzida no locutório, ficou algum tempo sozinha, no meio de profundo silêncio, até que uma religiosa apareceu muito agitada, supondo encontrar ali a superiora a quem desejava avisar de que iam começar a oração dos agonizantes pela irmã Inês, que estava a morrer.
A religiosa descreveu–lhe o sofrimento da moribunda. Primeiro fora atacada por terríveis convulsões e depois mergulhara num desespero tão profundo, que nem as próprias orações às quais toda a comunidade unira as suas, nem as palavras amigas do confessor puderam dar–lhe repouso e acalmá–la.
Emília escutou–a com muito interesse, recordando o ar desvairado e sinistro muitas vezes observado na irmã Inês e a história contada pela irmã Francisca. Como já era tarde, não pôde vê–la. Encarregou a religiosa de cumprimentar por ela as outras irmãs e regressou ao castelo pelos rochedos, refletindo, tristemente, no que acabava de ouvir.
No dia seguinte, convenceu Branca a acompanhá–la ao convento. Parado à porta, viram um coche que, provavelmente, acabava de chegar, a ajuizar pelas narinas fumegantes dos animais e pela espuma que os cobria. Profundo silêncio reinava nos claustros e pelo pátio. Ao entrarem no locutório, encontraram uma das religiosas que lhes disse estar a irmã Inês ainda viva e com todos os seus sentidos, mas que, possivelmente, não passaria daquela noite. Durante a conversa, entrou a superiora, cujo aspecto grave as impressionou.
— A nossa casa — disse, após os primeiros cumprimentos– hoje está de luto. Uma das nossas irmãs paga, neste momento, o seu tributo à Natureza. Não ignoram estar a irmã Inês a morrer?
Emília manifestou o seu pesar pelo acontecimento.
— Os últimos dias da irmã Inês — continuou a superiora — foram exemplares; possam eles contribuir para a remissão dos seus pecados. Os seus sofrimentos têm sido terríveis e, por certo, lhe alcançarão o eterno descanso. Deixei–a com o confessor e com um cavalheiro cuja presença ela desejava com ansiedade e que chegou agora de Paris. Deus permita que eles lhe proporcionem a calma de que o seu espírito tanto necessita!
Emília afirmou serem esses também os seus desejos.
— Durante a doença — declarou a superiora — muitas vezes pronunciou o seu nome. Talvez a sua presença represente uma consolação para as–suas últimas horas de vida. Se tem coragem para isso, quando ficar só, subiremos a vê–la. Visitas deste género são comoventes, concordo, mas devemos acostumar–nos a elas, porque fortificam a alma contra os sofrimentos futuros.
Emília ficou pensativa. Estas palavras recordaram–lhe o supremo adeus do pai adorado. Acudiam– lhe à memória muitos pormenores dos seus últimos momentos: a emoção manifestada quando soube estar tão próximo do castelo de Blangy, o pedido para ser sepultado na igreja do convento, a ordem para queimar, sem os ler, todos os papéis que encontrasse no seu gabinete. Recordou também as palavras misteriosas que, involuntariamente, tinha lido. Nunca lhe acudiam ao pensamento sem perguntar a si mesma, com profundo terror, a sua significação e o motivo que inspirara a ordem do pai. Contudo, pensar que as havia cumprido à risca, representava uma consolação para ela.
A sua meditação e o silêncio da superiora foram interrompidos pela aparição do cavalheiro que acabava de sair do quarto da irmã Inês. De Bonnac — era esse o seu nome –parecia muito comovido, mas as suas feições, segundo Emília observou, refletiam mais horror do que pesar. Chamou a superiora de parte e falou–lhe durante alguns momentos, findos os quais se despediu e saiu. Esta pediu então a Emília para a acompanhar ao quarto da moribunda, pedido a que ela acedeu, deixando Branca sozinha no locutório.
Uma religiosa velava junto do leito da doente. Encontrou a irmã Inês tão mudada que, conquanto já o esperasse, não a reconheceu. O rosto estava lívido, com horrível expressão, os olhos, afundados nas órbitas, fixavam o crucifixo que apertava convulsivamente contra o peito. Alheia ao que se passava em volta de si, não deu pela entrada da superiora e de Emília. Por fim, voltando–se devagar, pousou o olhar em Emília e bradou com desespero:
— Esta visão não deixará de perseguir–me até ao meu último suspiro?
A visitante recuou e olhou espantada para a superiora, que a sossegou com um gesto e se aproximou da cama da moribunda:
— Minha filha, trago–lhe mademoiselle Saint–Aubert. Tive a impressão de que gostaria de a ver.
A religiosa não lhe respondeu. Continuava a fixar Emília com olhar desvairado.
— É ela, sim, é ela. Não veem aquela expressão doce, que era um dos seus encantos e me perdeu? Que pretende de mim? Vamos, diga. Uma reparação? Não a teve já? Há quantos anos a conheci? O meu crime deve ser muito recente, embora eu tenha envelhecido, pois está nova ainda e bela, com essa beleza insolente que me impeliu ao crime mais nefando. Se eu pudesse esquecê–lo! ... E de que me serviria esquecê–lo, se o cometi?
Impressionada, Emília quis retirar–se. A superiora pegou–lhe na mão, suplicando–lhe para ter paciência. Depois, tentou acalmar a doente, mas esta não lhe deu ouvidos.
— Para que me serviram tantos anos de remorsos e de orações, se não conseguiram apagar a nódoa do crime? Onde está ela? ... Está aqui, neste quarto. Não a veem?
O olhar vagueou pelo aposento e acabou por fixar Emília.
— Por que me persegues até aqui? Não estou já bem castigada? Não olhes para mim com essa expressão implacável. Que mais temos agora? Olhares de compaixão, para quê? Deixa–me! E esse sorriso, esse sorriso... sorrires para mim? Mil vezes a tua cólera. Santo Deus! Que gemidos são estes?
E tombou para trás como se a vida a tivesse abandonado. A superiora e a outra religiosa apressaram–se a socorrê–la. Emília, que mal se podia ter de pé, quis falar.
— Sossegue, minha filha, o delírio acabou. Está melhor agora. Há muito tempo, irmã — perguntou, voltando–se para a religiosa — que a doente se encontra neste estado?
— Há muitas semanas que não a vejo assim — afirmou a outra — Talvez a presença do cavalheiro a quem tanto desejava ver a tenha agitado.
— Sim, deve ser essa a causa deste ataque.
Nesse momento, a irmã Inês recuperou os sentidos. Fixou Emília, mas não com a anterior expressão alucinada, antes com profunda dor. Decorreu algum tempo antes de conseguir falar. Por fim, murmurou em voz fraca:
— Estranha semelhança! Isto é mais do que imaginação! Diga–me, por favor... a despeito do nome de Saint–Aubert que usa... não será filha da marquesa?
— Qual marquesa? — perguntou Emília com espanto.
— Qual marquesa? –protestou Inês –Não conheço outra senão a de Villeroy.
Recordando a comoção do pai e o desejo manifestado por ele de ser sepultado perto dos Villeroy, Emília sentiu–se dominada por extraordinária perplexidade e pediu à doente para se explicar melhor.
— Tragam–me o meu cofrezinho. Vou dizer–lhe tudo –pediu Inês.
A religiosa entregou–lhe o pequeno cofre; Inês abriu–o e tirou uma miniatura em tudo semelhante à que Emília encontrara junto dos papéis do pai. Contemplou–a durante algum tempo, depois ergueu os olhos ao céu e começou a rezar em voz baixa. Por fim, entregou–a a Emília.
— Guarde–a, dou–lhe. Tem direito a ela. A semelhança entre as duas muitas vezes me impressionou, mas nunca como hoje me esmagou a consciência. Fique, minha irmã — pediu dirigindo–se à religiosa — Não leve ainda esse cofre. Encerra outro retrato.
A superiora quis levar Emília, mas ela não acedeu.
— Venha — insistia a abadessa — a irmã Inês continua a delirar. Quando se encontra neste estado não conhece ninguém e acusa–se de crimes imaginários.
Emília, contudo, julgou adivinhar naquele desvairamento mais alguma coisa do que loucura. O nome da marquesa e o retrato despertavam–lhe demasiado interesse para renunciar a obter mais esclarecimentos.
A religiosa pôs, de novo, o cofre em cima da cama. Inês carregou numa mola e descobriu segundo retrato.
— Eis uma lição para a sua vaidade. Olhe para este retrato e diga–me se encontra alguma semelhança com o que fui outrora e sou hoje.
Emília pegou na miniatura e, quando a examinou melhor, os seus dedos trémulos quase a deixaram cair. Era a cópia exata do retrato da signora Laurentini, o quadro que vira no castelo de Udolfo, da mulher que desaparecera por forma tão misteriosa e de cuja morte acusavam Montoni.
Muda de surpresa, olhava ora para o retrato, ora para a moribunda, tentando encontrar uma semelhança que deixara de existir.
— Sim, olhe bem para mim e verifique os estragos causados pelo meu crime. Nesse tempo, era uma rapariga inocente. Minha irmã — continuou, apertando entre as mãos geladas a de Emília, que estremeceu — tome cautela com as paixões. O seu Ímpeto é violento e rápido, se não as dominamos a tempo arrastam–nos a ações que nunca mais poderemos apagar. Uma paixão violenta absorve todas as outras, apodera–se por completo do nosso coração, é como um demónio que nos possui e nos faz proceder como demónios, que nos torna insensíveis à piedade, surdas à voz da consciência; e quando a sua obra está completa, mais do que nunca impiedosa, entrega–nos nas garras dos sentimentos que havia adormecido sem os sufocar, às torturas da compaixão, do remorso e do desespero! Despertamos então como de um sonho, encontramo–nos tal como havíamos sido noutro tempo, mas num mundo diferente, espantadas, aterradas; o crime já fora cometido e nem todas as forças do céu e do inferno reunidas conseguiriam apagá–lo. O que representam a riqueza, todas as grandezas e até a própria saúde, comparadas com o tesoiro inapreciável de uma consciência pura? E o que representam a dor, o desdém dos outros e a miséria, comparados com os tormentos de uma consciência culpada? Inocente, supunha ter esgotado a taça do sofrimento, de todos os males: o amor desprezado, o ciúme, a cólera; mas esses tormentos podiam considerar–se como bens comparados com os do remorso! Saboreei o que chamam as delícias da vingança, mas como elas são passageiras! Como desaparecem com o objeto que as fez nascer! Lembre–se sempre disto, minha irmã. A paixão tanto pode gerar o crime como a virtude! A escolha depende de si. Desgraçados daqueles que não conseguem moderar os tumultuosos impulsos do coração!
— Sim — concordou a superiora — desgraçados daqueles que desconhecem a nossa santa religião!
Emília escutava a religiosa em silêncio, com respeito, mas não conseguia desviar a vista da miniatura.
— Este rosto não me é desconhecido! — afirmou, dirigindo–se à doente.
— Está enganada. Com certeza nunca o viu.
— Então era muito parecido.
— Impossível. Onde o viu?
— No castelo de Udolfo.
— Em Udolfo! — exclamou a moribunda muito comovida–Esteve no castelo de Udolfo? Quantas recordações esse nome me desperta! Cenas de felicidade, de sofrimento e de horror!
Nesse instante, Emília recordou o terrível espetáculo, entrevisto um dia numa das salas do castelo. Olhou para a signora Laurentini — podemos dar–lhe esse nome, agora — com um sentimento de horror. Não acabara ela de dizer que muitos anos de penitência e de oração não podiam apagar a mancha de um crime? E estas palavras, se não eram resultado do delírio, tinham sido ditadas pelo remorso. Estremeceu. Tinha então uma assassina diante dos seus olhos? ... E a desordem do seu espírito, a perplexidade em que se debatia, traduziram–se em palavras sem nexo.
— O seu brusco desaparecimento do castelo... — murmurou.
A signora Laurentini soltou fundo suspiro.
— Todos os boatos que correram — continuou Emília– a sala vermelha ... a cortina preta ... o singular espetáculo por ela oculto... quando os crimes se descobrem...
— E depois? — bradou a Italiana com olhar esgazeado, tentando erguer–se — Voltas do túmulo? Sangue e mais sangue? Não, não houve sangue, não podes afirmá–lo. Sorris? Não sorrias com esse ar de compaixão, não sorrias, digo–te eu!
E caiu, debatendo–se numa convulsão. Não podendo suportar por mais tempo cena tão violenta, Emília fugiu' da cela, pedindo a algumas das religiosas para irem acompanhar a superiora.
Reuniu–se com Branca no locutório e teria saído logo do convento se não desejasse saber como estava a signora Laurentini.
Decorrido algum tempo, vieram dizer–lhe que estava melhor. Regressou então ao castelo com Branca e encontrou aí o senhor de Bonnac, que era amigo de Dupont. A esse título, o conde e o filho convidaram–no a passar alguns dias no castelo. Era um oficial adido, ao serviço da França. Devia ter, aproximadamente, cinquenta anos, porte distinto, a fisionomia agradável e franca. A melancolia que a ensombrava resultava mais de desgostos de que de natural disposição. Não se tornava difícil adivinhar os esforços feitos, durante a ceia, para aparentar boa disposição.
Separaram–se cedo. Quando recolheu ao quarto, todas as cenas presenciadas acudiram à memória de Emília, que as reviveu com extraordinária nitidez. Numa religiosa moribunda encontrara a signora Laurentini! E esta, longe de ter sido vítima de Montoni, dava a entender ter ela mesmo cometido um crime medonho! Quanto assunto para meditação e surpresa! As alusões à sua semelhança com a marquesa, a estranha suposição sobre o seu nascimento, representavam outros tantos motivos de interesse de natureza diferente. A história da irmã Inês, contada pela irmã Francisca, em toda a evidência devia ser falsa. Mas com que intuito a teria ela inventado? Ainda mais lhe excitava a curiosidade o mistério que envolvia as relações entre a marquesa e seu pai. Por vezes, admitia que Saint–Aubert tivesse sido aquele a quem ela amava, quando a obrigaram a casar com o marquês. Mas não podia conceber ter o pai deixado essa paixão sobreviver. No entanto, não podia duvidar de que os papéis cuja destruição o pai lhe ordenara, fossem relativos a essa ligação e, se não tivesse tanta confiança na rígida moralidade de Saint–Aubert, convencer–se–ia ter desaparecido o segredo do seu nascimento com os documentos que poderiam atestá– lo.
Parte da noite foi passada nestas reflexões e quando conseguiu adormecer, sonhou com as lúgubres cenas desenroladas no convento e com a Italiana, expirando, esmagada pelo remorso, debatendo–se entre orações e blasfémias.
No dia seguinte, soube que a irmã Inês tinha morrido, mas sentia–se muito indisposta para poder visitar a superiora.
De Bonnac recebeu a notícia com emoção. Emília, no entanto, reparou estar ele menos abatido do que na véspera. A notícia da morte não o impressionou tanto como as confidências recebidas e talvez lhe servisse de consolação o legado que, segundo se dizia, a falecida lhe fizera. Tinha numerosa família e as loucuras de um filho haviam–no obrigado a sacrificar grande parte da sua fortuna. Chegou até a ser preso. Dupont conhecia todos os pormenores desta desdita. A prisão durara meses, sem esperança de recuperar a liberdade. Felizmente, um dos companheiros de infortúnio, logo que se viu livre, interessou–se por ele e conseguiu livrá–lo. Quando saiu da prisão, de Bonnac procurou o seu libertador, mas não conseguiu encontrá–lo.
— Receio muito–concluiu–que a sua generosidade causasse mais uma vez a sua prisão, pois nunca mais consegui saber o que tinha acontecido ao pobre Valancourt.
— Valancourt! — repetiu Dupont — A que família pertence?
— Valancourt, condes de Duvernay.
A emoção sentida por Dupont, quando descobriu no rival o benfeitor do amigo não pode descrever–se. Acalmada a primeira surpresa, tranquilizou de Bonnac, revelando que Valancourt se encontrava no Languedoc. O seu amor por Emília levou–o a indagar sobre o procedimento de Valancourt. De Bonnac podia informá–lo. Valancourt, segundo disse, nos primeiros tempos havia sido atraído pelas seduções do vício e sacrificava todo o seu tempo a certa marquesa e a casas de jogo para onde os amigos o haviam levado. Conforme o costume, perdera grandes quantias para ganhar muito pouco. Fora a uma dessas partidas infelizes que o conde e Henrique tinham assistido. Por fim, arruinara–se. Irritado, o conde seu irmão recusou–se a auxiliá–lo. Valancourt foi preso por dívidas e o irmão não o soltou, na esperança de que o castigo o levaria a refletir e a emendar–se. Foi o que aconteceu. De Bonnac estava mesmo convencido de que Emília, com a sua inocência e pureza, voltara a imperar no coração do rapaz, expulsando as paixões impuras. A corrupção não criara raízes fundas no seu espírito; o hábito não fortalecera as cadeias do vício e Valancourt teve a energia bastante para as quebrar. Libertado pelo irmão, o seu primeiro ato foi de bondade, generosidade e também de audácia. Arriscou ao jogo quase todo o dinheiro que possuía, com o fim de restituir à família o seu infeliz companheiro de cativeiro. A fortuna foi–lhe favorável e, desde esse dia, Valancourt tomou a resolução de não tocar mais numa carta ou num dado.
De resto, era falso ter Valancourt aproveitado alguma vez as liberalidades da marquesa de Champfort, como o conde de Villefort havia suposto. Tal afirmação representava uma dessas calúnias que, muitas vezes, acompanham a verdade para esmagar ainda mais os infelizes. O conde havia sido enganado por pessoas a quem considerava dignas de crédito e Valancourt, ignorando as acusações, não pudera contestá–las.
Quando de Bonnac revelou a conduta do amigo generoso, unicamente culpado de imprudência e falta de energia, Dupont, na sua lealdade, resolveu sacrificar–se e, embora sofresse com isso, unir Emília ao seu amado, que ainda era digno dela. Revelou o projeto ao conde de Villefort que, desolado por ter dado ouvidos a informações mentirosas, deplorou as consequências da sua credulidade. A primeira reparação a oferecer a Valancourt seria proporcionar–lhe o meio de se explicar com Emília. Escreveu– lhe logo, pedindo–lhe perdão pela involuntária ofensa e convidou–o a visitar o castelo de Blangy. Achou mais conveniente não revelar a Emília as preciosas revelações recebidas sobre o procedimento do rapaz, deixando–a também na ignorância da sua próxima visita. Queria poupar–lhe, até à chegada de Valancourt, inquietações prematuras, sem pensar que a entrevista planeada podia ser anulada por um ato de desespero do interessado.