Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 17 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XVI. Uma Voz

XVI

Uma Voz

Vamos agora revelar aos nossos leitores certas circunstâncias que a partida precipitada dos viajantes e os acontecimentos ocorridos no castelo de Udolfo não nos consentiram referir.

Na própria manhã em que Montoni, tão bruscamente, abandonou Veneza, Morano apresentou–se à hora combinada para o casamento.

Ficou um tanto surpreendido com o silêncio e solidão que reinavam no palácio onde, ordinariamente, se via uma multidão de criados. Mas a surpresa deu lugar ao espanto quando uma velhota, a única moradora da casa, lhe abriu a porta e lhe disse que Montoni, acompanhado por toda a família e criados, abandonara Veneza logo de madrugada com destino ignorado.

Não podendo acreditar no que via nem no que ouvia, Morano fez–lhe mais algumas perguntas, mas com modos tão furiosos que, aterrada, a mulher não conseguiu responder–lhe. Depois começou a passear no vestíbulo, desvairado, vociferando contra Montoni.

Quando conseguiu recompor–se do medo que Morano lhe inspirava, a velhota contou–lhe tudo quanto sabia, que, no fundo, era muito pouco. Mas das suas palavras, Morano depreendeu que Montoni se havia dirigido para o seu castelo nos Apeninos. Resolveu seguir no seu encalço, decidido a alcançar Emília ou vingar–se.

Acalmada a cólera, com o cérebro mais desanuviado, refletiu e a própria consciência lhe apontou certos fatos que podiam explicar a resolução de Montoni. Com efeito, este obtivera a prova do que já suspeitava, isto é, que a fortuna de Morano, longe de ser tão avultada como supunha, estava, pelo contrário muito reduzida. Montoni só por orgulho e avidez apoiara as pretensões do nobre Veneziano. A aliança com uma casa ilustre lisonjeava o primeiro e a segunda seria satisfeita com a posse das propriedades de Emília Que Morano prometera entregar–lhe no dia do casamento. Posto ao fato da ruína do conde, concluirá que este por certo se esquivaria ao cumprimento da promessa e essa suspeita mais se confirmou quando, na noite que procedia a cerimónia, o conde não apareceu para assinar o contrato combinado entre eles. Um homem tão frívolo como Morano poderia muito bem ter esquecido este compromisso sem premeditação. Montoni, porém, não hesitou em interpretar a negligência como uma recusa. Quando passou a hora marcada e o conde não apareceu, ordenou, imediatamente, todos os preparativos para a partida. O seu intento, ao refugiar–se em Udolfo, era o de subtrair Emília ao amor do conde e romper o casamento sem dar escândalo. No caso de Morano, a despeito das aparências, persistir nas primeiras intenções, não lhe custaria descobrir onde estava Emília e iria buscá–la e assinar o acordo estabelecido. Em todas estas combinações, os interesses da sobrinha de sua mulher assumiam tão pouca importância, que não teria escrúpulos de a sacrificar à paixão de um homem arruinado, contanto que ele próprio enriquecesse.

Todas estas reflexões o obrigaram a abandonar Veneza e, justamente por motivos contrários, Morano o perseguiu através dos precipícios dos Apeninos. Quando Morano apareceu no castelo, Montoni acolheu–o bem, não duvidando de que viesse disposto a cumprir a sua promessa. O conde, porém, contentou–se em exigir a mão de Emília, cobrindo–o de censuras e de ameaças, sem dizer uma palavra sobre a combinação feita anteriormente.

Aborrecido com a discussão, o senhor do castelo adiou a resolução para o dia seguinte e Morano retirou para os seus aposentos mais animado. Todavia, quando acalmou e, no silêncio da noite, refletiu nas palavras de Montoni, no seu caráter e nas numerosas provas que dera da sua duplicidade, perdeu todas as ilusões e decidiu conquistar Emília pelo seu próprio esforço. Chamou o criado de quarto, confiou–lhe os seus intentos e encarregou–o de descobrir, entre os criados do castelo, um homem que facilitasse e auxiliasse o rapto de Emília. Não se tornou difícil encontrá–lo. Tratava–se de um criado a quem Montoni tratara com crueldade e jurara vingar–se. Conduziu Cesário pelo caminho exterior do castelo, indicou–lhe a passagem secreta que conduzia à escadinha e deu–lhe as chaves da porta. O homem recebeu avultada soma pela informação, que o conde se apressou a aproveitar. Já sabemos qual o resultado da audaciosa tentativa.

O velho Cario surpreendeu os dois criados do conde, junto da carruagem deste, que esperava perto da passagem secreta. Foi prevenir Montoni e desta forma este interveio a tempo para obstar ao rapto da sobrinha.

No dia seguinte, ainda com o braço ao peito, o Italiano foi, como era hábito, dar uma volta pelas muralhas a fim de vigiar os operários. Ainda se encontrava ali quando lhe foram dizer que haviam chegado novos hóspedes ao castelo. Correu a recebê–los numa sala afastada e esteve fechado com eles mais de uma hora.

Emília, depois de um começo de noite tão agitada, dormiu, relativamente bem. Ao despertar, a sua primeira impressão foi de alívio, ao pensar que estava livre das perseguições de Morano. Quase logo, porém, surgiram novos receios ao recordar as insinuações do conde sobre as intenções de Montoni. Para se distrair, pegou nos lápis e foi sentar–se perto da janela, no intuito de desenhar um fragmento da bela paisagem desenrolada diante dos seus olhos.

Foi então que avistou, nas muralhas, os visitantes chegados na véspera. O seu aspecto assustou–a. Havia no seu trajo qualquer coisa de singular e nos modos e olhar uma expressão feroz que lhe despertou a atenção. Harmonizavam tão bem com a paisagem que, enquanto eles paravam para examinar o castelo, os desenhou como figuras acessórias do quadro que poderia ser intitulado: Grupo de bandidos nas ruínas.

Entretanto, Montoni estava interessado em descobrir qual dos seus homens entregara a Morano as chaves da passagem secreta. Cario afirmou a sua inocência. As suspeitas recaíram, como era natural, sobre o porteiro– Bernardino, porém, repeliu a acusação com tanta firmeza, que o patrão, sem acreditar, completamente, na sua inocência, hesitou.

Abandonando o assunto, dirigiu–se ao quarto de sua mulher onde Emília, pouco depois, os encontrou discutindo. Quis retirar–se, quando a tia a chamou:

— Fica, Emília. Quero que sejas testemunha da minha resistência. Agora — continuou, dirigindo– se a seu marido — repita a ordem à qual tantas vezes me tenho recusado a obedecer.

Montoni voltou–se e em tom severo ordenou à sobrinha que se retirasse. Apesar da insistência da tia, esta obedeceu e saiu, dirigindo–se para a sala onde se sentou, meditando no desgraçado casamento feito pela irmã de seu pai e na sua própria situação, resultado desta imprudência.

Nessa altura, Annette espreitou à porta da sala e entrou devagarinho.

— Andava à sua procura, mademoiselle. Venha comigo, quero mostrar–lhe um quadro.

— Um quadro! — repetiu Emília, tremendo.

— O retrato da antiga senhora do castelo. Cario disse–me quem era e eu pensei que gostaria de a conhecer. Venha depressa... mas que tem, sente–se mal?

— Não, mas não me apetece ver o quadro.

— Não quer ver a castelã que desapareceu por forma tão estranha? Por mim, teria transposto montanhas para a conhecer. Só estas histórias e o prazer de falar nestes assuntos me prendem no castelo, embora trema sempre que o faço.

— Tens a certeza de que é um quadro? Viste–o? Está tapado?

— Santo Deus, mademoiselle! É um quadro e eu viu–o, mas não está tapado.

Os modos espantados de Annette restituíram a Emília a habitual prudência. Ocultando a emoção com um sorriso forçado, pediu à criada que lhe indicasse o caminho para ver o tal quadro.

Entraram num quarto mal iluminado, contíguo aquele onde se encontravam os criados.

— Aqui o tem, mademoiselle — declarou a criada, designando o retrato.

Emília deu alguns passos para ele. Viu uma mulher na flor da idade, muito bela, com aspecto altivo, feições regulares e bem acentuadas, que refletiam mais do que doçura e sensibilidade, paixão e o orgulho impaciente que se revolta contra a adversidade, em vez de a aceitar com calma dignidade e resignação.

— Há quantos anos esta senhora desapareceu?

— Pouco mais ou menos, há vinte, segundo me disseram. Em todo o caso, foi há muito tempo. Podiam muito bem pendurá–lo numa sala mais bonita do que esta — comentou ainda, examinando o retrato — O retrato da pessoa a quem o senhor Montoni deve a fortuna, devia estar colocado no salão, no lugar de honra. Mas talvez ele tenha as suas razões para proceder assim. Dizem que perdeu a fortuna tão depressa como esqueceu o reconhecimento. Mas deixemos isto, mademoiselle. Torna–se perigoso falar em certos assuntos — concluiu pondo um dedo na boca.

Com efeito, acabava de ver Montoni que, atravessando o pátio, se dirigia à sala grande. Calculando que a tia estivesse sozinha, Emília subiu ao seu quarto. Encontrou–a a chorar. Até ali nunca se atrevera a queixar–se à sobrinha; avaliando os sentimentos desta pelos que ela mesma sentiria e tendo consciência da injustiça do seu procedimento, calculava que os seus desgostos despertariam em Emília mais alegria do que compaixão. Mas, como o excesso da dor venceu o orgulho, deixou de se constranger e desabafou.

— Sou a mais desgraçada das mulheres, Emília! Quem me diria, quando supunha ter diante de mim a mais brilhante das perspectivas, que me esperava este terrível destino? Não haverá então forma de adivinharmos a desgraça ou a felicidade da nossa vida futura e de reconhecermos qual o bom caminho a seguir? As mais lisonjeiras esperanças não passam de mentira? e até os mais sensatos se deixam iludir. Quem poderia prever, quando lhe concedi a minha mão, que em breve me arrependeria da minha generosidade?

Emília pensou que muitos a haviam avisado, mas não era aquela a melhor altura para recriminações. Sentou–se–lhe ao lado, pegou–lhe na mão e falou–lhe com ternura. Mesmo assim, não conseguiu acalmar madame Montoni, que precisava mais de se lamentar do que de ser consolada.

— Homem ingrato! — continuou, deixando adivinhar o motivo principal do seu desgosto — Enganou–me por todos os modos! Não se contentou em me arrancar à pátria e aos amigos para me fechar neste horrível castelo. Quem poderia calcular que, com o seu luxo, nome e aparente riqueza, este homem, fosse pobre, não tivesse nem um cêntimo de seu! Se o soubesse nunca teria casado com ele. Ingrato, pérfido, monstro!

Calou–se um instante para respirar e Emília aproveitou para tentar acalmá–la.

— Sossegue, tia. Pelo menos, o castelo e o palácio em Veneza pertencem–lhe. Diga–me, ainda tem outros motivos para se afligir?

— Estes não bastam? — protestou madame Montoni com cólera — O jogo arruinou–o e agora, como já perdeu tudo quanto lhe dei, pretende que lhe entregue os títulos das propriedades, todos os meus rendimentos, para os comprometer não sei em que infernal especulação. Não achas bastante?

— Com certeza — concordou Emília — mas eu ignorava ...

— Não será bastante estar crivado de dívidas a ponto de ficar sem o castelo e o palácio de Veneza, se não as pagar todas.

— É lamentável!

— Não será bastante tratar–me com crueldade e dureza, só porque recusei entregar–lhe os títulos? Porque, em vez de tremer com as suas ameaças, o afrontei com resolução, lhe resisti ainda não há uma hora assim como resisti ontem àquele patife do Varezzi, a sua alma danada, que se atreveu a vir aqui intimar–me em nome dele?

Emília teve assim a revelação do significado da cena noturna que na véspera surpreendera.

— Sim — continuou madame Montoni — fui boa demais, mas agora estou decidida. Ninguém, nem a bem nem com ameaças, será capaz de me demover. Montoni saberá o que penso do seu vergonhoso procedimento. Dir–lhe–ei tudo quanto merece, a despeito da sua cólera e crueldade.

— Tome cautela, tia! Não o irrite sem necessidade! — suplicou Emília — Não o provoque. Ele é mais cruel do que supõe.

— Não me importa! Aconselhas–me a despojar–me do que tenho?

— Não, não pretendia dizer isso, mas...

— Mas o quê?

— Falou em dirigir censuras a seu marido — arriscou, timidamente, Emília.

— E não as merece?

— Merece–as, mas não é prudente as fazer.

— Prudência... prudência — protestou madame Montoni — Será ocasião de falar de prudência quando estamos ameaçados pela mais inaudita das violências?

— Justamente para evitar essa violência, deve ser prudente.

— Quer dizer que gostarias de me ver rojada a seus pés e ainda por cima lhe agradecesse tudo quanto me tem feito! Aconselhas–me a entregar–lhe os títulos?

— Deus me livre! Mas talvez a sua situação seja menos desesperada do que supõe.

Madame Montoni interrompeu–a com evidente impaciência.

— És insensível e cruel! Queres persuadir–me de que não tenho motivo para me queixar de meu marido, que a sua fortuna é brilhante, o meu futuro consolador, os meus desgostos pueris e romanescos, como os teus? Singulares consolações! Onde está a tua tão gabada sensibilidade! Supus abrir o meu coração a uma pessoa compadecida que lamentasse o meu sofrimento, mas reconheço que as almas consideradas sensíveis, com o seu falso carinho, no fundo, só sentem os próprios desgostos. Retira–te!

Sem uma palavra, Emília obedeceu e saiu do quarto.

Quantos pensamentos lhe sugeriram as revelações da tia sobre Montoni, conjugadas com as antigas confidências de Valancourt e com as palavras de Morano, na noite precedente, quando se recusava a abandonar o castelo que Montoni se atrevia a chamar Seu e afirmava que não o deixaria sobrecarregar a consciência com outro crime. Insinuações de tal ordem poderiam, de fato, ter sido ditadas pelo arrebatamento momentâneo, mas que terrível significação tomavam acumuladas com outras acusações feitas à mesma pessoa? Emília tremia ao pensar que estava nas mãos do homem que as merecera. Todavia, refletindo que todos estes pensamentos não poderiam modificar a sua sorte e lhe roubariam a coragem para a suportar, tentou distrair–se e foi para o parapeito da muralha, único passeio que lhe era permitido. O firmamento estava escuro e sombrio como a sua alma. Contudo, como o sol conseguisse romper as nuvens, teve desejo de contemplar a paisagem do alto da torre do Norte. Encaminhou–se para lá e, como a porta do terraço perto da qual se encontrava estivesse fechada, foi obrigada, para alcançar a outra entrada, a passar junto dos três homens recém–chegados na véspera. Baixou o véu que mal lhe ocultou o rosto. Os três homens examinaram–na com atenção e trocaram entre si algumas palavras em mau italiano, palavras que ela não compreendeu. Ao passar a seu lado ficou impressionada com o aspecto feroz, principalmente do que caminhava entre os outros dois. As suas feições exprimiam uma espécie de brutal selvageria e, ao mesmo tempo, ironia e a tal ponto que lhe bastou um olhar para que essas feições se lhe imprimissem na memória, embora tivesse passado rapidamente. Chegando ao fim do terraço, voltou–se e viu os três homens que, parados, falavam animadamente, designando–a com o gesto. Abandonou, imediatamente, o passeio e recolheu ao quarto.

Montoni ceou muito tarde, sozinho com os três hóspedes. Exaltado pela recente vitória sobre Morano, despejou repetidas vezes o copo e entregou–se sem medida aos prazeres da mesa; foi então que um dos convivas pronunciou o nome de Morano e que Varezzi, esquentado pelo vinho, sem fazer caso dos sinais de Cavigny, aludiu ao combate da véspera e atreveu–se a repetir a frase do conde, quando afirmara que o castelo não pertencia, legitimamente, a Montoni e não consentiria que este cometesse novo crime.

A cólera de Montoni manifestou–se de súbito:

— Como é possível que um amigo me insulte na minha própria casa? — exclamou, pálido de raiva — Por que me repete as palavras desse insensato? Por acaso, acreditou nas afirmações de um homem dementado pelo delírio da vingança?

— Só acreditamos no que sabemos — replicou Varezzi — e não sabemos nada do que afirmou Morano.

Montoni acalmou.

— Perdoem–me, amigos, mas sou sempre muito impulsivo quando se trata da minha honra. Não consinto que me ofendam impunemente. Passe–me essa garrafa.

— Bebamos à saúde da signorita Saint–Aubert — propôs Cavigny.

— Com licença de Montoni, preferia beber à dona do castelo.

— À dona do castelo! — gritaram todos. Montoni concordou com um sinal da cabeça.

— Espanta–me, Montoni, como deixou arruinar assim esta velha moradia. É esplêndida!

— É muito conveniente para os nossos desígnios. Talvez não conheçam o incidente que me tornou seu dono.

— Feliz incidente — comentou rindo, Bertolini — Não me importava que me acontecesse um igual.

Montoni não lhe respondeu.

— Se tiverem a paciência de me escutar, contar–lhes–ei a história.

As fisionomias de Bertolini e de Varezzi exprimiram viva curiosidade. Cavigny não manifestou nenhuma, talvez por já a conhecer.

— Há mais de vinte anos que este castelo é meu — começou Montoni — A senhora a quem ele pertencia antes era minha parente afastada. Último representante do meu nome, ofereci–lhe com a minha mão. Rejeitou ambos– Julgo que o homem a quem amava se recusava, por sua vez, a casar com ela. Dominou–a profunda melancolia e tenho várias razões para supor que pôs fim à vida. Não me encontrava no castelo nessa altura. A sua morte foi rodeada por circunstâncias estranhas e misteriosas que passo a relatar–lhes.

— Conte–as — pediu uma voz.

Montoni calou–se. Os convivas entreolharam–se e acabaram por imaginar terem todos, ao mesmo tempo, dito o mesmo pedido.

Montoni observou:

— Tenho a impressão de que estão a escutar–nos. Prosseguirei a história mais tarde. Passem–me as garrafas.

Os outros relancearam um olhar em volta da sala.

— Estamos sós — afirmou Varezzi — Peço–lhe para continuar agora.

— Não ouviram uma voz?

— Tivemos essa impressão — respondeu Bertolini.

— Ilusão! — protestou Varezzi, olhando para todos os cantos da sala — Estamos sós, volto a repetir. Continue por favor.

Montoni hesitou e depois prosseguiu a narrativa em voz mais baixa. Os convidados apertaram–se em volta dele para o ouvirem melhor.

— A signora Laurentini, havia alguns meses já, dava indícios de ter o cérebro um pouco perturbado, sem dúvida por causa da paixão que a dominava. Tão depressa a viam numa atitude apática e indiferente como se abandonava a arrebatamentos quase frenéticos. Certa noite do mês de Outubro, depois de um desses acessos, retirou–se para os seus aposentos, proibindo que a fossem incomodar. Estava instalada no quarto ao fundo do corredor, aquele onde se desenrolaram os acontecimentos de ontem à noite. Desde esse momento ninguém mais a viu.

— Ninguém mais a viu! — repetiu Bartolini — Então nem mesmo encontraram o seu corpo no quarto?

— Não.

— Não encontraram os seus restos mortais?

— Nunca mais — afirmou Montoni.

— Então, que razões tiveram para afirmar que ela se suicidou? — perguntou Bertolini.

— Sim, por que o afirmaram? –insistiram os outros.

— Vou explicar–lhes tudo — prosseguiu Montoni –. Antes disso, porém, desejo falar–lhes de um caso muito importante, mas as minhas palavras não devem sair daqui. Escutem.

— Sim, escutem! — repetiu uma voz. Todos se calaram e Montoni mudou de cor.

— Agora não foi ilusão — protestou Cavigny.

— Não — confirmou Bertolini — Também eu ouvi.

— É extraordinário! — exclamou Montoni, pondo–se de pé.

Todos o imitaram com precipitação.

Chamaram os criados, fizeram pesquisas por todos os lados, examinaram todas as salas contíguas e não viram ninguém. A surpresa e a consternação de todos atingiu o auge. O próprio Montoni, sempre tão corajoso, parecia desorientado.

— Abandonemos esta sala e deixemos este assunto para outra vez — decidiu.

Passaram para outro aposento e pediram a Montoni para prosseguir a narrativa. Porém, não conseguiram convencê–lo. Apesar de todos os esforços para aparentar calma, a sua agitação tornava–se bem visível.

— Por acaso será supersticioso? — perguntou Varezzi — O senhor que tanta vez zomba da credulidade dos outros?

— Não, não sou supersticioso, mas quero saber o que isto significa — afirmou Montoni.

Após esta declaração saiu da sala e os outros dispersaram.