Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XIII. O Castelo de Udolfo
XIII
O Castelo de Udolfo
O dia mal despontava quando alguém bateu na porta do quarto de Emília, arrancando–a à sonolência em que se encontrava mergulhada. Estremeceu e o seu primeiro pensamento foi para o conde e Montoni. Não respondeu, mas, reconhecendo a voz de Annette, uma criada da tia que lhe era dedicada, atreveu–se a abrir–lhe a porta.
— Quem te mandou aqui a esta hora? — perguntou toda trémula.
— Se soubesse a confusão que vai por toda a casa! Os criados andam de um lado para o outro, numa desordem e numa balbúrdia, cuja causa todos desconhecem.
— Quem está lá em baixo? — inquiriu Emília — Por amor de Deus, Annette, não tentes ocultar–me coisa alguma.
— Nunca a enganarei, mademoiselle. Só lhe posso dizer que nunca vi o senhor tão impaciente como hoje. Foi ele quem me ordenou que viesse acordá–la.
— Santo Deus! Nesse caso, o conde Morano já chegou?
— Não, mademoiselle, não está lá em baixo. Pelo menos, não o vi. Sua Excelência manda dizer– lhe para se preparar depressa, porque deseja sair de Veneza quanto antes e que os gondoleiros não tardarão a chegar. Tenho de a deixar, mademoiselle, para atender a senhora que não sabe o que pensar disto tudo.
— Explica–te, Annette. Sabes para onde vamos?
— Não sei. Mas o Loduvico ouviu falar de terra firme e do castelo que o senhor possui nas montanhas.
— Nos Apenínos? — insistiu Emília.
— Santo Deus! Ouço o bater de remos na água. As gôndolas aproximam–se, batem nos degraus.
E saiu a correr. Emília, sem compreender coisa alguma da mudança que, certamente, mais iria agravar a situação, preparou–se para a partida inesperada.
Mal acabava de meter na mala os livros e a roupa que lhe pertencia, recebeu novo aviso para se aviar. Desceu para o quarto de vestir da tia onde encontrou Montoni, que lhe censurou a demora e saiu logo a fim de dar as suas ordens. Perguntou à tia qual o motivo de tão brusca viagem, mas esta parecia ignorá–lo tanto como ela e demonstrou grande contrariedade pela resolução do marido.
Embarcaram, por fim, mas nem o conde nem Cavigny apareceram. A ausência de Morano tranquilizou um pouco Emília. No momento em que os gondoleiros começaram a remar e as gôndolas se afastaram do palácio, sentiu–se reanimada como o condenado à morte a quem concedessem mais uns dias de vida. Mais se alegrou quando abandonaram o Grande Canal, seguindo para o mar, e ultrapassaram São Marcos sem que o conde aparecesse para embarcar também.
O dia começava a nascer. As ligeiras tintas da madrugada estendiam–se pelas costas do Adriático. Não se atrevia a interrogar Montoni que, com aspecto sombrio, se envolvera na capa, como se desejasse dormir. Madame Montoni tomara idêntica atitude. Como não conseguia fazer o mesmo, levantou uma das cortinas da gôndola e contemplou o espetáculo magnífico do nascer do Sol sobre as ondas das quais emergia a rainha do Adriático com os seus palácios e monumentos. Depois relanceou o último olhar para o magnífico quadro e voltou a sentar–se, fazendo mil conjecturas sobre os acontecimentos que a esperavam ainda naquele país para onde fora arrastada e nas causas que haviam provocado a brusca partida... Como resultado destas tristes reflexões, acabou por concluir que Montoni a levava para o seu castelo isolado para melhor a constranger à obediência, empregando como meio o terror. O isolamento auxiliaria os planos de Montoni, que procederia conforme entendesse, sem receio de que a sua honra fosse atingida. Esta horrível perspectiva roubou–lhe a pouca coragem que a ausência de Morano lhe havia restituído.
Não continuaram a subir o Brenta. Montoni preferiu seguir por terra. Durante a viagem, a sua atitude para com Emília foi tão severa, que a pobre sentiu as suas apreensões confirmadas. Os viajantes começaram a subir os Apeninos. A estrada serpenteava por entre espessas florestas de pinheiros que não deixavam ver os rochedos escarpados, erguidos na orla de profundos precipícios. A obscuridade e o silêncio que reinavam nestes lugares mais contribuíram para entristecer Emília, apesar do panorama ser de uma grandiosidade aterradora e de uma selvageria sublime.
Entretanto, à medida que os viajantes avançavam, as rochas sucediam–se, as montanhas desdobravam–se até ao infinito e o cimo de uma servia de base a outra. Depois de terem escalado estes sucessivos degraus, chegaram por fim a um planalto onde pararam para os animais descansarem. O magnífico espetáculo que o olhar abrangia lá do alto despertou o entusiasmo geral no qual a própria madame Montoni não pôde deixar de tomar parte. As montanhas, sobrepondo–se umas às outras, assemelhavam–se a vagas do oceano, coroadas pela espuma verdejante dos pinhais. Em baixo, os campos da Itália desdobravam–se, semeados de rios, cidades, bosques e campinas. O Adriático limitava o horizonte, o Pó e o Brenta, depois de terem fertilizado os campos, perdiam–se nesse mar em correntes impetuosas.
Abandonando a grandiosa paisagem, os viajantes continuaram a subir e entraram em estreito desfiladeiro, apertado entre rochas gigantescas. Neste sítio desolado não existia vegetação nem o mais pequeno vestígio de vida. Estavam no coração dos Apeninos. O desfiladeiro alargou um pouco e terminou numa estrada mais larga que seguia entre altas montanhas de aspecto selvático, pela qual seguiram durante algumas horas.
Pela tarde, chegaram a um vale profundo, cercado por picos inacessíveis. O Sol ocultava–se por trás da montanha que os viajantes acabavam de descer e os seus raios, passando pelos intervalos dos penhascos e doirando o cimo das árvores da floresta, iluminaram, de súbito, as torres e os telhados de um castelo, cujas muralhas se estendiam ao longo de profundo precipício.
— Chegámos a Udolfo — declarou Montoni, quebrando o silêncio em que se confinara havia muitas horas.
Emília examinou o castelo quase com pavor. O estilo pesado da arquitetura, as escuras e altíssimas muralhas davam–lhe aspecto imponente e terrível. A claridade do 'crepúsculo desaparecia pouco a pouco, tingindo as muralhas de púrpura. Em breve, porém, se apagou e castelo, montanhas e florestas, tudo ficou envolto em sombras.
A mole imensa dominava toda a região. Quanto mais escura se tornava a noite, mais ameaçadoras se tornavam as altas torres. Emília não deixou de as olhar até que o arvoredo da floresta em que penetraram lhes ocultou à vista, florestas que a pobre rapariga povoava de monstros terríveis e pareciam ter crescido ali apenas para coito de bandidos. Por fim, os coches atingiram uma espécie de plataforma e encontraram–se às portas do castelo. Enquanto aguardavam que as abrissem, Emília examinou o edifício. As sombras em que estava envolto não lhe permitiram ver mais do que as espessas muralhas cuja altura era tremenda. A porta diante da qual estavam parados tinha dimensões gigantescas. Duas torres, sobrepujadas por torreões bem fortificados, defendiam–na. Em vez de bandeiras, viam–se ervas e trepadeiras bravas que cresciam por entre as pedras. Tudo isto dava ao conjunto um aspecto de desolação. De uma torre para a outra corria uma muralha ameada, munida de casamatas. Da abóbada pendia uma grade cujo peso devia ser enorme. Dessa porta partia, para um lado e para outro, grossa muralha que, contornando o precipício, ia ter às outras torres. Essa muralha arruinada em muitos pontos, deixava entrever, à fraca claridade do crepúsculo, vestígios dos desastres causado pelas guerras. Todo o resto já estava mergulhado em sombras.
Enquanto, aterrada, Emília examinava o castelo, ouviram–se passos e alguém começou a correr os ferrolhos do portão. O velho criado apareceu e com esforço empurrou os pesados batentes para o amo entrar. Depois o coche rodou com estrondo sob as abóbadas, e o coração de Emília confrangeu–se como se entrasse numa prisão. O sombrio pátio que atravessaram mais confirmou esta impressão sinistra e a sua fantasia criou motivos de terror, maiores do que a razão podia sugerir.
Transpuseram outra porta e entraram em segundo pátio de aspecto ainda mais lúgubre do que o primeiro. O musgo, a hera e outras ervas subiam pelos muros e pelas torres ameadas que se elevavam por cima deles. Um destes pressentimentos súbitos e inexplicáveis que, por vezes, dominam ainda os espíritos mais fortes, esmagou Emília quando entrou numa sala gótica, com altíssima abóbada. As trevas profundas que se acumulavam pelos cantos mais se acentuavam com o fraco clarão de um archote que se avistava ao fundo de uma espécie de claustro. Um criado apareceu com segundo archote, cuja claridade projetava sombras fantásticas no pavimento e pelas paredes escuras.
A inesperada chegada de Montoni não dera tempo a prepararem as coisas para o receber. O criado, enviado pouco antes da partida de Veneza, chegara ao castelo com pouco avanço sobre o amo e essa circunstância explicava, em parte, a desordem e o abandono que reinavam no castelo.
O velho criado saudou–o em silêncio, sem demonstrar a menor alegria com a sua presença. O patrão respondeu–lhe com breve movimento da cabeça e seguiu, acompanhado por sua mulher, que volvia em redor olhares descontentes, sem se atrever a proferir palavra. Emília, avaliando, com espanto, a imensidade do edifício, aproximou–se de uma escadaria de mármore, sobrepujada por altíssima abóbada da qual pendia um candelabro de ferro de três braços, que um criado se apressou a acender. Ultrapassando a escada, atravessaram um vestíbulo que conduzia a espaçosa sala com alto lambri de madeira escura.
— Tragam luz — ordenou Montoni.
O criado pousou a lanterna e saiu. Como madame Montoni se queixasse de frio, o marido mandou também acender o fogão. Enquanto Montoni passeava de um lado para outro com aspecto preocupado, sua mulher estendeu–se num sofá.
Enorme espelho de Veneza refletia o rosto sombrio de Montoni, e o seu vulto negro, passando e repassando, com os braços cruzados.
Este espetáculo reavivou as apreensões e terrores de Emília. A imagem de Valancourt surgiu–lhe diante dos olhos e mais funda tornou a sua dor.
O velho criado, que abrira a porta a Montoni, entrou carregado com um molho de lenha, seguido por dois criados com candelabros acesos.
— Que Sua Excelência seja bem-vindo — murmurou — O castelo esteve muitos anos abandonado e por isso não tivemos tempo para preparar as coisas para a sua chegada. Faz dois anos, pelo São Martinho, que Vossa Excelência aqui esteve.
— Tens boa memória, Cario — respondeu Montoni — isso mesmo. Como pudeste viver aqui?
— Não me fale nisso, senhor. Os ventos frios que entram por estas janelas desconjuntadas, são terríveis. Mais de uma vez pensei pedir a Vossa Excelência para deixar estas montanhas e retirar–me para o vale. Ao mesmo tempo, custava–me abandonar estas velhas paredes entre as quais passei tantos anos.
— Que tens feito depois da minha partida!
— O mesmo de sempre. Tudo isto precisa ser reparado, Excelência. A torre do Norte, por exemplo, ruiu em parte e quase esmagou a minha pobre mulher. Uma parte do teto da sala grande abateu. O vento entra por todos os lados, regelando–nos. Eu e minha mulher acendemos o fogão da sala pequena onde nos refugiamos e mesmo assim íamos morrendo de frio, este Inverno.
— Que mais reparações precisa o castelo? — inquiriu Montoni com aborrecimento.
— A muralha desmoronou–se em três pontos, as escadas que conduzem à galeria de oeste estão em tão mau estado que se torna perigoso subi–las. O corredor que conduz ao quarto grande, do lado norte, não se encontra em melhores condições. Uma noite, no Inverno passado, atrevi–me a ir até lá e, se Vossa Excelência soubesse...
— Está bem — atalhou Montoni, interrompendo–o — Falaremos nisso amanhã de manhã.
O fogão, já aceso, projetava um clarão avermelhado. Cario colocou perto algumas cadeiras, limpou o pó de uma mesa de mármore e saiu.
Madame Montoni aproximou–se do lume e tentou entabular conversa com o marido. Mas as bruscas respostas de Montoni, seguidas por prolongados silêncios, tornavam inúteis todas as suas tentativas. Emília, chamando a si toda a sua coragem, perguntou em voz trémula:
— Posso saber o motivo de tão brusca partida?
A pergunta ficou sem resposta. Decorrido algum tempo teve a ousadia de a renovar.
Montoni resolveu–se, por fim, a responder–lhe:
— Não me convém responder–lhe, nem lhe compete a si interrogar–me. O tempo tornará mais claro aquilo que lhe parece obscuro. Quanto ao presente, não desejo ser importunado e intimo–a a adoptar um procedimento discreto. Essas demonstrações de sensibilidade só indicam fraqueza de espírito.
Emília levantou–se.
— Boa noite, tia — saudou com voz sumida.
— Boa noite, minha filha — respondeu madame Montoni num tom carinhoso, que a sobrinha nunca lhe conhecera e lhe fez vibrar todas as fibras do coração.
— Espera — acrescentou ainda — não sabes o caminho para o teu quarto.
Montoni chamou o criado que se conservava na antecâmara e ordenou–lhe que chamasse a criada de quarto de sua mulher. Quando esta apareceu, disse–lhe para acompanhar Emília.
— Sabes onde fica o meu quarto? — perguntou–lhe.
— Julgo que sei, mademoiselle. Mas é um aposento muito estranho, enorme, quase nos perdemos lá dentro. Chamam–lhe o duplo quarto e fica na ala sul. Temos de subir a escada principal. Quanto aos aposentos da senhora, ficam do lado oposto do castelo.
Emília subiu a escada. Enquanto seguiam pelo corredor, a criada continuava a falar:
— Tudo isto é muito triste, muito sombrio. Tenho medo de viver aqui. Que saudades sinto da minha bela França! Nunca esperei, quando entrei para o serviço da senhora no desejo de conhecer um pouco de mundo, que viriam, enterrar–me neste ninho de mochos! Por aqui, mademoiselle, venha por este lado. Na verdade, quando examino estas paredes e estas muralhas, penso logo que este castelo foi construído para gigantes. Mais noite menos noite, seremos visitadas por fantasmas que, por certo, andam por esta sala. Com tantas colunas e abóbadas, mais parece uma igreja.
— Não dizes senão tolices — ralhou Emília.
— Não são tolices. Sei muito bem o que digo. Benedetto afirma que estas escuras galerias e estas salas em ruínas são frequentadas por espíritos maus, que as escolheram para as suas reuniões. Se vivo aqui muito tempo, acabarei por morrer e tornar–me como eles.
— Espero que faças o possível para o senhor Montoni ignorar os teus receios que muito lhe desagradariam.
— Pode ficar descansada, serei cautelosa. Sei muito bem como proceder. Se o senhor tiver a sorte de dormir em paz, todos dormirão no castelo.
Emília não respondeu a esta observação.
— Siga por aqui, mademoiselle. Encontraremos outra escada...
Fez como disse, mas, com a conversa dos espíritos e fantasmas distraíra–se e já não sabia o caminho. Quanto mais tentava reconhecê–lo, mais se perdia. Aterrada com todas estas voltas e reviravoltas e com o silêncio que a rodeava, começou a gritar por socorro, mas os criados, ocupados noutro lado, não podiam ouvi–la.
Emília abriu uma porta ao acaso.
— Não vá por aí, mademoiselle! — protestou a criada.
— Traze a luz. Procuremos, acabaremos por encontrar o caminho.
Annette não se atrevia a entrar no aposento, tão grande que a claridade do candeeiro mal o iluminava até meio.
— Por que não entras? — insistiu Emília — Vamos ver até onde isto vai dar.
A criada obedeceu com repugnância. Àquele quarto seguia–se uma enfiada de muitos outros, todos enormes. Uns tinham as paredes revestidas com tapeçarias antigas, outros com madeira de cedro e de abeto escuro. Os móveis que os guarneciam deviam ser tão antigos como o próprio castelo e ostentavam uma aparência sumptuosa, debaixo das camadas de pó que os cobriam.
— Que frio! Há séculos que estes quartos não são habitados, segundo dizem. Vamo–nos embora, mademoiselle.
— Talvez por aqui possamos ir dar à escada principal — respondeu Emília, continuando a avançar.
Em breve se encontraram em enorme sala com as paredes forradas de vermelho escuro e decoradas com quadros. Levantando o candeeiro, que tirou das mãos da criada, iluminou o rosto de um guerreiro retratado a cavalo, no campo de batalha. Apoiava a ponta da espada no peito de um homem caído por terra, que parecia implorar–lhe compaixão. O guerreiro, com a viseira erguida, olhava–o com uma expressão vingativa.
Este quadro impressionou Emília. Era a perfeita imagem de Montoni. Estremeceu e desviou a vista. Passando, rapidamente, a luz pelos outros quadros, chegou a um ponto da sala onde se encontrava um, que estava no chão, encostado à parede e coberto com uma cortina de seda preta. Estendeu a mão para afastá–la e ver o Que com tanto cuidado ocultavam. Porém, hesitou e faltou–lhe a coragem.
— Santo Deus! — exclamou Annette — Será este o quadro de que tanto falavam em Veneza?
— Qual quadro?
— Nunca compreendi muito bem de que falavam, mas...
— Levanta a cortina, Annette.
— Eu! Nunca, seja por que preço for! — protestou, muito pálida, a criada.
— O que soubeste a respeito deste quadro para te perturbares assim?
— Nada, mademoiselle, nada... deixemos isso, peço–lhe e vamos procurar o seu quarto.
— Não, quero saber o que representa este quadro. Pega no candeeiro. Eu levantarei a cortina.
Annette pegou no candeeiro e fugiu, precipitadamente, sem atender aos chamados de Emília. E esta, como não podia ficar sozinha, ali, no meio da escuridão, foi ter com ela.
— Finalmente, posso saber o que te disseram do quadro?
— Nada de positivo, mademoiselle. Sei apenas que se passou qualquer coisa de terrível com ele e, desde então, o cobriram com uma cortina e ninguém mais o viu. Relaciona–se tudo, segundo depreendi, com a pessoa que possuiu este castelo antes do senhor.
— Verifico que não sabes nada a este respeito.
— Não sei... porque eles obrigaram–me a prometer que não o diria a ninguém.
— Muito bem — retorquiu Emília, que via a criada lutar entre o desejo de falar e o receio pelas consequências da sua indiscrição. — Sendo assim, não te pergunto mais nada.
— Não, não me pergunte, porque...
— Acabarias por dizer tudo — concluiu Emília, sorrindo.
A criada calou–se. Depois de terem atravessado outras salas, encontraram–se, finalmente, no alto da escada principal. Annette deixou Emília para chamar uma criada do castelo a fim de lhes indicar o quarto que em vão haviam procurado.
Ficando sozinha, Emília pensou no quadro. Resolveu voltar ao salão de dia e erguer a cortina que o encobria.
Apareceu uma criada que conduziu Emília ao quarto, situado numa das extremidades do castelo, ao fundo de um corredor. Quando entrou neste aposento, que cheirava a bafio, a pobre rapariga não pôde reprimir um arrepio e pediu à criada que fosse buscar lenha para acender o fogão.
— Com efeito, há muitos anos que não se acende lume neste quarto. Eu vou.
— Não sei qual a razão por que lhe dão o nome de quarto duplo.
O aposento era alto, espaçoso como todos os que já haviam visto. As paredes estavam revestidas de madeira escura; a cama e outros móveis que o guarneciam eram muito antigos, no estilo grandioso dos outros móveis do castelo. A janela, alta e estreita, dava sobre o parapeito da muralha, mas a escuridão não deixou Emília ver coisa alguma para fora, quando a abriu.
Diante de Annette tentou reprimir as lágrimas. Gostaria de saber se o conde Morano era esperado, mas receava fazer perguntas à criada para não divulgar assuntos de família. Entretanto, Annette pensava em assunto muito diferente. Ouvira falar de estranhas circunstâncias referentes ao castelo e, como lhe haviam recomendado segredo, maior era o seu desejo de as relatar.
Catarina, a outra criada, entrou com um braçado de lenha e acendeu o fogão. As altas labaredas dissiparam por momentos, as sombras lúgubres que pairavam no aposento. Ao sair, avisou Annette de que a patroa a chamara. Esta acompanhou–a e Emília ficou sozinha. Começou a examinar todos os cantos do quarto. Num deles deu com uma porta fechada. Empurrou–a. A porta cedeu e deixou ver os primeiros degraus de uma escada estreita, praticada na própria parede. Esteve tentada a descê–la para descobrir onde ia ter, mas faltou–lhe a coragem. Quando se dispunha a fechá–la, notou que da parte de dentro, isto é, do lado do quarto, não tinha fechadura, enquanto que do lado de fora havia duas. Arrastou a pesada poltrona que encostou ao batente. Mesmo assim, assustava–a a perspectiva de dormir ali, num quarto afastado, com aquela porta, que não sabia para onde comunicava. Ainda se lembrou de mandar pedir a madame Montoni que lhe dispensasse Annette por aquela noite, depois desistiu, receando abalar mais a imaginação da criada, já assustada com as historietas dos outros criados.
As suas reflexões foram interrompidas pelo ruído de passos no corredor. Annette apareceu com um criado que trazia a ceia. Emília sentou–se perto do fogão e obrigou a criada a compartilhar da ligeira refeição. Animada pelo calor e pela condescendência da jovem patroa, a rapariga, quando o criado saiu, inquiriu em voz baixa:
— Já ouviu falar da singular aventura que tornou o senhor dono deste castelo?
— Uma aventura? ... Não. Que sabes a esse respeito?
— Tudo, mademoiselle, tudo — afirmou Annette, aproximando ainda mais a cadeira.
— Benedetto contou–mo durante a viagem.
“Não sabe nada a respeito do castelo para onde vamos?” — perguntou–me ele.
“Não sei coisa alguma, senhor Benedetto. Conte–me.
“Se me prometer guardar segredo. Doutra forma, não falarei, porque prometi, por minha vez, calar– me e, por certo, o senhor ficaria muito zangado se soubesse que falávamos a este respeito.
— Se prometeste guardar segredo, fazes mal em me revelar — protestou Emília.
Annette calou–se um instante e, por fim, retorquiu:
— Consigo é diferente. Sei que não o revelará seja a quem for.
— Então fala. Serei discreta... como tu — concluiu a patroa, com ligeiro sorriso.
Muito séria, Annette começou:
— Como sabe, mademoiselle, o castelo é muito antigo e bem fortificado. Pertencia a uma senhora e, por disposições testamentárias das quais nada percebo, passaria para a posse do senhor Montoni, se a dona morresse solteira. A castelã vivia sempre aqui e o senhor Montoni, que ainda era seu parente afastado, visitava–a muitas vezes. Estava apaixonado por ela e propôs–lhe casamento, mas como ela amava outro, rejeitou–o. O senhor ficou furioso e não ignora o que ele é quando se zanga. Talvez ela o visse num desses acessos de cólera e por isso o repelisse. Fosse como fosse, a pobre senhora era muito infeliz. Santo Deus! Que barulho é este? ... Não ouviu?
— Deve ser o vento. Continua.
— Como lhe dizia, a pobre era muito infeliz. Passava a noite a passear no parapeito da muralha e chorava que metia dó.
— Avia–te. E depois?
— Tudo virá a seu tempo, mademoiselle. Tudo isto soube eu quando estávamos ainda em Veneza, mas o que vou contar–lhe só hoje me disseram. O senhor Montoni era ainda um rapaz, nessa altura, e a senhora a quem chamavam signora Laurentini, era muito linda, apesar de se encolerizar, muitas vezes, também como ele. Convencendo–se de que ela não o queria, Montoni abandonou o castelo e nunca mais voltou, fato que a deixou indiferente. Uma noite... Olhe para esse candeeiro, mademoiselle, e repare como a chama está azul! Valha–nos Deus!
— Que disparate! Estás doida, com certeza. Vamos, acaba a história. Sinto–me fatigada e quero deitar–me.
Annette tornou a olhar para a chama com olhar aterrado e continuou, baixando ainda mais a voz:
— Uma tarde, em fins de Setembro ou começo de Outubro... podia muito bem ter sido para o fim do ano, segundo me disseram, a senhora foi passear para a floresta como fazia muitas vezes. Levou consigo a criada de quarto. O vento soprava, agitando as copas dos grandes castanheiros por onde passámos hoje. De repente, a senhora meteu pela floresta e quando anoiteceu por completo ainda não havia regressado a casa. Deram dez horas, onze, meia–noite. Os criados receavam que lhe tivesse acontecido alguma coisa e saíram com archotes acesos para a procurar. Não a encontraram, nem nunca mais ouviram falar nela nem na criada que a acompanhava.
— Falas sério, Annette? — perguntou Emília muito surpreendida.
— Muito sério — confirmou a criada, deixando cair os braços com desânimo — Dizem ainda que, desde então, a têm visto errar pela floresta, de noite. Muitos dos criados, que nessa altura se encontravam no castelo, e muitos, dos seus vassalos, que passaram aqui a noite, afirmam o mesmo.
— Que contradição! Disseste–me há pouco que nunca mais tinham ouvido falar dela e agora dizes– me que a viram errar em volta do castelo!
— Mais baixo, pelo amor de Deus! Com certeza não pretende prejudicar–nos, a mim e ao Benedetto.
— Serei discreta, descansa — assegurou Emília — Aconselho–te, porém, a seres também mais discreta com as outras pessoas do que foste comigo. O senhor Montoni, com certeza, ficaria furioso se soubesse que falavam neste assunto. E, dize–me, procuraram a senhora?
— Durante muito tempo, porque o senhor, como o mais próximo herdeiro, não podia tomar conta do castelo sem terem a certeza da sua morte ou passarem muitos anos, segundo declararam os juízes. Mas, decorrido o tempo preciso, se a castelã não aparecesse, seria considerada como morta e Montoni tomaria conta da herança, como aconteceu. Desde então, segundo dizem, passam–se aqui coisas tão estranhas, que não me atrevo a contar–lhes.
— As tuas palavras é que são estranhas — comentou Emília — Mas quando a signora Laurentini voltou a aparecer ninguém lhe falou?
— Santo Deus! Quem se atreveria a falar a um espírito?
— Como podiam afirmar ser ela um espírito, se ninguém se aproximou nem lhe falou?
— Não sei responder–lhe, mademoiselle. Sei apenas que não andava por forma natural e que tão depressa a viam num ponto como noutro. Não falava. E, se estivesse viva, com certeza falaria. Existem, mesmo, no castelo, certos pontos onde ninguém se atreve a ir desde que sucederam estas coisas. Dizem que na velha capela, à meia–noite, se ouvem gemidos surdos. É de estremecer de horror!
— Deixa–te de histórias ridículas, Annette. Acaba com isso — ralhou Emília, tentando sorrir, embora o medo começasse também a apoderar–se dela.
— Histórias ridículas, mademoiselle! Vou contar–lhe uma que ouvi da boca de Catarina e depois me dirá se não é de uma pessoa ficar transida de pavor. Era numa noite de Inverno, muito escura. A pobre Catarina vinha muitas vezes ao castelo para fazer companhia a Cario e à mulher, como o senhor lhe tinha recomendado. Estavam os três sentados perto do lume quando Cario disse:
“–Gostava de ter figos para assar na brasa, mas estou muito cansado para os ir buscar. Você, Catarina, como é nova e ligeira, podia ir buscá–los à despensa que fica ao fim da galeria do norte. Leve o candeeiro e tenha cautela ao subir a escada, senão o vento apaga–o. — Catarina pegou no candeeiro e ... — Agora tenho a certeza, mademoiselle. Ouvi barulho.
Emília apurou o ouvido e, como tudo estivesse sossegado, ralhou com Annette. Esta continuou:
— Catarina dirigiu–se para a galeria do norte, aquela que atravessámos hoje. Seguia tranquilamente, protegendo o candeeiro e não pensava em coisa alguma quando... Desta vez não me engano, mademoiselle, ouvi muito bem.
— Cala–te! — murmurou Emília toda trémula.
Ficaram ambas imóveis e caladas. Ouviram–se duas pancadas na parede e a porta abriu–se devagar. Annette soltou um grito e Catarina apareceu. Vinha chamá–la da parte de madame Montoni. Embora a tivesse reconhecido logo, Emília a custo recuperou o sangue–frio. Meio a rir meio a chorar, a criada de quarto ralhou com a outra por lhe ter metido tão grande susto, ao mesmo tempo que tremia com receio de que Catarina tivesse escutado a conversa.
Emília, impressionada com a história de Annette, receava ficar sozinha, mas temendo desagradar à tia e revelar a própria fraqueza, lutou contra o terror e mandou a criada de quarto embora.
Uma vez só, começou, a despeito da sua vontade, a pensar na história singular da signora Laurentini; depois refletiu na triste situação em que ela própria se encontrava naquele terrível castelo, rodeado de montanhas, num país estrangeiro, em poder de um homem a quem, meses antes, não conhecia e cujo caráter, tão temido por todos, lhe inspirava verdadeira aversão.
Recordou as revelações sobre Montoni feitas por Valancourt na véspera da partida, e as desesperadas tentativas do noivo para a dissuadir da viagem. Os receios por ele manifestados haviam tomado, a partir desse dia, o aspecto de verdadeiras profecias e os acontecimentos confirmavam–nos ponto por ponto. O coração da pobre menina, ao evocar a imagem do homem amado, quase estalava de dor, mas a razão sugeriu–lhe consolações mais dignas dela. Pensou que, dessa forma, seria a única a sofrer, evitara envolver Valancourt nas desgraças que a feriam e que, por muito profundo que fosse o seu desgosto, a sua conduta estava isenta de censuras.
O mugido do vento, que fazia tremer a porta e assobiava pelo corredor, mais concorria para a entristecer. O fogão havia muito se apagara. Deixara–se ficar sentada diante das cinzas já frias quando uma rajada mais forte fez estremecer a casa toda. Com a violência, a poltrona, que estava encostada à portinhola pequena, deslocou–se e o batente abriu–se de par em par. Os temores e a curiosidade de Emília despertaram de novo. Trémula, pegou no candeeiro e, aproximando–se da abertura, desceu alguns degraus da escada. Depois, o silêncio e a escuridão atemorizaram–na e voltou para trás. Adiando as pesquisas para o dia seguinte, fechou a porta e tornou a barricá–la o melhor que pôde com a poltrona e outros móveis.
Deitou–se, deixando o candeeiro aceso em cima da mesa, mas a pálida claridade por ele projetada só serviu para tornar os seus temores mais fundos. À chama vacilante e incerta tinha a impressão de ver passar sombras perto dos cortinados do leito e ocultarem–se ameaçadoras nos recantos do quarto. O relógio do castelo já batera a badalada da uma quando conseguiu adormecer.