Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 31 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XXX. Regresso ao Castelo de Udolfo

XXX

Regresso ao Castelo de Udolfo

Voltemos a Veneza onde o conde Morano, no próprio dia do seu regresso, sofreu uma perseguição organizada contra ele. Preso por ordem do Senado, ignorando qual o crime de que o acusavam, foi atirado para uma masmorra, num segredo tão rigoroso que nem os amigos conseguiram descobrir os seus traços. Quem seria o causador daquele cativeiro? Ignorava–o. Todas as suas suspeitas, porém, recaíram sobre Montoni, suspeitas não só muito verosímeis, mas bem fundadas.

Tendo conseguido escapar à tentativa de envenenamento, Montoni atribuiu o crime a Morano, sem, contudo, dispor de provas para poder acusá–lo. Desta forma, recorreu a outro meio para se vingar. Encarregou um dos seus homens de lançar uma denúncia na goela do leão, depósito aberto dia e noite para receber as cartas anónimas contra os conspiradores que ameaçavam o Estado de Veneza. Pela sua fortuna e altivez, Morano incorrera na antipatia das principais personagens do Estado. Denunciado, foi condenado a perecer numa dessas masmorras, terror dos venezianos, que se fecharam para sempre sobre o destino de tantas vítimas arrancadas às suas casas e à família.

Entretanto, Montoni defendia–se dos inimigos. O castelo fora cercado por tropas decididas, mas a guarnição soube resistir ao ataque. Defendeu–se, corajosamente, e como os assaltantes não dispunham de víveres suficientes nem podiam adquiri–los naquelas montanhas desertas, foram obrigados a retirar.

Logo que Udolfo recuperou a paz, o primeiro cuidado de Montoni foi mandar Ugo buscar Emília. Afastara–a do castelo onde, por infelicidade, o inimigo podia penetrar, para a pôr em lugar seguro. Passado o perigo, ansiava por prendê–la outra vez dentro das fortes muralhas da fortaleza.

Forçada a abandonar a cabana, Emília despediu–se da meiga Madalena. Os quinze dias passados na Toscânia tinham representado para a pobre rapariga uma espécie de trégua ao seu sofrimento e foi com pesar que os viu terminados.

Do alto da montanha, relanceou a vista para a encantadora região estendida a seus pés e para o oceano muito azul que desejaria transpor para voltar a França. Todavia, o horror provocado pela ideia de ter de regressar ao teatro de tantos sofrimentos era compensado pela esperança de lá encontrar Valancourt.

Partiu já muito tarde da Toscânia e era já noite escura quando chegou perto de Udolfo. O luar iluminava as torres e muralhas, deixando ver os estragos causados pelo cerco. Encontrava–se junto do penhasco sobre o qual Udolfo fora construído. Pesados pedregulhos, desprendidos da muralha, haviam rolado até à floresta, de mistura com bocados de argamassa e estilhaços de rocha, arrastados com a queda. As árvores também haviam sofrido com o fogo dos canhões; muitas das mais belas estavam caídas por terra, outras inteiramente despojadas dos ramos mais altos.

— Temos de nos apear e conduzir as mulas à mão — declarou Ugo — Doutra forma, arriscar–nos– íamos a cair nos buracos cavados pelas balas. Deem–me o archote– acrescentou, depois de terem desmontado — e tenham cautela com os maus encontros. Os inimigos ainda andam por aqui.

— O que diz? — perguntou Emília — Ainda há inimigos?

— Se não vivos, pelo menos, cadáveres — respondeu Ugo — A última vez que passei por aqui tropecei em três corpos caídos junto do tronco das árvores.

O archote iluminava, fracamente, o solo e os recônditos da floresta. Emília receava a cada passo deparar algum espetáculo terrível. O caminho estava juncado de troços de lanças e de armaduras quebradas.

— Aproximem a luz — pediu Beltrão –Tropecei em qualquer coisa que tiniu.

Ao clarão do archote, viram uma couraça de aço, furada de lado a lado e manchada de sangue. Beltrão apanhou–a, mas como Emília lhe suplicasse para continuarem, depois de alguns gracejos sobre o belo homem que devia ter sido o seu possuidor, atirou–a para longe e seguiu atrás deles.

Ao aproximarem–se do castelo, Emília pôde verificar o estado em que se encontrava, comparando–o com aquele em que o deixara. Uma das torres da entrada, completamente em ruínas, atestava os furiosos ataques do inimigo. Pelo que a fraca claridade do luar lhe permitia entrever, notou estar a torre, tanto como as suas fortificações, completamente demolidas. Uma luz brilhou para lá das ameias e pelas largas fendas pôde ver passar um soldado com uma lanterna na mão, subindo a estreita escada praticada na torre, aquela que tinha subido na noite em que Bernardino a enganara com a esperança de ver madame Montoni. Beltrão gritou, deu–se a conhecer e o soldado desceu imediatamente.

As correntes desdobraram–se, os ferrolhos foram corridos e os viajantes entraram.

Emília encontrou–se mais uma vez sob a pesada abóbada do arco e ouviu cair a grade que a separava do resto do mundo. Ao penetrar no pátio do castelo, chegou–lhe aos ouvidos um rumor confuso e, à medida que se aproximava, reconheceu ser o de gargalhadas e gritos discordantes.

— Pelo que ouço — comentou Beltrão — o vinho da Toscânia não deve faltar. Quem faz tanto barulho a esta hora?

— Sua Excelência e os amigos nunca dormem. Desde o cerco, passam as noites em festas.

Atravessaram o segundo pátio e encontraram–se à porta do vestíbulo. A sentinela deu–lhes as boas–noites e voltou ao seu posto. O tumulto era tão grande dentro do castelo, que Ugo bateu com toda a força, deu socos na porta e não conseguiu fazer–se ouvir. Entretanto, Emília tremia só com a ideia de encontrar àquela hora Montoni ou algum dos seus amigos. Como conseguiria chegar ao quarto sem ser notada?

Cario, por fim, abriu a porta. Beltrão e Ugo seguiram–no até à antecâmara, ansiosos por cear e aquecerem–se. Quanto a ela, ansiosa também por se encontrar nos seus aposentos, procurou, na escuridão, a escada e depois a galeria. De vez em quando, parava para escutar, pois os gritos e as vozes pareciam persegui–la. Depois ouviu o bater de portas, essas vozes seguirem direções diferentes, como se, tendo terminado a orgia, os convivas dispersassem. Felizmente, apesar da escuridão, conseguiu encontrar o corredor na extremidade do qual se encontrava o seu quarto. Começava a respirar quando ouviu passos aproximarem–se ; teve a presença de espírito necessária para reprimir a sua emoção e ficar imóvel. Então, no fundo do corredor apareceu uma luz, transportada por um homem que cambaleava e falava sozinho, dizendo:

— Deve ser por aqui.

Com terror, reconheceu Varezzi, que se dirigia para o seu próprio quarto. Refugiar–se na pequena galeria, à esquerda, foi obra de um instante. Varezzi passou sem a ver. Mas como descrever o que sentiu quando, na extremidade oposta dessa galeria viu aparecer outra luz caminhando para ela? Se o medo não lhe tivesse roubado as forças para gritar, por certo o faria; quando, porém, reconheceu Annette, felicitou– se por não o ter feito. Correu para ela, o que foi uma imprudência, porque, ao vê–la, a criada soltou um grito e manifestou o seu contentamento, apertando–a nos braços. Emília, por fim, conseguiu falar e demonstrou–lhe o perigo que corriam. As duas apressaram–se a procurar refúgio no quarto da criada que ficava muito afastado dos outros. Logo que se encontraram em segurança, a primeira pergunta de Emília foi para indagar se Annette havia conseguido saber alguma coisa a respeito de Valancourt. A criada ainda não sabia coisa alguma e limitou–se a garantir–lhe que no castelo havia muitos prisioneiros. Em seguida, começou a descrever o cerco e o que tinha sofrido durante o ataque.

— Quando ouvi os gritos de vitória, soltados pelos homens — acrescentou — supus tratar–se do inimigo. O castelo fora tomado e a nossa última hora aproximava–se. Felizmente, enganava–me. Eram os nossos que bradavam: “vencemos o inimigo! No entanto, as muralhas ficaram em ruínas. Durante o cerco, o signor aparecia em toda a parte, segundo me disse o Ludovíco. Quanto a mim, não me deixava nem sequer espreitar e fechou–me num dos quartos no interior do castelo. Ele mesmo me levava a comida e ficava algum tempo a conversar comigo, quando podia. Sem o Ludovico, eu teria morrido, com certeza.

— E agora, como vai isto por cá? — perguntou Emília.

— Vivemos numa contínua festa. Os senhores não fazem senão comer e beber, dia e noite. Jogam e disputam todas as lindas coisas apanhadas nas pilhagens e têm questões terríveis a propósito dos ganhos e perdas. As damas ainda se encontram no castelo e confesso–lhe que me metem tanto medo como os homens, quando as encontro.

— Escuta, — interrompeu Emília — não ouves barulho? O que será?

Com efeito, alguém caminhava pelo corredor e parou junto da porta. Em seguida, tentaram abrir e uma voz chamou baixinho.

— Pelo amor de Deus não respondas! — pediu Emília — Deixemo–nos ficar muito quietas. Apaga a luz para não atraiçoar a nossa presença.

— Isso não, não posso ficar às escuras nem que me dessem todo o oiro do mundo.

Entretanto, de fora chamaram mais alto, proferindo o nome de Annette.

— Virgem Santa! É o Ludovico.

Abriu a porta e o rapaz entrou. A fisionomia franca e simpática confirmou boa opinião que Emília já formava a seu respeito. Pediu–lhe proteção no caso de Varezzi continuar a persegui–la. Ludovico ofereceu–se para passar a noite no quarto contiguo, a fim de poder acudir–lhes ao primeiro grito de alarme.

Tranquilizada com a promessa, Emília conseguiu, por fim, descansar, conquanto o seu espírito estivesse muito preocupado para poder dormir. Recordava o terrível perigo a que escapara havia pouco, via–se encerrada num castelo onde reinava o vício e a violência, sem proteção das leis e da justiça, em poder de um homem cujas paixões violentas e ambiciosas substituíam os princípios; teve de reconhecer, mais uma vez, que seria loucura e não coragem, desafiá–lo e resistir–lhe. Decidiu ceder–lhe os bens que desejava, contanto que ele lhe permitisse regressar a França. Todos estes pensamentos a mantiveram acordada por muito tempo. Contudo, a noite passou sem que Varezzi lhe causasse novos terrores.

De manhã, teve prolongada conversa com Ludovico e manifestou–lhe o seu espanto por ele consentir em ficar no castelo e viver num meio que lhe causava horror. Quando o rapaz lhe afirmou que o abandonaria logo que pudesse, atreveu–se a perguntar–lhe se estaria disposto a auxiliá–la a fugir. Ludovico afirmou estar decidido a tentar, conquanto a empresa fosse muito difícil. A sua perda seria certa se Montoni os apanhasse antes de poderem sair dos desfiladeiros da montanha. Mesmo assim, prometeu estudar um plano de fuga e avisá–las logo que a ocasião se proporcionasse.

Emília confiou–lhe então o nome de Valancourt, pedindo–lhe para se informar e saber se entre os prisioneiros se encontrava alguém com esse nome.

A tênue esperança que a animou depois desta conversa, levou–a a deferir a entrevista com Montoni até que Ludovico pudesse saber alguma coisa. Não cederia os seus direitos ao ambicioso castelão senão quando se convencesse de que a fuga seria impossível.

Acabava de tomar esta resolução quando Montoni a mandou chamar. Quando entrou na sala de cedro encontrou–o sozinho.

— Acabo de saber que não passou a noite no seu quarto. Onde dormiu?

Emília descreveu–lhe as circunstâncias que tanto a haviam assustado e pediu–lhe proteção.

— Não ignora qual a condição imposta para lhe dar a minha proteção. Se a deseja, submeta–se.

A declaração afligiu–a. Via a sua honra posta a preço e isso demonstrou–lhe a necessidade de ceder. Mesmo assim, perguntou–lhe se teria a liberdade de regressar a França, logo que tivesse assinado a cedência. Montoni jurou–lhe que a deixaria partir e apresentou–lhe o documento redigido por forma que todos os seus bens passariam para a posse do castelão.

Emília hesitou ainda por muito tempo, dilacerada pelos mais contraditórios sentimentos. Teria de renunciar à felicidade, ao amor, às suaves esperanças, a tudo quanto havia constituído o seu amparo durante a adversidade!

Montoni repetiu as condições do contrato, observando que o seu tempo era precioso e não podia perdê–lo com hesitações.

Reduzida ao último extremo, a infeliz rapariga assinou. Depois, aniquilada por tanta emoção, deixou–se cair numa cadeira. Quando, decorrido algum tempo, pôde recuperar as forças, pediu a Montoni que desse as suas ordens para a partida e licença para levar consigo Annette.

Dobrando, cuidadosamente, o documento e fechando–o numa gaveta, ele sorriu e declarou:

— Tive de a enganar para conseguir o que desejava. Deixá–la–ei ir embora, mas não imediatamente. Quando eu entrar na posse dos seus bens, ficará livre para voltar a França.

A malvadez daquele homem, que assim violava um juramento solene, reduziu Emília ao desespero. O sacrifício fora inútil. Nunca mais recuperaria a liberdade. Desorientada, fixou Montoni com um olhar tão triste, que teria comovido uma fera. Ele desviou a vista e ordenou–lhe para se retirar e recolher aos seus aposentos. Sem forças, sem conseguir proferir uma palavra, nem mesmo chorar, a pobre rapariga parecia a estátua da dor.

— Não se abandone a essa dor infantil. Esforce–se por suportar com coragem aquilo que já não – pode remediar. Tenha paciência e um dia poderá regressar a França. Agora vá para o seu quarto.

— Não me atrevo — respondeu ela, por fim–não posso conservar–me num aposento onde Varezzi entra com toda a facilidade.

— Não lhe prometi protegê–la?

— Prometeu... mas...

— Não lhe basta a minha palavra? — perguntou Montoni com severidade.

— Lembre–se da sua última promessa — retorquiu Emília a tremer — e reconheça que tenho razão para duvidar desta.

— Tome cautela! — exclamou Montoni com olhar chamejante–Repare no que diz ou retiro–lhe a minha proteção. Saia daqui ou não respondo por mim. Vá para o seu quarto. Volto a repetir–lhe que não teria nada a temer.

Emília chamou a si todas as suas forças e saiu devagar. Quando entrou no quarto, examinou todos os recantos com receio de que alguém lá estivesse escondido. Depois fechou a porta e foi encostar–se à janela, para refletir e recuperar a calma.

O dia decorreu como tantos outros que passara ali. Quando a noite se aproximou, teria ido refugiar–se no quarto de Annette como na anterior, se um interesse mais poderoso não a prendesse, a despeito dos seus terrores: a esperança de escutar mais uma vez a misteriosa música. Desencadeara–se tremendo temporal. No entanto, o castelo resistia como se fosse um rochedo. Como sempre, Emília ouviu render a guarda e notou que as sentinelas haviam sido reforçadas, precaução tomada por causa do estado em que se encontravam as muralhas. No entanto, quando o vento acalmou por instantes, teve a impressão de ouvir os melodiosos sons de um alaúde. O temporal recrudesceu e de novo acalmou; então os sons tornaram–se mais distintos e uma voz acompanhou–os, uma voz cuja expressão comovente sobressaía ao ruído do vento que pouco a pouco abrandava.

Certa de que a música e o canto partiam do quarto por baixo do seu, Emília debruçou–se na esperança de avistar uma luz; as janelas, porém, estavam por tal forma recuadas dentro das paredes, que não conseguiu vê–las, nem aperceber–se da fraca claridade que brilhava através dos varões. Tentou chamar, mas o vento levava–lhe a voz para longe. Entretanto, Annette bateu à porta e foi abrir. Mal a criada entrou, chamou:

— Chega aqui, Annette, e não faças barulho. Não ouves música?

Escutaram muito caladas. A melodia mudou de ritmo.

— Meu Deus! — exclamou a criada — É uma canção da minha terra!

Era a balada que Emília já ouvira, mas não a canção de pesqueiro da Gasconha.

— Quem está a cantar é francês! Talvez seja o senhor Valancourt.

— Por que dizes isso? Reconheces–lhe a voz?

— Eu? Não. Nunca o ouvi cantar...

Emília ficou desapontada por Annette ter feito aquela afirmação, simplesmente por a canção ser francesa. Pouco depois, a voz entoou a canção da Gasconha e em seguida ouviu o seu nome tantas vezes repetido que a própria criada o notou.

Sem forças, Emília deixou–se cair na cadeira. Annette debruçou–se para fora e chamou:

— Senhor Valancourt... senhor Valancourt!

Mas não obteve resposta.

— Deixa, Annette. Quero falar–lhe. Se for ele, há–de reconhecer–me a voz e responder–me–á ... Quem canta a esta hora? — perguntou em voz alta.

Seguiu–se prolongado silêncio. Repetiu a pergunta e supôs escutar leve murmúrio, que o vento arrastou para longe; sim, a voz respondera, mas não conseguiu perceber as palavras. Emília ficou louca de alegria. Se o desconhecido só tinha respondido quando a ouvira a ela, não podia ser outro senão Valancourt... Valancourt que a tinha reconhecido.

Entretanto, Annette continuava a gritar sem receber resposta. Emília, receando que os gritos, àquela hora, chamassem a atenção da sentinela, mandou–a calar, decidindo interrogar Ludovico no dia seguinte, com mais descanso do que fizera na véspera.

As duas raparigas ficaram ainda muito tempo à janela, mas não tornaram a ouvir o canto ou a música. A sentinela passava na esplanada com o seu passo cadenciado; os outros dois, fatigados talvez, haviam adormecido encostados ao parapeito. Emília apurou o ouvido, ainda na esperança de escutar qualquer coisa, mas tal não aconteceu. Desanimada, fechou a janela e deitou–se.