Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXIII. A Aparição
XXIII
A Aparição
Algumas horas de repouso bastaram para acalmar o espírito de Emília e restituir–lhe as forças. Quando acordou viu, com surpresa, Annette adormecida na poltrona que se encontrava junto do leito. Em vão tentou lembrar–se dos acontecimentos da noite antecedente, pois se lhe haviam varrido da memória por completo. Olhava para Annette com espanto, quando esta acordou por sua vez.
— Reconhece–me, mademoiselle? — foi a sua primeira pergunta.
— Se te reconheço? — repetiu Emília com estranheza — Por que não o faria? És a minha boa Annette. Como te encontras aqui?
— Esteve tão doente, mademoiselle, tão doente, que receei...
— É estranho! — murmurou Emília — Tenho a impressão de que um sonho doloroso me fatigou o cérebro. Seria na verdade um sonho? — acrescentou com ansiedade.
E olhou com terror para Annette que, a fim de a tranquilizar, afirmou:
— Não foi sonho, mas, felizmente, já passou tudo.
— Passou! — protestou Emília — Eles mataram–na então?
Annette soltou um grito. Ignorando o ocorrido e a dolorosa circunstância a que aludia Emília, imaginou que tivesse sido atacada por segundo acesso de delírio. A medo, recordou–lhe a tentativa do rapto de que havia sido vítima, cujo autor ainda não pudera ser descoberto. Afirmou ainda ter sido ela, Annette, quem a salvara.
— É verdade, mademoiselle. Jurei a mim mesma ser mais esperta do que o patife do Bernardino, por ele não ter querido confiar–me o seu segredo e fiz o possível para descobrí-lo. Fiquei perto da porta onde me ordenou que a esperasse e, quando passou consigo para o terraço, segui–os. Tantos mistérios afiguravam–se–me suspeitos. Como ele deixasse a porta encostada, fui atrás e, guiada pela luz, percorri o caminho que seguiam até que entraram na capela. Nessa altura, não me atrevi a ir mais longe, pois ouvira contar muita coisa respeito dela. Por outro lado, aterrava–me a ideia de à deixar sozinha com aquele homem. Por fim, enquanto Bernardino espevitava o archote, resolvi–me e acompanhei–os na sombra, até que chegaram ao pátio. Receando que me descobrisse, meti–me num canto, enquanto ele a levou para a torre. A certa altura, ouvi a tropeada de cavalos lá fora e vozes gritando por Bernardino, protestando, pois se demorava a entregar–lhes a pessoa que vinham buscar. Adivinhei que se tratava de mademoiselle e resolvi apanhar Bernardino nas próprias redes. Queria salvá–la, pois pressentia ser o rapto obra do conde Morano, apesar de afirmarem que já partira para Veneza. Corri para o castelo e não sei como não me perdi nos subterrâneos da capela. É extraordinário! Naquela altura nem sequer me lembrei dos fantasmas, enquanto neste momento nem por todo o oiro do mundo eu consentiria em lá voltar. Felizmente, o patrão e o senhor Cavigny ainda estavam a pé. Reuniu os seus homens e conseguiu vencer os raptores e salvá–la.
Quando Annette concluiu a narrativa, Emília, que a escutara em silêncio, decidiu de repente:
— Preciso falar–lhe. Onde está ele?
— Quem, mademoiselle?
— O senhor Montoni. Onde está?
Annette levantou–se e encarregou–se de ir avisá–lo.
As suspeitas da criada sobre o conde Morano não eram infundadas. Emília partilhava–as e o próprio Montoni, a quem haviam repetido as ameaças do conde, não só o considerava como autor da tentativa de rapto, como pressentia que o veneno deitado no vinho e que fizera estalar a taça de cristal, fora preparado por ordem de Morano.
Os protestos de arrependimento feitos pelo conde quando se supunha ferido, mortalmente, pela espada de Montoni, eram sinceros, mas ele mesmo se iludia sobre a natureza dos seus sentimentos. Supondo condenar os seus projetos criminosos, apenas lamentava que tivessem falhado. O remorso não era mais do que o desgosto pelo mau êxito da empresa. Uma vez restabelecido, voltou à ideia fixa e preparou–se para obter a desforra. O porteiro do castelo, que da primeira vez o auxiliara, deixou–se tentar pela segunda vez e combinou com ele o rapto de Emília. O conde anunciou a sua partida, abandonou o lugarejo Onde se abrigara enquanto ferido e instalou–se com os seus homens a algumas milhas de distância. Viu–se como Bernardino soube tirar partido das inquietações de Emília sobre o destino da tia e as aproveitou para a atrair a uma cilada, e como o conde, que em segredo havia regressado ao povoado na noite do rapto, falhou a segunda tentativa. Não seria possível descrever a cólera, e as palavras violentas, que desvairaram o impetuoso Italiano quando o soube.
Entretanto, Annette desempenhou–se do seu encargo junto de Montoni. A medida que se aproximava a hora da entrevista solicitada, Emília tremia de horror só com o pensamento de ter de se defrontar com o tirano, e quase desfalecia. Como abordar o terrível assunto? Por outro lado, como poderia calar–se e não protestar contra a morte da tia? Não seria tornar–se cúmplice do crime? Além disso, a catástrofe representava o único motivo que poderia invocar ao solicitar licença para regressar à pátria.
Enquanto se entregava a estes pensamentos, Annette voltou para lhe comunicar que Montoni só a receberia no dia seguinte, declaração que lhe tirou um peso de cima do peito. Ficou contente e nem sequer escutou Annette, que lhe dizia suspeitar de nova expedição e da próxima entrada em campanha dos homens de Montoni, a ajuizar pelos preparativos que presenciara. Abandonando–se mais uma vez aos seus pensamentos, dispensou a companhia da criada e passou o dia numa tranquilidade aparente, natural reação e consequência do seu abatimento.
Quando caiu a noite, recordou a melodiosa música que lhe chegara aos ouvidos numa das noites anteriores e alimentou a esperança de que mais uma vez os suaves acordes servissem de lenitivo aos seus sofrimentos. Sentou–se perto da janela, aguardando que ela se fizesse ouvir. A certa altura, teve a impressão de ouvir alguém falar muito perto dela, mas como essa impressão não se repetisse, supôs ter sido uma ilusão dos sentidos ou fantasia da sua exaltada imaginação.
O tempo foi passando. Ia dar meia–noite. Todos os ruídos, mais ou menos afastados, que animavam o castelo se extinguiram quase simultaneamente, como se o sono envolvesse no seu manto benéfico todos os seus habitantes. Emília, encostada ao parapeito, foi arrancada ao seu devaneio por sons muito diferentes dos que esperava. Não eram notas suaves, mas sim suspiros sufocados de uma pessoa desesperada. Apavorada, tentou descobrir donde partiam as lamentações. No andar debaixo existiam muitos quartos desabitados. Calculando que talvez ali estivesse preso alguém, debruçou–se para ver se descobria qualquer luz. As janelas, pelo menos as que podia ver, estavam mergulhadas na escuridão; porém, no parapeito da muralha, a pouca distância, pareceu–lhe avistar um vulto.
A claridade projetada pelas estrelas era muito fraca para poder distinguir, nitidamente, quem era... talvez a sentinela. Foi esconder o candeeiro, a fim de poder observar o que se passava lá fora sem ser notada.
O vulto reapareceu, deslizou, lentamente, ao longo da muralha e parou diante da sua janela. Reconheceu tratar–se de uma pessoa, mas o passo lento e leve não devia ser o da sentinela. Emília hesitou. A curiosidade incitava–a a permanecer à janela, enquanto o receio por qualquer coisa vaga que não sabia definir a aconselhava a retirar–se.
Enquanto se debatia nesta irresolução, o vulto aproximou–se mais e imobilizou–se, hirto, muito aprumado. Estava tudo calmo e silencioso. Esse silêncio e o vulto fantástico destacando–se na escuridão, impressionaram–na por tal forma, que resolveu fechar a janela. Ia fazê–lo quando o vulto se moveu, deslizou e sumiu–se nas sombras da noite.
Emília conservou–se ainda algum tempo à janela, fixando o ponto onde a sombra desaparecera. Por fim, abandonou o seu posto muitíssimo preocupada com o singular fenómeno, pois não duvidava de ter sido testemunha de uma aparição sobrenatural.
Decorrido algum tempo, acalmou e tentou encontrar explicação mais racional. Recordou tudo quanto ouvira dizer das audaciosas aventuras de Montoni e calculou ter visto um dos desgraçados que, depois de despojados pelos bandidos, ainda eram feitos prisioneiros para pagarem resgate. Por outro lado, era mais vulgar os bandidos matarem aqueles a quem roubavam do que trazê–los consigo para o castelo. E depois, como seria possível um prisioneiro passear de noite pela muralha, sem ser vigiado?
Pensou também ser provável que o conde Morano tivesse encontrado forma de introduzir–se no castelo, mas os perigos e dificuldades de semelhante tentativa, logo destruíram esta hipótese. De resto, se o conde tivesse conseguido chegar até ali, ter–se–ia contentado em contemplar a janela do seu quarto, conhecendo o segredo da escadinha secreta?
Seria um inimigo que tentasse apoderar–se do castelo e viesse fazer um reconhecimento? Os suspiros sufocados, porém, não concordavam com esta suposição. Todas estas conjecturas mais concorreram para redobrar a sua perplexidade. Na impossibilidade de descobrir quem seria a pessoa que àquela hora desabafava a sua dor em gemidos tão lamentosos, persistiu em pensar que a deliciosa música e a aparição tinham relação entre si.
Decidiu que na noite seguinte velaria para desvendar, se fosse possível, aquela extraordinária circunstância. Pensou também que, se o vulto desconhecido tornasse a aparecer, teria coragem de o interrogar.