Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 42 de 46

Páginas do PDF

Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XLI. História de Ludovico

XLI

História de Ludovico

Emília aguardava com ansiedade notícias de Teresa para conhecer o resultado da sua tentativa e saber notícias de Valancourt. Encostada à janela, pensava no destino dos dois, unidos por tão fortes laços, e depois separados por tantos obstáculos. De repente, Annette entrou ofegante e quase sem poder falar; deixou–se cair numa cadeira, apertando as mãos uma contra a outra.

— Minha Nossa Senhora! — conseguiu por fim exclamar — O seu espírito! — Que estás a dizer? — perguntou Emília com impaciência.

— Atravessou o vestíbulo quando eu ia a sair da sala! –afirmou Annette.

— A quem te referes? Quem atravessou o vestíbulo?

— Trajando como tantas vezes o vil Quem poderia imaginar semelhante coisa!

Emília dispunha–se a censurar–lhe a tola credulidade, quando um criado entrou para lhe comunicar que um desconhecido desejava falar–lhe. Annette estremeceu e exclamou:

— É ele! Nesse caso, vive. Ludovico ... Ludovico! Precipitou–se para fora do quarto, regressando pouco depois com Ludovico. No auge do espanto, Emília manifestou–lhe a sua alegria por voltar a vê–lo são e salvo. A sua emoção redobrou quando abriu e leu as cartas do conde de Villefort e de Branca, que lhe contavam a sua aventura e a informavam da demora forçada na hospedaria dos Pireneus, devido ao ferimento de Sainte–Foix e ao estado de Branca. A última carta, acrescentava que o barão de Sainte–Foix acabava de chegar e, dessa forma, Branca e o conde iriam aguardar no Vale o completo restabelecimento do rapaz. Comunicava–lhe a sua chegada no dia seguinte e, entretanto, deixava a Ludovico a tarefa de descrever as suas aventuras.

Emília teve a paciência de esperar que o rapaz fosse comer e os transportes de Annette acalmassem um pouco. Pediu–lhe então para lhe dizer como tinha ido parar à companhia dos bandidos.

Ludovico apressou–se a satisfazer–lhe a curiosidade e começou:

— Lembra–se, mademoiselle, como o conde e o filho me acompanharam ao quarto onde devia passar a noite. Quando eles se retiraram, acendi o fogão, instalei–me numa poltrona e abri o livro que tivera o cuidado de levar comigo. Confesso não ter podido, por vezes, evitar uma sensação muito parecida com o medo.

— Vou mesmo a apostar — interrompeu Annette — que, se quiseres ser franco, terás de dizer que tremias da cabeça aos pés.

— Não era tanto assim — protestou Ludovico a sorrir — No entanto, de longe em longe, parecia– me ouvir barulho e algumas vezes me levantei para examinar todos os recantos. Como só visse as figuras das tapeçarias que pareciam fazer–me caretas, voltava a sentar–me. Decorreu mais de uma hora e eu acabei por adormecer com o livro na mão. De repente, fui despertado pelo ligeiro ruído que já ouvira e me deu a impressão de vir do lado da cama. Não sei se a história lida pouco antes me perturbou o espírito ou se recordei tudo quanto contavam a respeito daquele quarto; sei apenas que, ao olhar para a cama, supus ver o rosto de um homem...

A estas palavras Emília estremeceu, recordando o dia em que fora visitar o quarto com Doroteia.

— Confesso, mademoiselle, que, naquela altura, me faltou a respiração. O barulho voltou a fazer– se ouvir e distingui, perfeitamente, o girar de uma chave na fechadura. Mais do que tudo, causava–me espanto não ver porta alguma. Pouco depois, porém, o reposteiro que ficava por trás da cama arredou–se para o lado e vi um homem sair de pequena porta rasgada na parede. A aparição ficou algum tempo imóvel, com o. rosto meio oculto pelo reposteiro. Em seguida, apercebi, distintamente, a cabeça de outro homem espreitando por cima do ombro do primeiro. Não sei porque, estando a espada ao alcance da mão, não tive forças para me servir dela. Pelo contrário, não fiz um movimento para assim me suporem adormecido e continuei a observá–los por entre as pálpebras semicerradas. Creio ter conseguido iludi– los, porque os ouvi falar em voz baixa. Outros vultos apareceram na abertura da porta e as vozes elevaram–se.

— Causa–me espanto a existência da porta — observou Emília — ouvi dizer que o senhor conde, surpreendido com a sua desaparição, tinha mandado levantar as tapeçarias a fim de verificar se, oculta com elas, não existiria alguma passagem.

— Não me admira ele não ter dado pela porta — replicou Ludovico –Está disfarçada com a madeira que reveste a sala e, mesmo se a tivesse descoberto, o senhor conde não podia saber que comunicava com outra abertura e com um corredor aberto na espessura da parede. Mas, voltando aos homens reunidos junto da tal porta; eles não me deixaram muito tempo na incerteza do meu destino. Entraram todos ao mesmo tempo e rodearam–me. Eu deitei mão a espada, mas como podia defender–me de tantos? Em breve fui desarmado. Depois amarraram–me os braços, puseram–me uma mordaça e levaram–me consigo. No entanto, tiveram o cuidado de deixar a espada em cima da mesa para defender, comentaram rindo, aqueles que pretendessem, como eu, lutar com os espíritos. Seguimos por diversos corredores estreitos, abertos na espessura das paredes, calculei, pois que não os conhecia. Descemos várias escadas e, por fim, encontrámo–nos nos subterrâneos do castelo. Abriram nova porta, confundida com a própria muralha, seguimos por um caminho talhado no rochedo sobre o qual o castelo está construído, e então os bandidos arrastaram–me para um barco, que estava à nossa espera. O barco dirigiu–se para um navio ancorado na baía e, enquanto dois dos que me acompanhavam subiam comigo para bordo, os outros voltaram para a praia com o barco pequeno. Levantámos ferro e fomos desembarcar no Roussillon. Levaram–me então para o forte onde estive fechado até que o senhor conde apareceu. Tiveram o cuidado de me vendar os olhos. Precaução inútil, pois a região era tão agreste que eu nunca poderia ter reconhecido o caminho, se conseguisse fugir. Vivi no forte como prisioneiro. Nunca saía sem ser escoltado e a vida tornou–se–me tão aborrecida e triste, que só pedia a Deus para lhe pôr termo.

— Essa agora! — protestou Annette — Nem sequer te animava a esperança de voltares a ver–me?

Emília sorriu e perguntou a Ludovico por que motivo os homens o haviam raptado.

— Em breve adivinhei serem eles piratas que escondiam os seus roubos nos subterrâneos do castelo, isto é, na parte da abóbada oculta sob o próprio edifício. A sua situação, à beira–mar, favorecia– lhes os planos. Mas impunha–se libertarem–se de visitas importunas. Fizeram então correr o boato de que o castelo estava assombrado pelos espíritos e, como tinham conseguido descobrir a passagem secreta para o quarto da ala norte, fechado desde a morte da marquesa, não se lhes tornou difícil confirmá–lo com as suas manobras. A porteira e o marido, as únicas pessoas que ali habitavam, assustados com os estranhos ruídos ouvidos durante a noite, recusaram–se a permanecer no castelo por mais tempo. O fato confirmou a existência dos espíritos, tanto mais, tendo a marquesa, morrido por forma estranha, e o marquês desaparecido depois da sua morte.

— Por que não se contentavam os piratas com as caves e foram guardar os roubos debaixo do próprio castelo? — perguntou Emília.

— Às caves desciam, constantemente, os criados e, dessa forma, logo seriam descobertos. Pelo contrário, debaixo da abóbada estavam seguros enquanto acreditassem que os espíritos assombravam o castelo. Levavam para ali os roubos feitos no mar e guardavam–nos até poderem vendê–los. Estes piratas estão combinados com os contrabandistas dos Pirenéus e o negócio entre eles é considerável. Não sei dizer–lhes o que senti quando vi aparecer o senhor conde. Considerei–o perdido e ainda mais quando, daí a pouco, escutei os bandidos, planeando matá–los a todos. Consegui chegar até onde se encontravam os criados do conde e contei–lhes o que se preparava. Entretanto, o conde, assustado com a ausência da filha, perguntou onde estava. As respostas recebidas não o satisfizeram. Irritados, ele e o barão de Sainte–Foix, elevaram a voz. Considerei a altura propícia. Eu e os criados entrámos no quarto gritando: “Traição, senhor conde! Defenda–se!” O conde e o noivo da filha desembainharam as espadas, e travou– se tremenda luta, que terminou com a nossa vitória. O resto já sabe, mademoiselle.

— A aventura foi estranha e perigosa — comentou Emília — Devemos–lhe agradecimentos e elogios, Ludovico. No entanto, referindo–me ainda aos quartos da ala norte, existem coisas que não sei explicar. Ouviu os bandidos descreverem alguma vez os meios por eles empregados para afugentar as pessoas do castelo?

— Não, mademoiselle. Só uma vez os ouvi falar da velha governante que, por pouco, não tinha surpreendido um deles. Este fez–lhe uma partida das suas e descreveu–a, rindo com gosto.

Levemente corada, Emília pediu para lhe repetir o que ouvira.

— Certa noite, esse homem encontrava–se no quarto da marquesa, quando alguém entrou na sala. Receando não ter tempo para levantar a tapeçaria e abrir a porta falsa, escondeu–se na cama, bastante assustado, assim o depreendi. A governanta e outra pessoa aproximaram–se. O homem receou que o descobrissem e lembrou–se de as assustar. Levantou e baixou o pano de veludo e acabou por mostrar o rosto. Então as duas mulheres–contou o pirata–fugiram como se tivessem visto o diabo; quanto a ele, pôde retirar–se com todo o descanso.

Emília não pôde deixar de sorrir com a explicação do incidente que tão grande terror lhe inspirara. Restava–lhe ainda, no entanto, um receio supersticioso quando recordava a misteriosa música que à meia–noite se fazia ouvir perto do castelo de Blangy. Perguntou Ludovico se, por acaso, soubera alguma coisa sobre o assunto.

— Sei apenas não ser ela obra dos piratas. Muitas vezes falavam a esse respeito, afirmando que o diabo os ajudava.

— Admira–me terem os bandidos continuado no castelo depois da chegada do conde. Deviam calcular que, mais tarde ou mais cedo, seriam descobertos.

— Segundo depreendi, mademoiselle, contavam ficar ali apenas o tempo suficiente para transportarem os seus tesouros. Estavam lá tratando disso, mas como só dispunham de algumas horas por noite, levava tempo. Quando me raptaram tinham retirado menos de metade. E tencionavam, enquanto não conseguiam tirar o resto, fazerem tudo para confirmar os boatos que corriam sobre o castelo. Umas vezes divertiam–se a descrever a consternação manifestada pelos habitantes de Blangy com o meu desaparecimento e para eu não os atraiçoar levaram–me consigo. Soube, no entanto, que uma noite estiveram quase a ser apanhados.

Acabavam, segundo o costume, de soltar os gritos lúgubres que tanto medo inspiravam aos criados e dispunham–se a abrir a porta falsa quando ouviram vozes no quarto de dormir. Era o senhor conde que se encontrava ali com o filho. Apressaram–se então a repetir os gemidos e os soluços. O senhor conde confessou–me ter ficado muito impressionado com isso. Mas como o repouso da família exigia que ninguém o soubesse, impôs–se, assim como ao filho, a mais absoluta discrição.

Emília recordou a mudança operada no conde depois da noite passada nos aposentos da marquesa e compreendeu então a causa dessa mudança. Depois de mais algumas perguntas a Ludovico, mandou–o embora e dispôs–se a preparar tudo para receber os amigos.

À tarde viu entrar Teresa e empalideceu. Que notícias trazia ela?

— Está vivo! — foram as primeiras palavras da boa mulher.

Emília respirou, Já podia escutar com tranquilidade tudo quanto tivesse para lhe contar.

Não se enganara. Havia sido, de fato, Valancourt quem se encontrava em Toulouse e Já lá estava quando Emília ali chegara. Para iludir o desgosto e as saudades passeava pelo parque onde passara tantas horas felizes junto da noiva. Pode calcular–se a sua emoção, quando, certa tarde, viu aparecer a sua amada. Afastou–se imediatamente. Mas a sua presença mais o atraiu; como única consolação, percorria os caminhos que tinha percorrido a seu lado e vagueava em volta da casa onde Emília se encontrava. Foi num desses passeios noturnos que o Jardineiro, tomando–o por ladrão, lhe atirou um tiro, ferindo–o num braço. O acidente obrigara–o a permanecer em Toulouse, entregue aos cuidados de um cirurgião. E como havia muito tempo respondia com absoluto silêncio à frieza dos seus parentes, em cujo desagrado incorrera, todos ignoravam o sucedido. Quando se encontrou em estado de poder viajar, regressou a Estuvière, passando pelo Vale e por casa de Teresa, a fim de lhe dar a pensão e ao mesmo tempo saber notícias de Emília.

Pedia, simplesmente, àquela a quem tanto amava e a quem nunca mais tornaria a ver, para guardar o anel que lhe enviava e para recordar o seu desgraçado possuidor quando olhasse para ele. Emília sentiu– se profundamente comovida quando viu o anel usado por Valancourt em tempos mais felizes. No entanto, censurou Teresa por o ter aceito e recusou–se a recebê–lo.

Teresa pediu, suplicou, descreveu o abatimento do rapaz na altura em que lhe dera o anel e afirmou temer as consequências do seu desespero quando lhe devolvesse. Fez ainda algumas considerações sobre a sua idade e sobre os serviços prestados a Emília, o que lhe dava o direito de intervir no assunto. Conquanto lhe achasse razão, Emília persistiu na recusa, não lhe dando mais explicações sobre os motivos que lhe inspiravam tal resolução. Limitou–se a dizer a Teresa que a sua insistência a afligia e a afirmar ter razões sérias para não aceitar o anel, pedindo–lhe para o devolver, sem mais desculpas. Pediu–lhe ainda para, se tinha empenho na sua amizade e estima, nunca mais se encarregar de qualquer recado de Valancourt.

Mas esta resolução custou–lhe tanto que foi fechar–se no quarto para poder chorar à vontade.