Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 28 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XXVII. Novamente a Voz Misteriosa

XXVII

Novamente a Voz Misteriosa

Annette apareceu cedo.

— Lindas coisas se passaram no castelo esta noite! — exclamou logo de entrada — Não se assustou por não me ver?

— Com efeito, estive preocupada por tua causa e por minha. O que aconteceu?

— Foi o Ludovico que tornou a fechar–me, apesar de eu lhe dizer que mademoiselle estava à minha espera.

— O Ludovico fechou–te! Porquê?

— Por precaução. Não ignora a bacanal que se desenrolou aqui, esta noite. Ouviu, com certeza. Não havia um só dos homens que não estivesse embriagado e as damas seguiram–lhes o exemplo.

— Será possível!

— Se pudesse calcular o que soube a seu respeito! Uma delas, a signora Livona, que o senhor Montoni apresentou a sua mulher, em Veneza, é atualmente a sua amante. As outras duas são amantes de Varezzi e Bertholini. O senhor Montoni deu ontem um grande banquete durante o qual beberam diversos vinhos da Toscânia, no meio de risos e canções. Por mim, classifiquei tudo aquilo de indecente. Uma festa assim tão poucos dias depois da morte da nossa desgraçada castelã! Que pensaria ela se pudesse vê–los? Mas, pobre alma, ela já não pode ver coisa alguma.

Emília voltou–se para ocultar a sua emoção. Quando conseguiu dominar–se, abordou o assunto que a preocupava.

— Desejo fazer–te uma pergunta, Annette. Sabes, por acaso, se existem prisioneiros no castelo e se estão fechados nesta ala do edifício?

— Não estava lá quando o primeiro grupo de homens regressou da expedição e ignoro se fizeram prisioneiros. Mas estão à espera do regresso do segundo, hoje à tarde ou amanhã.

Emília perguntou se os criados não se haviam referido a prisioneiros.

— Adivinho de quem se trata — replicou a criada, que não era tola — Pensa no senhor Valancourt e supõe que viesse para a Itália com as tropas francesas, tivesse combatido com os nossos e fosse aprisionado. Se fosse verdade, como ficaria contente!

— Gostarias que ele tivesse sido feito prisioneiro?

— Não é bem isso, mademoiselle. Ficaria contente se o visse. Não conheço cavaleiro a quem mais estime.

— Nunca ouviste falar de prisioneiros? — insistiu Emília.

— Não, mademoiselle. Os meus colegas só falaram na aparição que toda a noite passeou pela esplanada e que assustou as sentinelas a ponto de uma delas perder os sentidos. Um homem! Que vergonha! Se desmaiam com tanta facilidade, que figura farão diante do inimigo? Desmaiar é bom para as mulheres. Não é esse o papel dos homens, assim como a mim não compete tomar um ar feroz e entrar em batalhas.

Emília pediu–lhe para indagar se havia prisioneiros no castelo, mas com prudência, e recomendou– lhe para não pronunciar o nome de Valancourt.

— Recordo–me agora! — exclamou Annette, ferida por súbito pensamento — Ontem, na antecâmara, um dos soldados falava de resgate e dizia que representa bom negócio aprisionar homens, muito melhor do que alcançar despojos. O camarada respondeu–lhe que podia ser muito bom para os capitães, mas não para os soldados, porque os resgates são para os primeiros e não para os segundos.

Esta revelação redobrou a ansiedade de Emília. Para a sossegar, Annette apressou–se a ir colher informações.

A resolução de ceder às exigências de Montoni foi abalada pela esperança de que Valancourt se encontrasse no castelo. Emília decidiu arrostar com a sua cólera, pelo menos até obter uma certeza. Justamente nessa altura, Montoni mandou–lhe dizer que a aguardava na sala de cedro. Foi ter com ele, trémula, mas mais do que nunca decidida a resistir–lhe.

Montoni estava só.

— Mandei–a chamar — disse — para aconselhá–la a pôr de parte as suas bravatas. Limito–me a dar–lhe um conselho quando podia dar–lhe ordens. Se admite, de boa-fé, que as propriedades do Languedoc lhe pertencem, deixe de persistir num erro que pode ser–lhe fatal. Não provoque a minha cólera e assine este documento.

— Se não tenho direito a esses bens, como afirma — retorquiu Emília– para que insiste numa desistência assinada por mim? Se, realmente, são seus, pode tomar posse do que lhe pertence sem a minha assinatura.

As pupilas de Montoni cintilaram de cólera.

— Não posso perder tempo com discussões. Deve servir–lhe de lição o que a sua tia sofreu por causa da sua teimosia. Assine o documento, já lhe disse.

A resolução de Emília vacilou com a ameaçadora perspectiva apresentada pelo castelão; mas a recordação de Valancourt, o homem a quem amava e que estava talvez próximo para a proteger, fortificou–lhe a vontade e reacendeu o sentimento de revolta provocado pela injustiça. Com uma firmeza, imprudente talvez, mas nobre e digna, respondeu quando Montoni repetiu:

— Assine.

— Nunca! A sua maneira de proceder bastaria para provar os meus direitos, se eu os ignorasse.

Montoni empalideceu de raiva, os lábios tremeram–lhe e o arrebatamento, a sua explosão de cólera quase fizeram arrepender Emília pela sua ousadia.

— Desgraçada! — exclamou, soltando uma praga terrível — A minha vingança recairá sobre a sua cabeça e não demorará muito. Nem as propriedades do Languedoc nem as da Gasconha serão suas. Atreve–se a duvidar dos meus direitos? Duvida então da minha força? Preparo–lhe um castigo... um castigo terrível! Esta noite, fique sabendo, esta noite...

— Esta noite! — repetiu uma voz.

Montoni calou–se, de repente, pondo–se à escuta, enquanto Emília, estupefata, procurava, olhando em volta, sem ver coisa alguma.

— Ainda há poucos dias presenciou um exemplo de teimosia, seguido por tremendo castigo. Se isso não bastou para a ensinar, posso citar–lhe outros, cuja descrição a gelará de horror.

Foi interrompido por surdo gemido, que parecia sair do chão. Relanceou a vista em volta e, apesar da ira que lhe fuzilava nos olhos, na fisionomia transparecia leve sombra de medo. Emília deixou–se cair numa cadeira perto da porta, esmagada por tanta emoção, enquanto Montoni, após breve pausa, recuperava o domínio próprio e repetia ainda num tom mais feroz:

— Já lhe afirmei poder dar–lhe outros exemplos do meu poder e do meu caráter. No entanto, como falo a uma rapariga inconsciente, estas temíveis lições de pouco serviriam. A minha decisão está tomada. Coisa alguma me demoverá. Vingar–me–ei, farei justiça por minha mão.

Novo gemido, surdo e prolongado, soou, ecoando pela sala.

— Saia daqui — ordenou ele a Emília, como se não tivesse ouvido coisa alguma.

Incapaz de implorar compaixão, Emília levantou–se, mas as pernas vergaram–lhe e, sucumbindo ao terror, recaiu na cadeira.

— Tire–se da minha presença — ordenou Montoni — Essa afetação de medo não fica bem a uma heroína que não receou provocar–me.

— Não... não ouviu nada? — balbuciou a pobre rapariga, toda trémula e incapaz de se manter em pé.

— Ouvi a minha voz — retorquiu com firmeza o castelão.

— Nada mais? — murmurou — Outra vez... não ouve? Meu Deus!

Os gemidos repetiam–se cada vez mais fracos.

— Obedeça — repetiu Montoni–Quanto a estas indignas brincadeiras, em breve saberei descobrir o seu audacioso autor.

Emília levantou–se e reuniu todas as suas forças para sair.

Montoni seguiu–a, mas em vez de chamar os criados e de lhes dar ordem para procurarem o brincalhão, como da primeira vez, dirigiu–se para a esplanada.

Emília, quando chegou ao corredor, parou junto de uma janela aberta. Avistou o destacamento de tropas de Montoni, descendo a encosta de uma montanha afastada e não pôde deixar de pensar nos infelizes prisioneiros que talvez trouxesse para o castelo. De regresso ao quarto, deixou–se cair numa poltrona, aterrada pelas novas ameaças que mais agravavam o horror da sua situação. Sem saber se devia aplaudir–se ou censurar–se pela firmeza demonstrada, concordava estar em poder de um homem que não conhecia outra lei senão a sua própria vontade. Afastando do pensamento os terrores supersticiosos que, por momentos a haviam assaltado, abandonou–se aos temores que a reflexão lhe sugeria.

Sobressaltou–se com o ruído de vozes e o relinchar de cavalos que o vento trazia do pátio. De súbito, o castelo foi abalado por confuso tumulto: eco de passos precipitados, idas e vindas nas salas, correrias pelas galerias e nos corredores. Na esplanada falavam com veemência. Entre outras, Emília reconheceu a voz de Montoni.

Correu à janela e avistou–o no meio de outros oficiais, debruçado no parapeito, examinando as seteiras e outros pontos de defesa, enquanto os soldados dispunham os canhões. Admirou–se com o desusado movimento, sem conseguir adivinhar–lhe a causa.

Annette apareceu, mas sem ter conseguido saber qualquer coisa a respeito de Valancourt.

— Nenhum dos criados a quem interroguei ouviu falar em prisioneiros. Mas temos novidades de outro género. A tropa regressou e em que estado! Cheguei a acreditar que vinham loucos e se iam esmagar uns aos outros. Era a ver quem chegava primeiro ao castelo. Vinham a fugir. Segundo parece, um destacamento inimigo persegue–os e dispõe–se a atacar–nos.

— Atacar o castelo?

— Exatamente. Vão cercar–nos. Suponho tratar–se de oficiais da justiça, aqueles homens terríveis que tanta vez encontrámos em Veneza.

— Bendito seja Deus! Ainda nos resta um raiozinho de esperança!

— Não diga isso, mademoiselle. Deseja cair nas mãos daqueles homens vestidos de preto, dos familiares do diabo? Tremia sempre que passava a seu lado e teria adivinhado de quem se tratava, mesmo que o Ludovico não me tivesse dito.

— Infelizmente, não poderemos encontrar–nos em piores circunstâncias do que estamos aqui. Que motivo tens tu para afirmar que se trata de oficiais da justiça?

— Vejo–os a todos numa desorientação e terror e, para pessoas como este homem, só a justiça os pode fazer tremer assim. Supus que só tivessem medo de fantasmas e não devem aparecer poucos, nos subterrâneos... Mas, valha–me Deus! Que tem, mademoiselle? Está transtornada e nem ouve o que lhe digo!

— Enganas–te, ouço muito bem — afirmou Emília, que seguia os seus próprios pensamentos — continua.

— Ia eu dizendo que todo o castelo está em alvoroço. Uns carregam os canhões, os outros vistoriam as ameias, transportam armas, gritam, praguejam... Que vai ser de nós, de mim, de si e do Ludovico? Em primeiro lugar, se os canhões começam a disparar, morro de terror. Se eu pudesse apanhar a porta grande aberta nem que fosse por um minuto, havia de conseguir fugir e ninguém mais me apanhava aqui.

Emília concordou:

— Com efeito, se apanhássemos a porta aberta, a minha vida e o meu repouso ficariam assegurados.

O profundo suspiro que soltou e a expressão de terror, assustaram Annette mais do que as próprias palavras. Pediu à patroa para se explicar e esta repetiu–lhe a conversa que tivera com Montoni, suplicando–lhe que não o contasse a ninguém, exceto a Ludovico.

— Talvez ele possa socorrer–nos, salvar–nos. Vai falar com ele, Annette, conta–lhe o que me espera se ficar no castelo e o que já sofri. Pede–lhe para ser discreto e fazer o possível para nos salvar. Se ele estiver disposto a fazer a tentativa, será bem recompensado. Não vou falar–lhe, porque poderia ser notada e isso iria levantar mais obstáculos à nossa fuga. Porém, tu, Annette, tu não inspiras desconfianças. Vai depressa e sê prudente. Aguardo o teu regresso com impaciência.

Impressionada com o perigo que ameaçava a patroa, a excelente rapariga ficou tão ansiosa por lhe provar a sua dedicação, como Emília por a experimentar. Sem perder um minuto, foi procurar Ludovico.

Emília ficou sozinha a refletir nas suposições da criada.

— Como poderão os oficiais da justiça apoderar–se de um castelo tão bem fortificado? É impossível. Só auxiliados por homens de armas.

Depois pensou que Montoni talvez tivesse assolado a região e a população revoltada pegasse em armas e chamasse em seu auxílio os oficiais da justiça. “Aquela pobre gente–pensou — ignora a força desta praça e da sua guarnição. Que podem fazer? Toda a minha esperança reside na fuga”

Montoni, devemos dizê–lo, sem ser, propriamente, um capitão de bandidos como supunha Emília, no entanto, empregava as suas tropas em expedições tão criminosas como aventurosas.

Não só haviam roubado os viajantes desarmados, como tinham saqueado as povoações da montanha. Nesta espécie de golpes, o chefe nunca aparecia; os soldados disfarçados passavam, ou por bandidos isolados, ou por restos dos bandos de tropas estrangeiras que inundavam os campos de Itália. Desta vez, não contentes em roubarem as casas sem defesa donde haviam trazido consideráveis despojos, reuniram–se a outros aventureiros para atacar um castelo fortificado. Os assaltados, porém, repeliram– nos e, por sua vez perseguiram–nos com o auxílio de tropas vizinhas. O bando de Montoni correu a refugiar–se em Udolfo, mas foi perseguido de tão perto pelos desfiladeiros da montanha que, mal atingiu os cimos que rodeavam a fortaleza, viu o inimigo principiar a escalá–los. Estavam separados apenas por uma escassa légua. Nesta emergência, apressaram–se a correr para o castelo a fim de avisar Montoni, e foi a chegada precipitada dos fugitivos que pôs tudo em alvoroço.

Enquanto Emília aguardava com ansiedade o resultado da tentativa de Annette, avistou as tropas inimigas a descer a montanha. A situação tornava–se cada vez mais crítica. Na esperança de ver Annette, abriu a porta e deu alguns passos pelo corredor. Mas em vez da criada encontrou Cario que, segundo afirmou, vinha da parte de Montoni para lhe dizer que se preparasse para abandonar Udolfo, que ia ser cercado.

Acrescentou que as mulas estavam aparelhadas para a conduzir com os guias a lugar seguro.

— Desde quando o senhor Montoni manifesta tanta solicitude por mim?

O discreto servidor baixou os olhos e não lhe respondeu.

Mil emoções diferentes assaltaram o espírito de Emília. A alegria, a dor, a desconfiança, o receio, dominaram–na, sucessivamente. Afigurava–se–lhe tão estranho o fato de Montoni a fazer abandonar o castelo que atribuiu a aparente precaução a um plano de vingança; não a tinha ele ameaçado com a sua cólera? Pouco depois, porém, sentia–se tão feliz só com o pensamento de abandonar Udolfo, fosse por que preço fosse, que se deixava embalar pela esperança. Depois, ao recordar que Valancourt podia estar ali e se via forçada a afastar–se, sentia–se esmagada pela tristeza. Chegava então a desejar que a voz, escutada certa noite, não fosse a do infeliz rapaz.

Cario lembrou–lhe que não podia perder tempo, visto o inimigo se encontrar já perto do castelo. Emília pediu–lhe para lhe dizer para onde a conduziam, mas ele respondeu–lhe ter recebido ordem para nada dizer a tal respeito. Todavia, como ela insistisse, disse–lhe que, segundo todas as probabilidades, a levariam para a Toscânia.

— Para a Toscânia! — admirou–se ela — Por que motivo me levam para aí e não para outro qualquer ponto?

Cario declarou que não sabia dizer mais nada. No entanto, tinha ouvido dizer que a levavam para uma choupana, nos Apeninos.

Emília agradeceu–lhe e começou a preparar, com mãos trémulas, o pequeno embrulho das coisas que desejava levar. Estava ocupada nesta tarefa quando Annette apareceu.

— Nada a fazer, mademoiselle. O Ludovico afirma ser o novo porteiro ainda pior do que o Bernardino. Falar a semelhante malvado será o mesmo do que metermo–nos na boca do lobo. Pobre Ludovico! Está tão apoquentado por minha causa como eu própria. Acredita, como eu, que não posso sobreviver ao primeiro tiro de canhão.

Quando Emília lhe revelou a decisão de Montoni, começou a chorar e depois pediu–lhe para a levar consigo.

— Com todo o gosto, se o senhor Montoni consentir.

Annette correu, imediatamente, à procura de Montoni que se encontrava na esplanada, rodeado pelos seus oficiais. Fez–lhe o pedido que foi muito mal recebido. Montoni ordenou–lhe que se retirasse e como ela insistisse, impaciente, mandou a dois dos seus homens que a levassem, apesar dos seus protestos e súplicas.

Desolada, a pobre rapariga foi contar a Emília a forma como havia sido acolhido a pretensão, fato que a infeliz menina considerou de mau agoiro para si mesma. Não tardou que viessem chamá–la, pois as mulas já se encontravam no pátio, assim como os guias. Emília tentou consolar Annette que chorava, protestando que nunca mais veria a sua patroa. De si para si, a viajante acreditava não serem estes receios infundados. Mesmo assim, tranquilizou a criada e despediu–se dela com aparente serenidade. Esta acompanhou–a ao pátio, viu–a partir com os guias e voltou sozinha para o castelo.