Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXXVII. Velada
XXXVII
Velada
A discrição de Emília e de Doroteia não impediu que o terror se espalhasse entre os criados. Todos eles afirmaram ter ouvido ruídos estranhos no castelo. Reunidos na copa, depois da ceia, contavam uns aos outros histórias de fantasmas, cada qual a mais aterradora. Annette distinguiu–se entre todos, descrevendo não só os prodígios a que assistira no castelo de Udolfo, mas também outros inventados pela sua fantasia. Não esqueceu o estranho desaparecimento da senhora Laurentini, o que produziu funda impressão no espírito dos seus auditores. Ninguém ousava erguer os olhos; todos estremeciam ao ruído de uma porta a abrir–se e não se atreviam a percorrer as salas do castelo.
O conde foi informado do terror do pessoal; disseram–lhe que a ala norte estava assombrada por espíritos. De começo, riu destas loucuras, mas como ocasionaram grande perturbação e desorientação no serviço, proibiu, severamente, que falassem no assunto.
A chegada de alguns amigos distraiu–os destas ideias. Entre eles, encontrava–se o barão de Sainte– Foix e seu filho, simpático rapaz que, tendo conhecido Branca no ano anterior, em Paris, aspirava à sua mão. Com estes convidados, o castelo tornou–se tão alegre como esplendoroso. O pavilhão do bosque recebia frequentes visitas quando o tempo estava bom e à noite davam–se ali magníficos concertos. Emília, contudo, preferia passear sozinha pelo bosque, porque a solidão e a sombra fresca do arvoredo adaptavam–se melhor ao seu estado de espírito. Num alto, rodeado por árvores frondosas, encontrava–se um banco rústico feito com um tronco de carvalho. Nesse banco se sentava muitas vezes para pensar em Valancourt, sem poder calcular ter o rapaz escolhido aquele retiro onde ia muitas vezes, desde que não podia visitar o castelo.
Certa noite, Emília demorou–se ali até mais tarde, absorvida nos seus pensamentos. Lentamente, a Lua subia no horizonte, infiltrando os seus raios prateados por entre a folhagem. De súbito, qualquer coisa a despertou: os sons afastados da música e da voz que já uma vez se fizera ouvir à meia noite. Sozinha como estava, sentiu–se comovida e, ao mesmo tempo, assustada. A música aproximou–se e por fim calou–se. Emília não se atrevia a fazer um movimento. A certa altura, viu um vulto sair do bosque e passar muito perto do banco, deslizando como uma sombra. Ficou tão impressionada que nem pôde distingui–lo bem.
Quando se sentiu mais calma, regressou ao castelo o mais depressa possível, prometendo a si mesma nunca mais voltar ali sozinha, principalmente a semelhante hora. Recolhida no quarto, conservou– se a pé durante algum tempo. Quando decidiu deitar–se para descansar um bocadinho, levantou–se grande tumulto no corredor, acompanhado por surdos gemidos. Assustada, chamou para saber do que se tratava; as criadas, porém, reunidas num grupo, pareciam muito assustadas e não souberam responder–lhe. Por fim, Annette apareceu e disse–lhe que uma das criadas se sentira mal. Emília, disse–lhe para a trazer ao quarto e prestou–lhe os socorros necessários. Quando a rapariga conseguiu falar, afirmou que, ao subir a escada, tinha visto um fantasma no patamar. Conservara–se imóvel durante breves segundos e depois subira a escada, desaparecendo no quarto visitado, dias atrás, por Emília. Um som lúgubre acompanhara o prodígio.
— Só o diabo poderia entrar nesse quarto — afirmou Doroteia — pois fui eu quem fechou a porta e a chave está em meu poder.
A partir dessa noite, o terror dos criados cresceu por tal forma, que a maior parte decidiu despedir–se. Em vão o conde de Villefort metia a ridículo ou tentava demonstrar–lhes a infantilidade destes temores supersticiosos. Andavam todos com a cabeça perdida. Então, Ludovico aproveitou a ocasião para provar a sua coragem e, ao mesmo tempo, o seu reconhecimento pelas bondades do conde. Ofereceu–se para passar a noite num dos quartos do castelo, que diziam assombrados por fantasmas. Não temia os espíritos, dizia, e quanto aos vivos, se aparecessem, provar–lhes–ia não ter medo deles.
— És um valente, meu rapaz–observou o conde — a tua intrepidez será recompensada.
— Não peço recompensas, senhor conde — respondeu Ludovico — mas apenas armas para poder defender–me dos inimigos, se quiserem aparecer.
— Os espíritos não temem as armas — replicou o conde com ironia, olhando para os outros criados — contra eles não valem barreiras ou ferrolhos. Um fantasma passa pelo buraco da fechadura, tão facilmente como por uma porta aberta.
— Dê–me uma espada, senhor conde, e eu me encarrego de despachar todos, se algum vier para me atacar.
— Descansa, terás a espada e também uma boa ceia. Espero que os teus camaradas ainda se sintam com forças para ficar esta noite no castelo; porque hoje, pelo menos, a tua ousadia chamará sobre a tua cabeça todos os malefícios dos fantasmas.
A curiosidade lutava contra o medo no espírito dos presentes. No entanto, decidiram aguardar o resultado da temeridade de Ludovico.
O conde ordenou para a porta ser aberta mais cedo, a fim de prepararem o aposento para a vigília do criado. Doroteia, porém, não se atreveu a obedecer, de forma que tudo se conservou fechado até à hora do rapaz se apresentar para passar ali a noite.
O conde reuniu os seus convidados e mandou buscar as chaves. Entregou–as a Ludovico e todos o seguiram, curiosos por visitar os aposentos assombrados. Quando chegaram à escada, muitos dos criados recusaram–se a ir mais longe; outros subiram, admirando a sua própria coragem. Ludovico meteu a chave na fechadura, enquanto os outros aguardavam com tanta ansiedade como se ele procedesse a qualquer operação mágica.
Entretanto, Ludovico, por não a conhecer bem, não conseguiu dar a volta à chave. Chamaram por Doroteia que estava atrás de todos. A velhota aproximou–se e, vagarosamente, abriu, olhou para dentro e soltou um grito. Foi como um rastilho. Numa grande confusão, todos se precipitaram para a escada e só pararam no último degrau. O conde, Henrique e Ludovico entraram no aposento. Ludovico levava a espada desembainhada na mão, o conde a luz e o filho um cesto com provisões.
Tendo relanceado um olhar em volta sem encontrarem coisa alguma que justificasse tanto terror, passaram ao segundo quarto onde reinava a mais profunda calma. O conde perguntou ao criado onde desejava instalar–se.
— Segundo me disseram, num destes quartos existe uma cama. Se não vê inconveniente, passarei aí a noite, a fim de poder descansar se me sentir fatigado.
Prosseguiram a visita.
— Chegámos ao salão — declarou o conde quando entraram no aposento onde Emília e Doroteia se haviam sentado.
Pararam um instante a fim de admirarem os vestígios da antiga magnificência, entre os quais os grandes espelhos de Veneza, tais como nessa época não se fabricavam em França e que, noutros tempos, haviam refletido as mais brilhantes festas.
— Como tudo está mudado desde que deixei de vir aqui! — comentou o conde, voltando–se para o filho — Era novo então e a marquesa estava no apogeu da sua beleza. Quantos outros, damas ou cavaleiros, eu conheci em todo o seu esplendor e já deixaram de existir! Aqui ficava a orquestra, além formávamos as contradanças ou nos entregávamos a animadas danças que duravam até de madrugada. Presentemente, os ecos destas salas apenas repetem os sons da minha fraca voz, que em breve, também, deixará de se fazer ouvir. Sim, meu filho, já fui novo como és agora e também tu passarás como passaram os que nesse tempo dançavam e cantavam nestes sumptuosos salões. Mas já basta de reflexões. De nada servem, salvo para nos demonstrar quanto são vãs as alegrias deste mundo em face da eternidade. Continuemos.
Ludovico abriu a porta do quarto de dormir e o conde ficou impressionado com a aparência fúnebre que ainda conservava. Comovido, aproximou–se da cama coberta com o pano de veludo e, voltando–se para Ludovico, perguntou–lhe com ar sério se, realmente, tinha a coragem de passar ali a noite.
— Tenho, sim, senhor conde — afirmou o intrépido rapaz–Vou acender o fogão e com as provisões que trago no cesto, conto passar muito bem o meu tempo.
— Seja — concordou o conde — Mas como conseguirás distrair–te se não queres adormecer?
— Tomei as minhas precauções. Trouxe comigo um livro.
— Muito bem. Espero que não aconteça coisa alguma. Mas se, pelo contrário, a tua coragem for posta à prova por motivo justificado, desiste. Não ficarei aborrecido contigo, descansa.
Ludovico abanou a cabeça, sorrindo.
— Ficar–te–ei devendo um favor, quando amanhã abrir a porta e os teus companheiros se convencerem da sua patetice. Boa noite, Ludovico. Até amanhã pela manhã.
— Boa noite, senhor conde. Dê–me licença para o acompanhar com a luz.
Reconduziu o conde e Henrique até à porta que deitava para a escada, depois fechou–a, cuidadosamente, e voltou para o quarto, examinando um após outro os aposentos que percorria, receando estar alguém ali escondido no intuito de o assustar. Deixou todas as portas de comunicação abertas e, antes de se instalar, visitou ainda um pequeno oratório cuja porta se encontrava junto da cabeceira do leito. Viu aí o retrato da defunta marquesa, o mesmo a que Doroteia se referira ao falar a Emília. Também Ludovico não pôde deixar de notar a semelhança existente entre as duas. Finalmente, regressou ao quarto, acendeu o fogão e instalou–se numa poltrona. O clarão do lume espalhou a sonolência que começava a vencê–lo, devido ao silêncio e à obscuridade. Chegou a poltrona para mais perto da mesa, abriu o cesto, tirou uma garrafa de vinho e carne assada e começou a cear. Quando acabou de comer, colocou a espada desembainhada em cima da mesa, ao alcance da mão e, como não estava disposto a dormir, abriu o livro em que falara ao conde. Tratava–se de um conjunto de contos provençais encontrado por Doroteia num canto da biblioteca e lhe emprestara para aquela ocasião. Começou a ler o conto bastante comprido e fastidioso, mas vamos resumi–lo para o leitor poder fazer uma ideia do gosto e caráter da época.
“O CAVALEIRO FANTASMA”
Conto provençal
“No ducado da Bretanha vivia nobre barão, célebre pela sua magnificência e generosa
hospitalidade. O seu castelo, defendido pelos mais ilustres guerreiros, tinha também como
ornamento as mais belas damas daqueles tempos. A alta consideração por ele dada às proezas de
cavalaria, incitava os cavaleiros de todos os países e visitá–lo para se medirem nas justas e
torneios, realizados na liça mandada preparar de propósito e, deste modo, a sua corte podia
considerar–se como uma das mais esplêndidas de todo o Mundo. Os sumptuosos banquetes que
oferecia no castelo eram servidos em baixelas de oiro e prata. A profusão dos manjares, as
brilhantes librés dos pajens, as ricas armaduras dos cavaleiros, os trajos e joias das damas,
constituíam um espetáculo de um esplendor e riqueza Impossíveis de conceber neste século
degenerado.
“Certa noite, quando depois de esplêndido banquete, o barão recolheu ao quarto, um pouco
toldado pelos fumos dos vinhos generosos, ficou admirado ao encontrar ali um cavaleiro de nobre
aspecto, mas cujo semblante refletia profunda tristeza. Supondo ter ele penetrado no castelo às
ocultas para o assassinar, pois seria inadmissível que tivesse atravessado a antecâmara sem ser
notado pelos pajens ou criados, gritou pelos escudeiros e, ao mesmo tempo, desembainhava a
espada para se defender. O desconhecido, porém, aproximou–se, dele de vagar, afirmando não ter
intenções hostis. A sua visita tinha, unicamente, como fim revelar–lhe terrível segredo que se
impunha o barão conhecer.
“Tranquilizado com estes modos corteses, o castelão observou–o em silêncio e acabou por
embainhar a espada. Em seguida, pediu ao visitante para lhe explicar como tinha conseguido
chegar até ali e também para lhe revelar o segredo a que aludia.
“Em vez de lhe responder, o desconhecido disse–lhe que, se quisesse ter a complacência de o
acompanhar ao bosque, que ficava perto do castelo, ficaria convencido da importância desse
segredo ...
“A proposta de novo despertara desconfiança do barão. O cavaleiro pretendia atraí–lo a um
sítio isolado e ermo para o assassinar. Recusou, afirmando que, se as suas intenções eram boas,
por certo não se importaria de as revelar ali, no aposento em que se encontravam. Ao mesmo
tempo, observava–o com atenção; mas não descobriu no severo semblante sombra de
contrariedade nem de perturbação. O desconhecido usava armadura e todas as insígnias de um
cavaleiro. O seu porte era majestoso e todos os seus gestos impregnados de dignidade e nobreza.
Sem revelar os motivos, continuou a insistir para levar o barão ao ponto indicado.
“– O mistério a que me refiro — acrescentou — só é conhecido por três pessoas vivas e tem
uma importância para si e para a sua casa que eu não posso descrever–lhe em poucas palavras.
Tempo virá em que se recordará desta noite com satisfação ou com pesar, conforme a resolução
tomada por si neste momento. Quer ser feliz? Siga–me. Sob a minha palavra de cavaleiro, juro–lhe
que não lhe acontecerá mal algum. Quere comprometer todo o seu futuro? Fique e eu retirar–me–
ei e sairei por onde entrei.
“O castelão começava a envergonhar–se dos seus temores e a sua curiosidade estava
violentamente excitada...”
Ludovico, neste ponto, levantou a cabeça e relanceou um olhar em volta do quarto. Teve a impressão de ouvir ligeiro rumor; pegando na luz, levantou–se, observou todos os cantos e, como não notasse coisa alguma que justificasse os seus temores, voltou a sentar–se e pegou no livro e continuou a leitura:
“O castelão ainda hesitava.
“Diga–me quem é — pediu ao desconhecido.
“O cavaleiro franziu a testa e ficou calado durante breves instantes.
“– Sou um cavaleiro inglês — disse por fim — Chamo–me Bewis de Lancastre. Regressava à
pátria quando a noite me surpreendeu nesta floresta.
“–O seu nome é daqueles que a fama tornou célebres. Mas o meu castelo não está sempre
aberto a todos os valentes cavaleiros? Por que motivo o seu arauto não o anunciou e não
compareceu ao banquete onde teria sido acolhido com entusiasmo por mim e por todos os meus
hóspedes, em vez de penetrar, à meia noite, no meu castelo e no meu quarto?
“O desconhecido limitou–se a relancear–lhe um olhar severo e, com um gesto, a renovar o
convite para o seguir. O barão decidiu–se. Desembainhou a espada, pegou num candelabro e, com
passo firme, seguiu o cavaleiro inglês que abriu a porta e atravessou a antecâmara e a galeria por
entre os guardas e pajens adormecidos. Desceu a escada e dirigiu–se a pequena porta, que o barão
supunha ser o único a conhecer, e depois de ter atravessado diversos corredores, atingiu a poterna
que dava passagem para a muralha. Os dois encontravam–se então numa espécie de plataforma
diante da porta principal do castelo. O local estava envolto em espesso nevoeiro, escuro e
silencioso. O barão viu brilhar as luzes nas janelas dos aposentos dos seus hóspedes e teve
saudades do seu quarto confortável, do calor do fogão...
Neste ponto, Ludovico largou o livro e curvou–se para espertar o lume.
“Próximo do bosque, o cavaleiro inglês voltou–se e levantou a cabeça como se pretendesse
falar ao barão, mas cerrou os lábios e continuou a caminhar em silêncio. O barão levou a mão aos
copos da espada e perguntou–lhe mais uma vez onde pretendia conduzi–lo.
“– Estamos a chegar. Repito–lhe que não lhe acontecerá mal algum, palavra de cavaleiro.
“Tranquilizado, o castelão seguiu–o. Penetraram na floresta, num ponto onde os frondosos
castanheiros formavam uma espécie de abóbada, que ocultava o céu, e os ramos mais baixos,
entrelaçados, opunham uma barreira quase inacessível a quem pretendia avançar. O cavaleiro
parou, voltou–se e, com olhar terrível, apontou para o chão. O barão viu o corpo de um homem
caído e banhado em sangue. Tinha profunda ferida na cabeça e as feições transtornadas pela
morte. Estremeceu de horror e ajoelhou para verificar se ainda dava sinais de vida. Mas qual não
foi o seu terror quando, fazendo incidir a lâmpada no rosto do cadáver, notou a extrema
semelhança entre ele e o desconhecido que o acompanhara. Não sabendo o que pensar, fixou–o,
atentamente. De repente, viu–o empalidecer, alterar–se e desvanecer–se, até desaparecer como
fumo...”
Ludovico estremeceu e largou o livro. Pareceu–lhe ouvir vozes no quarto. Olhou, atentamente, para a cama coberta de veludo, apurou o ouvido, retendo a respiração, mas nada viu; e quanto a ruídos, só o quebrar das ondas e o bater da chuva contra as janelas perturbavam o silêncio. Convencido de que se havia enganado, tornou a pegar no livro e concluiu a história:
“Enquanto o barão permanecia mudo de terror, uma voz misteriosa pronunciou estas
palavras: “Este é o corpo de sir Bewis de Lancasíre, nobre cavaleiro inglês. Esta noite, quando
regressava à pátria, vindo da Terra–Santa, perdeu–se e foi assassinado aqui. Respeita as leis da
cavalaria e da hospitalidade. Dá sepultura sagrada ao seu corpo e castiga os assassinos.
Conforme cumprires ou desatenderes esta ordem, a paz e a felicidade ou a guerra e a miséria,
serão o teu quinhão na terra”.
“Desvanecido o terror, o barão voltou ao castelo e o seu primeiro cuidado foi o de mandar
buscar o corpo de sir Bewis. No dia seguinte, foi sepultado com todas as honras devidas numa
campa aberta na capela do castelo. Em seguida, empregou todos os seus esforços para descobrir
os assassinos, que foram apanhados e enforcados”.
Tendo acabado a história, Ludovico pôs o livro de parte. Espertou o lume, bebeu um copo de vinho, acomodou–se na poltrona e caiu numa espécie de sonolência. Por duas ou três vezes foi arrancado deste torpor pela sensação de que alguém estava junto dele, observando–o. Essa sensação foi tão intensa que, ao abrir os olhos, quase julgou encontrar outros muito perto dos seus. Pôs–se de pé e foi obrigado a olhar em volta para se convencer de que havia sido vítima de uma ilusão.