Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 26 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XXV. Presságio de Morte

XXV

Presságio de Morte

No dia seguinte, madame Montoni encontrava–se no mesmo estado. Quase não dormira e os breves momentos de repouso não lhe proporcionaram melhoras. Quando a sobrinha entrou, sorriu e mostrou–se um pouco mais animada, mas pouco falou e nunca pronunciou o nome do marido. Pouco depois, o próprio Montoni entrou no quarto, visita que provocou grande agitação na doente. Não proferiu uma palavra. Simplesmente, quando Emília se dispunha a abandonar a cadeira que se encontrava junto do leito, lhe pediu para se deixar ficar.

— Montoni não desejava animar sua mulher nem pedir–lhe perdão. Pelo contrário, queria fazer a última tentativa para obter a assinatura, a fim de que, depois da sua morte, as propriedades do Languedoc viessem a pertencer–lhe e não a Emília, a herdeira legítima. De–desenrolou–se então uma cena terrível, durante a qual um empregou bárbara violência e a outra a enérgica firmeza de sempre, que sobrevivera às forças físicas, Emília, colocada entre os dois, afirmou preferir mil vezes renunciar aos seus direitos do que ver a tia, nos últimos momentos da sua vida, martirizada daquela maneira. Montoni, no entanto, manteve a sua atitude e só abandonou o quarto quando a sua infeliz mulher, esgotada pela luta, perdeu os sentidos. Esteve tanto tempo inanimada, que a sobrinha chegou a recear não tivesse ela morrido. Por fim, abriu os olhos e, vendo Emília que a chorar lhe apertava as mãos, tentou falar. Porém, falava tão baixo que não conseguiu fazer–se entender. Mais tarde, reanimada pelo medicamento ministrado pela dedicada enfermeira, a moribunda recuperou o uso da palavra e pôde dar–lhe indicações sobre as propriedades que possuía em França. Revelou–lhe o sítio onde ocultava os títulos e outros documentos subtraídos às buscas de Montoni e recomendou–lhe que nunca lhes desse.

Depois da confidência, que a deixou mais sossegada, madame Montoni caiu numa espécie de sonolência e assim se conservou até à noite. Quando despertou parecia muito melhor, como ainda não tinha estado desde o regresso aos seus aposentos. No entanto, só à meia–noite, Emília, depois de muito instada, consentiu em ir descansar um pouco para o seu quarto, depois de ter feito a Annette minuciosas recomendações.

Sentia–se, porém, muito preocupada para poder dormir. Preferiu ficar à janela, espreitando a misteriosa aparição que tanto a havia intrigado na véspera. Depois de renderem a segunda sentinela–hora a que a tinha visto — Emília foi ocultar a luz para não ser descoberta e voltou a apoiar–se no parapeito. A Lua derramava fraca claridade, porque as nuvens a obscureciam por intervalos. Num desses intervalos, teve a impressão de que uma luzinha esvoaçava pela esplanada, das foi tudo muito breve. A chama desvaneceu–se, nuvens voltaram a encobrir a lua. O firmamento, muito escuro, era sulcado, de espaço a espaço, pelos relâmpagos que iluminavam a paisagem com o seu lívido clarão. Por vezes, por cima de uma das mais altas montanhas, pesada nuvem entreabria–se, cortada por um ziguezague fulgurante, cujo fugaz esplendor penetrava até aos mais fundos precipícios. Depois, as trevas pareciam tornar–se ainda mais espessas. Outras vezes, ao clarão dos relâmpagos, o vulto imponente do castelo recortava–se, destacando no fundo luminoso do arco gótico as pesadas torres e as muralhas ameadas, por tal forma que todo o edifício aparecia e desaparecia como uma evocação fantástica.

Emília, dominada por este grandioso espetáculo, volveu os olhos para a esplanada e tornou a avistar a tal chamazinha. Ouviu passos e essa luz surgia e eclipsava–se como se estivesse em movimento. Viu–a passar debaixo da sua janela, acompanhada pelo marchar cadenciado da sentinela. Mas como a escuridão era profunda, não conseguiu descobrir o homem, mas somente a chama que parecia brincar em volta dele. Quis falar, chamá–lo para verificar se era um ente humano ou um ser sobrenatural, mas a voz faltava–lhe sempre que ia a abrir a boca. Por fim, como a luz se encontrasse mesmo por baixo da janela, perguntou em voz trémula:

— Quem está aí?

— Amigo — respondeu uma voz.

— Amigo? — repetiu Emília, sentindo renascerem–lhe as forças — Quem? Que luz é essa que traz aí?

— Sou António, um dos soldados do castelo.

— E essa luz — insistiu ela — veja como brilha para logo desaparecer!

— Esta luz — declarou o soldado — apareceu esta noite, tal como a vê, na ponta da minha lança e nunca mais me abandonou, desde que entrei de sentinela. A sua significação não sei.

— é estranho! — murmurou Emília.

— O meu camarada — prosseguiu o soldado — também tem uma chama igual na ponta do cachimbo. Afirma não ser esta a primeira vez que assiste a tal Prodígio. Por mim, nunca o vi. De resto, estou no castelo há pouco tempo.

— Como explica o seu camarada este fenómeno? — perguntou Emília.

— Afirma ser um presságio, mademoiselle, que nos anuncia qualquer coisa de mau.

— Mas o quê? ... Que desgraça?

— Não sei dizer–lhe mais nada, mademoiselle.

Emília ficou mais sossegada quando verificou tratar–se de um soldado e ocorreu–lhe que talvez na noite anterior tivesse sido o mesmo homem o causador dos seus terrores e apreensões. Mas alguns momentos de reflexão bastaram para destruir esta hipótese. O vulto avistado, não se parecia, por pouco que o luar o iluminasse, com o soldado, nem na estatura nem no porte. Nem tão pouco usava armas. Além disso, a ligeireza dos passos — se passos se lhes podia chamar– os gemidos, a fuga precipitada, tudo representava um mistério pouco em harmonia com a simples condição de sentinela.

Resolveu interrogá–lo e perguntou–lhe se além do camarada, tinha visto alguém passear na esplanada, e em poucas palavras descreveu–lhe a aparição da véspera.

— Não estive ontem de guarda, mademoiselle — replicou o homem — mas contaram–me o ocorrido. Entre nós, existem muitos que acreditam em coisas muito estranhas e nas terríveis histórias contadas sobre o castelo. Por mim, não tenho razão para me queixar. O senhor tem sido muito generoso.

— Está bem, boa noite e seja prudente. Aqui tem isto pelo tempo que lhe tomei.

E atirou–lhe uma pequena moeda e fechou a janela para acabar com a conversa. Quando ele se afastou, tornou a abri–la e encostou–se ao parapeito, escutando com prazer o ribombar surdo dos trovões, ao longe, sobre as montanhas! O eco repercutia–os com redobrada força como se duas trovoadas se fizessem ouvir: uma mais afastada e outra mais perto. As nuvens que, de minuto a minuto, se tornavam mais espessas. Acabaram por velar a Lua por completo e tomaram o tom plúmbeo e violáceo, que procede as violentas tempestades.

Uma faísca, caindo de repente, obrigou–a a retirar da janela. Atirou–se para cima da cama, escutando com respeitoso terror o desencadear dos elementos que pareciam abalar os alicerces do castelo.

Decorreu algum tempo, quando no meio do fragor da tempestade, ouviu a voz de Annette, chamando–a. Quase logo esta abriu a porta e precipitou–se no quarto com o semblante transtornado pelo terror.

— Mademoiselle! A senhora morre!

Como louca, Emília correu para o quarto da tia. Quando entrou, viu–a inanimada, hirta e insensível. Supôs tratar–se de um desmaio e empregou todos os seus esforços para a reanimar. Tudo em vão. A infeliz exalara o último suspiro.

Reconhecendo que tudo se tornava inútil, Emília voltou–se para Annette e interrogou–a. Ficou então sabendo que, depois de se ter ido deitar, a tia caíra numa espécie de modorra da qual passara para o sono da morte.

Depois de breve reflexão, resolveu participar o fato a Montoni só na manhã seguinte. Temia que, desesperado com a notícia, ele pronunciasse contra a infeliz desaparecida, palavras duras que Emília, naquele primeiro momento, não poderia suportar. Tendo como única companhia a pobre Annette a quem o seu exemplo insuflava coragem, rezou o ofício dos defuntos e toda a noite velou junto do corpo. O clarão dos relâmpagos iluminava a desoladora cena, emprestando–lhe caráter ainda mais solene. Suplicando a Deus que se dignasse acolher na sua misericórdia a alma da pobre morta, Emília, ao mesmo tempo, implorou para si o auxílio divino e teve a impressão de que o Espírito Consolador escutara e atendia as suas preces, fortificando–lhe o ânimo.