Os Mistérios do Castelo de Udolfo
VII. A Orfandade em Emília
VII
A Orfandade em Emília
O frade que ali estivera de manhã voltou para consolar Emília. Trazia uma mensagem da abadessa de Santa–Clara, que a convidava a ir visitá–la. A infeliz órfã prometeu fazê–lo logo que os restos de seu pai recolhessem à última morada. As exortações de padre acalmaram–lhe um pouco a dor.
— Meu pai vive hoje como vivia ontem. Morreu apenas para mim, mas a vida da alma é sempre a mesma.
À noite, quando recolheu ao quarto, o pensamento flutuou muito tempo em volta da imagem do pai até o sono a venceu. Sonhou que o pai e a mãe estavam a seu lado e a olhavam com bondade. Sorriam– lhe e moviam os lábios como se quisessem falar–lhe... mas em vez de palavras chegava–lhe apenas aos ouvidos uma música suave e longínqua. Ao som desta melodia, viu o pai transfigurar–se como se uma luz viva o iluminasse... A sua emoção foi tão forte que a despertou...
O sonho terminara, mas a música persistia. Recordou as estranhas revelações feitas na véspera por Voisin e as considerações sobre a vida da alma depois da morte.
Dominada por supersticioso respeito, levantou–se e foi à janela. Viu brilhar por cima da floresta o planeta solitário a que se referira o velho. Pouco depois, ele ocultava–se e a música extinguia–se.
Saint–Aubert pedira para o enterrarem na igreja das religiosas de Santa–Clara. Ele próprio escolhera o lugar na capela do norte, junto da sepultura dos Villeroy. O seu desejo foi realizado e a cerimónia fúnebre teve lugar na manhã seguinte. Emília teve a coragem de assistir. Ao sair da igreja, a superiora levou–a consigo e prodigalizou–lhe todos os cuidados sugeridos pela sua bondade.
Emília, vencida por uma febre lenta, incapaz de partir para o Vale, demorou–se ali algumas semanas. Entretanto, escreveu a madame Chéron e à governanta, a fim de as informar do triste acontecimento.
Durante a sua permanência no convento, a paz daquele santo asilo, a beleza do sítio e os cuidados afetuosos da abadessa provocaram–lhe tão grande impressão, que ainda se sentiu tentada a renunciar ao mundo para sempre. Mas as atraentes perspectivas que a sua imaginação emprestava à vida claustral foram suplantadas por outra imagem que ainda se conservava bem viva no seu espírito, a de Valancourt.
Recebeu da tia uma carta com banais frases de condolências.
Dizia–lhe também que mandaria alguém buscá–la para a reconduzir ao Vale, pois os seus afazeres e compromissos mundanos não lhe permitiam empreender tão longa viagem.
Decorreram alguns dias até à chegada do criado de madame Chéron e até poder empreender a viagem de regresso. Antes de partir foi despedir–se de Voisin e da família para lhes exprimir o seu reconhecimento.
Por fim, foi visitar pela última vez o túmulo do pai. Era já tarde quando entrou na igreja. O ar regelado das naves laterais, iluminadas pelo luar, que penetrava por uma das janelas góticas, e a tristeza do ambiente inspiraram–lhe supersticioso terror. Seria ilusão ou teria visto uma sombra deslizar por entre as colunas? Trémula, parou, de ouvido à escuta, mas não se apercebeu de qualquer ruído. Por fim, a dor sobrelevou o medo e, ajoelhando sobre o túmulo do pai, orou até que a sineta do convento, tocando a matinas, lhe indicou serem horas de se retirar.
Na altura de partir, no dia seguinte, a abadessa despediu–se, carinhosamente, pedindo–lhe para voltar para junto dela se não encontrasse no mundo a felicidade com que contava e de que era digna.
A viagem de regresso não teve o condão de a distrair. Pelo contrário, mais lhe fez recordar aquele que, havia pouco tempo, admirara a seu lado tão grandioso espetáculo. Como se sentia só!
Quando chegou perto do Vale e avistou as torres do castelo, não pôde deixar de pensar que o pai nunca mais veria aqueles lugares que tanto amava.
— Tudo está calmo e sossegado como quando partimos! — pensou — Mas falta aquele que animava esta solidão!
O coche parou e Tereza abriu o portão. O cão que pertencera ao pai correu para a carruagem ladrando e, quando ela se apeou, saltou lá para dentro como se procurasse alguém.
— Minha menina... –exclamou Teresa. E não conseguiu dizer mais nada.
Com passo vacilante, Emília encaminhou–se para casa, abriu a porta da sala e foi sentar–se junto da janela. Pouco depois, Teresa entrava com o café.
— Quem me diria que a menina voltava sozinha! — exclamou — Que dia aquele em que recebi a notícia!
Emília ocultou o rosto nas mãos e fez–lhe sinal para se calar. Por fim, decidiu ir, imediatamente, ao gabinete do pai. Quanto mais tempo passasse mais lhe custaria. Quase desmaiou quando abriu a porta da biblioteca. As sombras da noite e a penumbra causada pelo arvoredo que crescia diante da casa mais contribuíam para a impressão desoladora que sentia ao entrar naquele gabinete onde tudo lhe falava do pai. Quase lhe parecia vê–lo sentado na cadeira de braços, diante da secretária onde costumava trabalhar. O livro que Saint–Aubert lera na véspera da partida ainda estava aberto. Emília deixou–se cair na cadeira e ficou ali por muito tempo até que Teresa a veio chamar para jantar.
Dias depois, recebeu uma carta de madame Chéron, convidando–a a ir para Toulouse, acrescentando que, cumprindo–lhe velar por ela, não podia deixá–la sozinha no Vale.
Sabendo que os gostos da tia diferiam muito dos seus e não sentindo ainda prazer pelos divertimentos, Emília respondeu–lhe, pedindo–lhe autorização para ficar mais um tempo no Vale, até se restabelecer um pouco do abalo sofrido. Decorreram algumas semanas. A dor de Emília tomava, pouco a pouco, o caráter de doce melancolia. Recuperara as forças e a liberdade de espírito para recomeçar suas leituras e ocupações e até para tocar as suas músicas preferidas.
Como o tempo passasse sem receber resposta da tia, supôs poder prolongar todo o tempo que desejasse a sua permanência no Vale e sentiu–se mais tranquila.
Uma tarde, dirigiu–se para o pesqueiro que ainda não visitara. Quando chegou perto do pavilhão, parou e encostou–se ao tronco de uma árvore, muito comovida para poder continuar. Tudo aquilo tinha um ar de abandono que a impressionou. Por fim, chamou a si toda a coragem e entrou no pavilhão.
Dirigiu–se à janela e abriu–a. Depois, foi sentar–se diante da mesa e começava a abandonar–se a tristes pensamentos quando o ruído de passos lhe chamou a atenção. De súbito, a porta abriu–se e um homem entrou.
Vendo Emília, o desconhecido parou estupefato e balbuciou desculpas pelo seu atrevimento. A órfã julgou reconhecer a voz e levantou–se. O rapaz aproximou–se e exclamou:
— Santo Deus! É mademoiselle Saint–Aubert!
Era Valancourt!
A sua presença despertou em Emília recordações tão suaves e ao mesmo tempo tão dolorosas, que a pobre menina não conseguiu falar. Valancourt pediu–lhe notícias da saúde do pai. Ela respondeu–lhe com uma torrente de lágrimas, o que bastou para revelar ao rapaz o triste acontecimento. Comovido, conduziu Emília para uma cadeira e obrigou–a a sentar–se.
— Para tão grande desgosto as consolações são inúteis — disse após alguns momentos de silêncio. — Limito–me a dizer–lhe que o compartilho de todo o coração.
Quando soube como Saint–Aubert morrera durante a viagem, deixando a filha sozinha entre estranhos, Valancourt exclamou:
— Por que não estava eu lá?
Em seguida, contou–lhe como, depois de os deixar, regressara à Gasconha onde residia, tentando acalmar a sua tristeza com longos passeios.
Regressaram juntos ao castelo, mas Valancourt não entrou. Disse–lhe que tencionava partir no dia seguinte para Estuvière e pediu–lhe autorização para vir despedir–se, autorização que ela lhe concedeu.
Aquele encontro reavivou as dolorosas recordações de Emília. Valancourt fez–lhe lembrar o pai, o dia da sua morte e as suas últimas vontades, o juramento que lhe exigira. Censurou–se por não ter ainda queimado os documentos e decidiu que na manhã seguinte o faria.