Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 18 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

XVII. Valancourt

XVII

 

Valancourt

Falemos agora de Valancourt que, depois da partida de Emília, ficou em Toulouse, infeliz e desesperado. Todos os dias planeava afastar–se, mas sempre encontrava um pretexto para não pôr em prática a sua resolução. Abandonar aquela cidade, onde tudo lhe falava de Emília, representava para ele doloroso esforço. Soube conquistar as boas graças do criado encarregado de tratar do jardim de madame Montoni e desta forma, podia passear nele durante muitas horas e entregar–se a melancólicos devaneios, que também tinham o seu encanto. Visitava todos os pontos onde se encontrara com Emília, principalmente o terraço e o pavilhão onde se despedira dela na véspera da partida.

Pouco tempo depois de se ter, por fim, instalado no castelo do irmão, recebeu ordem para ir reunir–se ao seu regimento em Paris. Novos cenários e uma perspectiva de prazeres se lhe ofereceram, mas o seu espírito, ainda muito acabrunhado, mais os aborreceu do que acolheu com alegria. Logo que os seus afazeres lhe davam um instante de liberdade, isolava–se para pensar em Emília. Pouco a pouco, porém, a sociedade alegre e estroina que era obrigado a frequentar prendeu–lhe a atenção sem o interessar. O desgosto tornou–se para ele como que um companheiro familiar. Entre os seus camaradas, alguns possuíam, além da gentileza natural, as qualidades e a sedução que, muitas vezes, encobrem o vício com graça aliciante. Zombavam dos modos comedidos e reservados de Valancourt, que eram como muda censura aos seus, e conspiravam entre eles para levá–lo a seguir–lhes o exemplo.

De princípio, o adorador de Emília procurava na solidão, sempre povoada pela imagem da sua amada, um escudo contra as seduções do mal, mas, reconhecendo que com isso o seu pesar se tornava intolerável.

Tentou distrair–se. Começou por recomeçar os estudos, abandonados, mas o seu espírito não disfrutava a tranquilidade necessária para a tarefa. Para se atordoar esquecer–se de si mesmo e da ideia fixa, abandonou a solidão e lançou–se no turbilhão dos prazeres.

Decorreram algumas semanas. O tempo suavizou a intensidade do desgosto e o hábito fortificou o gosto pelos divertimentos. O seu encanto natural e os seus modos porporcionaram–lhe o melhor dos acolhimentos era brilhantes reuniões. A condessa Lacleur, senhora de uma beleza estonteante, era então a rainha dos salões. Não estava, positivamente, na primavera da vida, mas o seu espírito supria a mocidade. Adorava a música no que era exímia e dava muitos concertos. Valancourt brilhava pelo encanto da sua voz tanto como pela expressão. Em casa da condessa também se jogava e, embora esta, aparentemente, tentasse moderar a paixão do jogo nos seus convidados, de fato, incitava–a, pois era essa uma das fontes da sua fortuna. Os apaixonados, dizem, jogam mais do que os indiferentes, pois precisam de fortes emoções para esquecer os seus desgostos. Por essa razão, talvez, Valancourt arriscava punhados de oiro no tapete verde.

O irmão recomendara–o a muitos dos seus parentes que viviam em Paris. Esses parentes acolheram–no com amabilidade e proporcionaram–lhe mil meios de dissipação sem pensarem em o defender do perigo. O rapaz encontrou–se, portanto, perante os milhares de obstáculos que é vulgar deparar na sua idade, afrontando–os com as suas paixões ardentes, coração generoso e sem desconfiança, Emília não se encontrava ali para lhe recordar o culto do amor ideal. Era mesmo para se consolar da sua perda que Valancourt procurava distrações frívolas e divertimentos fúteis.

Frequentava, principalmente, a casa de uma tal marquesa de Champfort, viúva, nova, muito bonita, alegre e sofrivelmente intrigante. Fora apresentado por dois camaradas que se orgulhavam com a sua companhia, pois Valancourt estava muito modificado e era o primeiro a rir dos seus ridículos de início.

A imagem de Emília não se apagara do seu coração. Mas já não era para ele a amiga, a conselheira, o anjo da guarda que o defendia de si mesmo. E quando evocava, via–a com um ar de terna censura que a consciência aprovava, mas que o irritava.

Eis o estado de espírito de Valancourt, enquanto Emília sofria as perseguições de Morano e a injusta opressão de Montoni e, ao pensar no rapaz, recordava todas as provas que lhe dera o seu amor, lia e relia as suas cartas e, considerando–o como a sua única esperança para o futuro, hauria na sua confiança forças para dominar os seus desgostos.