Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XLIV. Explicações Indispensáveis
XLIV
Explicações Indispensáveis
Depois destas descobertas, Emília foi tratada pelo conde e pela sua família como pertencente à casa dos Villeroy e recebeu, se fosse possível, ainda maiores provas de afeição.
O conde, preocupado e surpreendido por não receber resposta de Valancourt, felicitava–se pela prudência que o impelira a ocultar de Emília a tentativa de aproximação.
Além disso, o casamento de Branca, cuja data estava próxima, solicitava–lhe grande atenção.
Faziam–se brilhantes preparativos para receber os Sainte–Foix esperados no castelo de um dia para outro.
Emília desejaria tomar parte na alegria que a rodeava, mas todos os seus esforços se tornaram inúteis. Alarmada, recordava as palavras de Teresa ao descrever–lhe o estado em que ficara Valancourt quando lhe devolvera o anel, o desespero produzido pela sua recusa em recebê–lo. Censurava–se pela sua dureza, receando as suas prováveis consequências, e o seu coração estremecia de dor e de medo. As dúvidas concebidas sobre a saúde e até mesmo sobre a vida daquele a quem, apesar de culpado, continuava a amar, a necessidade de ocultar estes pensamentos até poder regressar ao Vale, tudo isto lhe tornava a situação intolerável. Havia momentos em que receava não poder esconder a sua ansiedade. Então fugia do castelo para ir procurar nos bosques ou à beira–mar um pouco de calma para o seu tormento. O murmúrio das vagas rolando pela areia ou o rumorejar do arvoredo harmonizavam–se com o seu estado de espírito.
Certa tarde, quando passeava na praia, lembrou–se de entrar na velha torre. Subiu a escada de caracol e encontrou–se numa sala menos arruinada do que o resto do edifício. Quantas vezes admirara daquela janela a maravilhosa perspectiva das montanhas e do oceano! O Sol, ocultando–se naquele momento por trás dos Pirenéus, na parte que separa o Roussillon do Languedoc, os bosques e as ondas, desdobrando–se a seus pés, tudo tomava o tom purpúreo do astro no seu declínio. Inspirada pela beleza do cenário, pegou no alaúde e cantou uma dessas canções simples que outrora Valancourt tanto gostava de escutar.
O tempo estava sereno, agradável e nem a mais leve aragem encrespava a superfície das ondas. Ao longe, passava um barco, cuja vela se coloria com os últimos reflexos do dia. O som melancólico do alaúde mais profunda tornou a tristeza de Emília. Entoou diversas canções e as recordações que lhe despertaram tornaram–se–lhe cada vez mais pungentes. Então, abandonando o instrumento, deixou correr livremente as lágrimas.
O Sol desapareceu. Era quase noite e, contudo, Emília não se decidia a abandonar a torre e continuava mergulhada em tristes reflexões. De súbito, ouviu passos e percebeu que alguém subia a escada. A porta abriu–se e um homem, cujas feições não pôde distinguir, devido à escuridão, entrou na sala. Mas como não o reconhecer quando lhe ouviu a voz, essa voz que sempre a perturbava? Era Valancourt! Trémula de espanto e de alegria, pôs–se de pé, mas logo voltou a sentar–se. Agitada por sentimentos contraditórios, mal ouviu as palavras tímidas e carinhosas com que ele tentava reanimá–la. Ajoelhado a seus pés, pedia–lhe perdão pelo excesso de impaciência que o levara a surpreendê–la tão bruscamente. Acabava de chegar e, não tendo encontrado o conde no castelo, fora procurá–lo ao parque. Ao passar pela torre, reconhecera a voz de Emília e não conseguira resistir ao desejo de subir.
Tendo conseguido, por fim, recuperar a calma, Emília dispôs–se a repelir as atenções do rapaz e perguntou–lhe, com o máximo da frieza que conseguiu demonstrar–lhe, qual era o fim da visita.
Interdito, Valancourt não soube responder–lhe. Emília insistiu, demonstrando a sua surpresa. A devolução do anel não representava a proibição de voltar a vê–la?
Valancourt afirmou não ter recebido o anel. Doutra forma, teria morrido de desespero.
Emília respirou e quase abençoou Teresa por lhe ter desobedecido e mentido. No entanto, manteve a atitude de aparente frieza.
— Meu Deus! — exclamou Valancourt — O seu procedimento destrói todas as minhas esperanças. Quando me retirou a sua estima, Emília, deixou também de me querer?
— Com certeza — afirmou Emília com voz trémula — E, se tivesse em conta essa estima, não voltaria a dar–me motivos para descontentamento.
A fisionomia de Valancourt transtornou–se e à dúvida sucedeu–se o espanto e o desânimo. Ficou calado durante algum tempo e, por fim, murmurou:
— É então verdade ter perdido a sua afeição? Como foram cruéis aqueles que me prometeram acolhimento diferente! Nunca mais poderá restituir–me a sua estima e o seu amor? O conde não devia ter feito isto. Matou–me duas vezes.
Por sua vez, Emília ficou espantada. Trémula, pediu–lhe para se explicar melhor.
— Para quê? — replicou Valancourt — Ignora quanto fui caluniado e serem as ações que me imputaram ... como pôde degradar–me a esse ponto, Emília... ignora considerar eu essas ações baixas, desprezíveis? Ignora ter o conde descoberto a falsidade das infames acusações que me roubaram aquilo que considero como o único tesoiro neste Mundo e me escreveu, convidando–me para vir ao castelo a fim de me justificar? Ignora tudo isto, de fato, ou mais uma vez fui iludido por uma falsa esperança?
O silêncio de Emília' parecia confirmar esta suposição. A escuridão que os envolvia não permitiu a Valancourt ver no seu rosto o reflexo da surpresa e louca alegria que a agitavam. Por fim, profundo suspiro lhe fugiu dos lábios e conseguiu falar:
— Ignorava tudo isso, Valancourt. Sinto–me profundamente comovida. Supunha não poder continuar a estimá–lo e, contudo, não conseguia esquecê–lo, meu amigo.
— Deus poderoso! Será possível! Tanta alegria depois de tanto sofrimento? Ainda me quer, Emília?
— Preciso repetir–lhe? Será necessário? É este o meu primeiro instante de felicidade desde que nos separámos e com ele sinto–me indemnizada de tudo quanto sofri!
A comoção de Valancourt era tão profunda que não conseguiu responder–lhe. Apertou–lhe as mãos entre as suas, beijou–as e as suas lágrimas foram mais eloquentes do que as palavras.
Recuperando um pouco a calma, Emília propôs o regresso ao castelo, mas nem ela nem Valancourt poderiam dizer como lá chegaram. Se uma varinha mágica os tivesse transportado não teriam dado menos pelo caminho. Encontraram–se no vestíbulo antes de terem tempo para pensar existir mais alguém no Mundo além deles. O conde acolheu–os com alegria e pediu a Valancourt perdão pela injustiça praticada. De Bonnac, por sua vez, reuniu–se ao feliz par, manifestando o seu contentamento pelo encontro.
A condessa e Branca acolheram Valancourt com amabilidade. Branca, principalmente, sentiu–se tão contente com a felicidade de Emília que, por momentos, esqueceu a ausência do noivo. Foi este que lhe despertou a memória, chegando horas depois, já curado dos ferimentos recebidos na perigosa aventura desenrolada na montanha. Trocaram–se felicitações e a ceia que os reuniu a todos foi das mais animadas e cordiais. Só uma pessoa, entre eles, se sentia triste e desolado, mas, não querendo ensombrar a alegria dos outros, esforçou–se por se dominar. Essa pessoa era Dupont que, sabendo ser Valancourt ainda digno do amor de Emília, se afastou, abandonando no dia seguinte o castelo de Blangy. O seu procedimento inspirou a Emília profunda estima e também compaixão.
Entregue à sua felicidade, o conde e os seus hóspedes não deram pelo correr das horas, o mesmo acontecendo na copa. Quando Annette soube da chegada de Valancourt, quis ir vê–lo, e Ludovico teve grande trabalho para a convencer do contrário e impedir que corresse à sala para manifestar a sua satisfação. Afirmava que, depois do regresso de Ludovico, não se sentira ainda tão feliz como naquela noite.