Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 4 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

III. Encontro

III

Encontro

Em vez de escolher a estrada do Languedoc, Saint–Aubert preferiu atravessar os Pirenéus, cujas paisagens eram mais belas e pitorescas.

Chegando ao alto da colina, voltou–se para ver o seu castelo — Oprimia–o o pressentimento de ser aquela a última vez que o via. Contemplou–o por muito tempo, voltando–se repetidas vezes para trás, até que o seu vulto se esbateu no horizonte.

Emília também se sentia profundamente triste, mas, decorrido algum tempo, a beleza da paisagem distraiu–a.

Calculando não poderem encontrar hospedaria onde comessem, os viajantes levavam comida no coche.

Quando atingiram um ponto dos mais altos, donde o olhar podia abranger parte da Gasgonha e do Languedoc, Saint–Aubert chamou Miguel, o cocheiro, e perguntou–lhe se havia perto uma povoação e quanto tempo levariam para lá chegar. O rapaz informou ser possível irem até Mateau, mas disse que, se seguissem pela estrada do Roussillon, poderiam chegar a uma aldeia antes do pôr do sol.

Os viajantes aceitaram o alvitre. Em volta deles reinava a solidão e o silêncio. Ao longe, ouviam– se os chocalhos dos rebanhos e os apelos dos pastores, cujas choças se avistavam também. As frondosas copas dos castanheiros e carvalhos formavam uma abóbada cerrada. Nos vales verdejantes corriam regatos, onde os carneiros dispersos iam beber.

O Sol descia no horizonte e Saint–Aubert, inquieto, interrogou Miguel sobre a distância provável da aldeia a que se referira, mas o rapaz respondeu com hesitação. Emília receava que se tivessem perdido e naquelas proximidades não havia ninguém que pudesse valer–lhes. A noite aproximava–se cada vez mais. Para se animar, Miguel cantava, mas o seu canto era tão lúgubre que mais entristecia do que alegrava.

Continuaram a caminhar em silêncio, como que esmagados pelas sombras da noite e pela solidão. Miguel calara–se também. Só o murmúrio do vento, passando através da folhagem, se fazia ouvir, quando, de repente, o estampido de uma detonação os sobressaltou. Saint–Aubert mandou parar o coche e engatilhou as pistolas. Pouco depois, soou uma trompa e um rapaz saiu do bosque, seguido por dois cães. Trajava como um caçador. Trazia a espingarda a tiracolo, uma trompa e na mão uma espécie de dardo que brandia com graça.

Saint–Aubert decidiu interrogá–lo para saber se podia indicar–lhe onde encontrarem abrigo. O rapaz respondeu que a aldeia ficava a cerca de meia légua e, como se dirigia também para lá, lhes ensinaria o caminho. Saint–Aubert, encantado com os seus modos francos e simples, agradeceu–lhe e ofereceu–lhe um lugar no coche, oferta que o rapaz recusou, afirmando poder muito bem acompanhá–los a pé.

Quando chegaram perto da aldeia, ofereceu–se para ir adiante a fim de arranjar alojamento perto daquele que ocupava, mas Saint–Aubert, apeando–se, insistiu em acompanhá–lo, enquanto Emília continuava seguindo no coche.

Pelo caminho, perguntou–lhe se havia feito boa caçada.

— Não era esse o meu intuito — respondeu o desconhecido — Viajo com os meus cães mais por prazer do que para caçar e uso este trajo para me facilitar mais as coisas e obter a consideração que recusariam a um simples passeante ocioso.

— Concordo com a sua opinião — aprovou Saint–Aubert — A nossa viagem tem outro fim. O senhor viaja para se divertir, eu faço–o na esperança de recuperar a saúde.

Quando chegaram à aldeia, começaram a procurar instalações, mas na maior parte das humildes casas só encontraram miséria e o desconhecimento absoluto dos objetos mais indispensáveis à vida. Nem uma cama, por exemplo.

Notando o ar abatido do pai, Emília lamentava que tivessem seguido um caminho tão pouco cómodo. Quase todas as casas eram compostas de dois aposentos, um para os animais e outro para a família, quase sempre numerosa. Pais e filhos dormiam juntos, em cima de peles de carneiro estendidas no chão. Não usavam janelas. O fumo que saía por uma abertura feita no teto e o cheiro a aguardente sufocavam.

Emília olhava para o pai com inquietação que não passou despercebida ao desconhecido. Chamou Saint–Aubert de lado e propôs–lhe ceder–lhe a própria cama.

— Se a compararmos com isto que vemos aqui, podemos considerá–la cómoda. Noutra altura teria vergonha de lhe oferecer.

Saint–Aubert quis recusar, mas o rapaz insistiu:

— Nada de desculpas. Não poderia dormir, sabendo–o deitado nestas peles. Venha. Vou indicar– lhe o caminho e estou certo de que a minha hospedeira conseguirá acomodação para sua filha.

Saint–Aubert aceitou por fim, admirando–se, de si para si, por o rapaz se preocupar primeiro com um velho e depois com uma rapariga bonita. Emília, porém, não pensou assim e sorriu–lhe reconhecida. '

O rapaz, que se chamava Valancourt, foi avisar a hospedeira, excelente mulher, que conseguiu arranjar duas camas, as únicas que existiam em sua casa. Como comida, só tinha ovos e leite, mas Saint– Aubert recorreu às provisões que trazia no carro e convidou Valancourt para as partilhar, convite que este aceitou. A ceia decorreu com animação. Saint–Aubert estava encantado com o seu convidado e com o entusiasmo que este demonstrava pelas belezas da Natureza.

Depois retiraram para o quarto, enquanto Valancourt se embrulhava na capa e se estendia em cima de um banco.