Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXXIV. O Regresso
XXXIV
O Regresso
Branca afeiçoou–se tanto a Emília que lhe pediu, com autorização de seu pai, para ficar mais algum tempo no castelo. Depois, foram passear para o parque. A certa altura, avistaram as torres do mosteiro onde Emília tencionava recolher.
— Será possível! — exclamou Branca no auge do espanto — Eu acabo de sair do convento e a minha amiguinha vai encerrar–se noutro? Se soubesse o prazer que sentimos ao recuperar a liberdade, em poder contemplar o céu, os campos e os bosques, nunca teria concebido semelhante ideia.
Emília sorriu da vivacidade com que a filha do conde falava e afirmou não desejar enclausurar–se por toda a vida.
— Com certeza. Por agora não o deseja — replicou Branca — Mas ignora o poder de persuasão das religiosas. Eu sei, por experiência própria, como sabem mostrar–se boas e felizes, a fim de nos seduzirem com o seu exemplo. Vivi com elas muito tempo e por isso conheço bem toda a sua manha.
De regresso ao castelo, Branca foi mostrar à amiga todos os quartos que na véspera havia visitado. Emília não pôde deixar de comparar o mobiliário com o do castelo de Udolfo, muito mais antigo, mas, no entanto, muito mais belo, e rico. A velha Doroteia também lhe despertou o interesse; achava estranho que a criada não deixasse de olhar para ela com atenção. Aproximando–se da janela, julgou reconhecer a paisagem, os campos, os bosques e o rio que atravessara com Voisin, depois da morte do pai, quando, depois do enterro, regressara à choupana. Reconheceu também o castelo e recordou os estranhos boatos que naquela altura lhe haviam contado.
Impressionada com a descoberta, ficou pensativa. Não podia também deixar de recordar a comoção manifestada pelo pai ao saber que se encontrava nas proximidades da misteriosa moradia. Curiosa, perguntou a Doroteia se ainda continuavam a ouvir música à meia noite.
— Continuamos, sim, mademoiselle.
— E ainda não conseguiram descobrir quem a toca?
— Seria impossível descobri–lo. No entanto, adivinha–se quem seja.
— Nesse caso, por que não perseguem o misterioso tocador?
— Persegui–lo! Como poderíamos perseguir um espírito?
Emília sorriu e, recordando os tormentos sofridos havia pouco tempo por causa das superstições, decidiu resistir à credulidade. No entanto, a despeito deste propósito, ficou receosa de levar mais longe a sua curiosidade. Branca, que as escutara em silêncio, perguntou de que música se tratava e desde quando se fazia ouvir.
— Desde a morte da nossa querida ama — elucidou a criada.
— Não quer dizer que aparecem fantasmas no castelo? — perguntou a filha do conde, num misto de ironia e receio.
— Nunca deixei de escutar essa música desde o dia em que lhes falei, é tudo quanto posso dizer– lhes. Pobre e querida senhora! Há quantos anos morreu e, no entanto, recordo–me de tudo como se fosse ontem. Esqueci outros fatos mais recentes, mas estes revejo–os como se fosse num espelho. Além disso — continuou, fixando Emília como nunca o fizera — esta menina, desde o primeiro instante em que a vi, recordou–me a senhora marquesa. O mesmo sorriso, os mesmos olhos, a mesma expressão ingénua e pura! Sim, quando veio para aqui, a minha ama ainda sabia sorrir!
— E depois já não era alegre? — perguntou Branca. Doroteia limitou–se a responder, abanando a cabeça.
Emília, notando que as lágrimas lhe corriam pelas faces, absteve–se de fazer novas perguntas; vendo o conde que passeava no jardim com a condessa e com Dupont, foi ter com eles para agradecer aos donos da casa a hospitalidade recebida e participar–lhes a sua intenção de recolher ao convento. Porém, as instâncias do conde foram tão calorosas que, apesar do seu desejo de rever as suas amigas do mosteiro e de ir rezar sobre a campa do pai, consentiu em ficar no castelo por mais algum tempo.
Mesmo assim, mandou dizer à superiora que se encontrava em casa do conde e escreveu a Quesnel e a Valancourt. Mas como não sabia para onde dirigir esta última carta, endereçou–a para o castelo do irmão, na Gasconha.
Desempenhados estes primeiros encargos, nessa mesma tarde dirigiu–se com Branca à choupana de Voisin. À medida que se aproximava, sentia–se dominada por sentimentos contraditórios de alegria e amargura. O tempo cicatrizara a ferida, mas as recordações, reavivadas por tudo quanto a cercava, reabriaram–na. Voisin ainda vivia e gozava os últimos dias de uma existência calma e sem mancha. Sentado diante da porta, vigiava os netos, animando–os com a voz e com o gesto. Reconheceu, imediatamente, Emília e mostrou–se muito satisfeito com a visita.
Emília não teve coragem para lhe pedir para visitar o quarto onde o pai morrera e depois de meia hora de conversa, despediu–se, contente com a felicidade daquela pobre gente.
Outro espetáculo a aguardava no castelo. Não era sem pesar que assistia ao mudo sofrimento de Dupont. O seu abatimento impressionara o conde a quem o oficial confiara o segredo do seu amor sem esperança. O castelão lamentava–o e decidiu aproveitar todos os ensejos para o favorecer. Sem se opor, abertamente, ao desejo manifestado pelo rapaz de abandonar Blangy no dia seguinte, obrigou–o a prometer que voltaria ao castelo quando se sentisse mais calmo. Por seu lado, Emília, se não podia corresponder ao seu amor, apreciava–lhe as nobres qualidades e estava–lhe grata por todos os serviços que lhe prestara. Foi, portanto, com verdadeiro pesar que assistiu à sua partida. Quanto a Dupont, quando se despediu dela, manifestou tão profunda dor e amor tão violento, que o conde defendeu a sua causa com maior entusiasmo do que fizera até ali.
Poucos dias depois, Emília recebeu uma carta de Quesnel, uma carta seca e indiferente com que já contava, sem manifestar interesse algum pelos seus sofrimentos nem alegria por sabê–los terminados. Não perdia o ensejo para censurar a sobrinha por ter recusado o casamento com Morano, a quem teimava em apresentar como verdadeiro fidalgo, muito rico e considerado. Vociferava contra Montoni, a quem rodeara de adulações. Quanto à questão dos interesses de Emília, abordava–a por forma vaga. Comunicava–lhe que o prazo do aluguer do Vale estava a expirar e que a sua fortuna não lhe permitia habitá–lo. Por outro lado, não a convidava a ir viver em sua casa e, pelo contrário, aconselhava–a a ficar no convento de Santa–Clara. Não respondia às insistentes perguntas de Emília sobre Teresa e, no fim da carta, falava–lhe de Moteville, o homem em cujas mãos Saint–Aubert depositara a maior parte da sua fortuna, dando–lhe a entender que os negócios do banqueiro estavam mais bem encaminhados e, por consequência, Emília receberia mais do que esperava. Enviava–lhe também um cheque para levantar módica quantia em casa de um banqueiro de Narbonne.
O conde de Villefort, a quem Emília revelou a sua situação, aconselhou–a a recorrer à justiça para exigir os bens que Montoni lhe roubara e ofereceu–se para escrever a um advogado de Aix, em cuja opinião poderia confiar. Emília, muito reconhecida, aceitou a oferta. Todas estas atenções tê–la–iam tornado muito feliz se tivesse a certeza de que Valancourt estava de saúde e ainda gostava dela. Decorreu mais de uma semana sem receber notícias. Em pensamento, imaginava todas as hipóteses e, conforme o costume, as mais terríveis pareciam–lhe as mais prováveis. Passava os dias triste e abatida a ponto de fugir da companhia de Branca e ficar horas seguidas fechada no quarto.
Num desses períodos de melancolia, abriu um cofrezinho onde guardava as cartas de Valancourt e releu–as a fim de encontrar ali as expressões de uma ternura que havia sido o seu amparo nas horas de amargura. Naquela altura, porém, essas recordações mais lhe agravavam o sofrimento, pois comparava o passado com a situação presente. O amor de Valancourt teria cedido à influência do tempo e da ausência? A caligrafia do rapaz bastava para desencadear no coração da Emília tantos sentimentos contraditórios que, sem conseguir concluir a leitura da primeira carta, ocultou o rosto nas mãos e deixou correr as lágrimas. Nesse instante, Doroteia entrou–lhe no quarto a fim de a avisar de que o jantar seria servido uma hora mais cedo. Emília estremeceu e apressou–se a guardar as cartas.
— Que é isto! — exclamou Doroteia, baixando–se para apanhar um objeto do chão — Virgem Santa, que vejo eu!
E, tremendo, deixou–se cair na cadeira que se encontrava perto.
— O que foi? — inquiriu Emília, assustada com o grito.
— É ela! — exclamou a criada — Ela tal como era pouco antes de morrer!
Cada vez mais assustada, Emília receou que a pobre mulher tivesse tido, de repente, um ataque de loucura. Com bons modos, pediu–lhe para se explicar.
— Onde encontrou este retrato? É ela, a minha querida patroa!
E atirou para cima da mesa a miniatura encontrada por Emília entre os papéis que Saint–Aubert pedira para serem queimados, o retrato que beijara, chorando, na véspera de abandonar o Vale. Ao recordar todos estes fatos, ficou tão comovida que mal teve forças para interrogar Doroteia. Limitou–se a perguntar–lhe se tinha bem a certeza de ser aquele o retrato da defunta marquesa.
— Se tenho a certeza! — protestou a criada, voltando a pegar na miniatura — São estes os seus olhos azuis com expressão tão meiga e bondosa, idêntica à sua, mademoiselle, a que tomava quando se fechava para meditar e para chorar. Mas nunca se queixava. Daí este ar resignado que me despedaçava o coração e me fazia adorá–la.
— Doroteia, o meu interesse é muito maior do que pode calcular e a minha curiosidade não é vã. Não se recuse a satisfazer–me.
— O seu rosto fala por si, mademoiselle. Parece–se tanto com a minha adorada ama, que me parece tê–la aqui diante de mim. Portanto, revelar–lhe–ei muita coisa que só confiei a meu marido, embora muitos tenham suspeitado do que aconteceu. Estive sempre junto da senhora marquesa durante a sua última doença e posso jurar que sei tanto como o próprio senhor marquês sabia. Pobre santa! Como era paciente ... Quando ela morreu, julguei morrer também! ... Contar–lhe–ei tudo quanto se passou nessa ocasião e tudo quanto suspeitei. Mas promete–me, por todos os santos...
Emília interrompeu–a, jurando–lhe nunca revelar a ninguém o que ela lhe dissesse, salvo se lhe desse consentimento para isso.
— Muito bem. Mas agora sou forçada a retirar–me. Estão a tocar para o jantar.
— Volta esta noite?
— Deve ser difícil, porque festejam as vindimas e há baile. No entanto, se puder, não deixarei de vir.
— As festas da vindima! — murmurou Emília depois dela sair.
E lembrou–se de que nessa mesma noite, no ano anterior, ela e o pai se encontravam nas proximidades do castelo de Blangy. A recordação dos tristes acontecimentos que se haviam seguido entristeceu–a e perseguiu–a mesmo quando se encontrava com a família de Villefort a assistir à festa campestre. Tanta alegria importunava–a e fazia–lhe mal; afastou–se do baile e, lentamente, meteu–se pelo bosque; absorvida em tristes pensamentos, caminhava sem dar conta da distância. Por fim, notou que o som dos instrumentos deixara de se fazer ouvir e em volta dela reinava o mais profundo silêncio. Encontrava–se no extremo da alameda onde penetrara na noite em que chegara ali com o pai. Se nessa altura lhe parecera triste e abandonada, pior a via agora. Por todos os lados, arbustos derrubados e ramos quebrados. Aterrada com o pensamento de que aquele local sombrio podia servir de covil para bandidos, voltou para trás, no desejo de regressar ao baile. De repente, ouviu passos atrás de si. Cada vez mais assustada, começou a correr, mas os seus perseguidores ainda andavam mais depressa. Felizmente, ouviu a voz de Henrique. Tranquilizada, abrandou o passo para que ele pudesse alcançá–la. O filho do conde não vinha sozinho e uma exclamação do homem que o acompanhava sobressaltou Emília, fazendo–a vibrar até ao mais íntimo do seu ser. Julgou reconhecer a voz de Valancourt. Não se enganara... era ele mesmo! Pode calcular–se o que foi o encontro de duas pessoas que se adoravam e haviam estado separadas durante tanto tempo.
Na embriaguez daquele momento, Emília esqueceu tudo quanto havia sofrido. Valancourt, por seu lado, parecia esquecer todo o mundo para só ver a sua amada e Henrique, surpreendido, assistia à cena em silêncio.
Valancourt fez–lhe mil perguntas sobre Montoni, perguntas a que ela nem sequer respondeu, querendo saber por que não tinha respondido à carta.
O rapaz explicou–lhe que só a recebera ao regressar de Paris. Partira nesse mesmo dia, mas, como tinha chegado de noite, resolvera alojar–se na hospedaria e escrever–lhe de lá. Felizmente, encontrara Henrique a quem Já conhecia e este conduzira–o à presença daquela a quem não contava ver senão no dia seguinte.
Emília voltou ao baile na companhia dos dois rapazes. Henrique apresentou Valancourt ao pai; Emília, porém, teve a impressão de que este não o acolhia com a habitual amabilidade. Convidaram Valancourt para tomar parte na festa, mas este, depois de ter cumprimentado o conde, isolou–se com Emília a fim de poderem conversar mais à vontade.
Radiante por ter junto de si aquele a quem já considerava como perdido para ela, por quem chorara tanto, aquele cujas feições se conservavam bem vivas na sua memória, não se cansava de olhar para ele, de o observar à claridade dos balões suspensos das árvores e, com pesar, verificava não ser o mesmo. O fogo da paixão animava como dantes a sua fisionomia adorada, mas já não havia na sua expressão aquela simplicidade e franqueza que constituíam o seu principal encanto. Continuava a ser atraente, mas, por vezes, o semblante refletia inquietação e tristeza; por vezes, também, caía em profunda abstração da qual se arrancava com muito custo para contemplar Emília com olhar fixo e estranho, como se oculto receio o pungisse. Estava mais pálido, e o sorriso doce, impregnado de tristeza, conferia–lhe um cunho impressionante.
Emília descreveu–lhe todos os pormenores da sua vida, desde que abandonara a França. Valancourt manifestou, ora compaixão, ora indignação, quando lhe falou nas atrocidades praticadas por Montoni. Mais de uma vez se levantou para andar de um lado para o outro, como se oculta perturbação contribuísse, tanto como a cólera, para o agitar. Pouca atenção lhe deu quando Emília lhe comunicou a cedência de todos os seus bens e da pouca esperança que alimentava de os recuperar. Quando ela acabou de falar, ficou algum tempo absorvido nas suas reflexões, como que atormentado por oculto sofrimento e, de repente, afastou–se sem proferir palavra. Quando, pouco depois, voltou para junto dela, Emília notou que tinha chorado e pediu–lhe para não se afligir.
— Os meus tormentos acabaram — declarou — Consegui fugir à tirania de Montoni. Sinto–me feliz e quero vê–lo feliz também.
Valancourt, porém, cada vez mais agitado, respondeu–lhe em voz surda:
— Emília, sou indigno de si, indigno, sim!
Estas palavras e ainda mais a forma como foram ditas, impressionaram–na profundamente. Aflita, olhou–o com inquietação.
— Não me olhe dessa maneira! — pediu ele, desviando o rosto — Não posso suportá–lo! — Gostaria de o interrogar e de saber o que significa essa linguagem, mas verifico que, neste momento, as minhas perguntas mais o apoquentariam. No entanto, custa–me admitir, embora seja por um momento, que se tenha tornado indigno da minha estima. Confio na sua lealdade e espero pela explicação, logo que se considere em estado de me dar.
— Essa lealdade que evoca, Emília, quantas vezes me levou a censurar–me a mim mesmo? ... Diga–me que ainda me ama e me perdoa a inquietação que lhe causei com as minhas palavras! — Perdoo–lhe de todo o coração. Quanto a amá–lo... sabe melhor do que eu se continua a merecer a minha estima. Sem ela nunca poderia confiar–lhe o meu coração. Escuso de dizer–lhe como sofreria se fosse obrigada a recusar–lhe.
Como os outros se aproximassem, não puderam continuar a conversar. Sentaram–se à mesa e comeram ao ar livre. Terminada a refeição, partiram para o castelo. No entanto, o conde não convidou Valancourt para entrar e este despediu–se de Emília e regressou à hospedaria. Este procedimento e a atitude de Valancourt, preocuparam–na por tal forma que nem sequer se recordou da promessa de Doroteia. Em vão tentou encontrar a chave do novo mistério que ameaçava a sua tranquilidade e o seu coração.
No dia seguinte, o conde encontrou–a numa das alamedas do jardim. Falaram de festa e do encontro com Valancourt.
— Aquele rapaz tem valor e quando me apresentaram em Paris simpatizei imenso com ele.
Calou–se. Emília desejava e temia ao mesmo tempo que o conde prosseguisse, mas não lhe deixou adivinhar o interesse que o assunto lhe despertava.
Foi o conde o primeiro a falar.
— Posso perguntar–lhe, mademoiselle, há quanto tempo conhece Valancourt?
— E eu –volveu Emília — posso saber por que me faz essa pergunta?
— É justo e vou revelar–lhe. Torna–se evidente que Valancourt a ama, fato que não é para admirar, pois acontece o mesmo a todos quantos a conhecem. Mas receio que, entre esses todos, seja ele o preferido.
— Donde nasce esse receio, conde? — insistiu Emília, cujo coração palpitava num sobressalto.
— Porque não o considero digno de si — replicou o conde com firmeza.
Perturbada e inquieta, Emília pediu–lhe para se explicar melhor.
— Vou fazê–lo, se acredita que o faço pelo interesse pela sua felicidade.
— Assim o creio, com efeito.
— Nesse caso, sentemo–nos aqui — propôs o conde, que notara a palidez de Emília.
Sentaram–se e o conde começou:
— Apesar de nos conhecermos há pouco tempo, o que tenho observado do seu espírito e caráter bastou para conquistar a minha estima. Merece ser feliz e desejo que o seja. Vou falar–lhe como falaria à minha filha.
Emília agradeceu–lhe com um gesto.
— A minha posição é delicada — prosseguiu o conde — mas o desejo de lhe ser prestável sobreleva todas as outras considerações. Quer revelar–me como conheceu Valancourt, se o assunto não lhe é muito doloroso?
Em poucas palavras, Emília descreveu–lhe o primeiro encontro. Em seguida, insistiu tanto que o conde não pôde deixar de satisfazê–la.
— Valancourt conheceu meu filho em casa de um camarada onde eu também o conheci. Convidei–o a vir a minha casa, ignorando a espécie de pessoas com quem convivia, homens que vivem do jogo, estroinas, uma verdadeira escória da sociedade... mas, que tem?... Devo continuar?
— Continue, peço–lhe.
— Vim a saber que as más companhias o haviam arrastado para uma vida de deboche da qual não tinha vontade nem desejo de se libertar. Perdeu ao jogo quantia enormes. O vício tornou–se paixão e ficou completamente arruinado. Soube mais tarde que, em face da sua habilidade, o iniciaram em certos segredos da profissão, dando–lhe também parte nos lucros...
— É impossível! — exclamou Emília, que emendou logo — Perdoe–me, conde, mas com certeza o informaram mal. Valancourt, com certeza, tem inimigos que tentam prejudicá–lo.
— Gostaria de poder acreditar nessa hipótese, mas não posso. Estou plenamente convencido do que afirmo e só o interesse que tenho pela sua felicidade me obrigou a fazer–lhe estas tristes revelações.
Emília manteve–se em silêncio. Recordava as últimas palavras de Valancourt que, exprimindo intenso remorso, pareciam confirmar as declarações do conde. No entanto, não se sentia com coragem para aceitar a cruel verdade; tinha o coração dilacerado. Saber que o seu amado era um criminoso, esmagava–a de dor. O seu estado de espírito tornava–se intolerável.
— Concebo as suas dúvidas — prosseguiu o conde — e considero–as muito naturais. É justo que lhe dê uma prova do que afirmo. Só uma certeza poderá restituir–lhe a calma para o futuro. Fique sabendo que meu filho foi muitas vezes testemunha do mau procedimento do cavaleiro Valancourt, cujo exemplo esteve tentado a seguir. Felizmente, pude salvá–lo do perigo quando estava prestes a perder–se. E diga–me se um pai a quem o exemplo do cavaleiro quase roubou o filho, não tem razão mais do que suficiente para acautelar as pessoas a quem estima e evitar que lhe confiem a sua felicidade? Eu próprio o vi jogando com homens cuja presença bastava para me fazer corar de indignação. Se ainda lhe restam dúvidas, fale com meu filho.
— Desde que o conde o afirma, não posso duvidar da sua palavra — replicou Emília, vergada ao peso da dor — Valancourt poderá ter–se entregado a excessos deploráveis, mas deixe–me acreditar que não voltará a fazê–lo. Se tivesse conhecido, como eu, a nobreza e lealdade do seu caráter, desculparia a minha incredulidade.
— Sei bem quanto se torna difícil dar crédito ao que nos aflige, mas não poderia animá–la com esperanças inúteis. A paixão do jogo tem atrativos irresistíveis; talvez o cavaleiro consiga resistir–lhes por algum tempo, mas, inevitavelmente, reincidira. Temo a força do hábito, receio até, lamento ser obrigado a dizê–lo, que o seu coração já esteja corrompido. Não posso esconder–lhe não ser o jogo o seu único vício. Existem ainda outros...
Hesitou e calou–se. Emília, cuja ansiedade crescia de momento a momento, mal podia aguentar–se e escutava as palavras do conde como quem ouve a sua sentença de morte. Seguiu–se prolongado silêncio. Por fim, Villefort, dominando a própria comoção, prosseguiu:
— Depois de ter começado, seria cruel não lhe revelar tudo. Devo dizer–lhe que, devido às suas loucuras, o cavaleiro Valancourt foi preso duas vezes e em qualquer delas deveu a sua liberdade, segundo me afirmaram pessoas dignas de todo o crédito, às bondades de certa condessa bem conhecida com quem vivia quando abandonei Paris.
Era demasiado. Emília escorregou da cadeira e caiu no chão, desmaiada. O conde ergueu–a nos braços e gritou, pedindo auxílio, mas estava muito longe do castelo, para que pudessem ouvi–lo. Vendo uma fonte que perto corria, deixou–a encostada ao tronco de uma árvore e abandonou–a durante breves instantes a fim de ir buscar água. Emília voltou, lentamente, a si e quando abriu os olhos viu–se amparada, não pelo conde, mas por Valancourt, que espiava todos os seus gestos com expressão aterradora e lhe dirigiu a palavra com voz trémula.
O conde, ao regressar, tomou um ar severo e fez um sinal a Valancourt para se retirar. Este, porém, recusou afastar–se dali antes de Emília estar completamente restabelecida. Depois, adquirindo, pela atitude do conde, pelo estado de Emília e talvez pela voz da própria consciência, a certeza do que havia sido ele o assunto tratado na conversa de ambos, corou de indignação; em seguida, sucedendo–se a esse breve assomo de orgulho, refletiu–se–lhe no semblante tão intensa expressão de dor, que o próprio conde sentiu mais compaixão do que cólera. Emília, que recuperara por completo a consciência, ficou também tão comovida, que não conseguiu reprimir as lágrimas. Mesmo assim, apelando para toda a sua coragem, agradeceu ao conde e tomou o caminho do castelo, sem dirigir uma palavra a Valancourt.
Este, ferido até ao mais íntimo da alma, deu alguns passos para ela e murmurou em voz sufocada:
— Santo Deus! Como pode inflingir–me semelhante humilhação e que lhe disseram a meu respeito para ter mudado assim?
Emília estugou o passo sem lhe responder. Valancourt, porém, teimou em a acompanhar e suplicou:
— Pelo amor de Deus, conceda–me uns momentos de atenção. Sinto–me tão desgraçado!
Conquanto estas palavras fossem proferidas em voz baixa, o conde ouviu–as. Dirigindo–se ao cavaleiro, disse–lhe que mademoiselle Saint–Aubert estava ainda muito abalada para poder atendê–lo, mas que, provavelmente, no dia seguinte, se estivesse melhor, consentiria em recebê–lo.
Valancourt estremeceu e encarou–o enraivecido. Em seguida, relanceou a Emília um olhar, exprimindo tão dolorosa súplica, que esta não conseguiu resistir–lhe e confirmou:
— Amanhã, por certo estarei melhor. Se quiser aproveitar–se da autorização do conde, pode vir falar–me.
— A autorização do conde! — protestou Valancourt, volvendo a Villefort um olhar altivo e colérico.
Mas, conseguindo dominar–se, dirigiu–se a Emília:
— Agradeço–lhe humildemente. Estarei aqui amanhã.
Nessa noite, para se preparar para a entrevista que por certo decidiria todo o seu futuro, a infeliz rapariga dirigiu–se ao convento de Santa–Clara, a fim de orar sobre a campa do pai.