Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXXIII. Um Mistério que se Desvenda
XXXIII
Um Mistério que se Desvenda
Emília quase considerava como um sonho aquela fuga repentina e mal conseguia acreditar naquele desenlace tão feliz. E, com efeito, havia razões para temer. Antes de conseguirem sair da floresta, ouviram gritos que o vento arrastava até eles e, quando atingiram um ponto mais alto, avistaram luzes que se moviam, rapidamente, em volta do castelo. Dupont fustigou o cavalo para o obrigar a andar mais depressa.
— Pobre animal! — comentou Ludovico — Deve estar cansado. Andou por fora todo o dia. Fujamos para este lado. As luzes tomaram o caminho oposto.
Por seu lado, também chicoteou a sua montada, e a cavalgada partiu a galope. Depois de correrem por muito tempo, olharam para trás. As luzes ficavam já tão longe que mal se distinguiam e os gritos haviam dado lugar a profundo silêncio. Os viajantes, então, pararam para concordarem numa resolução. Decidiram dirigir–se para a Toscânia e daí alcançar o Mediterrâneo e embarcar para França. Dupont, certo de que o seu regimento também já regressara à pátria, resolveu acompanhar Emília. Tomaram pelo caminho que, tempos antes, Emília seguira com Beltrão e Ugo. Ludovico, o único dos quatro que conhecia os desfiladeiros da montanha, afirmou, haver pouco mais adiante, um cruzamento, onde uma das estradas conduzia, diretamente, à Toscânia e que a pouca distância se erguia uma pequena cidade onde poderiam comprar tudo quanto lhes fosse necessário para o resto da viagem.
Avançavam sem pressas e em silêncio. Ainda não estavam bem refeitos do espanto que lhes havia causado a fuga inesperada. Absorvido nos seus pensamentos, Dupont só o interrompia para se informar sobre a direção a seguir. Outras vezes, Annette soltava uma exclamação a propósito de qualquer objeto a que o crepúsculo dava estranha forma. Por fim, avistaram luzes no sopé da montanha. Ludovico afirmou ser a cidade a que pouco antes se referira.
Satisfeitos com a perspectiva, voltaram a absorver–se nas suas reflexões.
Annette foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Meu Deus! — exclamou — Como arranjaremos dinheiro? Nem eu nem a minha ama possuímos
um cequim {3} — O senhor Montoni guardava bem a sua fortuna.
Esta observação lançou–os em cruel embaraço. Dupont, despojado de quase tudo quanto possuía na altura de ser aprisionado, dera o resto ao carcereiro. Ludovico havia muito tempo não recebia o soldo e nunca tomava parte nas pilhagens; o que trazia consigo mal chegava para pagar as primeiras despesas na cidade para onde se dirigiam.
A circunstância era das mais inquietantes, pois poderia prendê–los por muito tempo naquela região onde, apesar de se encontrarem numa cidade, estavam mais ou menos em poder de Montoni. No entanto, não lhes restava outra solução senão prosseguir à mercê do destino. Caminharam através de florestas escuras, desertas e com aspecto tão selvático que lhes dava a impressão de nunca um ente humano ali haver posto os pés. Por fim, ouviram os chocalhos de um rebanho, o balir das ovelhas e avistaram algumas choças. Os viajantes estugaram o passo das montadas e descobriram um vale risonho dos Apeninos, cuja frescura e ridente aspecto contrastava com os cumes gelados das montanhas que o rodeavam.
Os primeiros alvores da madrugada tingiam o horizonte; a pouca distância, na encosta de uma colina, desdobrava–se a cidade que procuravam. O pequeno grupo alcançou–a em breve, mas não foi sem dificuldade que obteve alojamento decente e seguro. Emília pediu aos companheiros para não se demorarem ali senão o tempo estritamente necessário, pois o seu aspecto suscitava surpresa. Fugira sem chapéu, sem mesmo ter tempo para cobrir a cabeça com uma mantilha e, na penúria em que se encontravam, não podia pensar em comprar qualquer das duas coisas.
Dupont atreveu–se a revelar a situação ao hospedeiro, que lhe pareceu ser excelente homem. Este prometeu auxiliá–los em tudo quanto pudesse e ainda mais por serem prisioneiros fugidos das mãos de Montoni, a quem detestava por motivos pessoais. Propôs–se procurar–lhes cavalos para alcançarem a cidade mais próxima, mas como não era rico, não podia dar–lhes dinheiro. O problema inquietava–os, profundamente. Discutiam a maneira de o resolver quando Ludovico, que fora levar os cavalos à cavalariça, voltou radiante. Ao tirar o selim a um dos animais, encontrara uma pequena sacola, contendo o quinhão da pilhagem que pertencia ao condottier. Como é sabido, tinham acabado de regressar e como o animal saíra do pátio interior onde o dono se encontrava, levara consigo o tesoiro do bandido.
Dupont declarou ser a soma mais do que suficiente para poderem regressar a França. Discutiram então em qual dos portos haviam de embarcar. Dupont sabia ser Livorno o mais próximo e também o mais propício à realização dos seus planos, pois todos os dias saíam dali navios para muitos e variados portos. Ficou, portanto, decidido que se dirigiriam a Livorno sem perda de tempo.
Emília comprou um chapéu de palha, tal como usam as camponesas da Toscânia, e também alguns dos objetos mais necessários para a viagem. Trocaram os cavalos fatigados por outros melhores e, ao romper do dia seguinte puseram–se a caminho.
Depois de algumas horas de viagem por uma região bastante acidentada, começaram a descer o vale do Arno. Ao longe para oriente, avistaram Florença, cujas torres se recortavam no céu luminoso. Ao ocidente, fértil planície, semeada de laranjais e de vinhas, estendia–se até ao mar. Emília saudou comovida o oceano distante que ia transportá–la à pátria. No entanto, não tinha lar para a receber nem parentes que a recebessem; como um peregrino, voltava apenas para chorar junto do túmulo do pai. Como poderia esperar encontrar Valancourt? Apesar disso, saboreava de antemão a alegria de pisar de novo a região onde ele vivia, embora nunca mais voltasse a vê–lo.
Fazia excessivo calor. Era meio dia. Os viajantes abrigaram–se debaixo das árvores e deixaram os cavalos à vontade. Anette e Ludovico foram colher frutos silvestres e trouxeram também água fresca de uma fonte que corria próximo. Todos quatro comeram a frugal refeição sentados na relva verde. As duas raparigas, fatigadas com a viagem, dispuseram–se a dormir sob a vigilância dos dois companheiros.
Quando acordou, Emília viu Ludovico a dormir no seu posto. Quanto a Dupont, estava acordado e parecia entregue a tristes reflexões. Aproveitou a ocasião para lhe perguntar como tinha caído nas mãos dos homens de Montoni. Feliz com o interesse manifestado, o rapaz apressou–se a satisfazer–lhe a curiosidade.
— Vim para Itália com um destacamento de tropas francesas. Durante uma escaramuça travada nas montanhas com um bando de condottieri, ficámos derrotados e eu fui aprisionado com alguns dos meus companheiros. Quando me disseram que ia para o castelo do signor Montoni, este nome não me pareceu estranho. Recordei–me de que sua tia havia casado com um italiano assim chamado e que mademoiselle os acompanhara a Itália. Decorrido algum tempo, adquiri a certeza de ser esse Montoni, na verdade, o marido de sua tia e que, portanto, aquela a quem eu amava se encontrava ali, próximo de mim. Como descrever–lhe a minha emoção quando a sentinela — a quem eu comprara — me fez estas revelações? O homem, infelizmente, não quis encarregar–se de lhe entregar uma carta nem sequer de lhe fazer conhecer a minha presença. Receava ser descoberto e a vingança do seu senhor. No entanto, proporcionou–me muitas ocasiões para a ver. Está admirada, mademoiselle? Vou explicar–me melhor. A minha saúde estava muito abalada com a falta de ar puro e de exercício. O meu carcereiro, tanto por compaixão como por interesse, proporcionou–me o meio de passear de noite pela esplanada.
Emília fez um gesto de surpresa e tornou–se mais atenta. Dupont continuou:
— Ao conceder–me essa facilidade, o homem bem sabia que eu não podia fugir. O castelo estava bem guardado e a esplanada estendia–se no alto da torre, construída sobre um rochedo a pique. Mostrou– me uma porta oculta com o revestimento das paredes e indicou–me a mola que a abria. Essa porta dava para estreito corredor praticado na espessura da parede, corredor que circulava por todo o castelo para ir terminar no parapeito da torre de leste. Mais tarde, soube existirem muitas destas passagens nas paredes maciças da formidável fortaleza, comunicações secretas, por certo, destinadas a facilitarem a fuga da guarnição, no caso de um cerco. Era por esse caminho que, durante a noite, eu alcançava a esplanada. Percorria–o com precaução, com receio de que o ruído dos meus passos me atraiçoasse. As sentinelas estavam colocadas a muita distância umas das outras, porque, desse lado, a muralha não exigia grande vigilância. Num desses passeios, avistei uma luz que saía da janela situada por cima da minha prisão. Tive o pressentimento de ser ela a janela dos seus aposentos e, na esperança de a ver, parei mesmo em frente.
Emília recordou o vulto que, certo dia, avistara na esplanada e que tão grande susto lhe metera.
— Era então o senhor quem me provocava tão disparatados terrores? O prolongado sofrimento enfraqueceu–me por tal modo o raciocínio, que bastava o mais pequeno incidente para me assustar.
Dupont apresentou desculpas pelo medo que, involuntariamente, lhe metera, e continuou:
— Encostado ao parapeito da muralha, mesmo em frente da sua janela, absorvia–me em tristes reflexões sobre a sua situação e a minha. Foram as minhas exclamações e gemidos involuntários que a atraíram, pelo menos tive a impressão de a avistar. Não pode calcular a minha comoção nessa altura. Quis falar–lhe, mas um movimento da sentinela obrigou–me a fugir. Decorreu algum tempo antes que eu pudesse dar segundo passeio. Não me atrevia a sair da minha prisão senão quando o homem a quem eu comprara se encontrava de sentinela. Entretanto, procurava informar–me e obter a certeza das minhas conjecturas sobre a posição dos seus aposentos. Quando chegou o dia de relativa liberdade voltei ao meu posto em frente da sua janela e via–a aparecer. Saudei–a com um gesto e dispunha–me a falar–lhe, quando uma sentinela apareceu de repente e me viu. Fugi e o homem seguiu–me; ter–me–ia apanhado se não me ocorresse ridículo estratagema. Sabia quanto aqueles homens eram supersticiosos. Soltei um grito lamentoso, na esperança de que deixaria de perseguir–me, como aconteceu. O soldado era sujeito a ataques epilépticos; o susto que lhe meti provocou um deles e facilitou–me a fuga. Desde esse dia, o sentimento do perigo já corrido, aumentado pela vigilância dos postos, que haviam dobrado, obrigou–me a desistir dos passeios pela esplanada. Mas, quando tudo adormecia, distraía–me a tocar num alaúde que o meu guarda me trouxera. Por vezes, cantava na esperança de ser escutado por si. Uma destas últimas noites realizou–se o meu desejo. Ouvi uma voz que me chamava. Não me atrevi a responder por causa da sentinela. Ter–me–ia iludido? A voz não era a sua?
— Era a minha, sim, mas...
Soltou involuntário suspiro e calou–se.
Dupont, adivinhando a dolorosa emoção que o assunto lhe provocava, tanto como a si mesmo, mudou de conversa.
— Certa vez, quando percorria o corredor a que me referi, escutei singular conversa. As vozes partiam de um aposento em cuja parede o corredor passava. Essas paredes eram tão delgadas e até arruinadas, que ouvi, distintamente, a conversa. Montoni e os companheiros estavam reunidos e bebiam. O signor começara a narrar a extraordinária história da castelã, a signora Laurentini, e as estranhas circunstâncias do seu desaparecimento. Não sei se falava verdade. Receio muito que a consciência o acusasse. Nesse instante, tremi por sua causa, pois ouvi alguns deles proferirem o seu nome. Sabendo que mesmo os mais atrevidos daqueles homens eram muito supersticiosos, imaginei assustá–los para lhes desviar o pensamento do atentado que planeavam. Prestei atenção, e quando Montoni narrava um dos pormenores mais estranhos da sua história, repeti as suas últimas palavras num tom surdo e ameaçador.
— Era o senhor! E não teve medo de ser descoberto?
— Não. Pensava que, se Montoni conhecesse o segredo do corredor, nunca me teria mandado fechar naquele quarto. De resto, afirmaram–me a sua ignorância a esse respeito. Nos primeiros momentos, os turbulentos convivas não deram atenção à minha voz; por fim, o susto foi tão grande que todos dispersaram em desordem e Montoni ordenou minuciosas buscas que, como é de calcular, foram infrutíferas. Mais tarde, na altura em que proferia terríveis ameaças contra si, surpreendi–o também e interrompi–o.
— Recordo–me bem do terror de Montoni e confesso ter sido bastante tola para o partilhar.
Continuaram a conversar a respeito de Montoni, da França e do fim da viagem. Emília revelou a intenção de se retirar para o convento do Languedoc onde havia sido acolhida com muita amizade. Daí escreveria a seu tio Quesnel para o informar do que havia acontecido. Aguardaria que o Vale voltasse às suas mãos, na esperança de conseguir lá viver. Dupont garantiu–lhe que, visto ter conseguido fugir do seu perseguidor, os bens de que este se havia apoderado não estavam perdidos para ela. A perspectiva de poder recuperar a fortuna da tia e casar com Valancourt, inundou de alegria o coração de Emília, que tentou ocultá–la para não contristar Dupont, dando–lhe a certeza de ter um rival.
Quando o Sol começou a declinar, o Francês acordou Ludovico e de novo se puseram a caminho. Desceram até ao vale e encontraram–se nas margens do Arno. Atravessaram o rio numa barcaça, mas, para alcançarem a cidade de Pisa, impunha–se trocar os cavalos, completamente extenuados. Quando, por fim, a atingiram, sofreram o grande desapontamento de não encontrarem ali um navio que os levasse para França. Obrigados a prosseguir a viagem, sem tempo para admirarem os tesouros desta célebre cidade, nem a maravilhosa torre inclinada, aproveitaram a frescura matinal para atravessarem uma região rica e fértil. Os Apeninos, já muito distantes, haviam perdido a sua imponência e não eram mais do que o belo pano de fundo da bucólica paisagem. Quando chegaram a Livorno, Emília não se cansava de admirar a linda cidade e a sua vasta baía, coberta de navios.
Mal chegou, Dupont dirigiu–se para o porto. Indicaram–lhe diversos barcos franceses, um dos quais devia largar para Marselha daí a dias. Nesse porto, seria fácil encontrar outro para atravessarem o golfo de Lyon e atingirem Narbotine, cidade perto da qual ficava o convento onde Emília desejava recolher–se. Dupont combinou com o capitão o preço da passagem para Marselha e não se torna difícil adivinhar a alegria de Emília quando soube estar assegurado o seu regresso à pátria. Por seu lado, o oficial também adquiriu a certeza da volta do seu regimento a França, fato que lhe deu grande prazer, pois de outra forma não poderia acompanhar Emília sem incorrer no desagrado dos seus chefes. Ao mesmo tempo, soube dominar a sua paixão a ponto de não a dar a perceber a quem a despertara, decidido a obter a sua estima se não conseguisse o seu amor. Procurou distraí–la, mostrando–lhe a cidade, o rio e o cais por onde circulavam estrangeiros de todos os países. Emília interessava–se imenso pela entrada e saída dos barcos, partilhando com os amigos e parentes dos viajantes as alegrias do regresso e os pesares da separação.