Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 9 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

VIII. Solidão

VIII

 

Solidão

Na manhã seguinte, Emília mandou acender o fogão no quarto do falecido pai, fechou–se lá dentro com receio de que fossem incomodá–la, e dirigiu–se ao gabinete envidraçado onde o surpreendera na véspera da partida.

A vida solitária, os pensamentos melancólicos e a mórbida sensibilidade predispunham Emília para impressões supersticiosas. Dessa forma, não pôde evitar um calafrio quando entrou naquele aposento onde ninguém mais entrara desde a morte do pai. Sentia–se desfalecer, mas reagiu, censurando– se pela sua falta de coragem no momento em que lhe cumpria ser forte. Fiel às instruções de Saint– Aubert, logo descobriu a tábua indicada e, abrindo o alçapão, encontrou o maço de papéis e a bolsa com o dinheiro. Quando se aproximava do fogão, Involuntariamente, contra a proibição do pai, relanceou a vista para as cartas que tinha na mão. Uma frase de terrível significação despertou–lhe a curiosidade. Entrevendo um mistério, ardia no desejo de o desvendar e arrependia–se pelo juramento feito. Esteve tentada a quebrá–lo, mas a consciência falou mais alto:

— Não, eu prometi obedecer. Fujamos da tentação que, só por si, me torna culpada.

E, num movimento rápido, atirou com os papéis para o lume que os consumiu num instante.

Ao pegar na bolsa, teve a impressão de que continha mais alguma coisa do que as moedas. Abriu–a e encontrou uma miniatura, dentro de uma caixinha de marfim.

— A mesma que meu pai contemplava, chorando! — exclamou.

A miniatura representava uma dama de rara beleza para quem se sentiu atraída sem bem saber porquê. Os cabelos escuros e anelados emolduravam a fronte alta, os lábios sorriam e os olhos azuis refletiam doçura e melancolia. A expressão estava velada por uma sombra de tristeza e resignação.

Como o pai não lhe tivesse dado instruções sobre a miniatura, guardou–a. Recordando a forma como o pai falara da marquesa de Villeroy, supôs tratar–se dela. Mas que laços a uniriam a Saint– Aubert?

O ranger da porta do jardim arrancou–a às suas reflexões. Aproximou–se da janela e viu Valancourt. Aguardou uns momentos, para recuperar a serenidade e depois foi ter com ele à sala.

Reparou que tinha as feições alteradas, apesar do sorriso que lhe entreabria os lábios.

— Peço–lhe perdão, mademoiselle, por me aproveitar já da autorização que me deu, mas não podia deixar de vir dizer–lhe adeus.

Emília ficou desolada, mas, não querendo fazer–lhe perguntas, abordou outro assunto. Saíram ambos para o terraço e sentaram–se num banco. Valancourt parecia comovido. Após demorado silêncio, balbuciou:

— Sou forçado a abandonar este cantinho delicioso e talvez para sempre, e não posso deixar de aproveitar estes momentos fugitivos, que receio nunca mais se repitam. Não se assuste, saberei respeitar o seu desgosto, mas permita–me que lhe exprima todo o reconhecimento e admiração que a sua bondade me despertou. Se eu pudesse, um dia, dar o nome de amor a este sentimento tão profundo!

Com um gesto involuntário, Emília deteve–o.

— Não, não abusarei desta entrevista, mas esta cruel despedida seria menos amarga se pudesse levar comigo a certeza de que a minha imprudente confissão não a ofendeu.

Emília, não querendo encorajar as esperanças do rapaz, tentou, por todos os modos, ocultar–lhe o que sentia. Limitou–se a responder–lhe que muito a lisonjeavam as atenções de uma pessoa a quem o pai tanto estimava.

— Não me engana? Mereço a sua indulgência? — perguntou Valancourt com timidez.

— Vou falar–lhe com sinceridade, esperando que, reconhecendo a minha situação, procederá com a reserva que ela exige. Vivo aqui sozinha, não tenho a meu lado alguém que possa autorizar–me a receber as suas visitas...

— Saberei cumprir o meu dever — afirmou Valancourt — mas, pelo menos, consinta que me dirija à sua família.

Emília hesitou na resposta. O isolamento em que vivia deixava–a sem um guia ou conselheiro. Madame Chéron, a sua única parente, parecia não se recordar da sua existência.

— Adivinho! — protestou Valancourt — Considera–me indigno da sua estima. Fatal viagem, que classifiquei como o tempo mais feliz da minha vida, dias deliciosos que ensombrarão todo o meu futuro! Se soubesse quanto sofri, quando a sabia longe de mim, tanto como agora, durante as noites em que, protegido pelas trevas, eu rondava em volta deste castelo, abafando os meus suspiros e as minhas queixas! Consolava–me a ideia de que velava pelo seu sono, porque, saltando a sebe, eu passava horas debaixo da janela que supunha ser a do seu quarto.

Admirada, Emília perguntou–lhe há quanto tempo vivia nas proximidades do castelo.

— Já há alguns dias. Desejava aproveitar–me da autorização dada por seu pai, mas quando me dispunha a visitá–lo, perdia a coragem e adiava a visita. Instalei–me na vila próxima e percorria os campos como caçador, suspirando pela ventura de a encontrar, mas sem me atrever a vir vê–la.

A conversa prolongou–se, sem que qualquer deles desse pelo tempo que corria. Por fim, Valancourt despediu–se.

— Sou forçado a partir — disse com tristeza — mas levo comigo a esperança de tornar a vê–la e de poder apresentar os meus respeitos a sua família.

— Os meus parentes sentir–se–ão muito honrados por conhecer um amigo de meu pai — replicou Emília muito comovida.

Valancourt beijou–lhe a mão, transportado de alegria. Sem forças para se afastar, contemplava–a com adoração, quando o ruído de passos precipitados os chamou à realidade. Voltando a cabeça, Emília avistou madame Chéron. Corou e, trémula, deu alguns passos ao seu encontro.

— Bom dia, sobrinha — cumprimentou esta, relanceando a Valancourt um olhar de surpresa e de curiosidade — Como estás? A minha pergunta é supérflua, porque o teu aspecto indica que te conformaste com o teu desgosto.

— Nesse caso, tia, o meu aspecto mente — replicou Emília, bastante magoada — pois a perda que sofri é daquelas que nunca mais podemos esquecer.

— Não queria ofender–te. És parecida com o teu pai, que teria sido muito mais feliz se tivesse outro génio.

Emília não replicou e apresentou–lhe Valancourt. Ainda que, intimamente, irritado com o que acabava de ouvir, o rapaz cumprimentou–a com respeito. Madame Chéron correspondeu–lhe com breve cumprimento, medindo–o de alto a baixo com olhar desdenhoso. O rapaz despediu–se de Emília, manifestando pela sua atitude quanto lhe custava afastar–se, deixando–a com semelhante criatura.

— Quem é este rapaz? Um dos teus namorados, calculo. Mas quero acreditar que tivesses tido a suficiente noção das conveniências para não o receber, vivendo sozinha como vivias. A sociedade não costuma ser indulgente para inconsequências dessa natureza.

Emília tentou interrompê–la, mas a tia continuou:

— Torna–se indispensável, verifico, que vivas com alguém que saiba guiar–te. Francamente, não tenho muito tempo para dedicar a tarefas desse género. No entanto, como o teu pobre pai me encarregou de olhar por ti, forçoso é resignar–me. Mas quero avisar–te desde já. Se não prometes obedecer–me, cegamente, terei de desistir.

A pobre rapariga não conseguiu responder–lhe, porque o orgulho ferido e a consciência da sua inocência não lhe permitiram.

— Vim buscar–te — continuou a tia — Vais viver comigo para Toulouse. É pena que teu pai morresse quase pobre. Foi sempre mais pródigo do que previdente. Caso contrário, não teria deixado a filha a cargo dos seus parentes.

— E não deixou — protestou Emília com dignidade — Até que o assunto de falência de Moteville esteja resolvido, tenho meios para poder continuar a viver no Vale.

— Não duvido, não duvido — replicou com ironia, madame Chéron — Reconheço quanto o descanso e a tranquilidade foram benéficos para a tua saúde. Quando nas tuas cartas alegavas esse pretexto, aceitei–o de boa-fé. Não sabia que se encontrava aqui, para te fazer companhia, esse tal Va ... Va ... esqueci–me o nome.

— Não era pretexto — protestou Emília com indignação — e, se o alvo da sua visita, minha tia, foi o de' insultar a filha de seu irmão, poderia muito bem ter evitado esta viagem.

— Quem é esse aventureiro? — perguntou madame Chéron como se não ouvisse a altiva réplica — Quais são as suas pretensões?

— Ele lhes explicará, tia. Meu pai conhecia–o e tinha–o em muito apreço.

— Um filho segundo e, em consequência, um verdadeiro mendigo! Mesmo coisas do meu irmão! Simpatizava ou embirrava com as pessoas sem motivo, apenas pela cara. Que ridículo! Como se a fisionomia de uma pessoa tivesse alguma coisa com o seu caráter! Como pode um homem de bem evitar ter um rosto desagradável? Nada mais enganador do que as aparências.

E disse esta sentença como se enunciasse uma coisa nunca dita.

Para acabar com a conversa, Emília ofereceu à tia ligeira refeição. Esta aceitou e acompanhou–a ao castelo. Quando considerou ter descansado o suficiente, declarou à sobrinha que desejava voltar nesse mesmo dia para Toulouse e ordenou–lhe que preparasse as suas coisas para a acompanhar. Com muito custo, porém, Emília conseguiu convencê–la a passarem ainda aquela noite no Vale.

O coche que devia conduzi–las a Toulouse, logo de manhã, muito cedo, encontrava–se diante da escadaria. O almoço foi triste e silencioso. Madame Chéron, irritada com o abatimento da sobrinha, censurou–lhe em termos que não eram de molde a fazê–lo cessar. Esta teve ainda de vencer grande resistência para poder levar consigo o cãozinho que pertencera ao pai. A velha Tereza ficou a tomar conta da casa.

— Que Deus a guarde, mademoiselle! — exclamou à despedida.

Emília não conseguiu responder–lhe. Limitou–se a apertar–lhe a mão, chorando.

Entretanto, Valancourt regressara a Estuvière com a imagem de Emília gravada no coração. Tão depressa alimentava ilusórias esperanças como se abandonava ao desespero. Filho último de antiga família da Gasconha, perdera os pais ainda em criança, ficando entregue a seu irmão, o conde Duvernay, mais velho do que ele vinte anos.

A falta de fortuna era compensada pelas brilhantes perspectivas da carreira militar, a única que um fidalgo podia escolher naquela época. Encontrava–se de licença quando, durante um passeio pelos Pirenéus, conheceu Saint–Aubert, Tendo de apresentar–se no regimento, desejava, antes disso, apresentar as suas pretensões à família de Emília. A fortuna que possuía, com os fracos rendimentos da órfã, poderiam bastar–lhes, mas não satisfariam pessoas ambiciosas e por isso o pobre rapaz tremia pela realização dos seus mais ardentes votos.

As duas viajantes prosseguiam a caminho de Toulouse. Emília ia muito abatida e a tia, atribuindo aquela tristeza ao desgosto por se afastar do namorado e não pela perda do pai, não se cansava de a esmagar com ironias.

Ao chegar a Toulouse, Emília ficou espantada com a riqueza de madame Chéron. Atravessou vasto vestíbulo, por entre criados de libré, e entrou em grande sala decorada com mais esplendor do que gosto. Madame Chéron deixou–se cair numa poltrona e começou a elogiar a magnificência em que vivia e as pessoas com quem se dava, explicando o que esperava de Emília, cuja atitude reservada considerava como indício de ignorância e de orgulho.

O anúncio do jantar interrompeu a conversa e as reflexões ofensivas da dona da casa. Depois da refeição, esta recolheu aos seus aposentos e uma criada de quarto conduziu Emília aos seus, isto é, a pequeno quarto, ao fundo do corredor. Encontrando–se só, a infeliz rapariga pôde, enfim, dar livre curso às lágrimas.

Todos sabem, por o ter experimentado, quanto nos prendemos aos objetos inanimados no meio dos quais estamos habituados a viver. Fácil se torna adivinhar, portanto, como Emília, arrancada ao meio onde sempre vivera desde criança e atirada para uma sociedade diferente, com a qual antipatizava, se sentia infeliz.

O cãozinho que pertencera ao pai, como se compreendesse o seu estado de espírito, saltou–lhe para o colo e começou a lamber–lhe as mãos.

— Pobre animal! — exclamou ela–Não tenho mais ninguém que me queira como tu!