Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXIX. Uma Pastoral
XXIX
Uma Pastoral
No dia seguinte, ao abrir a janela, ficou encantada com a beleza da paisagem que a rodeava. A cabana encontrava–se no meio do arvoredo que o Outono tingira com os seus cambiantes variados. Os vinhedos estendiam–se pelas encostas, os prados verdejantes desdobravam–se nas margens do ribeiro, que serpenteava, refletindo o cenário, e corria para o mar. Para ocidente, águas e céu confundiam–se num tom uniforme e só as velas brancas batidas pelo sol marcavam a linha de separação.
As paredes da cabana estavam cobertas por pâmpanos e jasmins. Cachos maduros emolduravam a janela do quarto de Emília. A relva tapetava o solo, esmaltada por perfumadas flores campestres. Na margem oposta do ribeiro crescia um pomar de laranjeiras e limoeiros, cuja folhagem brilhante punha uma nota ridente na perspectiva deslumbrante do encantador cenário.
Pouco depois de se levantar, a filha do camponês veio chamá–la para almoçar. Era uma rapariga dos seus dezessete anos, de fisionomia agradável, formando estranho contraste com os rostos ferozes e sombrios daqueles que a rodeavam. As três mulheres almoçaram à mesa, enquanto Ugo, Beltrão e o dono da casa comeram sentados na soleira da porta. Quando terminaram, Ugo levantou–se e foi buscar a mula. Emília soube que regressava a Udolfo, enquanto Beltrão continuava a tomar conta dela. Não lhe causou estranheza, mas aterrava–a a ideia de ficar sozinha com o mais feroz dos dois bandidos.
Mais tarde, manifestou o desejo de dar um passeio pelo bosque, mas disseram–lhe que não poderia sair sem a companhia de Beltrão.
Preferiu recolher ao quarto onde Madalena teve licença para a acompanhar.
Conversando com ela, Emília ficou sabendo que o camponês e sua mulher viviam ali havia longos anos e que a choupana fora um presente de Montoni, como recompensa de um serviço prestado por Marco, próximo parente de Cario, seu mordomo.
— Já lá vão muitos anos–declarou a rapariga — e por isso não posso recordar–me. Todavia, o favor prestado por meu pai devia ter sido muito grande, porque minha mãe diz muitas vezes ser esta casa o menos que lhe poderiam ter dado.
Emília escutava todos estes pormenores com profunda ansiedade, porque lhe revelavam, em parte, o sinistro caráter de Marco. Um serviço que Montoni recompensava com uma casa, não podia ter deixado de ser um crime. E voltou a pensar que a tinham desterrado para lhe ser vibrado o golpe, fatal.
— Não pode calcular — perguntou, recordando o desaparecimento da signora Laurentini — há quanto tempo o seu pai prestou a Montoni o favor a que se referiu?
— Um pouco antes de vir morar nesta cabana onde eu nasci — respondeu Madalena — Portanto, pelo menos, há dezoito anos.
Essa data condizia, pouco mais ou menos, com o desaparecimento da castelã. Emília pensou que Marco podia muito bem ter sido encarregado da misteriosa morte e, portanto, cúmplice num crime. Esse terrível pensamento levou–a a tão tristes reflexões que Madalena saiu do quarto sem ela dar por isso, tão alheada se encontrava de tudo quanto a rodeava.
Decorreram muitos dias. Por mais de uma vez a infeliz rapariga esteve tentada a perguntar a Madalena se os pais falavam a seu respeito e dos desígnios de Montoni. Ao mesmo tempo, repugnava– lhe induzir a inocente rapariga a atraiçoá–los. O meigo semblante de Madalena, os seus modos graciosos e delicados, constituíram para ela a maior das consolações, dando–lhe uma sensação de conforto como não experimentava havia muito tempo. E, como o tempo ia passando sem trazer qualquer modificação à sua vida, readquiriu um pouco de confiança no futuro.
Uma tarde esplêndida, seguindo–se a um dia de calor, despertou em Emília o desejo de passear, apesar da companhia de Beltrão. Pediu a Madalena para a acompanhar e saíram as duas. Estava uma temperatura suave e agradável. Seguiram pela margem do ribeiro, sob o arvoredo, e dirigiram–se para os lados do mar, ainda afogueado pelos tons rubros do ocaso. À direita, o vale terminava numa espécie de promontório, coroado por uma torre em ruínas, que servia de farol e também de refúgio para as aves marinhas. As ameias e a multidão alada que voava em sua volta ainda recebiam os raios do astro–rei, já em parte mergulhado no oceano, enquanto a base da torre e o rochedo que a suportava já estavam envoltos nas sombras do crepúsculo.
Emília contemplou com recolhimento o mar sem fim, calmo e silencioso, cujas vagas se enovelavam docemente e depois vinham expirar na areia. Recordou a França e os tempos passados. Como desejava que aquelas ondas a levassem para o seu país natal!
— Aquele navio que corta, majestosamente, as ondas e cujas velas branquinhas o vento enfuna — pensava — talvez se dirija para França. Como são felizes os que transporta!
Profundamente comovida, não deixou de o seguir com os olhos, até que as sombras da noite o ocultaram à sua vista. O ruído monótono das vagas servia de acompanhamento à sua melancolia.
De súbito, um coro de vozes subiu na atmosfera. Depois uma voz de mulher destacou–se do conjunto e continuou a cantar sozinha. Emília desceu, contornou o rochedo e avistou uma espécie de baía, cercada por basto arvoredo. Dois grupos de camponeses descansavam ali, um debaixo das árvores, o outro junto da margem, rodeando uma rapariga que cantava, erguendo na mão uma grinalda, dispondo–se a atirá–la ao mar.
Surpreendida, Emília escutou a melodiosa evocação dirigida às ninfas do oceano! As expressões requintadas do idioma toscano adaptavam–se a uma música leve e alegre, acompanhada por um instrumento campestre.
O coro era repetido pelos outros. Quando acabaram, a grinalda foi atirada ao mar, as vozes e os instrumentos calaram–se e tudo recaiu no silêncio.
— O que significa isto, Madalena? — perguntou Emília, deliciada com a música.
— Estamos na véspera de uma festa e os camponeses divertem–se.
— Como podem eles conhecer as ninfas do oceano?
— Ninguém acredita nessas coisas– retorquiu Madalena, que não compreendia bem a surpresa de Emília — mas as nossas velhas canções falam delas, nós repetimo–las e atiramos com flores para o mar.
Desde pequena, o pai ensinara Emília a considerar Florença como o berço da arte e da literatura; mas o gosto daquela gente simples pela fábula clássica causava–lhe tanta surpresa como admiração. O trajo, por assim dizer arcaico, das raparigas, dignas do pincel de Poussin, mais contribuía para a espantar. Trajavam uma saia curta, verde, enfeitada com fitas brancas, corpetes sem mangas, presos nos ombros com fitas e flores; os cabelos anelados caíam–lhes soltos pelas costas, também enfeitados com flores. Pequeno chapéu de palha, posto de lado, dava ao conjunto uma nota graciosa de garridice. Quando a canção terminou, algumas das cantoras aproximaram–se de Emília, levaram–na consigo e ofereceram– lhe, assim como a Madalena a quem já conheciam, alguns figos e uvas.
Beltrão opôs–se e quis obrigá–la a regressar, mas um dos homens ofereceu–lhe de beber e o patife não podia resistir a uma solicitação dessa natureza.
Pouco depois, ouviram sons de flauta e tamboril. Os camponeses dispuseram–se numa roda. Emília teria compartilhado dos folguedos se a sua situação estivesse de acordo com tanta alegria. A consciência da sua infelicidade não impedia que os considerasse com generosa simpatia. No entanto, não conseguiu espalhar a tristeza. Sentada um pouco aparte, escutava, vagamente, o som dos instrumentos e contemplava a Lua que subia no horizonte, projetando os seus brilhantes raios sobre as ondas e sobre os rochedos e bosques que bordam as costas da Toscânia.
Desde essa noite, passeou muitas vezes e o seu espírito recuperou, gradualmente, toda a tranquilidade que a situação lhe permitia. O sossego daquela vida levou–a a acreditar que não alimentavam maus desígnios a seu respeito e, sem a recordação de Valancourt que, provavelmente, se encontrava em Udolfo, teria pedido a Deus para ficar naquela cabana até poder regressar a França. Nunca lhe ocorreu ter deixado, com a precipitação da partida, no castelo, os documentos relativos às propriedades do Languedoc. Quando, por fim, se recordou, sentiu–se dominada por viva inquietação. Depois, pensou que, no lugar em que se encontravam escondidos, nem o próprio Montoni daria com eles, e ficou mais sossegada.