Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XI. Em Veneza
XI
Em Veneza
No dia seguinte, logo de madrugada, os coches encontravam–se à porta do palácio. A azáfama dos criados, que andavam de um lado para o outro e percorriam as galerias, despertou Emília. Toda a noite o seu espírito perturbado se debatera perante as imagens mais alucinantes. Ao acordar tentou expulsá–las do pensamento. Mas era como passar de um mal imaginário à realidade mais cruel.
Instalou–se no segundo coche para onde havia sido relegada com a criada de quarto. Quando atingiram o alto da colina contemplou, ao longe, as planícies da Gasconha, os cimos altaneiros dos Pirenéus, avultando no horizonte avermelhado pelo nascer do Sol.
“Montanhas queridas, nunca mais vos verei! Ao menos, ele poderá contemplar–vos ainda quando eu estiver longe daqui!”
As montanhas azuladas desvaneciam–se, encobertas com o arvoredo que ladeava a estrada e a infeliz não abandonou a janela da carruagem enquanto pôde avistá–las. Em breve, a sua atenção se desviou para um vulto que, vagarosamente, seguia pela estrada, envolto num capote e com o rosto semi– oculto por um chapéu de grandes abas. Quando os viajantes se aproximaram voltou–se e Emília reconheceu Valancourt. O rapaz fez–lhe ligeiro sinal e, aproximando–se da portinhola, meteu–lhe um bilhete na mão. Ao mesmo tempo, tentava sorrir e esse sorriso triste por muito tempo ficou gravado na memória da viajante. Debruçou–se e ainda o avistou apoiado contra o tronco de uma árvore. Com os braços estendidos, seguia o coche com a vista até que este desapareceu numa volta da estrada.
A presença da criada de quarto impediu Emília de ler, imediatamente, o bilhete de Valancourt, mas a sua impaciência era tanta que, por vezes, esteve tentada a quebrar o selo que o fechava. Só quando pararam para jantar conseguiu satisfazer o seu anseio, encontrando bálsamo para a sua dor nos protestos de amor que Valancourt lhe fazia. Desde então, mostrou–se mais resignada do que nunca estivera desde o casamento da tia.
Os viajantes atravessaram o Languedoc e entraram no Delfinado. Após rápido trajeto pelas montanhas desta província, começaram a subir os Alpes. Os magníficos panoramas que se ofereceram ao olhar de Emília fizeram–lhe recordar as paisagens dos Pirenéus admiradas ao lado de Valancourt. Quanto a madame Montoni, logo que se encontrou nas vertentes italianas, começou a admirar em pensamento os magníficos castelos que supunha possuir em Veneza e nos Apeninos. Projetava dar concertos, embora não gostasse de música; reuniões, conquanto não soubesse conversar, e festas esplêndidas das quais seria a rainha, a despeito do seu gosto ser dos mais medíocres. Tudo isto, com o fim de eclipsar a nobreza de Veneza, apesar do seu obscuro nascimento.
A viagem decorreu sem incidentes. Ao entrarem em Itália, Montoni e o amigo trocaram o gorro francês pelo italiano, escarlate, bordado a oiro. Emília ficou surpreendida quando viu Montoni adorná–lo com a insígnia militar, mas pensou que o fazia para atravessar com maior segurança as regiões infestadas pelas facções de diversos partidos. De fato, tudo, em redor, estava devastado pela guerra: vinhas arrancadas, oliveiras derrubadas, árvores de toda a espécie queimadas, aldeias incendiadas. Para lá de Milão reinava a tranquilidade, tranquilidade da morte que ainda conserva os vestígios das supremas convulsões.
Mais adiante, os viajantes encontraram tropas marchando pela planície. Montoni julgou reconhecer o pequeno exército do aventureiro Utaldo.
Quando as tropas desfilaram junto das carruagens que estavam encostadas ao valado, para lhes dar passagem, Montoni agitou o gorro. Muitos dos oficiais se aproximaram, saudando–o como se o conhecessem bem, e até o próprio Utaldo foi cumprimentá–lo, mostrando–se encantado com o encontro. Pela conversa, Emília percebeu que as tropas voltavam vitoriosas, trazendo consigo valiosos despojos, feridos e prisioneiros pelos quais exigiriam avultados resgates.
Utaldo convidou Montoni para um banquete de despedida, pois as tropas iam dispersar, mas o Italiano, ansioso por se encontrar em Verona, recusou.
De Verona, seguiram para Pádua onde embarcaram para Brenta. Ali tudo era diferente. Em vez de tumulto e desolação, monumentos, luxo e elegância. As casas de campo da nobreza veneziana, exibiam pórticos elegantes, colunatas rodeadas por plátanos, ciprestes e laranjeiras, cujo aroma impregnava a atmosfera, e frondosos salgueiros que pendiam até ao rio.
Cavigny ia nomeando os donos das vivendas, fazendo comentários trocistas. Madame Montoni, visivelmente preocupada, não lhe achava tanta graça como noutros tempos. Quanto a Montoni, mostrava– se frio e reservado como sempre.
Torna–se impossível descrever o espanto de Emília quando avistou Veneza, com os seus palácios, torres e cúpulas que se refletiam nas águas dos canais. O Sol, no ocaso, projetava reflexos rosados sobre os mármores de São Marcos já envolto nas sombras do crepúsculo.
A gôndola parou junto dos degraus de um grande palácio, onde os viajantes saltaram. Atravessando o terraço e subindo a escada de mármore, entraram num salão adornado com grande magnificência: paredes e tetos exibiam esplêndidos frescos, as lâmpadas de prata, pendendo de correntes do mesmo metal, iluminavam o aposento. O chão estava coberto com esteiras indianas de várias cores.
Emília examinava tudo com espanto. “Será isto o palácio de um homem arruinado? — pensava — Se Valancourt pudesse admirar todo este esplendor como ficaria sossegado!”
Madame Montoni assumira ares de princesa. Por seu lado, o marido ordenou que preparassem a gôndola e saiu com Cavigny. Sua mulher ficou triste e preocupada. Emília, depois de ter tentado, inutilmente, distraí–la, foi encostar–se à varanda que dava sobre o Grande Canal, banhado pelo luar.
As gôndolas cruzavam em todos os sentidos, os remos batiam, compassadamente, na água. De repente, outros sons se elevaram a distância, vozes conjugadas num coro harmonioso. As gôndolas alinharam junto dos cais e ao longe apareceu magnífico cortejo, brilhantemente iluminado. Os deuses tutelares da cidade pareciam sair do seio das águas. Netuno com Veneza, sua esposa, aproximava–se, rodeado por tritões e nereides. Este bizarro cortejo realizava todos os sonhos dos poetas e causou grande impressão no espírito de Emília que parecia vê–lo ainda, muito tempo depois de ter passado.
Depois da ceia, a tia ainda ficou a pé até bastante tarde, aguardando o regresso do marido, mas este não apareceu nessa noite.
Se Emília admirou o esplendor do salão, não ficou menos espantada com a aparência de abandono e ruina de todos os outros aposentos que foi obrigada a atravessar para alcançar o seu quarto. Nas paredes, farrapos de tapeçarias ou vestígios de frescos estragados pela humidade. Móveis pouquíssimos. O quarto que lhe estava destinado não tinha melhor aparência e dir–se–ia feito de propósito para lhe alimentar os tristes pensamentos.
Quando o dia nasceu, Montoni ainda não havia regressado. Aquele homem era dado a paixões violentas, a uma vida agitada por estímulos fortes. Quando não se lhe proporcionavam, ia procurá–los, até que o hábito lhes tornava indispensáveis. Assim acontecera com o jogo. Começara por jogar para se distrair, depois a distração transformou–se num verdadeiro vício. Passara a noite numa sala, jogando com outros rapazes que possuíam mais dinheiro do que nobreza. E. embora os desprezasse, Montoni não deixava de conviver com eles a fim de se aproveitar das suas fraquezas. Adoptava para com os seus companheiros uma atitude altiva e imperiosa que, em geral, assusta e submete os covardes e provoca indignação nos espíritos elevados. Três destes rapazes, Bertolini, Orsino e Varezzi, homens sem princípios, sem honra e sem fé, haviam conseguido conquistar–lhe as boas graças e, logo no dia seguinte à chegada, tornaram–se comensais de todos os dias e visitas constantes no palácio. Havia também um tal conde Morano, que se evidenciava pela superioridade de espírito e delicadeza de modos, e a signora Livoni, que Montoni apresentou a sua mulher como pessoa distinta e de grande mérito. Esta senhora, desde o primeiro dia, cativou Emília pela sua graciosidade e doçura.
Madame Montoni não fez muito bom acolhimento aos seus convidados a quem acusava de terem prendido o marido a noite anterior. Mas o título valeu ao conde Morano atenções diferentes das que dispensou aos outros. Para aproveitar a frescura da tarde, foram dar um passeio na gôndola de Montoni. Os últimos clarões do Sol no ocaso refletiam–se nas águas, enquanto no firmamento já cintilavam as primeiras estrelas. O conde Morano sentou–se ao lado de Emília. Pegando no alaúde que esta levara consigo, começou a cantar uma canção melodiosa. Quando acabou, entregou–o a Emília que, por sua vez, cantou uma canção com graça e simplicidade. A melodia, porém, despertou–lhe recordações dolorosas e a voz morreu–lhe nos lábios. Mais tarde, conseguindo dominar–se, cantou nova canção, mais viva e alegre, que eletrizou o auditório. Entre os cumprimentos que lhe dirigiram, os do conde foram os mais entusiastas e a tal ponto que chegaram a desagradar–lhe. Entretanto, Montoni, insensível à música, aproveitou o primeiro pretexto para regressar a Veneza e para abandonar a sua gôndola. saltando para outra com Orsino. Emília, apesar de não gostar dele, viu–o afastar com desprazer, pois considerava a sua presença como proteção, sem poder dizer o que temia. Entretanto, Morano, sentado a seu lado, cumulava–a de atenções. A criada de Emília, porém, demonstrou–lhe que, para alcançar os seus fins, precisava de obter as boas graças de madame Montoni; desta forma, transferiu para ela parte da sua amabilidade, fato que a lisonjeou a tal ponto que, ainda a festa não tocara o seu termo, já ele conseguira conquistá–la. Ao despedir–se, convidou–a assim como a todos os outros, a dar um passeio e irem à Ópera, convite que foi aceito, com grande desagrado de Emília.
A gôndola regressou ao palácio sem Montoni, o mesmo acontecendo nas noites seguintes. Quando regressava a casa, o seu ar furioso e olhar sombrio bastavam para revelar as enormes perdas sofridas.
Muitas semanas decorreram em contínuas festas. Emília teria encontrado certo prazer em observar paisagens e costumes tão diferentes dos que vira em França, se a presença do conde Morano não lhe desagradasse tanto. Talvez ele, com a sua figura gentil e atenções, tivesse conseguido cativá–la, se o seu coração não pertencesse já a Valancourt. Além disso, alguns defeitos de caráter, manifestados, involuntariamente, no ardor do seu entusiasmo, acabaram por indispô–la contra ele.
Depois da saída de França, Montoni já não se dava ao trabalho de ter atenções com sua mulher, afastando–se dela e tratando–a com rudeza quando lhe falava. Ficara muito desiludido com o casamento. Madame Chéron conseguira fazê–lo acreditar que era muito mais rica do que de fato era e, desta forma, o Italiano fora enganado pela mulher a quem tentava enganar, uma mulher pouco inteligente a quem sacrificara a sua liberdade sem ter conseguido evitar a ruína que o ameaçava. Além disso, madame Montoni pusera quase toda a sua fortuna em seu próprio nome. O marido apoderara–se do resto e, conquanto essa soma fosse muito inferior às suas necessidades, levou–a consigo para Veneza, a fim de tentar a sua sorte ao jogo.
As informações dadas a Valancourt sobre o caráter e situação de Montoni eram exatas.
Madame Montoni não era mulher para suportar injúrias com paciência e dignidade. O seu orgulho manifestava–se com toda a violência de um espírito mesquinho e pouco habituado a dominar–se. Sem reconhecer a sua própria duplicidade, considerava o marido como o único culpado e sofria, cruelmente, com o seu desdém e muito mais sofreu quando verificou a forma como ele desbaratava a sua fortuna, ela que sonhara ser uma princesa, senhora de um palácio em Veneza e de um castelo nos Apeninos. Muitas vezes, Montoni manifestava a intenção de ir passar algum tempo ao castelo Udolfo, a fim de verificar o estado em que se encontrava, pois não o visitava havia mais de dois anos. Estava entregue aos cuidados de um velho criado a quem ele dava o pomposo nome de intendente.
A perspectiva desta viagem encantava Emília, não só pelas novas impressões que se lhe proporcionariam, como para se ver livre das assiduidades do conde Morano que já lhe declarara o seu amor e que, não se dando por vencido com a sua recusa, fora ter com Montoni. Emília manifestou–lhe o seu desagrado por este procedimento. Morano, porém, vaidoso, continuou a aparecer todos os dias no palácio onde era bem acolhido por Montoni, que protegia, abertamente, as suas pretensões.
Pouco tempo depois de chegar a Veneza, o Italiano recebeu uma carta de Quesnel, comunicando– lhe a morte do tio de sua mulher de quem herdara um palácio em Brenta. Anunciava a sua próxima chegada a Itália e convidava os Montoni e a sobrinha para irem visitá–lo.
Na mesma altura, Emília recebeu uma carta que lhe agradou muito mais. Era de Valancourt. Este, depois de reafirmar o seu amor e constância, participava–lhe que tinha abandonado Toulouse e se encontrava instalado no castelo do irmão, nas proximidades do Vale. Mais adiante acrescentava: “Acabo de ter conhecimento de um fato que me roubou todas as esperanças e me decidiu a regressar ao meu regimento. O Vale foi alugado, possivelmente sem o seu consentimento, e por isso lhe comunico. A Teresa chorava quando me participou ter de abandonar o castelo onde passara a maior parte da sua vida. O senhor Quesnel ordenou–lhe que saísse logo, pois o novo inquilino já está instalado. Tive a impressão — acrescentava o rapaz — de que expulsando do "Vale a única pessoa que ali tinha vivido consigo, nos separavam à força pela segunda vez. Mas não posso acreditar que estejamos separados para sempre, minha adorada! Um dia seremos um do outro!”
Se, por um lado, Emília ficou radiante com esta carta e com a certeza de que Valancourt não se esquecera dela, por outro, sentiu–se indignada por Quesnel ter alugado o Vale sem o seu consentimento.
Perguntava a si própria como poderia proteger Teresa e abordar o assunto com Quesnel sem lhe falar na carta de Valancourt, quando o próprio Montoni lhe deu o ensejo que procurava.
Este mandou–a chamar ao seu gabinete. Quando Emília entrou, mostrou–lhe uma carta de Quesnel e declarou:
— Vou escrever a seu tio sobre um assunto que lhe diz respeito, Emília, e para o qual desejamos obter o seu consentimento.
Emília declarou–lhe que já estava à corrente do que se passava, fato que muito admirou Montoni, e afirmou que, justamente, desejava falar com ele a esse respeito.
O sangue–frio de Emília surpreendeu ainda mais Montoni, que acentuou, observando–a:
— Sim, o assunto é de grande interesse para si e espero que o encare da mesma forma que nós o encaramos. Concorda então que as objecções fundadas no sentimento devem ceder perante outras considerações de caráter mais sério?
Emília supôs tratar–se de Teresa e respondeu:
— Parece–me que as razões inspiradas pelo coração também devem ser levadas em conta. Mas temo que já seja tarde para discutirmos o caminho a seguir e que não esteja em meu poder opor–me.
— Exatamente — concordou Montoni, tão surpreendido como encantado com tanta docilidade — Alegra–me verificar que se submete à razão e à necessidade sem protestos inúteis. Congratulo–me com o seu procedimento e ainda mais porque não contava com ele; indica–me uma sensatez que as suas irmãs em sexo, raramente demonstram. Quando for mais velha, reconhecerá o benefício que lhe prestamos, libertando–a das ilusões romanescas, que devemos repelir ao entrar na idade da razão. Ainda não fechei esta carta. Quer acrescentar algumas linhas para informar seu tio da anuência?
Emília, pegando na caneta que ela lhe ofereceu, acrescentou estas linhas:
“Torna–se inútil fazer–lhe observações sobre o assunto de que trata a sua carta. Gostaria que o tivessem tratado com menos precipitação. Não me deram tempo para dominar o que chamam preconceitos sentimentais e que, a despeito da minha vontade, me perturba a consciência e o coração. Mas como tudo está concluído, submeto–me. Resta–me ainda alguma coisa a dizer sobre certos pontos essenciais, mas reservo–me para o fazer quando tiver a honra de lhe falar. Entretanto, peço–lhe para olhar pela pobre Teresa, em nome da sua respeitosa sobrinha.
Emília Saint–Aubert”.
Quando Montoni leu o que Emília acabava de escrever, franziu a testa como se desagradável reflexão lhe atravessasse o espírito. Depois fitou–a, atentamente, releu a carta, sorriu com ironia e fechou–a sem acrescentar uma palavra.
Por seu lado, Emília recolheu ao quarto para responder a Valancourt. Descreveu–lhe a viagem, a chegada a Veneza e fez algumas observações sobre o procedimento de Montoni. Quanto ao conde Morano, nem sequer lhe falou nele, sabendo quanto os apaixonados são ciumentos.
No dia seguinte, o conde apareceu para almoçar. Mostrava–se de uma alegria exuberante, demonstrando na forma como a tratava uma confiança em si próprio e uma segurança que em vão tentou reprimir, opondo–lhe reserva e frieza. À tarde foram todos dar um passeio de gôndola. O conde, que procurara por todos os modos ficar sozinho com Emília, atreveu–se a beijar–lhe a mão, agradecendo–lhe a bondade que lhe manifestara. Surpreendida, ela retirou a mão, supondo tratar–se de um gracejo. Mas quando chegaram ao terraço, verificou que o conde a levava para o seu rendallentto particular, enquanto os outros se dispunham a entrar nas outras gôndolas. Recusou–se a ir mais longe e voltou para o pórtico. O conde insistiu, protestando:
— O seu capricho torna–se incompreensível. Não vejo inconveniente algum em a levar na minha gôndola. Tem de vir comigo, não cederei nesse ponto.
A antipatia de Emília transformou–se em verdadeira aversão. A audácia do seu perseguidor indignava–a. Montoni apareceu. Os dois homens colocaram–se cada um do seu lado e encaminharam–se para a gôndola. Por fim, o conde quebrou o silêncio que se ia tornando incómodo:
— Queria, simplesmente, demonstrar–lhe o meu reconhecimento.
— O seu reconhecimento, porquê? — inquiriu Emília, surpreendida e enervada.
— Para que desmente com olhares severos a bondade da sua resolução? Já lhe dei motivos, desde ontem, para duvidar do ardor da minha paixão por si? É inútil, adorada Emília, continuar a disfarçar os seus sentimentos.
— Se os tivesse disfarçado — replicou Emília — de fato, seria inútil a dissimulação. Esperava que me poupasse a desagradável obrigação de os manifestar outra vez, mas, visto obrigar–me a fazê–lo, declaro–lhe, pela última vez e bem alto, que a sua inexplicável teimosia lhe rouba a minha estima, único sentimento que poderia conceder–lhe.
O conde mal podia acreditar no que ouvia e, furioso, olhou para Montoni. Este também manifestava surpresa, talvez fingida, e indignação.
— Tanta audácia e capricho espantam–me! — exclamou — Mas se o conde está apaixonado por si, mademoiselle, eu que não estou não quero ser joguete da sua leviandade. Propõe–lhe um casamento que honra toda a sua família. Resistiu a todas as nossas insistências. Mas agora, a minha honra está em jogo e eu não admito que a manchem. Faça–me o favor de confirmar o consentimento que ontem me encarregou de transmitir ao conde.
— Eu! — protestou Emília — Eu encarreguei–o? Com certeza se equivocou. A minha resposta foi sempre a mesma. Declarei ao conde Morano, assim como a si, que nunca aceitaria a honra de ser sua mulher e repito agora essa declaração. Se lhe aprouve transmitir–lhe o contrário, não fui eu quem o solicitou.
O conde soltou surda exclamação, mas Montoni, furioso, replicou:
— É capaz de negar que aceitou a mão do conde?
— Nego — reafirmou Emília com indignação — Nunca aceitei semelhante proposta.
— E nega também o que escreveu a seu tio Quesnel? — teimou Montoni — Nesse caso, a sua caligrafia falará por si. Que tem a dizer a isto? — concluiu, aproveitando o silêncio e o espanto de Emília.
De fato, a pobre rapariga não conseguia proferir palavra, tão grande era a comoção ao verificar a interpretação dada às linhas escritas na véspera.
O conde observava–a com ansiedade, não sabendo se devia atribuir a perturbação da suposta noiva à confusão de uma rapariga leviana apanhada em falta.
Porém, quando conseguiu falar, Emília voltou–se para Montoni e protestou:
— Verifico que se enganou ou tentou enganar–me a mim.
— Basta de duplicidade, mademoiselle. Seja franca e sincera, se puder.
— Nunca deixei de o ser, nem tenho que mentir.
— Que quer isto dizer? — interrompeu Morano, no auge do espanto.
— Sei lá! Quem pode saber o que se passa no cérebro de uma mulher?
— Espero e exijo uma explicação.
— Também eu a exijo — declarou Emília, dirigindo–se a Montoni — Permita–me uma só pergunta.
— Mil, se quiser — replicou, desdenhosamente, o Italiano.
— Qual era o assunto tratado na carta que dirigiu a meu tio?
— O honroso pedido do conde Morano. Não podia ser outro.
— Nesse caso, ambos nos enganámos.
— Também nos enganámos na conversa que precedeu a sua resposta? Sendo assim, terei de reconhecer a sua habilidade para arranjar mal–entendidos.
Emília mal conseguia reprimir as lágrimas, enquanto o conde, furioso, se dirigia a Montoni.
— O senhor enganou–me. É de si que exijo a explicação.
— De mim? Seja, tê–la–á de qualquer forma.
Aterrada com as consequências que poderiam resultar da disputa entre os dois homens, a filha de Saint–Aubert explicou a confusão, afirmando que ao falar com Montoni supusera tratar apenas do aluguer do Vale. Por último, pediu ao Italiano para escrever a Quesnel a fim de emendar o erro.
O conde, dificilmente, reprimia a cólera, mas Emília empregou todos os seus esforços para evitar uma colisão entre duas pessoas que momentos antes se uniam para a perseguir e até insultar.
Montoni deu ordem para regressarem a casa. Quando chegaram, o conde conduziu até à sala aquela a quem considerara como sua noiva. Pegou–lhe na mão, beijou–a, a despeito dos esforços por ela empregados para se libertar, e desejou–lhe boas noites com uma expressão e olhares que não deixavam dúvidas a respeito dos seus sentimentos. Depois afastou–se com Montoni.
Fechada no quarto, Emília refletiu, desolada, na conduta tirânica de Montoni, na impudente perseguição de Morano e na triste situação em que se encontrava longe da pátria e dos seus amigos.
Qual seria o interesse de Montoni para empregar assim a manha e a mentira, tanto para com ela como para o seu cúmplice? Tornava–se bem claro que o Italiano se aproveitara dos termos vagos por ela empregados na resposta a Quesnel como arma favorável para a execução dos seus próprios planos. Não se aproveitaria ele agora do pretendido erro para a obrigar, evocando o compromisso tomado, a casar com Morano? A sua ansiedade por falar com Quesnel era enorme e aguardava com um misto de esperança e receio o dia fixado para a visita a Miarenti.
No dia seguinte, foi ter com a tia, contou–lhe o ocorrido e pediu–lhe a sua interferência para comunicar ao conde a sua recusa formal e definitiva. Infelizmente, verificou que a tia, já ao fato do que se havia passado, estava contra ela.
— Não esperes que aprove a tua atitude e te proteja. Já dei a minha opinião sobre o assunto. Acho que meu marido tem razão em procurar obter o teu consentimento por todos os meios ao seu alcance. Quando as pessoas teimam em desconhecer os seus próprios interesses, cumpre aos seus amigos, mais sensatos, impedir a sua loucura. Gostava de saber se pretendes partido mais vantajoso do que aquele que te propõem?
— Certamente que não. Não sou tão orgulhosa que me desconheça...
— Não és orgulhosa... não és orgulhosa! Pelo contrário, és muito. De resto, tens a quem sair. O teu pai, meu pobre irmão, era orgulhoso e tinha vaidade nisso, sem pensar que a situação não estava de acordo com as suas pretensões.
Irritada com a forma como a tia falava do pai, interrompeu a conversa.
Nos dias que decorreram até à partida para Marienti. Montoni não dirigiu a palavra a Emília. O ressentimento lia–se–lhe no olhar, mas não renovou a perseguição, fato que espantou Emília e mais ainda a ausência do conde, cujo nome Montoni nem sequer pronunciava. O que se teria passado? Ter–se–ia seguido um duelo entre os dois homens com graves consequências para o conde? Ou Morano, convencido com as suas categóricas recusas, desistira das suas pretensões? Ou ainda, na esperança de que uma atitude discreta teria mais êxito do que as suas importunidades, suspendera as visitas por algum tempo, contando obter da generosidade da mulher amada aquilo que não conseguira alcançar por amor?
E os dias iam passando entre alternativas de esperança e receio. Por fim, Montoni pôs–se a caminho para Marienti. Embarcaram uma hora antes de anoitecer.
Sentada à ré da embarcação, Emília via as margens fugirem, os palácios confundirem–se pouco a pouco com as brumas e as primeiras estrelas despontarem no firmamento. A noite estava calma e fresca, a lua nascia. O monótono bater dos remos e o murmúrio das águas, tudo se conjugou para a mergulhar em tristes reflexões. À medida que a embarcação avançava, começou a ouvir vozes e, por fim, avistou uma bela casa, rodeada por pinheiros e sicómoros. Era o castelo herdado por madame Quesnel.
A embarcação encostou junto dos degraus de mármore, profusamente iluminados com a claridade que saía do pórtico. Montoni desembarcou com a família e foi encontrar os Quesnel no meio de alguns amigos, sentados em sofás, debaixo das arcadas e saboreando deliciosa fruta e refrescos. Um pouco mais longe, alguns músicos executavam melodiosa serenata.
Já habituada aqueles usos, Emília não ficou surpreendida por encontrar os donos da casa, instalados no pórtico, às duas horas da noite.
Após os cumprimentos da praxe, os recém–chegados sentaram–se e tomaram parte na ligeira refeição.
Quesnel chamou Montoni de parte a fim de lhe falar em negócios no tom importante que lhe era habitual, referindo–se com vaidade às vantajosas aquisições que acabava de fazer, lamentando, ao mesmo tempo, Montoni pelas perdas que sabia ter sofrido. O Italiano, sentindo–se ferido no seu orgulho, manteve–se em silêncio, numa atitude desdenhosa. Mas quando o nome de Emília foi proferido, os dois homens afastaram–se para o jardim.
A infeliz rapariga aproximou–se então de madame Quesnel que falava de França, na esperança de ouvir o adorado nome de Valancourt. Mas a castelã, que durante a sua permanência em França só falava de Itália, em Itália só tinha elogios para a França, como todas as pessoas que procuram despertar a inveja dos seus ouvintes, descrevendo–lhes espetáculos que só elas tiveram a dita de contemplar.
Por seu lado, madame Montoni celebrava os encantos de Veneza e apregoava as belezas e prazeres que, por certo, iria disfrutar durante a sua visita ao castelo dos Apeninos. Pura vaidade! Emília sabia bem o que pensava a tia acerca dos velhos castelos como o de Udolfo. Mas o mundo é assim. Todos pretendem, tanto quanto a delicadeza o permite, magoar os outros com a ostentação da sua riqueza. Estendidos em divãs, rodeados por grandioso espetáculo da Natureza e por maravilhas da arte, caracteres bem formados e espíritos bondosos teriam tentado transmitir aos outros as suas alegrias e sensações, em vez de lhes ferirem o amor próprio.