Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 5 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

IV. O Ferido

IV

O Ferido

Saint–Aubert acordou cedo e, como se sentisse mais bem disposto, quis pôr–se a caminho imediatamente. Durante o almoço, Valancourt aconselhou–o a ir até Beaujeu, cidade importante do Roussillon.

— O caminho por onde viemos e a estrada de Beaujeu cruzam–se a légua e meia daqui; Se quiser, posso servir–lhe de guia até lá.

Saint–Aubert aceitou a proposta. Meteram pela estrada que atravessava ridente vale onde abundavam os prados e bosques. O Sol ainda não despontara, os pastores conduziam os rebanhos para a montanha e o ar matinal estava impregnado de mil perfumes. Saint–Aubert respirava a plenos pulmões, sentindo–se reviver.

Pouco a pouco, as brumas da manhã dissiparam–se e para oriente o céu começou a tingir–se com um clarão rosado. Os primeiros raios do Sol espalharam as últimas sombras e fizeram cintilar as gotas de orvalho e a água cristalina do ribeiro. A Natureza despertava.

Emília quis apear–se e Valancourt uniu–se aos dois viajantes num comum sentimento de admiração pelas obras do Criador.

Saint–Aubert simpatizava cada vez mais com o rapaz e não foi sem pesar que viu aproximar–se o cruzamento das duas estradas.

Despediram–se de Valancourt com mais carinho do que, habitualmente, inspiram conhecimentos tão recentes. Quando ele se afastou depois de ter prolongado o mais possível os minutos que antecediam a separação, Saint–Aubert não pôde deixar de notar o olhar triste que relanceou a Emília e que esta correspondia com timidez à sua saudação de despedida.

Em breve, a região mudou de aspecto e os viajantes encontraram–se rodeados por montanhas quase a pique, cobertas por espessas florestas. Os picos mais altos, cobertos de neve, escondiam–se nas nuvens. A estrada subia e já não se encontravam povoados nem sequer choças de pastores. Caminharam todo o dia até que o crepúsculo veio acentuar o aspecto triste da paisagem.

Saint–Aubert supunha estar próximo de Beaujeu, mas a escuridão aumentava. Montanhas, bosques e torrentes, tudo se confundia nas sombras da noite. Miguel avançava com precaução, a custo distinguindo a estrada. '

Ao contornarem uma montanha viram, de súbito, um clarão brilhante que se elevava a certa distância! Partia de uma fogueira acesa, por acaso ou de propósito, por um desses bandos de salteadores que infestavam os Pirenéus. Saint–Aubert receava que a estrada passasse perto e, embora fosse armado, refletia no perigo que ele e a filha correriam se fossem atacados, quando atrás deles, a certa distância, alguém ordenou ao cocheiro que parasse. Assustado, o pai de Emília ordenou–lhe que andasse mais depressa, mas, ou por–: que fosse impossível ou porque o homem não estivesse para isso, continuaram no mesmo andamento. O galope de um cavalo ouvia–se cada vez mais perto e já se avistava o cavaleiro que tentava alcançar o coche, renovando a ordem para pararem.

Saint–Aubert, não duvidando das más intenções do desconhecido, engatilhou a pistola e fez fogo. O cavaleiro cambaleou na sela e soltou um gemido. Pode calcular–se o terror de Saint–Aubert quando reconheceu a voz! Mandou parar o coche e correu para o ferido. Não se enganara. Era Valancourt que ainda conseguia manter–se a cavalo, mas cujo sangue corria em abundância.

Fora atingido num braço e parecia sofrer muito, conquanto, para tranquilizar o seu agressor, afirmasse não ser mais do que leve arranhadura.

Auxiliado por Miguel, fê–lo descer do cavalo e tentou ligar–lhe o braço. Mas as mãos tremiam–lhe tanto que não o conseguiu. Chamou por Emília e como ela não lhe respondesse, foi ver ao coche e encontrou–a sem sentidos.

Nesta cruel situação, receando tanto pela filha como pelo ferido, cujo sangue continuava a correr, gritou ao cocheiro para ele lhe trazer um lenço molhado na água do ribeiro. Entretanto, Valancourt, ouvindo–o chamar por Emília, compreendeu o que se passava e fez um esforço para ir socorrê–la. Felizmente, quando conseguiu aproximar–se, já ela tinha voltado a si. Desmaiara por causa dele! Com voz trémula, apressou–se a garantir a pouca gravidade do ferimento.

Saint–Aubert, vendo que o sangue de Valancourt continuava a correr, rasgou a própria roupa para fazer uma ligadura. Depois acomodaram o ferido no coche e continuaram o caminho para Beaujeu.

Como Saint–Aubert manifestasse o seu espanto pelo novo encontro, Valancourt explicou:

— Depois de os deixar, senti–me mais só do que nunca. Como viajo por prazer, voltei para trás na ideia de os alcançar e partilhar os perigos que pudessem correr nestas montanhas.

— E eu respondi com um tiro a tanta amabilidade — lamentou Saint–Aubert que deplorava a sua precipitação.

Entretanto, estavam mais próximos da fogueira. Era um acampamento de ciganos cujo aspecto assustou Emília. Alguns homens e mulheres estavam agrupados em volta de enorme caldeirão que aquecia sobre o fogo. Mais longe, via–se uma espécie de tenda grosseira, em volta da qual brincavam crianças esfarrapadas e alguns cães. O quadro era repugnante e ao mesmo tempo pitoresco.

Os viajantes viram o perigo e cada um deles empunhou uma pistola. No entanto, passaram sem novidade. Ou os ciganos não estavam preparados para o encontro ou a ceia ocupava toda a sua atenção.

Percorrida légua e meia, os viajantes chegaram a Beaujeu. Mal se instalaram na única hospedaria da cidade, mandaram chamar o médico, se tal nome se podia dar a uma espécie de ferrador que tratava homens e animais ao mesmo tempo, e que, nas horas vagas, desempenhava ainda o ofício de barbeiro. Examinou o braço do ferido e, tendo verificado não ter a bala penetrado na carne, limitou–se a recomendar–lhe descanso. Ao mesmo tempo, observava o semblante fatigado de Saint–Aubert como se dissesse de si para si: “Eis um homem que precisa mais do médico do que o ferido”. Saint–Aubert, no entanto, não quis confiar–se aos cuidados daquele Esculápio da província, mas como nos arredores não seria fácil encontrar outro mais competente, aconselhou Valancourt a seguir as suas prescrições e resolveu aguardar em Beaujeu O restabelecimento do rapaz.

Decorrido pouco tempo, já se encontrava em estado de viajar, mas não de montar a cavalo. Saint– Aubert convidou–o a acompanhá–los mais alguns dias e ofereceu–lhe lugar na carruagem, convite e oferta que o rapaz aceitou.

Prosseguiram a viagem, parando quando a paisagem merecia a sua atenção e subindo a pé até onde o: coche não poderia chegar. Saint–Aubert colhia plantas para estudo e os outros dois passeavam. Valancourt recitava a Emília algumas passagens dos poetas preferidos ou então limitava–se a contemplá– la em silêncio. Nessas ocasiões, se começava a falar, a voz tremia–lhe, revelando uma perturbação que em vão tentava ocultar. Se ficava muito tempo calado, começava então a falar com animação para evitar a influência perigosa do silêncio.

Percorridas léguas, começaram a descer para o Roussillon. Saint–Aubert sentia–se cada vez mais fraco. Mas como Montigny, a cidade mais próxima, ficava ainda distante, desesperaram de a alcançar antes de anoitecer, tanto mais que a estrada era péssima e em muitos pontos foram obrigados a seguir a pé.

A certa altura, um badalar de sinos animou–os. Saint–Aubert orientou–se na direção do som e, apoiado no braço da filha, começou a subir. A Lua que subia no horizonte, permitiu–lhes avistar as torres que se elevavam no alto da colina.

Saint–Aubert não podia dar nem mais um passo e para descansar sentou–se na relva, entre a filha e Valancourt. No ponto em que se encontravam podiam abranger com a vista todo o vale que acabavam de percorrer e que estava já envolto em trevas, enquanto os cumes das montanhas começavam a ser iluminados pelo luar. O espetáculo era soberbo.

— Paisagens como esta fazem–nos vibrar como se escutássemos música divina — comentou Valancourt — e, numa hora destas, parece–me que o meu amor pelos entes queridos ainda se torna mais profundo.

Uma lágrima correu pelas faces de Saint–Aubert e foi tombar na mão que a filha apertava entre as suas. Emília adivinhou o que se passava na sua alma, porque também ela se lembrara da mãe, — Sim — concordou o doente — nestes momentos pensamos mais nos entes queridos que desapareceram. É como uma harmonia longínqua, escutada no silêncio da noite. E pensar que existem corações endurecidos que desconhecem estas doces emoções!

— E existem, de fato? — perguntou Emília.

— Daqui a alguns anos talvez sorrias quando te lembrares dessa pergunta, se as lágrimas de tristeza te não recordarem. Mas já me sinto melhor agora. Podemos continuar.

Abandonaram o bosque e logo avistaram no planalto o convento que tanto haviam procurado. Dirigiram–se à porta e bateram. Um frade abriu e conduziu–os à cela do superior. Estava sentado numa cadeira de braços, diante de um livro aberto em cima da mesa. Recebeu os viajantes com amabilidade, fez–lhes algumas perguntas e mandou–os acompanhar à sala onde lhes foi servida a ceia. Saint–Aubert sentia–se muito doente para poder comer e Valancourt, inquieto e pensativo, só pensava em o animar.

Separaram–se cedo e cada um recolheu à sua cela. Preocupada com o estado do pai, Emília não conseguiu conciliar o sono e foi encostar–se à janela.

A noite estava calma e ligeira brisa agitava o arvoredo do vale. A voz suave dos religiosos elevava–se da capela. Esmagada por uma emoção muito pura, a alma de Emília pareceu transcender o universo visível para subir à fonte de toda a misericórdia.