Os Mistérios do Castelo de Udolfo

Ann Radcliffe · Capítulo 11 de 46

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Os Mistérios do Castelo de Udolfo

X. O Italiano

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O Italiano

As festas dadas por madame Clairval, as adulações que a rodeavam, a fama sempre crescente da sua riqueza levou madame Chéron a apressar um casamento que, em sua opinião, devia elevâ–la na própria consideração e na consideração alheia. Numa conversa com a tia de Valancourt, propôs–se dar à sobrinha valioso dote, contanto que madame Clairval fizesse o mesmo ao sobrinho. Esta, por seu lado, vendo em Emília a única herdeira de uma pessoa que supunha ser muito mais rica do que, de fato, era, concordou.

Emília ignorou todas estas combinações até ao dia em que madame Chéron lhe ordenou, sem mais preâmbulos, que se preparasse para casar. Não sabendo o que pensava Valancourt a esse respeito, opôs algumas objecções, mas a tia, tão obstinada num sentido como o estivera noutro, insistiu. Por seu lado, o rapaz, ignorando as combinações das duas tias, ficou admirado quando lhe comunicaram, mas, radiante, foi ter com Emília para lhe pedir que não se opusesse à felicidade de ambos.

Entretanto, enquanto se faziam preparativos para o próximo casamento, Montoni propôs–se como pretendente declarado à mão de madame Chéron. A tia de Valancourt ficou aborrecida com a notícia e pensou opôr–se ao casamento de Emília com o sobrinho. Depois, reconhecendo não ter o direito de os castigar pelas culpas dos outros, mudou de ideias. Como uma verdadeira senhora que era, madame Clairval procurava a felicidade no seu próprio coração e no dos outros e não na fortuna e no esplendor que a rodeava.

Emília via com inquietação o predomínio exercido por Montoni no espírito da tia. A opinião que fazia do Italiano era confirmada pela de Valancourt, que não conseguia ocultar a sua aversão por ele.

Certa manhã, quando trabalhava no pavilhão junto do noivo, cuja ternura lhe abria perspectivas do mais risonho futuro, foram dizer–lhe que a tia desejava vê–la o mais depressa possível. Correu a procurá–la. Ao entrar na sala, ficou admirada com o abatimento da fisionomia, contrastando com o requinte do trajo.

— Minha sobrinha — declarou mal Emília entrou — mandei–te chamar para... para te dar uma feliz notícia. De futuro, terás de considerar o senhor Montoni como teu tio. Casámos esta manhã.

No primeiro momento, Emília ficou tão admirada que não conseguiu proferir palavra. Depois balbuciou um cumprimento.

— De princípio, quis evitar que o meu próximo casamento fosse conhecido. Mas agora, como já se realizou, pretendo dar–lhe certa solenidade. Para poupar tempo, utilizarei os preparativos feitos para o teu próprio enlace, que terá de ser adiado por causa disso. Desejo também que, para honrares a minha festa, envergues um dos vestidos que te comprei para esse efeito. Informa Valancourt do acontecido para que ele, por sua vez, o participe a madame Clairval. Conto com a presença de ambos no banquete que tenciono dar por estes dias.

Segundo os desejos da tia, Emília foi dar a notícia a Valancourt, que ficou mais aterrado do que surpreendido; ao saber daquele casamento, que tinha como resultado retardar o seu, demonstrou um abatimento e desgosto que Emília não conseguiu atenuar. E, quando se despediu dela, fê–lo com tanta ternura e inquietação, que a noiva ficou impressionada.

Montoni estabeleceu–se em casa de sua mulher com o ar de um homem que já há muito tempo considerasse aquilo tudo como seu. O seu amigo Cavigny instalou–se num quarto e mandava nos criados como se fosse patrão.

Dias depois, madame Montoni, tal como o havia anunciado a Emília, deu um jantar seguido por concerto e baile. Valancourt compareceu, mas madame Clairval não o acompanhou. Dançando com Emília, o rapaz, embora olhasse com tristeza as decorações da sala, encomendadas para o seu próprio casamento, esforçou–se por animar a noiva. Madame Montoni dançou e riu durante toda a noite. Quanto ao Italiano, retraído e silencioso, mostrava–se aborrecido com a sociedade frívola que o rodeava.

Decorridas algumas semanas, madame Montoni comunicou à sobrinha que o marido havia resolvido regressar à Itália.

— Iremos para Veneza onde meu marido tem um esplêndido palácio e, em seguida, para o seu castelo na Toscânia.

Como notasse a palidez de Emília, perguntou:

— Ficaste triste porquê? Uma pessoa que aprecia tanto as belas paisagens e as regiões pitorescas devia ficar radiante com a ideia desta viagem.

— Serei obrigada a acompanhá–los? — perguntou, timidamente, a filha de Saint–Aubert.

— Com certeza. Não supões que te deixaria ficar aqui? Já sei. Pensas em Valancourt. Se não está já informado da nossa resolução, não tardará a sabê–lo. Meu marido foi falar com madame Clairval, a fim de lhe comunicar que a aliança entre as nossas duas famílias já não pode realizar–se.

A insensibilidade de madame Montoni, a calma perfeita demonstrada ao comunicar à sobrinha uma resolução que para sempre a separava do homem amado, foram bastantes para a reduzir ao desespero. Quando conseguiu falar e perguntou a causa de tão grande mudança, recebeu como resposta que Montoni se opunha ao casamento, considerando que Emília poderia pretender a um partido muito mais brilhante.

Esmagada por esta brusca declaração, Emília recorreu às súplicas, mas em vão. Recolheu ao quarto, tremendo pelo seu futuro, que se lhe afigurava terrível. Supunha que Montoni a separava de Valancourt no seu próprio interesse e na ideia de a obrigar a casar com Cavigny. Além disso, quando pensava nas guerras civis que dilaceravam a Itália, aterrava–a a perspectiva da viagem. Depois, ao verificar a qualidade das pessoas que, de futuro, seriam senhoras do seu destino e a distância a que ficaria de Valancourt, não pôde reter as lágrimas.

Pode calcular–se o que sentiu Valancourt perante um rompimento tão brusco e inesperado. Mais sensível, no entanto, aos interesses do seu amor do que à sua própria dignidade, não quis irritar Montoni. Esforçando–se por dominar a sua indignação, foi procurá–lo, pessoalmente, e depois solicitou por carta uma entrevista. Porém, fosse pelo receio ou por vergonha, Montoni recusou–se a recebê–lo, insensível à dor expressa na carta e aos sólidos argumentos que nela expunha. As cartas foram–lhe devolvidas sem serem abertas.

Fora de si, Valancourt apresentou–se no castelo e pediu para falar a madame Montoni e a mademoiselle Saint–Aubert. Recusaram–lhe a entrada e, não querendo entrar em luta com os criados, o pobre rapaz regressou a sua casa num estado de espírito fácil de compreender.

Entretanto, Montoni, ansioso por abandonar a França, apressava os preparativos da viagem. Valancourt escreveu nova carta, não para insistir no seu ressentimento, mas pedindo apenas para se despedir de Emília. Como não lhe respondessem, perdeu a paciência e escreveu à própria Emília, propondo–lhe um casamento secreto. Foi madame Montoni quem abriu a carta e, na véspera da partida, ainda Valancourt não havia recebido uma palavra de esperança.

Emília vivia esmagada por essa espécie de entorpecimento em que a desgraça mergulha os espíritos mais fortes. Adorava Valancourt, considerava–o como o futuro companheiro da sua vida e não concebia a felicidade sem ele. Calcule–se o seu desespero perante a certeza de separação tão brusca e talvez definitiva, os inúmeros obstáculos erguidos entre os dois pela vontade de uma pessoa que, pouco tempo antes, encorajava o seu amor e protegia o seu casamento!

Estas reflexões eram tão dolorosas que, por vezes, julgava endoidecer. Arrastava–se até à janela e abria–a. O ar puro reanimava–a. Uma noite, quando o luar banhava as alamedas, pensou que um passeio àquela hora lhe acalmaria os nervos. No castelo todos dormiam. Desceu a escada, atravessou o vestíbulo, saiu para o jardim e dirigiu–se para o pavilhão onde passara tantas horas felizes ao lado de Valancourt.

Quando se aproximou do pavilhão, parou um instante, assustada com o silêncio e com a escuridão. Mas, não vendo coisa alguma que pudesse justificar os seus receios, entrou.

De repente, alguém murmurou algumas palavras. Soltou um grito, mas logo reconheceu quem as pronunciara. Era Valancourt, que a apertou nos braços. Sem que qualquer deles conseguisse falar, tão comovidos estavam.

— Emília adorada! — exclamou por fim o infeliz rapaz — Vejo–te mais uma vez! Tantas noites errei por estes jardins sem esperança de te encontrar! Hoje, não sei bem porquê, não conseguia abandonar este pavilhão onde me sentia mais próximo de ti.

Em breve, a alegria do encontro foi sobrelevada pela dor da próxima separação.

— Abandonas–me, partes para uma terra estranha, tão distante, onde encontrarás novos amigos e novos adoradores. Todos se conjugarão para te afastar de mim, tenho a certeza. Como não hei–de desesperar? Nunca mais voltarás, nunca serás minha mulher! Como sou desgraçado!

E calou–se, sufocado pela comoção.

— Vês quanto sofro! Acreditas que a minha aflição possa ser inspirada por uma afeição passageira?

— Sofres por minha causa! Como as tuas palavras são, ao mesmo tempo, doces e amargas! Não, não posso duvidar dos teus sentimentos, mas o amor é assim, pronto a admitir suspeitas, mesmo quando a razão as rejeita. Quando dizes amar–me, sinto–me reviver, mas quando estás longe de mim, as minhas dúvidas renascem. Perdoa–me. Reconheço–me culpado por te fazer sofrer assim neste minuto cruel quando, pelo contrário, devia animar–te e consolar–te.

A voz do rapaz vibrava com inflexões tão apaixonadas, que Emília não conseguiu dominar a própria dor. O pranto inundava–lhe as faces.

— Essas lágrimas, que eu desejaria enxugar com os lábios, serão talvez as últimas que choras por mim. Não posso conformar–me com essa ideia. Emília adorada, tenho o coração despedaçado. Agora vejo–te e aperto–te nos braços e daqui a alguns momentos tudo isto não passará de um sonho. Olharei em volta de mim e não te encontrarei, o meu pensamento tentará recordar–te e não conseguirei reviver mais do que uma imagem apagada! A minha memória atraiçoar–me–á. Não, não posso abandonar–te, não podemos arriscar a felicidade de toda a nossa vida, não posso deixar–te nas mãos daqueles que não têm o direito de a destruir. Confia no teu amigo, no teu noivo! Sê minha para sempre!

A voz tremia–lhe. Emília chorava, mas não lhe respondia. Valancourt propôs–lhe para casarem ocultamente. Sairiam de madrugada do palácio Montoni e dirigir–se–iam, imediatamente, para a igreja dos Augustins, onde o padre os aguardaria para os casar.

Emília não lhe respondia e o seu silêncio encorajava as esperanças de Valancourt.

— Fala, Emília, deixa–me ouvir o som da tua voz, querida, confirma as minhas esperanças!

Emília, porém, continuava muda e sentia–se prestes a desfalecer. O combate travado no seu coração entre o amor e o dever, a submissão que a irmã de seu pai tinha todo o direito de exigir dela, a sua repugnância por um casamento clandestino, o temor por uma situação falsa, a perspectiva da pobreza e talvez do arrependimento do homem amado, tantos interesses e sentimentos em jogo, eram demasiado violentos para um espírito já experimentado pelo sofrimento. Por fim, a razão e o dever, por muito dolorosa que fosse a luta, triunfaram sobre as sugestões do amor. Receando, acima de tudo, condenar Valancourt a uma vida medíocre e de sacrifício, inspirada por uma nobreza de alma pouco comum, Emília preferiu a desventura presente a provocar a desgraça futura.

Com sinceridade, revelou a sua maneira de pensar, provando assim o seu amor e apreço, e, com isso, ainda se lhe tornou mais querida. Aos argumentos, visando o seu próprio interesse, o rapaz respondeu com calorosos protestos; depois, pensando no triste futuro a que o seu amor poderia arrastar Emília, compreendeu que o dever o obrigava a renunciar ao projeto do casamento clandestino. Tentou, quanto possível, dissimular a sua dor.

— Adorada Emília — exclamava — Como será possível separar–me de ti, quando pressinto que será para sempre?

E os dois confundiram as suas lágrimas. Pensando, de súbito, no perigo de serem descobertos, chamaram a si toda a sua coragem. Emília, cuja reputação podia perigar, foi a primeira a proferir as palavras de despedida.

— Um instante ainda! — suplicou Valancourt — No meio da minha dor, esqueci–me de te comunicar uma suspeita grave.

Saíram do pavilhão. Ao atravessarem, vagarosamente, o terraço, o rapaz prosseguiu:

— Trata–se de Montoni. Correm certos boatos a seu respeito. Tens a certeza de que pertence à família de madame Quesnel e de que é tão rico como diz?

— Não tenho motivos para duvidar. Mas dize–me o que sabes a seu respeito, suplico–te.

— As informações que me deram são vagas e pouco satisfatórias. O acaso fez–me encontrar um Italiano que me falou a respeito de Montoni e afirmou que, se ele era quem supunha, madame Chéron fizera um casamento desgraçado. Em seguida, falou–me a seu respeito em termos pouco lisonjeiros, e fez, sobre o seu caráter, considerações que me despertaram a curiosidade. Perante a insistência das minhas perguntas, acabou por confessar que, se déssemos crédito à voz pública, Montoni podia considerar–se arruinado, no que dizia respeito a fortuna e a reputação. Falou–me do castelo que possui nos Apeninos e das circunstâncias misteriosas que envolvem a sua vida. Pedi–lhe para se explicar melhor, mas o interesse por mim demonstrado foi, por certo, muito visível. O homem assustou–se e não quis dizer–me mais nada. Em vão lhe falei no castelo dos Apeninos, observando que isso bastava para indicar o bom nascimento de Montoni e alguma fortuna. Abanou a cabeça e calou–se. Fiquei nesta incerteza que para mim se torna num suplício. Avalia, minha querida Emília, quanto sofro ao pensar que partes para uma terra estrangeira, para tão longe, sob o poder de um homem de reputação equívoca. Mas talvez os meus receios sejam infundados e Montoni não seja o homem a quem o Italiano se referia. No entanto, será bom refletires antes de lhe confiares a tua vida.

Enquanto falava, Valancourt passeava agitado pelo terraço. Emília encostara–se à balaustrada e abismara–se em profundas reflexões. O que acabara de ouvir assustava–a e despertava de novo as suas hesitações.

Valancourt deu por isso.

— Emília — disse solenemente — Este momento não é para escrúpulos ou vãs considerações. Pressinto que vais correr grandes perigos, vivendo em casa com um homem como Montoni. Em nome do nosso futuro, suplico–te para evitares as desventuras que nos ameaçara. Dá–me o direito de te defender, minha adorada!

Emília só conseguiu responder–lhe com profundo suspiro. Valancourt continuou a implorar com a convicção inspirada pelo amor e pelos seus temores.

— Este momento é talvez o mais doloroso da minha vida. Se me repeles, não me amas como eu te amo, eu, que tremo de horror ao pensar nos perigos e nas desgraças que vão seguir–se à nossa separação. Não há nenhum que eu não esteja disposto a afrontar para te defender. Não, tu não me queres.

— Se não acreditas nas minhas juras e descrês do meu amor, seriam inúteis todas as palavras para te convencer.

Ao mesmo tempo, o pranto inundava–lhe as faces. Tentando dominar a sua comoção, prosseguiu:

— É forçoso separarmo–nos. No castelo podem dar pela minha falta. Pensa em mim e não me esqueças quando estiver longe. A minha confiança em ti será o meu amparo. Tenta dominar os teus transportes, meu amigo, domina–os por amor de mim. Como posso deixar–te, vendo–te nesse estado... quase louco de dor?

— Para que me deixas então? Ou antes, por que não voltamos a reunirmo–nos ao romper do dia?

— Nunca poderei anuir ao que me pedes. Poupa–me, suplico–te. Já não tenho forças para lutar. Um casamento nessas condições seria imprudente e precipitado.

— Perdoa–me, Emília, perdoa–me. Estou desorientado e quase louco, como disseste. Quando partires, recordar–me–ei desta última conversa e sentirei remorsos pelo que te fiz sofrer. Não me esqueças, minha adorada. Só Deus sabe quando nos tornaremos a ver. Confio na Divina Providência. Senhor, protege–a e defende–a do perigo!

Ao mesmo tempo, amparava–a e encaminharam–se os dois para o castelo. Quando chegaram à porta, Emília olhou em volta de si e parou:

— Temos de nos separar. Não prolonguemos as despedidas. Não me roubes a coragem que já é muito pouca.

Valancourt procurou dominar–se.

— Adeus — murmurou numa voz que tentava tornar firme — Deus voltará a reunir–nos para nunca mais nos separarmos. Adeus, meu amor, minha vida! Não podes calcular quanto sofrerei até receber notícias tuas. Tentarei escrever–te, mas tremo ao pensar nos obstáculos a vencer para receberes as minhas cartas... Confia em mim, Emília querida. Por ti, pelo teu sossego que tanto prezo, hei–de ter coragem para suportar a tua ausência.

— Adeus! — repetiu Emília em voz desfalecida.

— Depois de partires, recordar–me–ei de muitas coisas que pensava dizer–te e não disse. Foi sempre assim. Nunca me separei de ti sem me recordar depois de uma pergunta ou súplica que desejava dirigir–te... Emília, este momento é doloroso, mas o que dizer dos dias futuros? Que saudades vou ter destes instantes em que ainda posso falar–te, ver–te, sentir a tua presença! Mas depois, será a desolação, uma estrada erma por onde caminharei sozinho, como um exilado do meu paraíso.

Apertou–a contra ao peito e depois, num esforço supremo, separaram–se. Valancourt percorreu, precipitadamente, a alameda, e Emília, que ficou junto da porta, ouviu os seus passos desvanecerem–se pouco a pouco nas sombras na noite.

Quando o silêncio voltou a reinar, mais profundo do que nunca, a pobre órfã regressou ao quarto, na esperança de encontrar no sono um pouco de repouso. Mas o sono recusou–se e só a dor foi sua companheira até à manhã seguinte.