Política Externa como Ação Afirmativa: o Governo Lula na África
O Movimento Negro e a África – Voltar-se para a África
marxistas contemporâneos", 320 que desenvolveram uma crítica global à sociedade, em oposição à agenda do período anterior. Como ponto fundamental da nova ação política, grande parte desses movimentos concentrou-se nas demandas culturais, associadas às raízes africanas e à invocação da negritude para definição do sujeito político negro.
A seu ver, o culturalismo passou a prevalecer nos discursos sobre
questões raciais, a tal ponto de o autor sublinhar o que considerou a fetichização dos elementos culturais, em detrimento de componentes, tais como, desobediência civil, boicotes ou luta armada. Na sua opinião, a fetichização dos elementos culturais passou a fazer parte da ideologia nacional, formatando a consciência racial brasileira, que acabou "contaminada pela
perspectiva exotizante e alegórica dos estudos afro-brasileiros". 321 Segundo Hanchard, a ênfase na cultura, definida como cultura
negra,322 seria ainda amplamente dominante, servindo para "imobilizar o negro como protagonista político e mumificar as
práticas culturais como sobrevivências africanas".323 Para o autor, o Movimento não foi capaz de concentrar seus esforços nas "lutas contemporâneas, recorrendo a protestos de natureza apenas simbólica, em que a cultura afro-brasileira passou a ter papel
preponderante".324
Ainda que não se queira, nem tampouco seja necessário, buscar
uma interpretação consensual acerca da agenda do Movimento Negro, ou das múltiplas organizações que o integram, o recurso às duas tradições, a racialista/culturalista e a política, ajuda a identificar os vínculos que o Movimento Negro estabeleceu com a África e com temas africanos.
O Movimento Negro e a África –
Voltar-se para a África
Conforme a tradição racialista/culturalista, a "utopia
afrodescendente"325 recupera a África e as raízes africanas, ao
mesmo tempo em que a ela retorna. Dagoberto José Fonseca 326 recorda que os africanos que aportaram no Brasil desde o século XVI guardaram a lembrança das terras de onde partiram. Com a transmissão oral e a perpetuação das tradições culturais, os africanos e seus descendentes já nascidos no Brasil desenvolveram
uma referência mítica relativamente ao continente africano,327 ao mesmo tempo em que sonhavam com a possibilidade de um
possível retorno. 328
A tentativa dos negros de recuperar e manter vínculos com o continente
africano sempre esteve na origem dos movimentos negros brasileiros e
das pessoas que deles participavam. [Trata-se de] um retorno ao
continente africano. Um retorno mítico329 330 e um retorno místico - o lugar
onde corre o leite e o mel. Uma terra, de fato, onde não havia os conflitos
conhecidos no Brasil – os conflitos de ordem racial, econômica e política.
(...) No início do século XX, observava-se, nessa resistência, a
manutenção do vínculo com a África, até porque, no final do século XIX,
em função dos movimentos abolicionistas, alguns negros conseguiram
voltar [para África] – os agudás. Para aqueles que não conseguiram voltar,
essa referência permanece até hoje.331
Desde então, segundo Fonseca, os negros brasileiros reafirmam
sua vinculação identitária com a África e proclamam o propósito de estreitar relações com os povos africanos. Por isso, explica, a formulação voltar-se para a África, que é própria do imaginário
negro brasileiro 332 e, como tal, aparece inscrita no Programa de Governo da Coalização Lula Presidente.
A despeito, no entanto, das referências míticas e místicas à
África, Fonseca também reconhece que "a África acabou por ficar
muito distante" 333 e, mais recentemente, o Movimento Negro brasileiro voltou-se para as questões internas de interesse para as populações brasileiras descendentes de africanos. "A África passa a
ser aqui". 334
A partir do final da década de 70, através do MNU, a agenda que vinha
orientando os ativistas – baseada na luta pelo reconhecimento social de
uma identidade negra335 – incorpora em sua pauta a questão das
desigualdades resultantes, especificamente, do racismo. Desde os
primórdios da década de 90, a questão das ações afirmativas, entendida
como uma modalidade de políticas públicas, vai ser introduzida na agenda
do antirracismo brasileiro.336
Molda-se, assim, uma nova agenda política das organizações
negras. Nela, privilegiam-se os temas políticos contemporâneos, entre os quais a luta pelas reparações, em que as referências à África e aos temas africanos são reelaboradas e redefinidas, agora à luz dos debates acerca dos efeitos da escravidão e do colonialismo, bem como do neocolonialismo e da globalização, tanto para a própria África e para os africanos, quanto para os africanos
da Diáspora.337
Ações afirmativas e reparações convertem-se nos ícones do
Movimento Negro brasileiro, desde a Marcha Zumbi dos Palmares,
em 1995,338 passando por todo o processo preparatório da
Conferência de Durban,339 até a realização da própria Conferência, em que a delegação brasileira teve presença destacada, cabendo-
lhe, inclusive, a relatoria geral.340
Em seu resumo sobre as deliberações aprovadas em Durban,
Edna Roland, relatora da Conferência, registra os seguintes pontos principais, que têm especial interesse para a agenda da política externa do Brasil para a África:
institucionalizou-se o conceito de afrodescendentes, que se
refere aos descendentes dos africanos escravizados,
especialmente nas Américas. Dessa forma, o conceito não tem
apenas uma referência geográfica, mas contém um sentido
político que se liga à proposta das reparações;341
as ações afirmativas foram reconhecidas como um meio
preferencial de combate às desigualdades raciais;
escravidão e tráfico de escravos foram declarados crimes
contra a humanidade, principais fontes e manifestações do
racismo e da discriminação racial;
apelo aos Estados envolvidos com a escravidão e tráfico de
escravos para honrarem a memória das vítimas e contribuírem
para restaurar sua dignidade;
reconhecimento de que as consequências passadas e
contemporâneas do racismo colocam sérios desafios à paz e
segurança global, à dignidade humana e à realização dos
direitos humanos e liberdades fundamentais;
proposta para que os PEDs enfrentem os desafios da pobreza,
marginalização, etc., por meio de iniciativas como a Nova
Parceria para o Desenvolvimento da África (Nepad) 342 e outros
mecanismos inovadores tais como o Fundo Mundial de
Solidariedade para a Erradicação da Pobreza, e que os países
desenvolvidos, as Nações Unidas e suas agências
especializadas, como também instituições financeiras
internacionais, ofereçam através dos seus programas
operacionais novos e adicionais recursos financeiros para
apoiar tais iniciativas;
reconhecimento de que escravidão, tráfico de escravos e
colonialismo contribuíram inegavelmente para a pobreza,
subdesenvolvimento, marginalização, exclusão social,
disparidades econômicas, instabilidade e insegurança, que
afetam muitos povos de diferentes partes do mundo e requerem
a adoção de programas para o desenvolvimento social e
econômico em diversas áreas: tais como redução da dívida,
erradicação da pobreza, fortalecimento das instituições
democráticas, promoção do investimento estrangeiro, acesso a
mercado, etc.;
pedido aos Estados para concentrarem investimentos nos
sistemas de saúde, educação, eletricidade, água potável,
controle ambiental, como também outras ações afirmativas ou
positivas em comunidades formadas primariamente de
afrodescendentes. 343
Pós-Durban, a agenda política do Movimento Negro brasileiro
tornou-se, portanto, internacional e globalizada. 344 Nela, o papel da África é preservado, não mais como referência mítica, mas como parceira e aliada em uma luta, de escopo internacional, por medidas que visem a combater os efeitos do racismo e da discriminação racial, bem como da pobreza, na própria África e também nos países da Diáspora, onde estejam instaladas as comunidades afrodescendentes. Trata-se de uma agenda de interesses legitimamente compartilhados.
No tocante às reparações, por exemplo, há convergência em
torno do princípio, embora estejam previstas distintas modalidades. No Brasil, reparação "é pensada como desigualdades entre brancos e negros, cabendo ao Estado brasileiro a responsabilidade histórica
de combatê-las". 345 No caso da África, as reparações apontam, entre outras opções, para o perdão da dívida externa, por parte da comunidade internacional e dos países desenvolvidos, em particular, não apenas para reparar os efeitos da escravidão e do colonialismo, mas também do neocolonialismo. São nuanças decorrentes, essencialmente, dos diferentes contextos históricos que produziram e nutrem a necessidade de reparações, mas que não limitam possível combinação, no plano nacional e internacional, entre a agenda política do Movimento Negro contemporâneo e os eventuais parceiros que esse movimento possa identificar na África.
De qualquer forma, registre-se que, mesmo antes de Durban, os
principais parceiros do Movimento Negro brasileiro têm sido seus
homólogos no próprio continente americano e não na África.346
Conforme os relatos da ex-Ministra Matilde Ribeiro 347 e de militantes
de organizações negras, 348 a aproximação, nos últimos anos, entre as comunidades de afrodescendentes na América Latina e Caribe é
notória, 349 350 ao passo que ainda são incipientes os esforços de aproximação com a sociedade civil e os governos africanos em torno de uma agenda de viés racial. A Diáspora revelou-se mais próxima do que a própria África, inclusive pelo contexto de atuação dos movimentos sociais, em particular os movimentos negros.
Ao longo de todo o século XX e já no início do século XXI, as
organizações do Movimento Negro brasileiro atuaram, portanto, em torno de agendas dinâmicas, que refletiam os ambientes nacional e internacional, ao mesmo tempo em que delineavam as relações entre o Movimento Negro e os partidos políticos e entre aquele e a África.