Política Externa como Ação Afirmativa: o Governo Lula na África
Eixos multilaterais políticos
É difícil precisar o momento em que teve início o que a SERE
considerou uma fase potencialmente decisiva do processo de reforma das Nações Unidas, em particular do CSNU. O Grupo de Trabalho sobre a questão da representação equitativa e aumento da composição do Conselho de Segurança, que diz respeito tanto à expansão na composição e direito de veto, quanto aos métodos do trabalho daquele órgão, já funcionava desde 1993. Em 2000, os Chefes de Estado e de Governo, reunidos por ocasião da Cúpula do Milênio, acordaram que deveriam ser intensificados os esforços com vistas a uma reforma abrangente do CSNU, em todos os seus aspectos; e, em 2 de dezembro de 2004, foi divulgado o relatório do
Painel de Alto Nível sobre Ameaças, Desafios e Mudanças, 768 estabelecido pelo SGNU, em setembro de 2003, com o objetivo de apresentar recomendações visando ao fortalecimento do sistema coletivo de segurança, fortemente abalado após os ataques de 11 de setembro ao World Trade Center, em Nova York. Entre essas recomendações, encontravam-se propostas relativas à reforma do CSNU, que serviriam para relançar o debate sobre o tema, especialmente a partir de meados do primeiro semestre de 2005.
De qualquer forma, como na seção anterior, convém sublinhar
que não é objetivo deste estudo discorrer ou apresentar comentários sobre o processo negocial em torno dessa reforma. Tampouco seria construtivo apenas reiterar os fatos e argumentos que atribuem aos países africanos a responsabilidade pela falta de avanços na agenda da reforma do CSNU. Ao contrário, a partir do que já se escreveu anteriormente acerca dos eixos multilaterais econômicos, o que passa a ser, ao mesmo tempo, mais instigante e oportuno é refletir sobre a melhor forma de aproveitar as sinergias da política africana do Brasil e seu histórico de relações bilaterais com os países africanos com o intuito de assegurar os resultados pretendidos pela diplomacia brasileira no tocante à reforma do CSNU. Como exercício analítico ou especulativo e sem temer o que poderia parecer excesso de condescendência com os países africanos, o melhor seria desconstruir as teorias e os conceitos acerca da participação da África no processo de reforma do CSNU e considerar novas interpretações para a resistência africana em aderir ao processo de reforma, tal como apresentado pelo G-4.
Como nota introdutória a esse exercício, convém recuperar alguns
dados básicos necessários à sua contextualização.
Desde setembro de 2004, quando juntaram-se Alemanha, Brasil,
Índia e Japão, com o objetivo de coordenar posições com vistas à aprovação da reforma do CSNU e mais especificamente a expansão do número de seus membros permanentes, o G-4 tornou-se o principal protagonista da dinâmica em favor da reforma do CSNU. Mesmo sem representantes africanos, o G-4, no comunicado de imprensa divulgado em Nova York, em 22 de setembro de 2004, pelos Chefes de Estado do Brasil, de Governo da Índia e do Japão e pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, já anunciava que a reforma deveria assegurar presença africana em um CSNU ampliado. No projeto de resolução que o G-4 tabulou sobre a
reforma do CSNU, 769 em junho de 2005, estavam também consagrados os dois assentos permanentes para a África em um CSNU ampliado.
Não obstante, em meados de 2005, o G-4 ecoaria a voz corrente
dos grupos pró-reforma e viria a identificar, no GA, um dos principais, senão o principal obstáculo à aprovação da reforma do CSNU pela AGNU. Anteriormente, em setembro de 2004, um dos membros do G-4 já manifestava preocupação por não haver uma definição acerca dos candidatos africanos a uma vaga em um CSNU ampliado. De setembro de 2004 a dezembro de 2006, data que encerra o período sob exame, os integrantes do G-4, em conjunto ou separadamente, procuraram desenvolver uma agenda de diálogo com os países africanos, em sua capacidade nacional ou no âmbito da UA, pois entendiam que o êxito da reforma passaria necessariamente pelos apoios que pudessem vir a amealhar no continente, para a proposta do G-4, estando ou não definidos quais poderiam ser os dois candidatos africanos a ocupar os eventuais novos assentos permanentes a serem alocados à região. Os cinquenta e três votos africanos na AGNU seriam decisivos para qualquer mudança que se esperasse aprovar.
A África, que em 1997, na 33ª Sessão Ordinária da Assembleia
Geral da OUA, já havia se manifestado sobre o tema da reforma, viria a reafirmar, em 2004, e nos anos seguintes, a essência da posição adotada em Harare, ou seja, dois assentos permanentes para o continente, mais cinco não permanentes, que seriam preenchidos em sistema de rotação, de acordo com decisão dos próprios países africanos, a ser apenas formalmente ratificada pela eleição na AGNU, de acordo com critérios estabelecidos pela OUA. Também na capital zimbabuana, decidiu-se pleitear a extensão do direito de veto para todos os novos membros permanentes de um Conselho ampliado, caso não fosse possível sua total exclusão. Em março de 2005, na sequência das recomendações sobre a matéria contidas no relatório In Larger Freedom, o Conselho Executivo da
UA adotou o que passou a se chamar de Consenso de Ezulwini,770 que contém a posição comum africana a respeito do conjunto das reformas das Nações Unidas, em particular do CSNU.
Contrariamente ao que dispôs a Declaração de Harare, em
Ezulwini, os países africanos abandonaram o critério da rotatividade, mas mantiveram as demandas por dois assentos permanentes, cinco não permanentes, direito de veto e também eleição dos novos membros por voto apenas da UA. Em julho de 2005, a Cúpula da UA, realizada em Sirte, na Líbia, consagrou o Consenso de Ezulwini e decidiu que o GA deveria manter-se unido em defesa dessa posição, inclusive mediante a tabulação de projeto de resolução, o
A/59/L.67,771 que continha esses elementos. A posição africana, expressa no referido projeto e apresentada à AGNU em 18 de julho de 2005, não diferia muito, segundo a análise de brasileiros e
africanos,772 do projeto do G-4. Tanto assim que a parte brasileira anunciou sua disposição de votar a favor, caso o mesmo fosse submetido a votação, o que nunca chegou a acontecer. Imediatamente após a reunião de Sirte, mas antes do GA, o G-4 tabulou o seu próprio projeto L.64, e, ao apresentá-lo, em plenário, o Representante Permanente do Brasil junto às Nações Unidas, Embaixador Ronaldo Motta Sardenberg, sublinhou que, em Sirte, os Chefes de Estado africanos haviam adotado uma posição muito próxima à do G4.
Desde a Cúpula de Sirte até o final de 2006, a posição africana
não se alterou. Em reunião ministerial realizada em Londres, em julho de 2005, com o G-4 e Nigéria, África do Sul, Líbia e Senegal, integrantes do mecanismo negociador criado pela UA sobre a questão da reforma do CSNU, chegou a ser elaborada uma fórmula de compromisso, com mais um assento não permanente a ser atribuído a África, Ásia e América Latina, que elevaria a composição do CSNU a 26 membros, e a aceitação da proposta do G-4 a propósito do veto. O acordo de Londres, que permitiria combinar os projetos L.64 e L.67, não foi acolhido pela Assembleia da UA, em reunião extraordinária realizada em agosto de 2005, em Adis Abeba, que, ademais, reiterou a disposição do continente de manter posição comum sobre o tema. No âmbito do G-4, o Brasil continuou, no entanto, a considerar a alteração da proposta inicial do G-4, com base no compromisso acordado em Londres, como possível estratégia para assegurar apoio africano ao projeto.
Nos debates na AGNU ou em reuniões públicas sobre a matéria,
a posição comum africana, baseada no Consenso de Ezulwini, foi reiterada por todas as delegações do continente que fizeram uso da palavra, havendo, algumas delas, acrescido manifestações de simpatia ao projeto do G-4 e, eventualmente, à pretensão brasileira, em particular, de ocupar um assento permanente no CSNU ampliado; ou, ainda, referências à possibilidade de convergência entre as posições do G-4 e do GA. Entre os países africanos que, ostensivamente, se opunham à reforma, como a Argélia, por exemplo, essas ocasiões também foram utilizadas para reafirmar o princípio da unidade continental e para denunciar tentativas extracontinentais que procurariam rompê-la.
No último dos debates sobre a matéria realizado na AGNU em
2006, no mês de dezembro, as delegações do Senegal, das Ilhas Maurício e da Nigéria manifestaram-se publicamente em defesa de algum tipo de flexibilização da posição africana, em particular no tocante à questão do veto.
A perspectiva de uma possível flexibilização, inclusive em torno
de um voto comum a todo o continente, passou, portanto, a ser difundida pelos próprios africanos simpáticos à reforma do CSNU, como a possível estratégia para a superação do impasse que estaria, em princípio, inviabilizando a reforma do CSNU, exatamente em razão da posição africana.
No final do primeiro Governo Lula, o entendimento de que se
devia aos africanos o impasse nas discussões sobre a reforma do CSNU parecia consensual no G-4, ainda que a Chancelaria brasileira tenha sempre se manifestado comprometida, no âmbito do G-4, com o diálogo com os países africanos. As críticas à África eram compartilhadas por alguns diplomatas e analistas africanos, que desqualificavam não só a insistência na questão do veto, quanto o mérito da posição em favor da unidade continental. Para eles, a tese da unidade em torno do direito de veto estaria sendo utilizada pelos opositores da reforma, tanto por pressões exógenas, quanto por entenderem que a dilatação do prazo para a escolha dos representantes africanos em um CSNU ampliado correria em seu próprio benefício.
No tocante aos potenciais candidatos às vagas africanas no
CSNU, África do Sul e Egito eram vistos como os dois candidatos naturais às duas vagas previstas no modelo A do relatório do Painel do Alto Nível e defendidas na proposta do G-4. Em dezembro de 2004, em Nova York, a Nigéria indicou, no entanto, a sua disposição de concorrer a uma dessas vagas. A reação de alguns dos membros do G-4 foi de mal-estar, por alegarem que o país não disporia de credenciais internas, como estabilidade política e boa governança, que lhe permitissem ocupar um assento permanente no CSNU e, sobretudo, juntar-se ao G-4. O Brasil, por sua vez, não tomou partido publicamente por nenhuma das candidaturas e admitiu que pudessem ser positivos os debates sobre as candidaturas africanas, pois estimulariam os africanos a avançar nas discussões acerca da reforma do CSNU. Posteriormente, também a Líbia, o Quênia, o Senegal viriam a anunciar sua disposição de poder vir a concorrer a um assento permanente em um CSNU ampliado.
Da data de criação do G-4, até o final de 2006, revelaram-se,
portanto, infrutíferos os esforços de parte da comunidade internacional, e do Brasil, em particular, com vistas à expansão do CSNU e à eleição do Brasil como novo membro permanente do órgão. Não obstante, nesse mesmo período, foi registrada uma inédita expansão dos contatos entre a diplomacia brasileira e suas congêneres africanas, tanto em Nova York, quanto nas próprias capitais africanas, e, consequentemente, uma inegável ampliação da base de diálogo e do conhecimento entre agentes diplomáticos brasileiros e africanos, em benefício da melhor percepção brasileira acerca de temas da agenda e da cultura políticas do continente. De antemão, é possível afirmar que esse foi um resultado francamente positivo dos desenvolvimentos verificados sobre os eixos multilaterais políticos das relações Brasil-África, na medida em que configura nitidamente um avanço no processo de aproximação com a África.
Um breve histórico dos principais contatos havidos, sobretudo a
partir de meados de 2005, entre o Brasil e o GA ou seus países-membros, inclui: i) a presença de delegações brasileiras em todas as cúpulas ordinárias ou extraordinárias realizadas pela UA desde janeiro de 2005, em Abuja; em Sirte, na Líbia, em julho de 2005; em Adis Abeba, em agosto e outubro/novembro de 2005; em Cartum, em janeiro de 2006 e Banjul, em junho/julho de 2006, quando a questão da reforma do CSNU esteve sempre na agenda de trabalhos; ii) o envio de uma dezena de emissários brasileiros, em
junho e julho de 2005, a 32 países africanos773 e, novamente, em
setembro e outubro do mesmo ano, a 26 países da África, 774 com cartas do Presidente da República a propósito do apoio africano à proposta do G-4 e à possibilidade de convergência entre o G-4 e o GA sobre a reforma do CSNU; iii) a realização de um sem-número de reuniões informais e entrevistas em Nova York, com delegações africanas, ao longo de todo o ano de 2005 e 2006, com o propósito de prestar informações e buscar apoios para as posições do Grupo e também para o projeto de resolução apresentado pelo G-4 relativo à reforma do CSNU; iv) inúmeras gestões nas capitais africanas, sobretudo naquelas que são sede de representações diplomáticas brasileiras, tanto para pedir participação em debates, nas Nações Unidas, sobre a matéria, quanto para pedir, mais explicitamente,
endosso à candidatura brasileira; 775 e v) presença em reuniões internacionais em diferentes cidades, com o intuito de realizar
gestões a propósito da reforma do CSNU.776
Essa aproximação ao continente e à diplomacia africana no
contexto das discussões sobre a reforma do CSNU, somada ao diálogo com outros setores dos governos africanos, em geral seus ministérios da área econômica, no âmbito das negociações da Rodada de Doha, aportaram evidente dinamismo ao conjunto das relações Brasil-África no período 2003-2006. Em suas duas vertentes, esses eixos multilaterais colocaram, portanto, a África e seus respectivos representantes na lista de interlocutores e interlocutoras da diplomacia brasileira em temas importantes, senão prioritários, da agenda diplomática nacional.
Como visto na seção anterior, a aliança com os africanos sobre o
eixo multilateral econômico pôde amplamente beneficiar-se de referências aos pilares de sustentação das relações Brasil-África. Mais do que isso, parte desses pilares parece ter sido concebida exatamente com o objetivo de poder servir de elemento propulsor às negociações que viriam a se desenrolar no âmbito da Rodada de Doha e, posteriormente, em torno da proposta de criação de uma Ação Mundial contra a Fome e a Pobreza.
No tocante aos debates acerca da reforma das Nações Unidas e
do CSNU, em particular, o que se observa, como, aliás, já se
identificara no capítulo 5, é que tais reformas não estão nitidamente associadas àqueles mesmo pilares. Sua presença na agenda das relações Brasil-África dá-se em paralelo, portanto, às justificativas e ao respaldo doutrinário que serviram ao discurso brasileiro nos foros multilaterais econômicos e, talvez, como consequência, à larga adesão dos PEDs, entre os quais os países africanos, às teses defendidas pelo Brasil.
No sentido de buscar ampliar a adesão dos PEDs, mas, em
particular, os países africanos às posições brasileiras no tocante à reforma do CSNU, poder-se-ia, portanto, sugerir a projeção do discurso diplomático elaborado para dar sustentação às relações Brasil-África também para as discussões a propósito da reforma do CSNU. Em outras palavras, o que se propõe é que os eixos multilaterais políticos das relações Brasil-África sirvam-se igualmente dos pilares de sustentação que estão inscritos no discurso diplomático brasileiro para a África.
Com esse objetivo em mente – de agregar apoios africanos à
proposta de reforma do CSNU – eventual revisão da posição brasileira à luz da política externa para a África recomendaria duas atitudes, uma reflexiva sobre os argumentos que informam essa posição, e outra educativa, no sentido de buscar externamente novas referências capazes de contribuir para esse processo de revisão.
Primeiramente, portanto, caberia um olhar sobre os argumentos
que vêm sendo utilizados pelo Brasil junto aos parceiros africanos em defesa da reforma e, sobretudo, seu caráter urgente.
De acordo com documento de posição preparado pela
Chancelaria brasileira, em 2005, intitulado Posição do Brasil sobre a reforma do conselho de segurança, alguns dos elementos básicos que informam a posição e a atuação brasileiras na matéria são: a) a necessidade de atualização das estruturas de concertação internacional em matéria de paz e segurança, em razão das novas e antigas ameaças com que a comunidade internacional se depara; b) a ausência de PEDs no CSNU é uma grave deficiência diante da crescente complexidade dos temas sob a alçada do CSNU e da intensificação de suas atividades; c) mudanças da realidade internacional não se fizeram acompanhar de mudanças compatíveis na estrutura decisória do CSNU; d) o aumento das atribuições do CSNU exigiria uma revisão de sua representatividade, com vistas a assegurar eficácia a suas ações; e) a ocorrência de um momento novo e a necessidade de evitar a erosão adicional, e possivelmente irreparável, do sistema de segurança coletiva; f) a democratização ideal do CSNU revela-se impossível em razão das resistências dos atuais membros permanentes; e g) o Brasil está comprometido com processos decisórios mais transparentes e representativos da diversidade dos países que integram a comunidade internacional, cuja ampla maioria é constituída por PEDs.
Nesse mesmo documento, seguem-se os atributos brasileiros que
qualificariam o país a pleitear um assento permanente no CSNU e, no final do documento, as palavras do Presidente Lula sobre paz e justiça social, bem como a indicação da percepção brasileira "de que são claros os limites de uma visão preponderantemente militar dos processos de construção da paz e manutenção da segurança no mundo". Nesse contexto, há, então, finalmente, menção ao empenho brasileiro "no combate à fome e à pobreza, [e] nosso compromisso com uma reforma das Nações Unidas que vá desde a ampliação do CSNU em suas duas categorias até a revitalização da Assembleia Geral e o fortalecimento do Ecosoc". Ainda como parte da posição brasileira, na conclusão do documento, evocam-se palavras do então SGNU, Kofi Annan, para quem "não haverá paz nem segurança, nem mesmo para os mais privilegiados entre nós, num mundo que continua dividido entre os extremos da pobreza e da riqueza".
A despeito de sua justeza, propriedade e consistência, os
argumentos brasileiros acima enunciados apenas tangenciam, ou relegam ao final da peça argumentativa brasileira, o tratamento da vinculação entre paz e desenvolvimento ou ainda daquilo que o Painel de Alto Nível apresentou como sendo as soft security threats, que são os problemas socioeconômicos, HIV/AIDS e o crime organizado, em paralelo às hard security threats, que são, por sua vez, o terrorismo e as armas nucleares e biológicas. Como observam Adekeye Adebajo e Helen Scanlon, na Introdução do livro
A dialogue of the deaf: essays on Africa and the United Nations 777 , as principais contribuições do relatório do Painel de Alto Nível, em comparação a análises anteriores sobre segurança global, estão associadas a essa noção de soft threats, ou seja, são "sua insistência em que haveria uma clara ligação entre os temas de desenvolvimento e segurança, e a ênfase atribuída tanto à
segurança humana quanto à segurança militar tradicional". 778
Ambos africanos, Adebajo e Scanlon escrevem com o propósito
de chamar a atenção para a perspectiva do continente no tocante à reforma das Nações Unidas. Seus comentários são úteis para recordar que "a identificação da segurança e desenvolvimento como ameaças globais à segurança tem claras implicações para a
África".779 Podem igualmente servir para estimular uma reflexão por parte da diplomacia brasileira acerca da oportunidade e viabilidade de revisão de seus argumentos em prol da reforma do CSNU junto a interlocutores africanos, à luz do que seriam, portanto, os principais interesses africanos em jogo no processo de reforma.
Essa reflexão pressupõe, todavia, o empenho educativo proposto.
Conviria, portanto, tentar captar os sinais emitidos pelo continente africano, ou seus representantes, quer governamentais, quer da sociedade civil, acerca do significado da reforma das Nações Unidas e do CSNU, em particular, para o conjunto da África e especialmente para suas populações. Novamente, é instrumental o trabalho mencionado acima, produzido por The Centre for Conflict Resolution, da Cidade do Cabo, na África do Sul. O título em si já resume a essência dos textos publicados: "A África e o Ocidente têm se dedicado a um diálogo de surdos na ONU e em outros foros
internacionais, desde os anos de 1980, da década perdida". 780 O Brasil, que se reconhece como interlocutor privilegiado do continente africano, deveria, assim, poder contrapor-se a esse diagnóstico.
Algumas das observações apresentadas por Adebajo e Scanlon
apontam, por exemplo, para o fato de o Consenso de Ezulwini não se resumir aos temas da reforma do CSNU. Aquele documento, que é o único da mesma espécie por oferecer uma reação continental ao documento produzido pelo Painel de Alto Nível, traz referência a todos os aspectos da reforma e também às iniciativas com vistas ao cumprimento das metas do milênio, ademais de orientações acerca do tema da responsabilidade de proteger, que a UA acolheu, em
seus documentos, como um compromisso no âmbito continental.781
Sublinham que, do conjunto de 16 membros do Painel de Alto
Nível, três eram africanos e teriam se empenhado em produzir uma mudança no entendimento sobre as ameaças à segurança global, estendendo-as para além das referências a terrorismo e outros temas considerados sob a classificação hard, para incluir ameaças do tipo soft, dentre as quais a necessidade de desenvolvimento como condição essencial para o sistema internacional de segurança. Na opinião de uma das painelistas, a ganense Mary Chinery-Hesse, seria muito importante que a África não perdesse parte do terreno que se conseguiu conquistar no relatório do referido
Painel.782
Essencialmente, o que se tem, pela perspectiva africana, é o
alerta de que o debate atual acerca da eficácia das Nações Unidas, inclusive do CSNU, deveria necessariamente estar associado às ameaças que se apresentam à África no domínio da segurança e do desenvolvimento.
Os registros contidos na publicação do Centre for Conflict
Resolution são transparentes no que diz respeito ao papel que as Nações Unidas deveriam desempenhar no continente africano, inclusive, por meio do Conselho de Segurança. Somados às posições defendidas pelos representantes africanos no Painel de Alto Nível, traduzem claramente o apelo da África por uma Organização das Nações Unidas e todos os seus órgãos necessariamente comprometidos com a causa da luta contra a pobreza na África e com a melhoria das condições de vida para as populações africanas.
Essa é exatamente a essência da política brasileira para a África.
O objetivo comum a ser alcançado via fortalecimento do multilateralismo e aprofundamento dos laços bilaterais é a luta contra a exclusão social.
Nesse sentido, o desafio para a diplomacia brasileira consistiria
na reformulação dos argumentos em favor da reforma do CSNU 783 de modo a somar a todos os demais o propósito da inclusão e da dignidade para todos aqueles a quem é negada a participação cidadã. Em algumas ocasiões, os diplomatas brasileiros ensaiaram um discurso inspirado nesse que é um dos pilares de sustentação não só da política para a África, mas do conjunto das iniciativas do Governo brasileiro. No entanto, foram situações isoladas e talvez tímidas, sobretudo no contexto do G-4, em que a parceria principalmente com o Japão produziria poucas convergências em aspectos substantivos referentes às expectativas de resultados que
se esperariam de um CSNU ampliado. 784 A constante reafirmação por parte do Brasil quanto à necessidade de preservar o princípio não discriminatório na alocação de novos assentos permanentes para todas as regiões, inclusive a África, em oposição à recalcitrância de membros do G-4 no tocante à presença da Nigéria em uma chapa única com candidatos para um CSNU ampliado, ou mesmo à busca de diálogo com os países africanos, é evidência dessa difícil compatibilização entre a participação plena no G-4 e a construção de uma plataforma temática em prol da reforma do CSNU que pudesse melhor refletir a compreensão, senão da totalidade, pelo menos da grande maioria dos países africanos, acerca das ameaças ao continente africano no campo da segurança e a melhor forma de combatê-las.
Lastreada no histórico de relações com a África nesse período
2003-2006, tanto no plano bilateral, quanto nos foros econômicos multilaterais, e, principalmente, nos argumentos e propósitos que sustentam essas relações, a diplomacia brasileira poderia, assim, estar em condições de reformular a estratégia de aproximação aos países africanos com vistas à reforma do CSNU, em estreita parceria, ademais, com a Índia, cujo relacionamento com a África tem perfil bastante semelhante ao brasileiro, no contexto também das relações Sul-Sul. Nesse sentido, registre-se o relato dos encontros que o Embaixador Antonio Patriota, então Subsecretário-Geral de Política I (SGAP-I), manteve em Banjul, por ocasião da Cúpula da UA, em junho de 2006, nos quais afirmou que o Brasil havia se juntado a Alemanha e Japão, "cuja aspiração a assento permanente vem de longa data e já contava (...) com a simpatia de outros membros permanentes, em particular os EUA", embora o Brasil considerasse "fundamental trabalhar com a Índia e a África com vistas a assegurar que a reforma do CSNU corrija o grave deficit de representatividade na categoria de membros permanentes".
***
Da perspectiva das relações Brasil-África, a incorporação do
discurso diplomático para a África nos argumentos em favor da reforma do CSNU seria opção a privilegiar, com vistas a assegurar influências reciprocamente positivas entre os eixos bilaterais e multilaterais das relações entre o Brasil e os países africanos e, logo, contribuir para o equilíbrio da estrutura que conforma essas relações. É sabido que a validade dessa opção estaria, todavia, condicionada à sua eficácia junto a um universo mais amplo de interlocutores brasileiros. De qualquer forma, mais importante será sempre assegurar que, senão positivos, também não sejam negativos os reflexos da agenda multilateral com a África sobre os demais eixos das relações com o continente. Novamente, nesse caso, a noção do equilíbrio é relevante com vistas à adoção de iniciativas diplomáticas que tenham por objetivo compensar eventuais desequilíbrios temporários ou mesmo estruturais.