Política Externa como Ação Afirmativa: o Governo Lula na África
As teses eugênicas e a democracia racial
importância da contradição de classes diante de outras contradições
engendradas na sociedade e se deixava impregnar pela ideologia racista
hegemônica na sociedade brasileira. Ao não compreender o papel, a
importância do racismo na estruturação e reprodução das desigualdades
em nossa sociedade, o PT tornou-se, ainda que involuntariamente,
cúmplice, parceiro da manutenção do 390 status quo racial.
Desde então, o PT, como eventualmente outros segmentos da
sociedade brasileira, já ampliaram seus conhecimentos e sua
compreensão sobre a questão racial no Brasil,391 inclusive em
decorrência da mobilização392 e crescimento apartidário da militância do Movimento Negro no país, bem como do conjunto de
dados estatísticos disponíveis sobre o tema,393 ou ainda, conforme reconhece d'Adesky, em razão, "em grande parte, das primeiras iniciativas concretas do governo brasileiro, a partir de 1997, e, em especial, de 2001, no sentido de promover políticas de ação
afirmativa em favor das populações negras". 394 Essa nova
situação, 395 que corresponde, como se verá no capítulo a seguir, à formação de uma nova cultura política no País, é fruto de um processo de diálogo entre o Movimento Negro e a sociedade brasileira, inclusive os partidos políticos, que, em 2002, teve como consequência visível o próprio compromisso de luta contra o racismo e a discriminação racial inscrito no Programa de Governo da Coalizão Lula Presidente.
De qualquer forma, esse é um processo em evolução, que, além
de sofrer a influência, como já identificado, da teoria marxista,396 convive também com as percepções nacionais acerca da natureza do racismo no país.
As teses eugênicas e a democracia
racial
Sobre o tema – a natureza do racismo no Brasil –, a literatura é
vasta397 398 e os debates acadêmicos e políticos prosseguem, sem que se vislumbre um consenso abrangente sobre as formas de
combatê-lo.399
Não obstante, é oportuno buscar identificar e reconhecer as
origens do racismo no Brasil porque a percepção do Estado
brasileiro, e mais precisamente do Itamaraty, 400 sobre a questão racial e sua consequente formulação para apresentação ao público externo têm sido frequentemente consideradas, entre os estudiosos
da questão racial, fator responsável pela exportação401 e, em certa medida, consagração, até passado recente, do mito da democracia racial brasileira.
A propósito, Ozaí da Silva afirma, por exemplo, que "os militares
oficializaram a ideologia da democracia racial e a transformaram em
peça de marketing no exterior".402
Já o Senador Abdias Nascimento, entre outros comentários
acerca da diplomacia brasileira, disse, por ocasião de seu pronunciamento de estreia no Senado Federal, em 14 de novembro de 1991, que "os brancos disseminavam, tanto pelas vias diplomáticas, científicas e políticas quanto pela arrogância da superioridade branca, a ideia de uma nação racialmente pacífica,
tolerante e harmônica".403 Em 1973, ao participar do VI Congresso Pan-Africano, em Dar-es-Salaam, ele já havia registrado "o engodo paradisíaco a que as elites brasileiras, diplomatas, acadêmicos e empresários e políticos, se referiam e se referem no exterior, sobre
(...) a mistura e o convívio pacífico de todas as raças".404 Segundo um de seus biógrafos, aquela era
(...) a primeira vez em que um negro deste país fornecia à comunidade
internacional uma versão diferente da "democracia racial" tão celebrada
pelos porta-vozes oficiais brasileiros invariavelmente brancos, no âmbito
da ONU, da Unesco e dos congressos de ciência e cultura dedicados ao
exame de relações raciais, ao racismo e/ou à discriminação racial.405
A despeito de não refletirem o conjunto da doutrina sobre as
teorias raciais que se disseminaram no País desde o século XIX e sobre o conceito de democracia racial, os autores a seguir citados resumem, basicamente, os argumentos do Movimento Negro e traduzem, ademais, as aspirações que a militância negra viu incorporadas ao programa de governo da Coligação Lula Presidente.
As teorias raciais discutidas no Brasil eram inspiradas pelas
formulações racionalistas que dão azo ao surgimento do racismo moderno. Juntamente com a indústria moderna e o Estado moderno, são resultado, segundo Buonicore, "da expansão mundial do sistema capitalista" e manifestavam-se, predominantemente na Europa, na segunda metade do século XIX, na forma das teorias
racistas pseudocientíficas que, difundidas pelo Conde Gobineau,406 por Friedrich Ratzel e Cesare Lombroso, viriam a fecundar o nazismo e, no Brasil, influenciariam fortemente a intelectualidade
brasileira até a década de 1930. 407
Daí surgiram Nina Rodrigues (1862-1906), em cuja produção
científica inclui-se a obra Os africanos no Brasil, considerada um dos primeiros grandes estudos sociológicos sobre a presença negra na cultura brasileira, e Oliveira Vianna (1883-1951), "o último grande expoente do racismo pseudocientífico brasileiro (...) quando o racismo já começava a ser questionado nos países capitalistas centrais e já se encaminhava [no Brasil] para a publicação de Casa
Grande & Senzala 408 [1933]".
As teorias racistas que então floresceram no Brasil dividiam-se,
segundo Buonicore, em duas correntes:
(...) a primeira era racista-segregacionista, que condenava toda e qualquer
ideia de miscigenação racial (...) [e] conduzia a uma visão pessimista
sobre o futuro do Brasil. A segunda apostava suas fichas no processo de
miscigenação, visando solucionar o chamado problema do negro. Ela, pelo
contrário, tendia ser mais otimista em relação às possibilidades futuras do
país, enquanto integrante da civilização ocidental e cristã. O seu otimismo
residia na esperança de que a miscigenação não levaria necessariamente
à constituição de um povo degenerado (de pele escura) e sim de um povo
superior, aos moldes europeus. Esta vertente do racismo foi amplamente
dominante nos trinta primeiros anos do século XX.409
A miscigenação410 acalentava, assim, as expectativas de
branqueamento do povo brasileiro, tal como expresso por João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional e representante brasileiro no I Congresso Universal de Raças, realizado em Londres, em 1911, que afirmou, na ocasião, que "já se viram filhos de métis apresentarem, na terceira geração, todos os caracteres físicos da raça branca (...) lógico esperar que no curso de mais um século tenham desaparecido do Brasil. Isso coincidirá com a extinção
paralela da raça negra em nosso meio". 411
O branqueamento, por sua vez, era tido como um processo
irreversível, "caso se impedisse a entrada de mais negros no país e continuassem sendo mantidos os altos índices de mortalidade desse
segmento da população". 412 Para corroborar o registro, cita-se o ex-Presidente Theodore Roosevelt, que, após visita ao Brasil entre 1913-1914, escreveu que
(...) o ideal principal é o do desaparecimento da questão negra pelo
desaparecimento do próprio negro, gradualmente absorvido pela raça
branca (...) A enorme imigração europeia tende, década a década, a tornar
o sangue preto um elemento insignificante no sangue de toda a nação.413
Antes, porém, da disseminação da tese do branqueamento, as
elites brasileiras já vinham refletindo sobre a questão do negro no país. Célia Azevedo entende que seus representantes buscavam idealizar medidas capazes de tranquilizar aqueles setores da sociedade "amedrontados com a possibilidade de subversão da
ordem", 414 415 tal como ocorrera no Haiti, onde os negros se rebelaram contra a escravidão, no final do século XVIII e, em 1804,
declararam a independência do país. 416
A partir da segunda metade do século XIX, conta a autora, lança-
se a proposta de imigração de europeus, que tinha, como corolário, a afirmação de que os negros brasileiros eram incapazes para a promoção do desenvolvimento econômico e social necessário ao país, tanto por razões biológicas, quanto por consequência da
experiência como escravo.417 Com base nas teorias raciais geradas
na Europa, 418 os reformadores proponentes da imigração "tentaram compreender o que reconheciam como diferenças raciais e a partir
daí derivar suas propostas", 419 em particular a imigração, que passou a ser apresentada como forma de renovar a composição racial da população brasileira.
Os "ideológos do branqueamento" que continuavam vendo com
desconfiança as teses da miscigenação, insistiam na opção pelos imigrantes. Buonicore recupera o texto de Azevedo Amaral, ideólogo do Estado Novo, que, em 1937, escrevia:
(...) a entrada de correntes imigratórias de origem europeia é realmente
uma das questões mais importantes na fase de evolução que
atravessamos e não há exagero afirmar-se que do número de imigrantes
da raça branca que assimilarmos nos próximos decênios depende
literalmente o futuro da nacionalidade (...) É claro que somente se tornará
possível assegurar a vitória étnica dos elementos representativos das
raças e culturas da Europa se reforçarmos o fluxo contínuo de novos
contingentes brancos. (...) [Isso representaria] um reforçamento dos
valores étnicos superiores de cujo predomínio dependem as futuras
formas estruturais da civilização brasileira.420
Segundo Azevedo, repousariam, portanto, nos argumentos em
defesa da imigração, a origem e a ferramenta ideológica de difusão do racismo brasileiro, porque, até então, o que havia era o senso comum de que a inferioridade de negros e mestiços decorria de sua
condição de africanos pagãos421 e culturalmente bárbaros, ao mesmo tempo em que se buscava a sua incorporação social. Só mesmo a partir da perspectiva de substituição dos negros pelos imigrantes é que se passou a identificar, nos negros e ex-escravos,
uma inferioridade de natureza racial. 422
Por tudo isso, Cunha Jr. registra que
(...) o estado nacional, como forma e concepção construída depois de
1940, teve como base e como tese a eliminação das identidades
afrodescendentes. As políticas culturais e as formas de organização social
e urbana tiveram este objetivo de eliminação das identidades
afrodescendentes. As políticas eugenista e higienistas foram de limpeza
étnica. Os procedimentos de eliminação da presença negra eram pela
mestiçagem e pela eliminação física devido às condições de vida
precárias.423
Para Peter L. Eisenberg, o racismo424 que se produz no Brasil é,
portanto,
(...) construção ideológica, fruto de conjunturas históricas, na qual os
interesses materiais das classes dominantes encontraram, no racismo,
uma justificativa científica para a importação de europeus e a
inferiorização da maioria dos brasileiros. 425 (...)
A partir da abolição, o tema da transição [do regime escravagista para o
do trabalho assalariado] deixa subitamente de existir e o negro sai de
cena, sendo substituído pelo imigrante europeu. (...) Há uma troca de
personagens históricos (...) [bem como] a introdução de novos temas, tais
como desenvolvimento econômico industrial, urbanização e formação de
uma classe operária brasileira com base em uma população
essencialmente estrangeira. 426
Esses registros acerca da fundamentação do racismo no Brasil
permitem reconhecer que a chegada dos imigrantes colocou em
pauta o tema da nacionalidade.427 Nessa ocasião, a heterogenia sociorracial brasileira passou a ser apresentada como entrave à
transformação do país em nação. 428
A propósito, Guimarães sublinha que
(...) a nacionalidade brasileira foi formada como uma comunidade de
indivíduos dissimilares em termos étnicos, que chegavam de todas as
partes do mundo, mormente da Europa. (...) e que a nação foi formada por
um amálgama de crioulos,429 cuja origem étnica e racial foi esquecida
pela nacionalidade brasileira. A nação permitiu que uma penumbra
cúmplice encobrisse ancestralidades desconfortáveis. Com a substituição
da ordem escravocrata por outra ordem hierárquica, a cor passou a ser
uma marca de origem, um código cifrado para a 430 raça . O racismo
colonial, fundado sobre a ideia da pureza de sangue dos colonizadores,
cedeu lugar, depois da independência do país, à ideia de uma nação
mestiça, cuja cidadania dependia do lugar de nascimento – a nossa
naturalidade 431 – e não de ancestralidade .
Consequentemente, opina Guimarães, é de fundamental
importância
(...)uma discussão sobre a nacionalidade, porque, no Brasil, as regras de
pertença nacional suprimiram e subsumiram sentimentos étnicos, raciais e
comunitários. A nação brasileira foi imaginada numa conformidade cultural
em termos de religião, raça, etnicidade e língua.432 Neste contexto
nacional, o racismo brasileiro só poderia ser heterofóbico, isto é, um
racismo que "é a negação absoluta das diferenças, que pressupõe uma
avaliação negativa de toda a diferença, 'implicando um ideal (explícito ou
não) de homogeneidade.'"433
No início do século XX, essa busca da homogeneidade, ou o
"racismo heterofóbico", estavam implícitos na ideia de embranquecimento,
(...) elaborada por um orgulho nacional ferido, assaltado por dúvidas e
desconfianças a respeito do seu gênio industrial, econômico e civilizatório.
Foi, antes de tudo, uma maneira de racionalizar os sentimentos de
inferioridade racial e cultural instilados pelo racismo científico e pelo
determinismo geográfico do século XIX. (...) [e] passou a significar a
capacidade da nação brasileira (definida como uma extensão da
civilização europeia) de absorver e integrar mestiços e pretos. Tal
capacidade requer, de modo implícito, a concordância das pessoas de cor
em renegar sua ancestralidade africana ou indígena.
Embranquecimento434 435 e democracia racial são pois, conceitos de um
novo discurso racialista. O núcleo racista desses conceitos reside na ideia,
às vezes totalmente implícita, de que foram três as 436 raças fundadoras
da nacionalidade, que aportaram diferentes contribuições, segundo as
suas qualidades e seu potencial civilizatório.437
Nesse mesmo sentido, Alberti recorda que, nos anos de 1930, "se
insistiu bastante na harmoniosa relação entre as raças que
compunham a nação". 438 Também comenta, no entanto, que "era comum falar da contribuição do negro e do índio, como se o cerne
da nação fosse o branco".439
Trata-se, para Guimarães, de um "imaginário elitista da
nacionalidade [que] aspirou a uma raça mestiça que incorporasse negros e índios. (...) que são incorporados mais como candidatos
potenciais à miscigenação que como cidadãos plenos". 440
Sem jamais se concretizar,441 prossegue Guimarães, "a
esperança brasileira do branqueamento (...) foi trocada, por Freyre
e, depois, pelos romancistas nordestinos442 – Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, entre outros – pelo ideal de um
Brasil mestiço ou mulato". 443
O Brasil mestiço seria, portanto, o país da democracia racial –
termo cunhado efetivamente por Arthur Ramos, em 1941, e depois
repetido por Roger Bastide e Charles Wagley. 444 Guimarães esclarece que Gilberto Freyre se referiu, em sua obra, primeiro a uma democracia social e, posteriormente, a uma democracia
étnica. 445 Mas o sentido seria sempre o mesmo – de um paraíso racial.
Em suas obras, Gilberto Freyre apresentou a democracia social,
ou mais propriamente a mistura de raças que se observava no Brasil, como um "legado da civilização luso-brasileira à
humanidade". 446
Nesse contexto, o termo democracia racial passou a ser
empregado, sem reservas, na década de 1940, pelo Movimento Negro e vários intelectuais brasileiros e estrangeiros aliados à luta
antirracista. 447 Abdias Nascimento, por exemplo, na fala inaugural do I Congresso do Negro Brasileiro, realizado em agosto de 1950, anunciava que
(...) a larga miscigenação praticada como imperativo de nossa formação
histórica,448 desde o início da colonização do Brasil, está se
transformando (...) numa bem delineada doutrina de democracia racial, a
servir de lição e modelo para outros povos de formação étnica complexa
conforme é o nosso caso.449
Nos anos de 1950, sublinha Guimarães, a expressão "ganhou
uma conotação de ideal de igualdade de oportunidades de vida e de
respeito aos direitos civis e políticos". 450 Era um ideal de igualdade
a ser alcançado, e, como tal, defendido pelos negros brasileiros.451 As lutas antirracista e antifacista evidenciadas no contexto da Segunda Guerra Mundial acabariam também por erigir um consenso em torno da expressão democracia racial, até que o próprio Gilberto Freyre, na década de 1960, e no contexto do apoio à causa colonialista portuguesa, invocou a democracia racial brasileira e o luso-tropicalismo para contrapor-se às teses anticolonialistas, da negritude e também das reformas democráticas, todas estas
sustentadas pelos setores de esquerda.452
Freyre só empregaria a expressão democracia racial em 1962,
(...) quando, no auge da sua polêmica defesa do colonialismo português
na África, e no bojo da construção teórica do que chamará de luso-
tropicalismo, julga conveniente atacar o que ele considerava como
influência estrangeira sobre os negros brasileiros, particularmente o
conceito de negritude, cunhado inicialmente por Aimé Cesaire, em 1937,
desenvolvido posteriormente por Leopold Senghor, Chiant Diop e outros,
no contexto da descolonização, e reelaborado, no Brasil, por Guerreiro
Ramos e Abdias Nascimento.453
Mas tão forte454 e socialmente difusa era a ideia de democracia
racial455 que, já nos anos de 1980, mesmo o MNU ainda declarava
lutar por "uma autêntica democracia racial".456
Com qualquer dos termos, sobressaía, no entanto, a ideia do
paraíso racial, forjada essencialmente, como explica Guimarães, à luz da experiência segregacionista vivida nos Estados Unidos. Como ideia, ganhou larga circulação, no Brasil e também nos meios
internacionais, e desenvolveu-se como utopia e mito 457 de uma
sociedade sem preconceitos e discriminação raciais. 458
Exatamente como utopia do paraíso racial foi recuperada pela
Sociologia moderna459 e, mais especificamente, por Freyre que,
segundo Guimarães, lhe deu uma "roupagem científica".460
A desconstrução do mito do paraíso racial começou, de fato, com
a divulgação dos resultados do projeto sobre relações raciais no
Brasil, patrocinado pela Unesco461 entre 1952 e 1955, sob a responsabilidade de Florestan Fernandes e Roger Bastide. Este último era um adepto do mito do paraíso racial, até deparar-se com tais resultados, onde ficava patente o preconceito racial na sociedade brasileira. Nos documentos produzidos por Bastide e Fernandes, há uma frase tornada clássica, de um dos testemunhos recolhidos no Brasil, em que o entrevistado, comentou: "Nós brasileiros temos preconceito de não ter preconceito", seguida do comentário dos autores de que
(...) esse simples fato basta para mostrar a que ponto [o preconceito racial]
está arraigado no nosso meio social. (...) Muitas respostas negativas [que
dizem não haver preconceito racial no Brasil] 462 explicam-se por esse
preconceito de ausência de preconceito, por esta fidelidade do Brasil ao
seu ideal de democracia racial. 463
A despeito das novas luzes sobre a questão racial no Brasil, o
golpe militar e a vitória das forças conservadoras, em 1964, fizeram prevalecer, nos círculos do poder, "a ideia freyreana de 'democracia racial' enquanto padrão cultural de interação interracial e não a consigna negra de luta pela igualdade social entre brancos e negros. Prevalecerá o lado hierárquico e não o igualitário da fábula
das três raças".464
Mesmo que, desde as primeiras décadas do século XX, a questão
racial fosse reconhecida como essencial para a viabilização da
nação,465 o que é singular, para Santos, é reconhecer a democracia racial, a partir do final da década de 1950, como ideologia legitimada pelo Estado,
(...) através da elaboração de políticas públicas, cujo leitimotiv é a
convivialidade racial como matéria-prima na implementação dessas
políticas, tanto em termos políticos e econômicos, quanto culturais stricto
sensu. É a convivialidade racial, vista pela ótica da cultura, ou seja, um
sistema de valores que organiza as relações de socialidade e fornece o
tom da política anunciada como externa e independente no governo Jânio
Quadros, o que se torna um elemento substantivo no incremento à política
desenvolvimentista no período militar.466 (...)
A democracia racial, lida como o princípio canônico da sociedade
brasileira, tornava-se a base explicativa da [PEI como] nova política
externa do país. Ela era capaz de equacionar as práticas e interpretações
políticas de intelectuais e servir de alicerce na lógica econômica da
geopolítica brasileira. Tratava-se de qualificar ações que
consubstanciassem a lógica do desenvolvimento econô- mico com o
canône da integração racial e, mais precisamente, a influência africana
sobre a nossa cultura. 467
Após o Golpe Militar, o que era antes um ideal de democracia
racial acabou por converter-se em um mito, denunciado pelas esquerdas. Foi Florestan Fernandes quem cunhou a expressão mito da democracia racial, exatamente no ano de 1964. O Movimento Negro passou, então, a utilizá-la também para "opor-se à ideologia oficial patrocinada pelos militares e propalada pelo luso-
tropicalismo. 468
De acordo com Fernandes, em decorrência do golpe de estado e
da repressão política, "toda a mobilização negra passou a se fazer a partir da denúncia da democracia racial como um mito, ou seja, como refúgio discursivo das classes dirigentes e ideologia de
dominação". 469
Para Guimarães,
(...) foi essa guinada à esquerda que possibilitou ao negro ser pensado
pelo MNU dos anos de 1980 como povo oprimido, e que a autêntica
democracia racial fosse também uma luta contra a exploração capitalista.
Tal maneira de compreender a opressão negra pôde, então, ser
incorporada tanto a ideologias políticas anticapitalistas (comunistas ou
socialistas), quanto a ideologias liberais ou democráticas, que privilegiem
apenas a luta pelos direitos civis. Em ambas, o negro é um lugar – o lugar
do povo – que se opõe às elites, ou às classe dominantes – os brancos. E
aqui aparece, de modo subreptício, a antiga oposição entre os que
pensam o Brasil como branco e os que o pensam como negro ou
mestiço.470
Naquele contexto, nos anos de 1960 e 1970, de promoção da
ideologia da democracia racial como parte de um projeto político que se associava ao colonialismo português, a denúncia do mito da democracia racial apareceu combinada à promoção da negritude e do multiculturalismo, "dos valores da cultura negro-africana contida
em nossa civilização".471 Sob essa nova inspiração, os movimentos políticos negros que ressurgem a partir de 1978 reelaboraram a tradição da resistência negra internacional e o "mito da democracia racial, durante toda a década de 1980, será denunciado sistematicamente como um dogma da supremacia branca no
Brasil". 472
No entanto, como lembra Lilia Schwarcz,
(...) o mito se extenua sem por isso desaparecer. Ou seja, a oportunidade
do mito se mantém, para além de sua descontrução racional, o que faz
com que, mesmo reconhecendo a existência do preconceito, no Brasil, a
ideia de harmonia racial se imponha aos dados e à própria consciência de
discriminação. 473
Ou ainda, nas palavras de Guimarães,
(...) a denúncia do mito da democracia racial, (...) sintetizando a distância
entre o discurso e a prática dos preconceitos, da discriminação e das
desigualdades entre brancos e negros no Brasil, finalmente se esgota
enquanto discurso acadêmico, ainda que como discurso político sobreviva
com alguma eficiência.474
Ao mesmo tempo em que a ideia do mito da democracia racial475
passa a ser a "chave para o entendimento da formação nacional, as contradições entre discursos e práticas do preconceito racial passam a ser estudadas sob o rótulo mais adequado de
racismo 476 ".
O racismo à brasileira, termo cunhado por Roberto da Matta, em
1981, que depois foi qualificado de racismo cordial, conforme título
de matéria publicada em jornais paulistas, 477 mostra, como comenta Guimarães, que a adjetivação deixou de ser para a democracia e passou a ser para o racismo, embora o que continue em jogo, tanto no passado, quanto presente, seja "a distância entre discursos e práticas das relações raciais no Brasil. (...) Mais do que isto: as diferenças raciais se impõem à consciência individual e social,
contra o conhecimento científico que nega as raças". 478
Em forma de síntese, Guimarães sublinha que
(...) entre 1930 e 1964, vigeu, no Brasil, (...) um pacto populista ou
nacional-desenvolvimentista. Neste pacto, os negros brasileiros foram
inteiramente integrados à nação brasileira, em termos simbólicos, através
da adoção de uma cultura nacional mestiça e sincrética, e em termos
materiais, pelo menos parcialmente, através da regulamentação do
mercado de trabalho e da seguridade social urbanos, revertendo o quadro
de exclusão e descompromisso patrocinado pela Primeira República.
Nesse período, o Movimento Negro organizado concentrou-se na luta
contra o preconceito racial, através de uma política eminentemente
universalista de integração social do negro à sociedade moderna, que
tinha a democracia racial brasileira como um ideal a ser atingido. (...) O
golpe de 1964 destrói o pacto populista. (...) O Movimento Negro