Política Externa como Ação Afirmativa: o Governo Lula na África
A questão racial e a Política Externa para a África
[fator] cultural, as lideranças que emergiram do processo cultural (...)
minimizavam o caráter de classe das manifestações culturais ao priorizar a
valorização da identidade racial em detrimento do seu aspecto de classe.
(...) [Surge] uma dicotomia entre a organização de caráter político e a de
caráter cultural (...) e uma disputa da hegemonia desse processo entre os
militantes negros formados dentro da esquerda e aqueles legitimados pela
tradição de lutar contra a discriminação racial.488
Chega-se aqui, portanto, por outras vias, novamente à
identificação, registrada logo no início, das distintas matrizes, correntes ou grupos que compõem o Movimento Negro. Desta feita, porém, essa identificação segue-se à apresentação, neste capítulo, de argumentos e fatos históricos aqui referidos com o objetivo de contribuir para a melhor compreensão dos valores e interesses em jogo, bem como do que seria, a partir da Constituição Brasileira de
1988, 489 "uma mudança importante no paradigma clássico dos estudos e dos movimentos negros no Brasil: (...) Deixa-se de lado o ideal do Brasil mestiço para proceder às ações pelo reconhecimento
étnico-racial dos negros". 490
A questão racial e a Política Externa
para a África
É no contexto desse novo paradigma que o PT elegeu o seu
candidato a Presidente da República, em outubro de 2002, e levou para o Governo o compromisso de implementar um Programa de Governo acordado com o Movimento Negro, do qual constava a referência explícita à volta à África. Implicitamente, o compromisso passou a ser, portanto, o de estreitamento das relações com o continente africano de modo a atender às expectativas tanto dos que buscam, na Mãe-África, sua história, sua referência identitária e os valores de sua autoestima, quanto daqueles que procuram o reforço das parcerias, inclusive no plano internacional, para a luta contra os efeitos da escravidão e da exclusão que incidem sobre os africanos e seus descendentes na Diáspora.
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Por julgá-los essenciais não só à compreensão da gênese da
política africana do Governo Lula, mas também por sua relevância para a apresentação e análise, que se seguirão, na Segunda Parte, da formulação e implementação da política do Governo Lula para a África, recapitulam-se, a seguir, esquematicamente, os principais fatos e argumentos apresentados neste capítulo:
um diálogo de mais de duas décadas tornou singulares as
relações entre o Movimento Negro e o PT e faz que nenhum
outro partido político tenha igual compromisso programático
com as propostas do Movimento Negro. Por essa razão, e a
despeito das dificuldades constatadas, o PT é ainda
considerado, na sua condição de partido político, como o
melhor parceiro do Movimento Negro no que diz respeito à
promoção da agenda da luta contra o racismo e pela promoção
da igualdade racial no país;
o compromisso programático da Coligação Lula Presidente com
o voltar-se para a África explica-se tanto pela solidariedade
histórica do PT com os "povos oprimidos", no caso os africanos,
quanto pela demanda explícita do Movimento Negro. Como
parte da pauta histórica do Movimento Negro, o voltar-se para a
África, apresentado de diferentes formas e em diferentes
contextos, consta dos documentos do PT desde 1989;
em seu Programa de Governo, a Coligação Lula Presidente
endossou as posições do Movimento Negro, tal como constam
dos documentos preparatórios da Conferência de Durban, e
comprometeu-se, como Governo, a implementar a Declaração e
o Programa de Ação de Durban;
a agenda do Movimento Negro, ao incorporar a agenda de
Durban, converteu-se em uma agenda internacional, de
natureza pública e interesse coletivo. Na verdade, desde o final
da década de 1970, constata-se a diversificação e
complexidade da agenda do Movimento Negro, que passou a
incluir a pauta clássica das organizações de defesa dos direitos
humanos e também a defesa de ações afirmativas para
combater as desigualdades raciais;
a lenta e problemática apropriação, pelo PT, dos argumentos
defendidos pelo Movimento Negro referentes às relações
raciais no País dá margem a que se questione a efetiva
assimiliação desses argumentos pelas lideranças do PT;
desde os anos iniciais do século XX, observa-se uma distinção,
no seio da militância negra, entre os promotores de uma
agenda conciliadora, associada à luta contra as manifestações
racistas ou contra a discriminação racial, mas de viés
nacionalista e integracionista; e os defensores da resistência
ativa, que reclamavam o direito à afirmação de sua identidade
racial, com a defesa do discurso racialista e multicultural. A
autoestima, que envolve a valorização dos elementos estéticos,
culturais e históricos africanos, passa a ser identificada como
um valor a buscar e preservar, e, conforme os parâmetros do
multiculturalismo, requer a extirpação dos sincretismos, em
favor do reconhecimento e da valorização das manifestações
puras africanas;
é simplista a distinção entre uma agenda histórico-cultural e
uma agenda política, que se oporiam no seio do Movimento
Negro. Ao mesmo tempo, é patente o destaque conferido
historicamente à agenda cultural, 491 que permitiu a Honchard
falar da fetichização dessa agenda, assim como é bastante
assimilável o conteúdo de tal agenda, tanto pelo Brasil que se
reconhece mestiço, quanto pelos que optam pelo
multiculturalismo;
há uma linha de aproximação com a África nessas duas
tradições ou agendas. Para o culturalismo, a volta à África é
romanceada, mas pode ser atualizada na medida em que
viabiliza a valorização e recuperação dos valores estéticos,
culturais e históricos e das próprias referências identitárias.
Para a agenda política, a África é a parceira, junto com a
Diáspora, para as ações acordadas em Durban, ou seja, para a
promoção de medidas que combatam os efeitos da escravidão
e assegurem as reparações cabíveis, inclusive no contexto
mundial. 492 Está-se perante uma parceria legitimada pela
agenda comum de combate aos efeitos da escravidão, do
colonialismo, do neocolonialismo e da globalização. Uma
agenda de valores e de interesses compartilhados;
constata-se o distanciamento histórico dos partidos políticos
brasileiros com relação ao Movimento Negro e com relação à
África;
no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, as
teses racistas europeias difundiram-se no Brasil e
comprometeram a percepção da sociedade brasileira acerca
dos africanos e seus descendentes;
as teorias raciais pseudocientíficas contribuíram para a
formação do racismo brasileiro e nutriram os ideais de
construção de uma nação racialmente homogênea;
as teses marxistas influenciaram as percepções dos partidos
políticos e da sociedade em geral sobre a questão racial, na
medida em que descartavam a especificidade dos problemas
raciais e, consequentemente, os remédios que lhe fossem
recomendados;
as pesquisas sobre a questão racial no Brasil tiveram papel
essencial na desconstrução do mito da democracia racial e
seguem sendo importantes para revelar a existência de racismo
e os seus efeitos;
a utilização espúria do termo democracia racial, no contexto da
defesa do luso-tropicalismo, incompatibilizou-o com o
Movimento Negro e as esquerdas;
a militância negra atribuiu ao Itamaraty papel importante na
difusão e consolidação do mito da democracia racial;
os partidos políticos e a sociedade em geral mostram
desconforto com relação ao voto racial e a uma agenda política
racializada;
é importante o debate sobre a composição da sociedade
brasileira e sobre a nacionalidade no contexto do
multiculturalismo e da valorização das identidades, assim como
é relevante a percepção de que a mestiçagem, como ideal de
homogeneização racial, revela um racismo heterofóbico; e
amadurece o debate sobre a questão racial no Brasil, tanto no
campo dos valores quando dos interesses que vão sendo
legitimados pela sociedade.