Política Externa como Ação Afirmativa: o Governo Lula na África
Anexo III – Discurso de posse do senador Abdias Nascimento no Senado Federal
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
viagem a Brasília de enviado especial do Presidente da
República da Tunísia, em setembro de 2005.
realização da II Reunião da Comissão Mista Brasil-Tunísia, em
Brasília, em janeiro de 2006. Delegação tunisina chefiada pelo
Ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdelwaheb Abdallah.
Uganda
viagem do Presidente da República, Yoweri Museveni, ao
Brasil/ São Paulo, para a XI Conferência da UNCTAD, em 2004.
União Africana
visita do Presidente da Comissão da União Africana, Alpha
Konaré, a Salvador, em julho de 2006, para a II CIAD.
Zâmbia
visita do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Revendo Ronnie
Shikapwasha, ao Brasil, em março de 2006.
Zimbábue
visita do Ministro Celso Amorim, em maio de 2003.
visita do Ministro das Relações Exteriores, Simbarashe
Munbengegwi, ao Brasil, em setembro de 2006.
Anexo III
Discurso de posse do senador Abdias
Nascimento no Senado Federal
África: raiz do Brasil "Sr. presidente, senhores senadores, a referência à África é fundamental para o Brasil não apenas no âmbito das relações exteriores. Muito mais profundo é o nosso vínculo interno com a África, pois o Brasil tem a segunda maior população negra do mundo. E para deixar claro, reafirmo como já o fiz em outras ocasiões: ser negro não é uma questão epidérmica. A cor da pele, em todos os seus variados matizes, funciona apenas como um distintivo da nossa origem africana. Mulato, cafuso, negro, escurinho, fusco, moreno: todos os eufemismos convergem para esta identidade, que as elites dominantes no Brasil sempre quiseram renegar. Quando somos barrados no emprego ou encaminhados para o elevador de serviço, não apenas a cor da pele provoca a discriminação, mas sobretudo a identidade africana anunciada pela cor.
A afirmação da nossa origem africana não implica nenhuma rejeição à nossa identidade nacional brasileira, pela simples razão de que a identidade nacional brasileira também é africana. Apenas ocorre que, lembrando o caso de muitos afro-brasileiros pálidos que internalizam os preconceitos antiafricanos, o segmento dominante se recusa a assumir sua própria face. As elites minoritárias, ao definirem a participação do africano no contexto da nação brasileira, costumam falar da "contribuição" ou da "infiltração" do negro a um todo que, implicitamente, lhe é estranho. Falam de "reminiscência" ou da "sobrevivência de traços" de uma cultura africana supostamente alheia à brasileira... Tais eufemismos não conseguem tapar o sol com a peneira. A verdade é que profundas e amplas dimensões africanas permeiam a nossa cultura e a nossa história, e constituem a base integral definidora da identidade nacional brasileira.
Sr. presidente, senhores senadores, a Abolição da Escravatura pouco ou nada fez para nos devolver a cidadania que nos foi usurpada, junto com a nossa própria condição humana, quando nos arrancaram das nossas terras e nos submeteram ao mais hediondo regime escravocrata conhecido pelo ser humano. Pelo contrário: as condições de vida dos afro-brasileiros, após a Lei Áurea, na prática, representaram uma segunda cassação de nossa cidadania.
O movimento negro vem afirmando, há anos, a questão racial como uma questão nacional, um "problema" não só nosso, mas sobretudo das elites dominantes deste país. Enquanto não se tratar de recompor a plenitude da cidadania dessa grande parcela da sua população, o Brasil permanecerá fragmentado, como uma família que perdeu ou afastou para sempre mais da metade de seus integrantes.
O cerne da questão está na identidade nacional. Mencionei no início deste pronunciamento os senadores afro-brasileiros apenas para ilustrar esse fato. Enquanto o Brasil não assumir a rica beleza de sua identidade africana, a maioria de sua população ficará alijada do conjunto nacional.
Poucos brasileiros sabem, Sr. presidente, que pelo lado africano, o lado da senzala, somos os herdeiros de uma civilização que deu a luz ao chamado mundo ocidental. Poucos sabem, porque o fato foi escamoteado, distorcido e falsificado durante séculos, que a tão decantada civilização greco-romana tem suas origens no Egito antigo, um país negro africano, e que a civilização egípcia, por sua vez, nasceu do coração da África, na região onde hoje se localizam Uganda, Etiópia, Sudão e Quênia. E não estamos falando aqui de cantigas e danças folclóricas. Estamos evocando a origem africana da ciência matemática, da geometria, da engenharia e da arquitetura; do sistema filosófico dos mistérios, dos mitos e dos deuses; das teorias da matéria de Aristóteles, Anaxágoras e Anaximandro; dos pensamentos creditados a Platão, Demócrito e Xenófanes. Todos beberam às fontes do conhecimento egípcio africano. Estamos nos referindo aos conhecimentos e práticas da medicina existentes dois milênios antes de Hipócrates, tido como o pai da medicina. Verdadeiro pai da medicina seria Athothis, filho do primeiro faraó egípcio, ou Imhotep, que desenvolviam os conceitos da prática de anatomia, farmacologia, diagnose, oftalmologia, assepsia, hemostase, cirurgia, vacinação, ginecologia e assim por diante, desde 3.000 a.C.
Sr. presidente, não é esta a hora de enumerar todas as grandezas das civilizações africanas, os avançados estados políticos de Mali, Zimbábue, Gana e Sonrai, com suas grandes concentrações urbanas, centros de conhecimento tecnológico e filosófico da África na época medieval. Basta assinalar que, não fosse o holocausto da invasão europeia, esse desenvolvimento africano autóctone teria seguido o seu curso natural.
É essa herança africana que o Brasil precisa conhecer e assumir: a dignidade e o protagonismo do ser humano africano. Essa verdade nos foi negada durante cinco séculos de mentiras, fraudes e falsificações do eurocentrismo que se arrogava como arauto de uma suposta ciência. Para recuperar sua própria identidade nacional e resgatar a dívida que tem para com seus cidadãos de origem africana, urge a nação brasileira mergulhar nas dimensões mais profundas desta herança civilizatória. Essas verdades têm que ser ensinadas em nossas escolas, nos Ciacs e nos Cieps, para restituir ao contingente majoritário da nossa gente o seu autorrespeito, a sua autoestima e a sua dignidade, fontes do protagonismo e da realização humana.
Sr. presidente, senhores senadores, o meu trabalho parlamentar nesta Casa dará sequência àquele iniciado em 1983 na Câmara dos Deputados. Se sou ou não o primeiro senador afro-brasileiro, pouco importa. Importa, sim, que eu possa cumprir este mandato com honradez e dignidade, lutando pelas causas do meu povo afro-brasileiro, que são as causas da nossa nação.
Axé!"
Brasília, fevereiro de 1997.
In: SEMOG, Éle; NASCIMENTO, Abdias. Abdias Nascimento. O griot e as muralhas. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.
Notes
1. Da versão original, cujo título era "A Política externa do
Governo Lula para a África. A Política Externa como
instrumento de ação afirmativa ... ainda que não só", foram
retiradas exclusivamente as referências a documentos oficiais
de caráter reservado e confidencial, bem como a algumas
fontes, inclusive do próprio Ministério das Relações Exteriores,
que não foram informadas, na ocasião em que foram
entrevistadas, de que poderiam vir a ser citadas em texto
público. O restante do texto é fiel a seu original. Também foram
excluídos anexos com estatísticas da época.
↩
2. Entre eles, Chester A. Crocker, ex-Secretário de Estado
Assistente para África; Anthony Lake, Professor de Prática
Diplomática na Georgetown University; e Samantha Power,
Professora da John F. Kennedy School of Government, da
Universidade de Harvard.
↩
3. "Reafirmamos os laços profundos que nos unem a todo o
continente africano e a nossa disposição de contribuir
ativamente para que ele desenvolva suas enormes
potencialidades". Discurso perante o Congresso Nacional.
↩
4. A primeira, em novembro de 2003, incluiu São Tomé e Príncipe,
Angola, Moçambique, Namíbia e África do Sul. A segunda, em
dezembro de 2003, Egito e Líbia. A terceira, em julho de 2004,
São Tomé e Príncipe, Gabão e Cabo Verde. A quarta, em abril
de 2005, República do Cameroun, Nigéria, Gana, Guiné-Bissau
e Senegal. A quinta, em fevereiro de 2006, Argélia, Benin,
Botsuana e África do Sul. A sexta, em novembro de 2006,
apenas a Nigéria, para participar da Cúpula Afras.
↩
5. The New York Times, Week in Review, 24 de setembro de
2006. Jeffrey Gettleman. "Across Africa, a sense that US Power
isn´t so super".
↩
6. É oportuno observar que a diplomacia tende a ser, entre as
atividades de governo, aquela com menor índice de
acompanhamento público, mesmo nas democracias mais
avançadas. Por isso, o respaldo interno à aproximação com a
África é ainda mais expressivo como expressão de legitimação
da política africana.
↩
7. Alberti, 2005.
↩
8. Apud Cunha, 2005, p. 2.
↩
9. Trata-se do programa intitulado "Bolsas-Prêmio de Vocação
para a Diplomacia", que teve início em 2002.
↩
10. São frequentes os comentários nesse sentido feitos por
militantes do Movimento Negro. Um deles partiu da antropóloga
e jornalista Wania Sant'anna, durante a II CIAD, realizada em
Salvador, em julho de 2006.
↩
11. Pinheiro apud Alves, 2001, p. 17.
↩
12. Guimarães, 1999, p.9.
↩
13. D´Adesky, 2006, p.65-66
↩
14. Gomes, 2005, p.45.
↩
15. Idem, p. 49.
↩
16. D´Adesky, 2006, p.15.
↩
17. Idem, p.65-66.
↩
18. Reis apud Guimarães, 1999 (1ª orelha).
↩
19. Gomes, 2005, p.47.
↩
20. Guimarães, 1999, p. 9.
↩
21. Edson Borges, Carlos Alberto Medeiros e Jacques d'Adesky,
2002 (apud Gomes, 2005, p.52-53).
↩
22. Santos, 2001, p.85 (apud Gomes, 2005, p.53).
↩
23. Discurso disponível na página da Seppir disponível em:
<www.planalto.gov.br/seppir> .
↩
24. Gomes, 2005, p.54-55.
↩
25. Idem, p.55.
↩
26. Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da
População Negra.
↩
27. Guimarães, 1997, p.233.
↩
28. Matilde Ribeiro, entrevista à autora.
↩
29. Alberti, 2005.
↩
30. Idem.
↩
31. Lopes, 2005, p. 40.
↩
32. Seppir, 2005. p. 35.
↩
33. Flávio Sombra Saraiva (1996, p. 14) registra que "historiadores
brasileiros e africanos, durante muito tempo, conseguiram ver,
tão somente, o quantitativismo do tráfico de escravos e os
horrores do trabalho compulsório na América. Há outras
histórias que ainda necessitam ser contadas ou reinventadas,
tanto para os períodos iniciais quanto para os períodos mais
recentes das relações do Brasil com a África".
↩
34. Os exemplos são numerosos, uma vez que os laços históricos e
a solidariedade cultural foram sempre referências praticamente
obrigatórias em todos os discursos diplomáticos acerca das
relações Brasil-África. Em comentários sobre sua gestão à
frente do MRE e sobre a política externa brasileira, o Chanceler
Gibson Barbosa declarou, por exemplo, que "nossa política
africana corresponde a realidades geográficas, históricas,
étnicas e culturais importantes para o Brasil" (OLIVEIRA;
MOURÃO, 2005, p. 70).
↩
35. Dec. n. 10.662, de 31/12/1913. Oliveria Castro, 1983.
↩
36. Hernandez, 2005, p. 21.
↩
37. Idem, p. 17.
↩
38. Resenha de Política Exterior do Brasil, n. 96, 1º. semestre de
2005, p. 252.
↩
39. Hernandez, 2005, p. 21.
↩
40. Idem, p. 44.
↩
41. Saraiva, 1996, p. 23.
↩
42. Alencastro é autor de O trato dos viventes: formação do Brasil
no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
↩
43. Florentino é autor de Em costas negras: uma história do tráfico
de escravos entre a África e o Rio de Janeiro: séculos XVIII e
XIX. 3.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
↩
44. Uma dessas obras é Um rio chamado Atlântico: a África no
Brasil e o Brasil na África. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Ed.
UFRJ, 2003.
↩
45. Os fluxos de comércio associados ao tráfico negreiro ou, mais
propriamente, os produtos brasileiros enviados para a África
para financiamento do tráfico e mesmo a presença de
brasileiros na gestão do comércio de escravos em toda a Costa
Ocidental da África são pouco referidos. Pereira (s/d, p. 576)
registra esses fatos e lembra que, além de Angola, cuja
libertação, de sua capital, Luanda, dos holandeses, em 1648,
deu-se por iniciativa do Brasil, "a restante costa ocidental
africana, sob controle português, passa também a ser
subordinada aos crescentes interesses escravocratas do Brasil,
de onde passam a ser indicados os seus governadores e altos
funcionários". Ele cita o historiador português, Jaime Cortezão,
que afirmara que "Angola foi, durante os séculos XVII e XVIII,
uma província portuguesa do Brasil. (...) [e que] o Brasil havia
absorvido todo o comércio da costa da África com total
exclusão de Portugal".
↩
46. Leila Maria Hernandez (2005, p. 23) diz que o começo da
História da África "recai no tráfico negreiro e na colonização da
América, reforçando estereótipos raciais presentes até os
nossos dias". Ela observa que o fenômeno da falta de História é
decorrente da racionalidade eurocêntrica, "predominantemente
ideológica," tal como traduzida nos estudos europeus a partir do
século XVI sobre o mundo não ocidental. Explica também que,
"pela ocultação da complexidade e da dinâmica cultural
próprias da África, torna-se possível o apagamento de suas
especificidades em relação aos continentes europeu e mesmo
americano. Quanto às diferenças, (...) aproximando-se, por
analogia, o desconhecido ao conhecido, considera-se que a
África não tem povo, não tem nação e nem Estado; não tem
passado, logo, não tem História" (p. 18). Hernandez faz ainda
referência ao importante papel de Hegel, com o seu Filosofia da
história universal, na afirmação da "aistoricidade da África".
Ademais, o autor alemão dividia a África em três partes
essencialmente distintas: a África setentrional, ligada ao
Mediterrâneo, e "pode dizer-se que esta parte não pertence
propriamente à África, senão à Espanha com a qual forma uma
concha"; a África meridional, separada da Setentrional por "um
grande deserto e pelo Niger". A terceira, é a África ao sul do
Saara, que "é quase desconhecida. (...) a parte característica
deste continente" (apud HERNANDEZ, 2005, p. 20). Hernandez
lista obras de referência sobre a África subsaárica, escritas,
desde o século XIII, por autores da civilização islâmica
medieval, com registros históricos que datam do século IX.
↩
47. Saraiva (1996, p. 234) registra que chamava "a atenção dos
africanos [na década de 1990] o pouco que se sabia no Brasil
sobre o seu mundo contemporâneo".
↩
48. Saraiva (1996, p. 36) afirma que "o Presidente Juscelino
Kubitschek assistiu a essa mudança de situação no outro lado
do Atlântico com indesculpável indiferença". Pereira (s/d,
p. 577) menciona, por sua vez, que "o Governo Kubitschek
assistiu passivo, entre 1957 e 1960, à independência de 21
estados africanos".
↩
49. Não se encontraram registros ou testemunhos do envolvimento
de lideranças políticas e intelectuais brasileiras nos processos
de independência da África. Como se referirá em outras partes
deste trabalho, houve, no Congresso Nacional, sobretudo a
partir da abertura democrática, manifestações de parlamentares
contra o apartheid, inclusive contra os ataques sul-africanos em
países vizinhos que alegadamente acolhiam bases do
Congresso Nacional Africano, e pela independência da
Namíbia. No entanto, Saraiva (1996, p. 28) registra que, em
1947, Luís Carlos Prestes, então Secretário-Geral do Partido
Comunista e também Senador, já defendia "o envolvimento
brasileiro nas independências das colônias na África".
↩
50. Mesmo no período da PEI e de seu compromisso com os 3 Ds
– Desenvolvimento, Desarmamento e Descolonização, a
diplomacia brasileira restringiu-se a apenas um único voto
favorável à independência de Angola, durante a gestão San
Thiago Dantas (PEREI- RA, s/d, p. 578).
↩
51. Em 28/7/70, foi assinado o primeiro decreto presidencial que
restringia o livre comércio com a África do Sul. Tratava-se de
um embargo à venda de armas e conformava-se com
determinação das Nações Unidas. Também seguindo
resoluções das Nações Unidas, o Brasil suspendera, na década
de 1970, relações culturais e esportivas. Essas medidas
concretas tornaram-se realmente compulsórias apenas em
1985, quando o Presidente José Sarney reuniu-as em um único
decreto, o de n. 91.524, de 9/8/85.
↩
52. Desde a I Assembleia Geral das Nações Unidas, o Brasil jamais
deixou de reconhecer o apartheid como crime internacional.
Sobre o histórico das relações Brasil-África do Sul, ver Vilalva e
Gala (2001).
↩
53. Saraiva (1996, p. 22-25) enumera a "competição entre produtos
primários africanos e brasileiros no mercado internacional"
como um dos elementos que influenciaram a percepção dos
primeiros formuladores da política externa brasileria para a
África. Ele também menciona a concorrência por investimentos
e financiamentos oriundos do Plano Marshall, que passaram a
chegar à África por intermédio de suas metrópoles. Informa que
"nas Nações Unidas, diplomatas brasileiros insistiram no fato de
que o tratamento preferencial dado à África produziria uma
desvantagem comercial para os produtos agrários brasileiros".
Oliveira e Mourão (2005, p. 50) também mencionam "o
questionamento de a África ser concorrente ou parceiro
comercial" e informam que Roberto Campos considerava os
países africanos "competidores diretos do Brasil" (2005, p. 58).
Embora pouco mencionada, a ideia da competição ainda
sobrevive, como indica o título Fórum Brasil-África: cooperação
e competição, escolhido por Peter Draper, pesquisador sul-
africano, do South African Institute of International Affairs –
SAIIA, de Joanesburgo, África do Sul, para intervenção que
proferiu por ocasião do Fórum Brasil-África: Política,
Cooperação e Comércio, realizado em Fortaleza, em junho de
2003, sob os auspícios do MRE do Brasil e do Grupo de
Embaixadores Africanos em Brasília.
↩
54. Saraiva (1996, p. 38-41) menciona, por exemplo, a estratégia
do Itamaraty "de sugerir o GATT como a agência apropriada
para enfrentar esse problema" e também a posição favorável,
em 1957, à criação da Comissão Econômica para a África, que
seria "a melhor forma de reduzir distorções geradas pelas
relações especiais que existiam entre o Mercado Comum
Europeu e os países africanos".
↩
55. Pereira (s/d, p. 577) explica que se "tratava da competição pelo
financiamento internacional para o desenvolvimento industrial
brasileiro e dos reclamos contra o favorecimento da Europa a
produtos primários africanos das suas colônias, com destaque
para o café". No mesmo sentido, Fischlowitz também menciona
a concorrência entre o Brasil e a África pela captação de capital
estrangeiro para investimento (apud OLIVEIRA; MOURÃO,
2005, p. 51).
↩
56. Pereira (s/d, p. 580-581) comenta que, a partir do Governo
Médici, o Brasil começa a dar sinais de mudança com relação a
sua política para com a África e que "o sucesso comercial
compensou a abertura política. As exportações brasileiras para
o continente, que eram de US$ 69 milhões em 1970, passaram
a valer, em 1974, US$ 436 milhões, o que representou um
crescimento de mais de 630%. O incremento do comércio
manteve-se até meados da década de 80. Em 1981, o comércio
com a África alcançou US$ 1.982,2 milhões, ou seja, 9% do
total do comércio internacional do Brasil, contra 3% em 1972.
Mais do que o comércio com a América do Sul e crescimento
até então inédito nas relações sul-sul. Em 1972, eram 12
embaixadas residentes na África e, dez anos depois, 21,
cobrindo 45 países do continente".
↩
57. Em texto sobre as relações internacionais do Brasil no século
XXI, o ex-Chanceler Luiz Felipe Lampreia afirma, por exemplo,
que "o relançamento das nossas principais parcerias e a
exploração de novas parcerias – na África, na Ásia, no Oriente
Médio – deverão deixar em poucos anos o patrimônio de uma
política externa verdadeiramente universal, ou seja, cuja rede
de relações tem uma base concreta de natureza econômica e
comercial" (LAMPREIA, s/d, p. 191). A imprensa brasileira
também tem por hábito privilegiar os aspectos comerciais e os
resultados empresariais, por exemplo, das viagens
presidenciais à África. No entanto, Oliveira e Mourão (2005,
p. 59) sustentam a tese de que "o interesse básico brasileiro no
restabelecimento [na década de 1960] e estreitamento de
relações com os países africanos não é ditado unicamente por
razões comerciais e mercantilistas. (...) é concomitantemente
comercial e político". Eles comentam também que tanto Gibson
Barbosa, quanto Saraiva Guerreiro "coincidiam na defesa da
ideia de que a África não era pensada somente como mercado,
mas também como uma área importante politicamente na
década de 70" (p. 68). Registram, ademais, depoimento de
Gibson Barbosa, que afirmou que "no caso da África, se as
relações fossem examinadas de um ângulo puramente
econômico, evidentemente seriam secundárias. Nunca,
entretanto, ninguém pensou em África como uma solução para
obter financiamentos ou mesmo vender grande massa de
produtos. Não faz sentido perder a boa vontade que criamos,
porque é uma região importante, em todos os sentidos, não só
em organismos internacionais, mas até porque somos um país
predominantemente negro, vamos dizer a verdade, e ficaria
esquisitíssimo não termos uma abertura para a região" (apud
OLIVEIRA; MOURÃO, 2005, p. 69).
↩
58. Saraiva (1996, p. 18) diz que, nesse período, em função do
quadro descrito, "[a África] está desqualificada como
interlocutora dos novos tempos das relações internacionais do
final do século. Em certo sentido, recoloca-se esse continente –
nas mais diferentes versões predominantes na mídia, na
inteligência e nos relatórios do Banco Mundial – no marco do
velho paradigma hegeliano da África sem movimento, exótica e
povoada de selvagens e doenças incuráveis".
↩
59. No trabalho de Jeffrey Lesser, A negociação da identidade
nacional. Imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil
(2000), há extenso relato dos debates ocorridos no Brasil
acerca das políticas de imigração que deveriam ser adotadas
no País, como substituição ao trabalho escravo. Nesses
debates, ficam patentes percepções negativas acerca dos
descendentes de africanos e, por associação, também da
própria África. Sobre o mesmo tema registre-se o trabalho de
Célia Maria Marinho de Azevedo. Onda negra medo branco: o
negro no imaginário das elites (1987), em que a autora registra
ocorrências inscritas em jornais da época e publicadas em
capitais brasileiras, envolvendo negros libertos que afluem a
essas cidades em busca de ocupação e são apresentados, pela
imprensa, como elementos agressivos e perigosos.
↩
60. Cervo e Bueno, 2002.
↩
61. As expressões entre aspas duplas foram retiradas do texto
desses autores.
↩
62. Por exemplo, não há referência ao trabalho da diplomacia
brasileira, no âmbito da CPLP, com vistas à estabilização da
crise política na Guiné-Bissau, em julho de 1998.
↩
63. Saraiva (1996, p. 12, Nota nº 10) soma-se a Hernandez (2005)
e recorda que esta é uma "divisão geográfica, mas com
implicações históricas e ideológicas profundas".
↩
64. Exceção honrosa é o trabalho pioneiro de Saraiva (1996), em
que se identifica, nos comentários sobre o discurso culturalista,
a proposta de um debate sobre a questão racial e a política
externa brasileira para a África.
↩
65. Com incidência subliminar sobre o tema da presença dos
negros na formação da população brasileira, referem, entre os
opositores à imigração chinesa, nos idos de 1880, os
parlamentares Joaquim Nabuco e Alfredo d'Escragnolle Taunay
que "se opunham à vinda de chineses com argumentos sociais
e raciais, porque supunham que iria desenvolver-se no Brasil
uma nova escravidão e efetuar-se uma nova contaminação
biológica" (CERVO; BUENO, 2002, p. 136).
↩
66. Idem, p. 82.
↩
67. Saraiva (1996, p. 41) conta que, em 1957, o Brasil continuava
evitando também uma "firme posição oficial sobre o tema da
discriminação racial na África do Sul," a despeito dessa matéria
já vir sofrendo forte apelo internacional.
↩
68. Saraiva (1996) elenca uma série de vozes que, sobretudo no
Governo Kubitschek, defendiam a formulação de uma nova
política para a África, o que, à época, significava
essencialmente a revisão da posição do país sobre o
colonialismo. Os principais porta-vozes dessa proposta eram
Oswaldo Aranha, Álvaro Lins, Adolpho Justo Bezerra de
Menezes e Eduardo Portella, entre outros. Como pressupostos
dessa revisão figurariam as percepções acerca do surgimento
dos novos mercados no mundo pós-colonial e, conforme carta
de Oswaldo Aranha, de 1957, dirigida ao então Presidente
Kubitschek, também "nossa formação, nossas tradições"
(p. 44).
↩
69. Cervo e Bueno, 2002, p. 310.
↩
70. Apud Cervo e Bueno, 2002, p. 314.
↩
71. Na análise que faz desse período, José Honório Rodrigues
sublinha que a composição racial da população brasileira
habilitava o país a executar a PEI (apud OLIVEIRA; MOU-
RÃO, 2005, p. 52).
↩
72. Cervo e Bueno, 2005, p. 319.
↩
73. Idem, p. 326.
↩
74. Ibidem, p. 321.
↩
75. Ib., p. 349.
↩
76. Ib., p. 377.
↩
77. Ib., p. 379.
↩
78. Ib., p. 401.
↩
79. Ib., p. 380.
↩
80. Grifo dos autores.
↩
81. Saraiva (1996, p. 28) entende que, desde o período do pós-
guerra, a África "vai se incluindo lentamente como um posto de
manobra para interesses da inserção internacional do Brasil e
sua afirmação no contexto do pós-guerra". Também lembra que
a "África era espaço de manobra para outros objetivos, como o
da negociação brasileira por assento permanente no Conselho
de Segurança das Nações Unidas – objetivo que já vinha se
delineando no final do governo Vargas".
↩
82. Cervo e Bueno, 2002, p. 420.
↩
83. Idem, p. 421.
↩
84. Foram visitados os seguintes países: Senegal, Costa do
Marfim, Gana, Togo, Daomé (atual Benim), Nigéria, Camarões,
Gabão e Zaire (atual RDC).
↩
85. Esta segunda viagem à África incluiu o Quênia e, também, o
Egito, que, todavia, não é mencionado pelos autores.
↩
86. Cervo e Bueno, 2002, p. 421.
↩
87. Idem, p. 422.
↩
88. Ibidem, p. 423.
↩
89. Ib., p. 423.
↩
90. Ib., p. 428.
↩
91. Ib., p. 431.
↩
92. Ib., p. 431.
↩
93. Saraiva (1996, p. 18) entende ter havido, no período entre as
décadas de 1980 e 1990, uma "redução da presença da África
na agenda da política exterior brasileira", sem ruptura dos
princípios formais, mas também sem conteúdo, com um "afro-
pessimismo que se espraiou tanto na diplomacia brasileira
quanto nos homens de negócios".
↩
94. Cervo e Bueno, 2002, p. 447.
↩
95. Na verdade, o Decreto n. 91.524, de 9/8/85, que estabeleceu as
sanções, proíbe o comércio apenas de armas, petróleo e
similares, assim como bens considerados necessários ao
desenvolvimento da indústria energética pela África do Sul,
seguindo, dessa forma, as determinações das Nações Unidas
nessa matéria.
↩
96. Cervo e Bueno, 2002, p. 448-449.
↩
97. Saraiva (1996, p. 17) considera a criação da Zopacas "o ponto
culminante da dimensão atlântica da política externa do Brasil".
Reconhece ainda como "a maior conquista da política africana
do Brasil [o fato de] o Atlântico apresenta[r]-se como a área
mais demilitarizada do mundo" (p. 243).
↩
98. Cervo e Bueno, 2002, p. 452.
↩
99. Idem, p. 449.
↩
100. Cervo e Bueno, 2002, p. 449.
↩
101. Idem, p. 482. A propósito, o sentido da frase seria talvez melhor
expresso se usado o termo dependente, ao invés de
independente, como fazem os autores.
↩
102. Ibidem, p. 482.
↩
103. Ib., p. 482.
↩
104. Ib., p. 482.
↩
105. Ib., p. 490.
↩
106. Nesse particular, a tradição idealista da teoria das relações
internacionais tem buscado tratar, por exemplo, do papel das
diásporas como atores de política externa. Sobre o tema ver
Yossi Shain e Aharon Barth, Diasporas and international
relations theory. International Organization, n.57, Summer/2003,
p. 449-479.
↩
107. Santos, 2005, p. 29.
↩
108. Filólogo e filósofo português que se radicou no Brasil em 1944.
Foi fundador do Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, da
estação ecológica do Parque Itatiaia e participou da criação de
universidades em zonas afastadas dos grandes centros
(Paraíba, Santa Catarina), do Centro Brasileiro de Estudos
Portugueses na Universidade de Brasília e do Centro de
Estudos Africanos e Orientais, na Bahia. Lecionou nas
Universidades de Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraíba,
Minas Gerais, Santa Catarina, Bahia e Brasília. Sempre nutriu
especial interesse pelas questões da língua portuguesa e pelos
estudos africanos e orientais.
↩
109. Idem, p. 27.
↩
110. Ibidem, p. 28.
↩
111. Santos, 2005, p. 29.
↩
112. Idem, p. 30.
↩
113. O TEN foi criado por Abdias Nascimento em meados da década
de 1940. Sua criação e proposta serão objeto do capítulo 4
deste trabalho.
↩
114. Apud Santos, 2005, p. 32.
↩
115. Idem, p. 34.
↩
116. O massacre de Sharpeville ocorreu em 21/3/1960, quando
foram mortos 69 jovens negros que protestavam contra a lei do
passe imposta pelas autoridades sul-africanas.
↩
117. Apud Santos, 2005, p. 33.
↩
118. Santos, 2005, p. 33.
↩
119. Idem, p. 34.
↩
120. Ibidem, p. 34.
↩
121. Apud Santos, 2005, p. 34.
↩
122. Apud Saraiva, 1996, p. 36.
↩
123. Apud Santos, 2005, p. 36.
↩
124. Santos, 2005, p. 43.
↩
125. Idem, p. 43.
↩
126. Ibidem, p. 45.
↩
127. Ib., p. 39-40.
↩
128. Ib., p. 40.
↩
129. Ib., p. 40.
↩
130. Ib., p. 41.
↩
131. Ib., p. 42-43.
↩
132. Apud Santos, 2005, p. 47.
↩
133. Santos, 2005, p. 47.
↩
134. Sobre os casos dos estudantes africanos aqui referidos ver
AZEVEDO, Thales de. Democracia racial. Ideologia e realidade.
Petrópolis: Editora Vozes, 1975. p. 41-42.
↩
135. Santos, 2005, p. 52-53.
↩
136. Idem., p. 53-54.
↩
137. Ibidem, p. 44.
↩
138. Neste caso, também a política externa brasileira.
↩
139. Santos, 2005.
↩
140. Apud Santos, 2005, p. 111.
↩
141. Santos (2005, p. 111) transcreve parte de discurso, na Nigéria,
em novembro de 1972, em que o ex-Chanceler brasileiro
reconhece "que temos por nossos antepassados tanto os
homens que inventaram as caravelas quanto os que esculpiram
o bronze em Ifé e no Benim".
↩
142. Santos, 2005, p. 111.
↩
143. Idem, p. 112.
↩
144. Ibidem, p. 112.
↩
145. No capítulo 3 serão mencionadas algumas das teorias relativas
à composição racial da sociedade brasileira.
↩
146. Saraiva, 1996.
↩
147. Idem, p. 11.
↩
148. Ibidem, p. 234.
↩
149. Saraiva (1996, p. 230) cita encarte publicado, em junho de
1995, pelo jornal Folha de S. Paulo, cujos dados, que indicavam
a existência de um "racismo cordial" no Brasil, causaram, à
época, forte impacto na opinião pública e nos meios políticos
brasileiros. Entre esses dados, a constatação de que "85% dos
não negros manifestam algum preconceito contra negros".
↩
150. Em mais que uma ocasião, em seus discursos perante
interlocutores africanos, o Presidente Lula afirmou que o Brasil
era, "com muito orgulho" o segundo país com maior população
negra no mundo.
↩
151. Ao listar suas fontes, Saraiva (1996, p. 13) indica que procurou
"auscultar a sociedade e os movimentos sociais, como aqueles
empreendidos pela emergente comunidade de afro-brasileiros,
que tem opinião, concepção e versão sobre os encontros e
desencontros de brasileiros e africanos no universo atlântico".
↩
152. Saraiva, 1996, p. 12.
↩
153. Idem, p. 51.
↩
154. Ibidem, p. 50.
↩
155. Ib., p. 50.
↩
156. Ib., p. 51.
↩
157. Ib., p. 52.
↩
158. Saraiva (1996, p. 26) remete à tese de mestrado de Letícia
Pinheiro, Ação e omissão: a ambiguidade da política brasileira
frente ao processo de descolonização africana, 1946-1960. Rio
de Janeiro: PUC, 1988; e aponta a ocorrência, dentro do
Itamaraty, de "opiniões discordantes" acerca da questão do
colonialismo, ou seja, contrárias ao acompanhamento das
posições das metrópoles. A tendência dominante, insiste, era,
todavia, de apoio a essas posições.
↩
159. Ib., p. 232.
↩
160. Saraiva (1996, p. 232) registra que "o discurso freyreano,
fundamental para a diplomacia brasileira no processo de
aproximação à África, procurou integrar a África à nacionalidade
brasileira. Mas o fez pela porta da cozinha, e não da sala de
estar. Daí a presença ambivalente da África no imaginário das
elites e do povo".
↩
161. Entre os muitos títulos que, mais recentemente, elaboraram
sobre a obra de Gilberto Freyre, é especialmente rica em
informações sobre as teorias e autores que influenciaram o
autor pernambucano o livro de Maria Lúcia Garcia Pallares-
Burke. Gilberto Freyre. Um vitoriano nos trópicos (2005). A
autora escreve uma extensa obra em que sustenta, finalmente,
ter sido Gilberto Freyre o inventor de um novo paradigma, nos
moldes de T. S. Kuhn, com o qual iria inovar a interpretação do
Brasil.
↩
162. Saraiva, 1996, p. 53.
↩
163. Idem., p. 57.
↩
164. A proibição à entrada dos negros norte-americanos no Brasil,
nos anos 20, consta também da obra já citada de Jeffrey Lesser
(2000), e de autores que estudam a questão racial brasileira,
como Anani Dzidzienyo (1995, 2002, 2005, s/d).
↩
165. Sobre a história da imigração estrangeira para o Brasil, ver
Lesser, 2000.
↩
166. Saraiva, 1996, p. 57.
↩
167. Idem, p. 57.
↩
168. Ibidem, p. 57.
↩
169. Ib., p. 12.
↩
170. Ib., p. 13.
↩
171. Relatório do MRE, 1961, p. 39-40 (apud SARAIVA, 1996, p. 65).
↩
172. Saraiva, 1996, p. 23.
↩
173. Para exemplificar, Saraiva (1996, p. 233) acrescenta que, "em
1961, Jânio Quadros insistiu que o Brasil estava fadado a ser a
'ponte' da África com o mundo. (...) Na década de 1980, o
Chanceler Saraiva Guerreiro afirmava que a África não era só
uma nova área de expansão comercial e diplomática para o
Brasil (...) a importância do continente ribeirinho era ser parte
'intrínseca da formação' do país. O Presidente Fernando Collor
de Mello, em sua visita à África Austral, em 1991, reproduziu
essa mesma linguagem em suas manifestações públicas. (...) O
então Chanceler Fernando Henrique Cardoso declarou que
"nossa presença na África já assume feições de tradição, da
qual não podemos recuar sob pena de fazer ruir, como castelo
de cartas, o inestimável capital de boa vontade acumulado por
nossa experiência naquela região – da qual somos
culturalmente tributários".
↩
174. Saraiva, 1996, p. 89. Fonseca Jr. (2004, p. 357) também
concorda que a aproximação à África nas décadas de 1970 e
1980 "sustentou-se na contribuição africana para a definição da
nacionalidade brasileira".
↩
175. Idem, p. 89.
↩
176. Ibidem, p. 233.
↩
177. Saraiva (1996, p. 23) diz que, conforme os formuladores do
discurso culturalista, "relevância simbólica remontava à
formação social do Brasil e à sua dívida para com o continente
africano, que fornecera os "braços" (grifo do autor) da formação
econômica do país". Oliveira e Mourão observam que José
Honório Rodrigues, em seu livro Brasil e África. Outro Horizonte
entendia ter o Brasil "uma irrecusável dívida com o povo
africano", a qual considerava uma "razão moral" para o
estreitamento dos laços com o continente (RODRIGUES, apud
OLIVEIRA; MOURÃO, 2005, p. 52).
↩
178. Saraiva, 1996, p. 89.
↩
179. A propósito Saraiva (1996, p. 85) registra a nomeação de
adidos culturais brasileiros, todos negros, para as Embaixadas
brasileiras em Lagos e Acra, com "a missão de levar aos líderes
africanos as marcas e as caras da africanidade brasileira".
↩
180. Saraiva, 1996, p. 96.
↩
181. Saraiva (1996, p. 231) refere-se, aqui, ao caderno especial,
publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, em 25/6/1995, sob o
título Racismo cordial. A maior e mais completa pesquisa sobre
o preconceito de cor entre os brasileiros (Ib., p. 231).
↩
182. Saraiva, 1996, p. 234.
↩
183. Idem, p. 90.
↩
184. Saraiva (1996, p. 90) refere-se ao jornalista negro Raymundo
de Souza Dantas, nomeado primeiro embaixador brasileiro em
Gana, em 1961, pelo Presidente Jânio Quadros.
↩
185. Saraiva, 1996, p. 90.
↩
186. Idem, p. 90.
↩
187. Ibidem, p. 233-34.
↩
188. Ib., p. 91.
↩
189. De acordo com Gevanilda Gomes dos Santos (1992, p. 10-11),
o projeto de lei antidiscriminação fora inicialmente apresentado
em 1946, em resposta a uma reivindicação da I Convenção
Nacional do Negro, realizado em 1945. Na ocasião, o projeto foi
rejeitado e apenas posteriormente reapresentado, por Afonso
Arinos, que conseguiu sua aprovação no parlamento.
↩
190. Saraiva, 1996, p. 91.
↩
191. Eduardo Portella foi entre 1979 e 1980 – Ministro de Estado da
Educação, Cultura e Esportes e Presidente da Comissão
Interministerial para a Ciência e Tecnologia. Nos anos de 1985
e 1986, foi membro e coordenador do comitê "Educação,
Cultura e Comunicação", da Comissão de Estudos
Constitucionais da Presidência da República. Entre os anos de
1987 e 1988, foi Secretário de Estado da Cultura do Rio de
Janeiro.
↩
192. Apud Saraiva, 1996, p. 92.
↩
193. Saraiva, 1996, p. 92.
↩
194. Idem., p. 92.
↩
195. Ibidem, p. 93.
↩
196. Ib., p. 93.
↩
197. Em razão de sua argumentação conclusiva e contundente,
convém transcrever mais alguns excertos do estudo de Saraiva
(1996) sobre o discurso culturalista. O autor denuncia "o
paradoxo dessas construções imaginárias e de seus
componentes práticos [pois] a relevância da contribuição
africana à cultura brasileira só era conhecida pelo público por
meio dos aspectos pitorescos e folclóricos dos africanos que
haviam chegado ao Brasil." (p. 96) "A África e seus
descendentes foram, a partir das reconsiderações de Freyre,
incluídos nos paradigmas da 'nação brasileira', mas como
subordinados ou reduzidos ao culturalismo dos doces, do
requebro das negras, da música extasiante e do continente
exótico." (p. 232). "As condições históricas da escravidão e
suas sequelas para a formação social do Brasil e a violência
racial eram tratadas como um mundo à parte da cultura
dominante e do universo da política 'maior'." (p. 96). No
processo de formação da "chamada identidade cultural, as
elites [estabeleceram] uma distância cultural ativa em relação à
África [que] foi explicitamente desfavorável à autonomia social e
econômica da herança africana." (p. 231). "A cultura
hegemônica no Brasil, embora de língua portuguesa, há muito
adotou definições de si mesma que implicam negligenciar a
herança africana. A explicação está no fato de que as elites
intelectuais e políticas brasileiras favorecem modelos ocidentais
ao longo do presente século [XX], que, aliás, pouco tiveram a
ver com a África." (p. 243)
↩
198. Idem, p. 93.
↩
199. Saraiva (1996, p. 232) anota que "a História é uma mestra na
compreensão da condição ímpar imposta à África e aos seus
descentes no Brasil durante período muito recente. A expulsão
de africanos libertos e livres do território brasileiro, a adoção de
ideias de progresso e de modernidade permeadas pelas noções
racistas no projeto da abolição da escravidão, o caráter
perverso dos processos de alforria, a insistência das elites no
início do século pelo processo de 'embranquecimento' foram
elementos que marcaram profundamente o distanciamento
deliberado que o Brasil construiu contra o continente africano".
↩
200. FERNANDES, Florestan. The negro in the Brazilian society.
Nova York: Columbia University Press, 1967, p. 137 (apud
SARAIVA, 1996, p. 96).
↩
201. Saraiva, 1996, p. 237.
↩
202. Idem, p. 231.
↩
203. Saraiva (1996, p. 234) menciona, por exemplo, o relatório
publicado pelo Instituto Nigeriano de Relações Internacionais,
em 1982, com "duras críticas aos disfarces mercantilistas do
Brasil trajando indumentárias culturalistas na Nigéria". O
documento indicava ainda que a diplomacia brasileira
demonstrava "clara falta de conhecimento e de informação
acerca da África e muito pouca pesquisa sistemática sobre a
África e sua relações internacionais".
↩
204. Saraiva, 1996, p. 235.
↩
205. Idem, p. 233.
↩
206. As estatísticas referentes ao ano de 2006 do comércio do Brasil
com a África, mencionadas neste trabalho, cobrem apenas o
período até outubro daquele ano. No capítulo 7, são
apresentados e discutidos outros dados e estatísticas que
atestam o adensamento das relações com o continente africano
durante a gestão do Presidente Lula.
↩
207. O Programa de Governo da Coligação Lula Presidente dispõe
que "o Brasil, como segundo país com maior população negra
no mundo, deverá voltar-se para a África" (Programa de
Governo da Coligação Lula Presidente, §19).
↩
208. O programa determina, no início do §19, que "O Brasil buscará
estabelecer relações econômicas, políticas e culturais com todo
o mundo".
↩
209. Programa de Governo da Coligação Lula Presidente, §19.
↩
210. Idem.
↩
211. Outros países também citados nominalmente junto com a África
do Sul são Índia, China e Rússia.
↩
212. Programa de Governo da Coligação Lula Presidente, §19.
↩
213. O parágrafo 19 do referido Programa de Governo recomenda
que se explorem "os laços étnicos e culturais existentes" entre o
Brasil e a África.
↩
214. Sobre a agenda de política externa e os partidos políticos,
inclusive seus candidatos à Presidência da República, ver
ALMEIDA, Paulo Roberto. Relações Internacionais e política
externa do Brasil, 2004, p. 201-308.
↩
215. Saraiva, 1996, p. 50.
↩
216. No Congresso Nacional, o destaque eram as críticas
pronunciadas pelo Deputado Adauto Lúcio Cardoso (UDN-GB)
(SARAIVA, 1996, p. 68-69). Para um registro dos debates
parlamentares sobre a política africana do Governo
Quadros/Goulart, ver Saraiva (1996, p. 69, Nota n. 22). Ver
também SOUSA, Marconi F. As relações raciais na Câmara dos
Deputados, 2005.
↩
217. Saraiva, 1996, p. 199.
↩
218. Idem, p. 199 e 236.
↩
219. Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e
Príncipe.
↩
220. Almeida, 2004, p. 255 e ss.
↩
221. Em 1989, durante a Presidência de José Sarney, foi criado, em
São Luís do Maranhão, o Instituto Internacional de Língua
Portuguesa, pelos representantes dos sete países de língua
portuguesa, então independentes, Angola, Brasil, Cabo Verde,
Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. A
CPLP foi criada em 17/7/1996, mas as consultas acerca de sua
constituição iniciaram-se em 1993, após o Embaixador José
Aparecido de Oliveira ter assumido seu posto como Embaixador
do Brasil junto à República Portuguesa.
↩
222. Em tese de mestrado sobre Partidos políticos e etnia negra,
apresentada na PUC/SP, em 1992, Gevanilda Gomes do
Santos analisa a relação entre a questão racial e os partidos
políticos, desde os anos 30 até a instalação do
multipartidarismo no Brasil, e discute a participação do negro no
sistema parlamentar. Nesse trabalho, considerado bibliografia
obrigatória nos estudos sobre o tema, a autora não comenta ou
sequer registra a posição dos partidos brasileiros sobre as
relações do Brasil com a África. As únicas exceções, em todo o
trabalho, são as referências à influência da experiência
socialista na Guiné-Bissau, durante o regime militar, em facções
da esquerda brasileira, e à luta contra o apartheid nos
programas do PCdoB e do PDT, bem como do PT. Ela
tampouco menciona eventuais propostas ou avaliações acerca
de temas africanos que, por serem de potencial interesse dos
negros brasileiros, poderiam estar refletidos no programa dos
partidos políticos.
↩
223. No período pós-abertura, o PDT consta ter sido o primeiro
partido a acolher militantes negros, entre os quais o próprio
Senador Abdias Nascimento. Também foi na gestão do
Governador Leonel Brizola (PDT), no Rio de Janeiro, que se
criou, pela primeira vez, uma secretaria responsável por tratar
especificamente dos assuntos referentes à população negra. A
atual Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das
Populações Afro-Brasileiras (Seafro), foi instalada em
01/04/1991 com o nome de Secretaria Extraordinária de Defesa
e Promoção das Populações Negras (Sedepron), pelo Decreto
n. 16.529, assinado pelo então Governador Leonel Brizola. Joel
Rufino Santos registra que as "alianças mais resistentes dos
movimentos negros, na fase que começa com a Frente Negra,
há sessenta anos, têm sido com o que se convencionou chamar
de populismo. (...) O Partido Trabalhista Brasileiro durante a sua
primeira existência (1945-1964) concentrou a maioria do voto
negro urbano, oferecendo, mais que qualquer outro, legenda a
candidatos negros, assumidos ou não; e, enfim, foi à sombra de
um remanescente populista, Leonel Brizola, que, há poucos
anos, o Movimento Negro obteve seus maiores ganhos" (apud
SANTOS, 1992).
↩
224. Abdias Nascimento, em sua biografia, escrita juntamente com
Éle Semog, conta sobre os contatos que manteve com Leonel
Brizola, no exterior, durante o período de seu autoexílio nos
Estados Unidos. Segundo Semog e Nascimento (2006), essas
ocasiões serviram para que Brizola se sensibilizasse sobre a
questão racial no Brasil e, posteriormente, fizesse do PDT o
partido político brasileiro mais comprometido com a plataforma
política dos movimentos negros.
↩
225. Abdias Nascimento é um dos mais notórios militantes do
combate à discriminação racial no Brasil. Sua história confunde-
se com as conquistas sociais dos negros nos últimos sessenta
anos. Foi um dos fundadores da Frente Negra Brasileira, em
1931; criou o TEN em 1944; foi Secretário de Defesa e
Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Rio de Janeiro;
Deputado Federal pelo PDT/RJ em 1983 e Senador da
República em 1997, também pelo PDT/RJ. É autor de vários
livros e Professor Benemérito da Universidade do Estado de
Nova York. Em julho de 2006, recebeu, em Salvador, das mãos
do Presidente Lula, durante a II CIAD, a Ordem do Rio Branco,
no grau de Cavaleiro.
↩
226. Os países da Linha de Frente eram os da vizinhança da África
do Sul, que apoiavam a luta do Congresso Nacional Africano e
da Swapo contra o regime aparteísta e, em consequência, eram
alvos da hostilidade declarada das autoridades de Pretória,
inclusive de natureza militar.
↩
227. Almeida, 2004, p. 234.
↩
228. Jocélio Santos (2005, p. 101) comenta que a temática racial
tornou-se agenda no plenário do Senado em razão dos
encontros de lideranças negras realizados a partir do final da
década de 1970, e que as intervenções dos senadores
deveriam ser lidas como respostas partidárias às reivindicações
dessas lideranças. Essas intervenções, em sua análise, trazem
dois temas – racismo e mestiçagem, que são, ao mesmo
tempo, explicativos e excludentes: "o preconceito racial é algo
residual na sociedade brasileira e a mestiçagem é seu
contraponto, posto que ela tem uma estruturação positiva na
nossa formação. A mestiçagem também aparece como uma
espécie de postulado social e político a ser, inclusive, difundido
para outras nações. Nesse sentido, ela desempenharia um
papel crucial, tanto no estabelecimento das nossas diferenças
em relação a outros países, quanto na propagação de um
projeto alternativo: o Brasil apresenta-se como o lugar, por
excelência, do surgimento de um 'novo homem'" (grifo do
autor).
↩
229. Saraiva, 1996, p. 238.
↩
230. O Programa de Governo da Coligação Lula Presidente
estipulava que a "política externa será um meio fundamental
para que o governo implante um projeto de desenvolvimento
nacional alternativo, procurando superar a vulnerabilidade do
País diante da instabilidade dos mercados financeiros globais".
Esse é o primeiro parágrafo, o de n.14, do capítulo sobre
política externa do referido programa.
↩
231. Semog e Nascimento, 2006, p. 196.
↩
232. Quase a quarta parte das pessoas subnutridas do mundo vive
na África Subsaárica, que é também a que registra a proporção
mais alta de população subnutrida, segundo a Feeding minds,
fighting hunger - ONG parceira da FAO. A situação é
especialmente grave na África Central, Oriental e Meridional,
onde 44% da população total é subnutrida.
↩
233. Centrados no estudo do Estado como ator e as relações com
outros Estados como o objeto de sua análise, os trabalhos
sobre as relações Brasil-África ignoram, ou referem de forma
marginal, sua dimensão parlamentar e/ou político-partidária.
Saraiva (1996, p. 43 e ss.) apresenta, no entanto, os
parlamentares e partidos políticos como atores a serem
considerados nos estudos sobre o tema, juntamente com os
próprios diplomatas e intelectuais. Ele faz referência aos
discursos, na tribuna parlamentar, sobre as relações com
Portugal e seu impacto nas opções da diplomacia brasileira
relativas às colônias ultramarinas, inclusive no âmbito das
Nações Unidas, e também às relações com o regime aparteísta
sul-africano, já a partir do Governo Kubitschek.
↩
234. Foram realizadas entrevistas com os Professores Marco Aurélio
Garcia e Ladislau Dowbor, ambos fundadores e membros da
assessoria internacional do PT. Também foi entrevistado o
Deputado Luis Alberto, da Bahia, que é líder sindical dos
petroleiros baianos, e o Deputado Gilmar Machado, também
negro e professor, com militância na área de educação, além de
Flávio Jorge Rodrigues da Silva, uma das lideranças negras do
PT, fundador do partido, Secretário Nacional do PT de combate
ao racismo e, em 2006, membro de sua Comissão Executiva e
Diretor da Fundação Perseu Abramo. Dowbor foi cooperante na
Guiné-Bissau e em mais seis países africanos, mantendo ainda
vínculos estreitos com o continente, inclusive mediante a
continuação de prestação de consultoria em gestão pública e a
promoção de iniciativas não governamentais de cooperação
bilateral institucional. Em razão de sua vinculação histórica com
a África, Dowbor foi incluído na delegação oficial do Presidente
Lula em sua primeira viagem oficial à África, em novembro de
2003. Durante a visita, por ocasião de cerimônia realizada no
Centro de Estudos Brasileiros "José Aparecido de Oliveira", em
Maputo, o Professor Dowbor, a convite do Presidente Lula, fez
uso da palavra para agradecer as lideranças e os povos
africanos, em particular os moçambicanos, por terem recebido,
como refugiados, os militantes da esquerda brasileira durante o
período do regime militar no Brasil.
↩
235. Com o exílio de parte da esquerda brasileira e os sucessivos
golpes na Argentina e no Chile, muitos exilados foram para a
Europa e Cuba, mas também para a África, em particular para a
Argélia.
↩
236. Entre eles, Ladislau Dowbor, que, com grupo de 40 presos
políticos trocados pelo embaixador alemão, em 1970, seguiu
primeiramente para a Argélia, onde chegaram a estar
acreditados representantes de 50 movimentos e grupos de
libertação africanos. Em entrevista concedida em 23/3/2006,
Dowbor mencionou, em particular, a presença, na Argélia, dos
grupos de libertação das colônias portuguesas na África.
Explicou também que, por exemplo, na Guiné-Bissau já
independente, estiveram ele e Paulo Freire e outros exilados
que decidiram "dedicar-se à ação e a um trabalho útil em uma
situação concreta". Dessa época é o livro de Paulo Freire
intitulado "Cartas de Bissau".
↩
237. Em entrevista concedida no dia 01/12/2006, Flávio Jorge
Rodrigues da Silva, membro do Diretório Nacional do PT e atual
Diretor Administrativo da Fundação Perseu Abramo, informou
que, segundo o Centro de Documentação Sérgio Buarque de
Holanda, vinculado à Fundação Perseu Abramo, dentre as 242
pessoas, em especial aquelas que estiveram no exílio, que
assinaram o "Manifesto de Lançamento" do Partido dos
Trabalhadores na reunião nacional de fundação dos dias 31 de
maio e 01 de junho de 1980, apenas o educador Paulo Freire
tinha ligações com o continente africano. Antes da criação do
partido, Freire esteve em Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau
durante os anos 60, como consultor especial do Departamente
de Educação do Conselho Mundial de Igrejas, contribuindo para
a sistematização dos planos de educação desses países, após
o término das lutas anticolonialistas na África.
↩
238. Foi professor em Moçambique, na Universidade Eduardo
Mondlane (UEM), de 1976 a 1979. O historiador e atual
professor titular de História Contemporânea da Universidade
Federal Fluminense (UFF) Daniel Aarão Reis Filho foi líder
estudantil e militante da dissidência do Partido Comunista
Brasileiro (PCB) que, posteriormente, formou o Movimento
Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Foi preso em 1970,
como um dos militantes banidos para a Argélia em troca da
liberdade do embaixador alemão Von Holleben, que havia sido
sequestrado por um conjunto de organizações de esquerda,
incluindo o MR-8. Também foi afiliado ao PT, porém não fez
parte do grupo dos fundadores do partido, segundo informação
de Flávio Jorge Rodrigues da Silva, na entrevista citada acima.
↩
239. Sobre o trabalho e envolvimento de Paulo Freire nos países
africanos, em particular os de língua oficial portuguesa, ver
Freire e Guimarães, A África ensinando a gente: Angola, Guiné-
Bissau e São Tomé e Príncipe, 2003. Saraiva, 1996, p. 50.
↩
240. Dowbor, entrevista citada.
↩
241. Entre outros africanos radicados no Brasil, os Professores José
Maria Nunes Pereira e Fernando Mourão, ambos de origem
portuguesa, e o Professor Kabengele Munanga, por exemplo.
↩
242. Dowbor, entrevista citada.
↩
243. Idem.
↩
244. "As bases de ação do Programa de Governo", aprovado em
18/6/1989, no 6º Encontro Nacional do PT.
↩
245. Registre-se, por exemplo, os seguintes documentos e suas
respectivas datas: 1/5/1979 - "Carta de Princípios" para a
formação de um partido de trabalhadores; 13/10/1979 -
lançamento do Movimento pelo Partido dos Trabalhadores e
divulgação de uma "Declaração Política", redigida pela
Comissão Coordenadora Provisória; 10/2/1980 – "Manifesto de
Lançamento do PT". São esses os três documentos iniciais e
constitutivos do Partido dos Trabalhadores, nos quais não há
referência à África. No Programa e Plano de Ação, aprovado
em 1/6/1980, no item relativo à Soberania Nacional, inclui-se
disposição relativa "ao respeito à autodeterminação dos povos
e solidariedade aos oprimidos". No 3o. Encontro Nacional, em
8/4/1984, é adotado documento intitulado "Teses para Atuação
do PT", em que há referência a "países socialistas e do Terceiro