Política Externa como Ação Afirmativa: o Governo Lula na África
A ação conjunta no plano multilateral
imensa dívida social do país".606 Essa é uma mensagem, disse ele, que vinha levando a todos os países, porque "não se pode relegar a segundo plano o flagelo da escassez e da pobreza, que aflige mais
de um bilhão de pessoas em todo o mundo".607 A prioridade, portanto, é a "construção de uma ordem mundial mais justa e
democrática",608 a ser entendida como paráfrase da luta contra a exclusão social.
A ação conjunta no plano multilateral
Qualificados os interlocutores e identificados os objetivos que
integram a percepção de uma necessidade estratégica de aproximação à África, é preciso reconhecer ainda os mecanismos que, segundo o Presidente, seriam capazes de assegurar a inclusão social.
Em Moçambique, em novembro de 2003, o Presidente anunciou,
a propósito, a disposição brasileira para a construção de parcerias e a ausência de vocação hegemônica, pois "queremos trabalhar juntos para a construção de uma política internacional equânime, para organismos multilaterais e democráticos, para que tenhamos
igualdade de oportunidades".609 Em 8 de dezembro de 2003, no
Egito, país que também é membro do G20, 610 o Presidente recomendou trabalho conjunto com o
(...) objetivo de aumentar os fluxos de comércio e investimentos entre os
países do Sul, de forma a criar uma nova geografia econômico-comercial
do mundo. Uma geografia que não despreze as relações com o mundo
desenvolvido, mas que crie um equilíbrio justo de forças, interesses e
benefícios para todos. 611
Ainda nessa escala, o Presidente justificou a sua viagem a cinco
países árabes, dentre os quais, Egito e Líbia, na África, com a intenção de "contribuir para uma mudança efetiva nos padrões de
relacionamento econômico-comercial que prevalecem até hoje".612
No Gabão, em 27 de julho de 2004, reiterou que o
aprofundamento das relações do Brasil com a África,
(...) além de um dever moral é uma necessidade estratégica. A ordem
econômica mundial apresenta dificuldades e desafios que só poderão ser
superados por meio da aproximação solidária dos países em
desenvolvimento. Quando articulamos nossas posições, nossa capacidade
de influir sobre as decisões internacionais é enorme.613
Nos discursos na África e nos contatos com interlocutores e
homólogos africanos, teve-se logo a impressão, desde o princípio do Governo Lula, de que a percepção da necessidade estratégica de aproximação à África estava diretamente relacionada ao contexto multilateral e à reforma de suas principais instituições. A parceria com os africanos foi apresentada como modalidade de ação internacional que poderia viabilizar mudanças no sistema internacional, destinadas a assegurar a realização dos interesses do Brasil e de outros PEDs.
Esse parecia o propósito, por exemplo, do convite do Presidente
Lula ao Rei do Marrocos, para que os dois países continuassem a trabalhar juntos "para que os foros multilaterais sejam mais representativos da nova geografia econômica e política
internacional".614
Também é a razão para que reiterasse, ao Presidente da
Namíbia, em 21 de junho de 2004, a necessidade de edificação de uma nova geografia comercial, tal como já fizera por ocasião do
discurso na XI UNCTAD. 615 Registrou, a propósito, suas expectativas positivas com relação a possíveis avanços na nova rodada de negociações do SGPC.
Ainda diante do Rei do Marrocos, reconheceu que, na OMC, "a
parceria entre o G-20 e o Grupo Africano busca eliminar as
distorções comerciais que penalizam os países mais pobres".616 Ao Presidente José Eduardo dos Santos, em 3 de maio de 2005, disse:
Juntamos forças contra as iniquidades provocadas por políticas
protecionistas dos países desenvolvidos. (...) Cada vitória nossa nos foros
multilaterais é a vitória da competência e da determinação dos pequenos
produtores agrícolas que sustentam a economia de muitos países mais
pobres.617
Na recepção oferecida ao Presidente do Congo, em 13 de junho de 2005,
o Presidente Lula defendeu coordenação nas negociações da Rodada de
Doha para que "o comércio se converta em instrumento eficaz de
promoção do desenvolvimento econômico".618
Só mesmo na visita à Namíbia, país com o qual o Brasil
desenvolve, desde a década de 1990, um programa de cooperação na área naval, a noção de estratégia apareceu vinculada a uma parceria, "cuja moldura seja uma zona de paz e cooperação do Atlântico Sul a serviço de políticas mais eficazes nos domínios
ambiental, de defesa e de transportes".619
Também nesse caso, ela estendeu-se, de qualquer forma, para o
campo mais estrito do desenvolvimento socioeconômico, pois, como explicou o Presidente, entre os objetivos da parceria e associação com aquele país, estaria o esforço conjunto
(...) em direção ao desenvolvimento com justiça social, em ambiente
internacional mais equitativo e democrático. (...) Nossos esforços não se
esgotam na esfera bilateral e inter-regional. Precisamos cooperar nos
organismos multilaterais, tornando-os mais legítimos e representativos,
sensibilizando-os para as carências dos menos favorecidos. Este é o
nosso desafio na Organização Mundial do Comércio.620
Na Assembleia Nacional de Angola, o Presidente Lula afirmou
que "uma parceria privilegiada com Angola é um interesse estratégico do Brasil. O imenso desafio de promover a inclusão
social nos aproxima". 621 Em Moçambique, disse que o Brasil teria que "escolher parceiros que tenham [tivessem] as mesmas condições, similares às nossas, como, por exemplo, a África do Sul, a Índia e a Rússia. (...) parceiros capazes de, na hora, se juntar,
como foi feito em Cancún, com o G22".622
Em território sul-africano, o Presidente explicou que
"alcançaremos as transformações [nas relações internacionais] se
houver diálogo e uma parceria estratégica Sul-Sul". 623 Lembrou, a propósito, as vitórias com a flexibilização do regime de patentes para medicamentos e defendeu uma parceria voltada para a construção de "uma arquitetura financeira e comercial global
previsível e transparente".624
Em coletiva de imprensa, ainda na África do Sul, o Presidente
Lula anunciou querer
(...) uma relação estratégica com a África do Sul, com os países em
desenvolvimento, com toda a África e com a América do Sul. O Brasil quer
estabelecer política estratégica com a China, com a Índia, com a Rússia,
com o México, porque já temos o Mercosul na América do Sul. E essa
política estratégica que queremos fazer é para garantir que os nossos
países possam, na OMC, ter igualdade de oportunidades para que seus
produtos possam transitar com a mesma equidade com que transitam
produtos dos países ricos.625
Na visita a Cabo Verde, em julho de 2004, o Presidente explicou
que o G20 e o G90 626 foram criados porque "acreditamos que a união dos países em desenvolvimento é a chave para o sucesso da
Rodada de Doha". 627 Ele insistiu, ademais, que a "coordenação de esforços entre países em desenvolvimento deve ser ainda mais
ambiciosa",628 na luta contra os subsídios e outras práticas protecionistas, e saudou os resultados do painel da OMC que, em benefício do Brasil e, indiretamente, também dos países africanos exportadores de algodão, decidiu contra os subsídios norte-
americanos.629 Afirmou, na ocasião, que o Brasil "vem lutando para que os benefícios do livre-comércio cheguem a todos. Sobretudo aos pequenos produtores agrícolas competitivos dos países mais pobres, prejudicados por práticas comerciais injustas e, muitas
vezes, hipócritas".630
Percebe-se, portanto, nas intervenções apresentadas, a nítida
ênfase nas proclamações, convites e recomendações pela conjugação de esforços no âmbito da OMC e, em particular, das negociações da Rodada de Doha. Entende-se que tal parceria seria possível devido ao fato de o Brasil e os países africanos serem países em desenvolvimento à espera dos resultados que poderão advir da Rodada para a promoção efetiva do desenvolvimento.
Daí o convite que o Presidente dirigiu, em Windhoek, a
autoridades e ao povo da Namíbia para "juntar forças com meu país nessa luta pela paz e pelo desenvolvimento, dentro e fora de nossas
fronteiras". 631 Ou ainda, sua afirmação de que dessa "coesão e determinação (...) depende a própria credibilidade da Organização e as chances de se adotar um regime internacional de comércio justo e equitativo, que dê aos PEDs o direito de competir e a seus
cidadãos o direito de sonhar com uma vida melhor". 632
Na capital do Cameroun, esclareceu que "o comércio
internacional pode ajudar a erradicar a pobreza e a fome".633
Essas palavras, que fazem referência, basicamente, ao tema do
comércio internacional e às negociações internacionais no âmbito da OMC, expressam, na visão do Chefe de Estado, a percepção da oportunidade de ganhos para os PEDs, desde que construam parcerias estratégicas orientadas objetivamente para a reforma dos organismos multilaterais. Como frisara em São Tomé e Príncipe, será a "nossa capacidade de articulação nos organismos internacionais" e a consequente "valorização do multilateralismo" que permitirão ao Brasil, e também aos países africanos, a constituição de "uma nova aliança mundial contra a exclusão
social".634
O estabelecimento de parcerias e coligações, como o G20, mas,
neste caso, com o conjunto dos países africanos, corresponderia ao mecanismo a implementar com o objetivo de buscar assegurar a inclusão social. A coerência do discurso oficial com relação à África, em particular sua justificativa em torno da necessidade estratégica de aproximação ao continente, repousa na constante reafirmação desse objetivo último, à qual se somaria a ativa liderança brasileira no G20. As parcerias e as reformas institucionais não seriam, portanto, objetivos em si mesmo, mas sim os mecanismos que permitiriam antecipar resultados positivos no sentido da inclusão social.
Nesses termos, a luta contra a exclusão corresponde, em
essência, ao conteúdo ou objetivo da parceria estratégica, cuja materialização se dá por meio do reforço do multilateralismo e da articulação dos PEDs nos organismos internacionais. A luta contra a exclusão social é, portanto, a outra face do conceito de necessidade estratégica de aproximação à África. A primeira foi cunhada com a proposta de construção de parcerias, enquanto esta revela seu conteúdo ou objetivo.