Política Externa como Ação Afirmativa: o Governo Lula na África

O voto racial e o papel das organizações culturais

brasileiro, influenciado inter nacionalmente pela negritude, enfatizava as

suas raízes africanas, o que gerava a reação de intelectuais como Gilberto

Freyre, em sua cruzada em prol dos valores da mestiçagem e do luso-

tropicalismo. (...) Com a redemocratização do Brasil, (...) a nação

brasileira, constituída como mestiça e sincrética, já não precisava

reivindicar uma origem não tipicamente ocidental. Ao contrário, as classes

e grupos sociais farão dos direitos civis, individuais e universais o principal

objetivo das lutas sociais. A reconstrução da democracia no Brasil, a partir

de 1978, ocorre pari passu ao renascimento da cultura e do protesto

negro. Mais que isto: dá-se em um mundo em que a ideia de

multiculturalismo, ou seja, de tolerância e respeito a diferenças culturais

que se querem íntegras, autênticas e não sincréticas, ao contrário do ideal

nacionalista (universalista) do pós-guerra, é dominante.479

 

Registre-se, por fim, o entendimento ainda de Guimarães para

quem

 

(...) seria errôneo atribuir o recrudescimento da consciência negra e do

cultivo da identidade racial, no Brasil dos anos 1970, à influência

estrangeira, especialmente norte-americana. Ao contrário, o renascimento

cultural negro deu-se nestes anos sob a proteção do estado autoritário e

de seus interesses de política exterior. Ademais, a guinada do Movimento

Negro brasileiro em direção à negritude e às origens africanas data dos

anos 1960 e foi, ela mesma, responsável pela geração das tensões

políticas surgidas em torno do ideal de democracia racial.480

 

O voto racial e o papel das

 

organizações culturais

 

Antes de concluir este capítulo, convém tomar nota dos

comentários de G. Santos a propósito do 481 voto racial e sua ineficácia no tocante à promoção da agenda do Movimento Negro ou ao fortalecimento de laços entre os negros, candidatos e/ou eleitores, e os partidos políticos. Foi uma experiência política inovadora, explicou a autora, desenvolvida à época do bipartidarismo, quando os setores de esquerda e demais partidos políticos mantinham-se, em grande parte, alheios à questão racial. As organizações negras buscaram criar um vínculo novo, ainda que

incipiente, entre os candidatos negros482 e o eleitorado, baseado na identidade racial. No discurso que dirigiam à população negra, a problemática racial foi elevada ao primeiro plano, acima da legenda partidária e da concepção ideológica, como forma de

comprometimento com os interesses desse segmento étnico.483

No entanto, essa ênfase no componente racial tampouco

contribuiu para o debate acerca dos mecanismos de exclusão econômica existentes na sociedade brasileira. Ao contrário, produziu análises sobre o racismo como fator de polarização entre esses dois segmentos étnicos. A opção dos eleitores pelos distintos partidos políticos, independente de sua orientação política, fez com que, posteriormente, "os candidatos eleitos no pluripartidarismo acabassem por apresentar um vínculo muito tênue com a questão

racial dentro dos parâmetros apontados pelo Movimento Negro".484 Entre esses candidatos, Santos inclui a então vereadora Benedita da Silva, eleita pelo PT/RJ, em 1982, que "posteriormente transformou suas práticas parlamentares em função da pressão do Movimento Negro quanto ao atendimento de seu programa

mínimo".485

Mais importante, no entanto, do que a matriz política na

idealização do projeto de combate ao racismo, refere,

 

[como] elemento fundamental nesse processo, a efervescência cultural

das massas negras, iniciada na década de 70 (...) [que] revela uma

identidade étnica reprimida pelo padrão sociorracial e [que] encontrou

ressonância política/organizativa nas experiências de organização da luta

norte-americana pelos direitos civis e nas guerras de libertação dos povos

africanos de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.486

 

É dessa forma que, a partir dessa época, o debate sobre a

questão racial chegou a organizações culturais, algumas delas identificadas com a África e com a gestação de uma consciência

negra, "que fora reprimida pelo mito da democracia racial". 487 Como resultado, concluiu,

 

(...) enquanto as lideranças negras oriundas do Núcleo Negro Socialista

aproximavam-se das manifestações culturais como potencial mobilizador

para ampliar a consciência de raça e de classe (...) [e] instrumentavam o