Puro
Capítulo 7
Uma garota cruza o cemitério de Les Innocents. Numa das mãos, pendendo de um barbante que amarra os pés, ela carrega uma galinha; na outra, leva uma cesta de palha cheia de legumes e verduras, algumas frutas e um pedaço de pão preto. Foi, como sempre, uma das primeiras pessoas a chegar ao mercado, onde sua figura esbelta e o farto cabelo castanho-avermelhado são uma visão familiar aos criados que constituem a maior parte da freguesia nesse horário matutino. Onde quer que ela pare, o dono da barraca jamais tenta enganá-la. Ela não precisa apertar e afofar o produto, nem cheirar ou regatear, como fazem as cozinheiras de dedos gretados ou as matriarcas ossudas com orçamentos apertados que vivem um degrau ou dois acima da penúria. Servem-na rápida e respeitosamente. Talvez lhe perguntem sobre a saúde do avô, sobre suas juntas artríticas, mas ninguém a detém durante muito tempo. Não que não gostem dela. O que existe em Jeanne para não gostar? Mas ela vem do outro lado dos muros do cemitério, um lugar de cuja existência, nesse último quarto do século dezoito, muita gente prefere não se lembrar. Jeanne é meiga, bonita, bem-educada. É também a emissária de cabelo castanho enviada pela morte.
A manhã é fria, incrivelmente luminosa. A sombra da moça com a galinha nas mãos se projeta sobre a grama dura conforme ela segue seu caminho — um caminho sem marcas, salvo as dos seus pés — desde o portão na rue aux Fers até a casa do coveiro quase junto à igreja. Em alguns trechos o solo é irregular, com a grama cheia de buracos rasos onde uma ou outra sepultura afundou. Um visitante descuidado, um visitante que não conhecesse o caminho, talvez mergulhasse num deles, mergulhasse até a cintura ou os ombros, chegando mesmo a sumir por completo. Mas não Jeanne.
Ela se demora junto à cruz do púlpito, a coluna de pedra e ferro onde, no passado, homens de olhar apaixonado provavelmente se encostavam para discursar para a multidão. Junto ao primeiro dos degraus, cresce um tufo de moedas-do-papa, os pistilos reluzindo como prata sob a luz do sol. Ela se inclina para colher algumas, quebra os caules secos e as põe na cesta. Já não nasce muita coisa em Les Innocents. A terra foi exaurida pelo próprio trabalho, embora o avô, coveiro há cinquenta anos, tenha lhe dito que, ao chegar ali, o cemitério na primavera era como uma pradaria do interior e que, na época de seu antecessor, os padres e os moradores locais alimentavam seus animais com essa grama, que, além de servir de pasto, virava feno.
Jeanne torna a pegar a galinha. Novamente de cabeça para baixo, a ave de imediato volta a seu estupor. A garota toma uma trilha que a deixa, por meros centímetros, fora da sombra pesada da igreja. Ela se demora, ouve o som da cidade do outro lado do muro — Paris dando conta de seus afazeres matinais —, ouve os gansos em seus cercados no mercado, a vendedora de camarões apregoando sua mercadoria, os bebês chorando na casa da ama-seca na rue de la Ferronnerie...
Quando era pequena — tinha nove anos por ocasião do último enterro —, o cemitério produzia seus próprios sons. O tap-tap do pedreiro, o ritmo de uma pá, o dobrar do sino. Agora — pois quanto barulho são capazes de fazer uma mocinha e um velho? —, o lugar é silencioso, salvo quando essa paz é perturbada por algum visitante, do tipo que pula, sem convite, um dos muros à noite. Numa aurora invernal, dois anos antes, um duelo foi travado na esquina com a rue de la Lingerie. Dentro de casa, ela e o avô podiam ouvi-lo nitidamente, o breve tinido das armas, a gritaria que o encerrou. O avô esperou até o dia raiar por completo para sair. Tudo que os duelantes deixaram para trás foi grama pisada e um pedaço ensanguentado de camisa rasgada.
Há também os namorados: Jeanne já viu quase tudo que existe para ver nesse aspecto. Em agosto passado mesmo, sob uma lua amarela e nebulosa, ela flagrou um rapaz — um dos carregadores, a julgar pelo corpo — com uma moça tão bonita quanto uma rainha-duende, e não mais velha que ela. Quando o rapaz fez aquilo, a garota miou como um gato. E não foi uma vez só que os dois fizeram, mas três ou quatro, parando apenas para contemplar vez por outra a lua e beber de uma garrafa que haviam levado e que Jeanne encontrou no dia seguinte encostada ao túmulo Peyron, usado pelos dois como cama. Restavam umas gotinhas de vinho, que ela provou, sentindo-as descer garganta abaixo, antes de esconder a garrafa num buraco sob a sepultura.
Às vezes — raramente —, Jeanne vê o velho padre com seus óculos, um parrudo morcego sem asas ao crepúsculo. E, às vezes, o músico de cabelo vermelho, que sai da igreja para se aliviar e sempre acena quando a vê. Ela gostaria de pôr os olhos nas mãos dele. Devem ser especiais, porque só mãos especiais podem produzir os sons que ele produz, aquela música que uma ou duas vezes por mês vaza dos muros negros da igreja e faz seu coração bater acelerado.
À porta da casa, Jeanne ergue o rosto para deixar que o sol de outono o banhe. Depois, refeita e confortada por esse toque, ela entra. O avô está na cozinha. Ela vai até lá com a galinha e a segura para que ele enfie os dedos entre suas penas. O avô grunhe sua aprovação e aponta com o queixo o aposento contíguo à cozinha, o escritório do coveiro, uma sala de paredes caiadas com uma janela estreita em arco, onde quem sabe quantos volumes de registros, cheios de pó e excrementos de rato e cobertos pela pátina da umidade, se encontram enfileirados nas prateleiras claudicantes. Um homem está de pé diante da mesa com um dos volumes aberto diante de si. Estuda-o, vira uma página, aperta um lenço contra o rosto, fecha os olhos, inspira fundo e depois enfia o lenço de volta no bolso do casaco. O casaco está abotoado, e por baixo dele Jeanne pode entrever seu traje, verde como o miolo de uma alface.
A galinha cacareja; o homem se vira na direção da cozinha. Assente de cabeça para Jeanne e, vendo que ela continua calada, diz o próprio nome.
— Estou olhando os registros.
— Posso notar — diz ela.
Novamente ele assente e volta a atenção para o livro.
— Podemos lhe oferecer um copo de vinho, monsieur? — indaga Jeanne. — Também temos um pouco de café.
Ele torna a apertar o lenço contra o rosto e concorda com a cabeça. Jeanne acha o perfume que emana do lenço quase ofensivamente forte. O avô leva a galinha para fora.
— O senhor é estrangeiro? — indaga do estranho.
— Sou da Normandia — responde Jean-Baptiste, que está passando o dedo sobre uma coluna de nomes meticulosamente escritos à tinta. Sete Flaselle faleceram, um após o outro, no outono de 1610. Sete, em menos de um mês.
— Foi o que achei — diz Jeanne.
— Por quê?
— Nunca o vi antes.
— Você conhece todo mundo em Paris?
— No bairro.
— Conhece uma família chamada Flaselle?
— Não — responde Jeanne. — Não há nenhum Flaselle aqui.
— Já houve — diz ele, fechando o livro e aproximando-se dela. Vindo do lado de fora, ouvem-se cacarejos frenéticos seguidos de um silêncio abrupto.
— Seu nome é Jeanne?
— Sim — responde ela, sorrindo ao ouvir o cantar da voz dele.
— Seu avô me disse que você me mostraria o cemitério. Que sabe onde ficam as fossas.
— Fossas?
— As covas coletivas.
— Elas estão por todo lado — explica Jeanne.
— Mas você pode me mostrar?
Ela dá de ombros.
— Se o senhor quiser.
O velho entra com a cabeça da ave numa das mãos, e o corpo, que esperneia debilmente, na outra. Gotas de sangue caem como sementes sobre a pedra do chão da cozinha.
Os dois começam pelo ossuário sul, uma galeria de pedra enegrecida, contígua à rue de la Ferronnerie. Algumas arcadas que levam às galerias têm portões de ferro enferrujado da altura de um homem, outras são abertas. Por cima dos arcos — e imediatamente visíveis para quem entra no cemitério, existem sobrados/sótãos que armazenam ossos, alguns tão negros quanto as pedras, atrás de grades de ferro.
Depois de um segundo de hesitação, Jean-Baptiste passa por baixo de um dos arcos. Na pedra sob seus pés há uma inscrição. Ele se agacha, toca as letras com a ponta do dedo. Henri alguma coisa, ceifado, e o filho também, amado fulano, esposa de, falecido, devotado, breve, piedoso, a carne, eternidade, 14 alguma coisa.
Ele se põe de pé e dá alguns passos ao longo da galeria. A luz penetra ali de maneira estranha, mostrando algumas coisas nitidamente e obliterando outras. Vê o traçado delicado de flores de pedra, vê uma mulher de pedra segurando um véu de pedra que lhe cobre o rosto. Degraus estreitos supostamente levam aos sobrados. O sapato chuta um fragmento de alvenaria, e o som é de imediato seguido pela fuga repentina de seres vivos, invisíveis, porém próximos. Jean-Baptiste se vira e se apressa na direção da saída.
Tem com ele um caderno e uma trena de pano. Quando tira medidas, pede a Jeanne para segurar uma ponta da trena; então, munido de uma caneta com ponta de metal e de um tinteiro portátil, escreve e faz esboços no caderno. Tem muitas perguntas. Ela responde a todas, e ele anota as respostas no papel. Às vezes, fecha os olhos e tira o lenço do rosto. Indaga se ela sabe ler.
— Um pouco — responde Jeanne, apontando para a inscrição numa das pedras. — Hic Jacet — recita. — E ali, Hic Requiescit. Lá, Hic est Sepultura.
O assentimento dele é quase um sorriso.
Ela diz:
— Você sabe ler.
— Sou engenheiro. Sabe o que é isso?
— Uma espécie de padre?
— Construímos coisas. Estruturas.
— Muros?
— Pontes.
Ele pergunta onde ficam as covas coletivas mais recentes. Ela o guia até lá. Ele olha para baixo e à volta. Nada de óbvio diferencia o local do caminho que o ladeia.
— Tem certeza?
— Tenho.
— E foram fechadas, lacradas, há cinco anos?
— Isso.
— Você era uma criança na época.
— Sim.
— Mas se lembra?
— Me lembro.
Os dois seguem em frente (ele precisa continuar andando). Cova após cova.
— E esta? É mais antiga que a última?
— Sim.
— E esta?
— Mais antiga ainda.
Ele faz um mapa. Ela observa a maneira como ele é capaz de traçar uma linha mais fina ou mais grossa com um pequeno ajuste no ângulo da pena. E as figuras, e as palavrinhas! Há beleza ali.
— O que é isso? — indaga Jeanne, apontando para um sinal, um dos vários que viu Jean-Baptiste desenhar, uma forma semelhante a um meio crânio.
— Um ponto de interrogação — esclarece ele. — Para quando existe alguma incerteza.
O rosto dela se anuvia:
— Então, você não acredita em mim.
Acredita, sim, explica ele, mas o que há debaixo da terra está escondido. O que está escondido não pode ser conhecido com precisão.
— Não por você — atalha ela. Não há impertinência nessa resposta. Ele parece refletir um instante, depois fecha o caderno e o tinteiro e enxuga a ponta da caneta.
— Encerramos por hoje — diz ele. Enquanto caminham de volta até a casa do coveiro, pergunta: — Você não gostaria de ir embora daqui? De morar em algum outro lugar?
— Eu não conheço nenhum outro lugar — responde Jeanne. — E quem cuidaria deles?
— Deles?
Ela faz um gesto para abranger o solo à volta de ambos.
— Os mortos — responde.
Depois de se despedir da garota e do velho coveiro, Jean-Baptiste entra na igreja. A garota indicou-lhe uma porta, não a grandona pela qual os enlutados provavelmente entravam, mas uma menor, ao lado, cuja altura o obriga a baixar a cabeça. Assim que entra, ele se vê em um vestíbulo escuro como o inferno, mas alguns passos depois uma segunda porta lhe permite entrar no corpo da igreja pela ala sul. À frente ele distingue parte de um vitral acima do altar. Não há som nem sinal de outra presença além da sua. Começa a andar com cuidado, da direita para a esquerda, passando atrás das costas dos bancos, por colunas indistintas, atravessa a nave, passa por um túmulo grande e gradeado sobre o qual um homem de armadura está deitado junto à esposa de metal, que, como ele, tem as mãos juntas em oração. Alcança a ala norte e caminha até o órgão. Nada de Armand Saint-Méard hoje. Jean-Baptiste fica meio desapontado, meio aliviado. Talvez fosse agradável ouvir o organista expressar admiração pelo seu novo traje. Talvez também, é claro, pudesse significar apenas o prelúdio de mais um dia desperdiçado bebendo e divagando.
Ele se senta na banqueta do órgão, deixa os dedos se moverem sobre o teclado. À direita e à esquerda há fileiras de registros, puxadores de madeira elegantemente entalhada, alguns com aparência de marfim. Puxa um deles e se inclina para tentar ler o que está pintado ali, mas a escrita é em caracteres góticos elaborados demais e, de todo modo, trata-se de abreviações à semelhança do enunciado de componentes químicos. Ele torna a empurrá-lo. O instrumento é a única coisa em toda a igreja que lhe desperta algum interesse, alguma afeição. Daria para salvá-lo? Desmontá-lo, embalá-lo, armazená-lo e remontá-lo?
Ele se levanta da banqueta, desce pela nave e está tentando, em meio às pedras e placas, entre as sombras consistentes e as inconsistentes, localizar a porta para a rue aux Fers, quando uma voz, voz que por pouco não o esmaga, vem de alguma parte impenetrável da escuridão lá em cima.
— Você! Quem é você?
Que horror ser visto dessa maneira! Visto, porém incapaz de ver. Ergue os olhos, assustado, como a esperar ouvir o bater de asas rugosas.
— Você não é o músico! Conheço os passos dele. Quem é você?
Ecos, negros rebanhos de ecos sob a abóbada. É impossível localizar sua origem.
— Responda, vagabundo!
Ele agora vê a porta, enfia nela a chave, e na terceira tentativa descobre que é a chave da casa dos Monnard. Insere uma segunda na fechadura, gira, puxa a porta...
— Quem é você? Quem?
Finalmente a rua, a rue aux Fers. Que não está sendo consumida pelo fogo. Não há monstros saídos das pinturas de Jerônimo Bosch, nem mulheres fantasmagóricas confabulando com demônios ou baleias perdidas que vomitam almas atormentadas. Meia dúzia de donas de casa lava roupa na fonte italiana. À volta delas, o chão brilha. Duas erguem o rosto e o observam — talvez surpresas por verem alguém saindo da igreja, um homem, um homem que jamais viram antes —, mas logo voltam a atenção para o trabalho, os braços frios mergulhados na água fria. A roupa não há de se lavar sozinha.