Puro
Capítulo 12
Durante o que resta da noite, ele permanece acordado, o interior da cabeça faiscando com a claridade da insônia e da bebida sem rótulo. Vez após vez, revê o encontro com a mulher, com Héloïse, até que a cena toda se torna impenetrável, cedendo lugar a um outro estado, levemente entorpecido, em que ele vê a porta do porão se abrir devagarinho e, incapaz de resistir, se aproxima daqueles degraus, degraus em que jamais pôs os olhos...
Veste-se logo ao primeiro sinal do alvorecer. Duas vezes limpa o espelho com a mão até se dar conta de que os pontos pretos estão em seu rosto, não no espelho, a recompensa que ganhou por ter segurado a lata de tinta de Monsieur Renard. Não tem água para se lavar. Solta um palavrão e sai de fininho de casa.
É o último a embarcar no coche, na rue aux Ours. Senta-se de frente para um padre de cabeça branca. Ao lado do padre (que, sob a capa preta, apalpa com delicadeza algum desconforto no estômago) viaja um casal estrangeiro. São ingleses, descobre afinal. A mulher, impecável, usa roupa pesada e está bem desconfortável; o homem, corado e grandalhão, parece um velho lutador. O passageiro restante é uma mulher, uma daquelas mulheres elegantes e misteriosamente tristonhas de certa idade, que viaja desacompanhada em veículos públicos e que de imediato se torna o foco de todo tipo de especulação por parte dos demais passageiros. Olha pela janela como se lhe restasse a esperança de que alguém, um cavalheiro como Louis Horatio Boyer-Duboisson, pudesse surgir a cavalo, brotando do que restou da bruma da noite anterior para lhe pedir que fique. Ninguém aparece.
À porta da agência dos coches, o cocheiro toma seu trago matutino. O casal inglês divide um ovo cozido. O padre lê um livrinho, as páginas quase lhe roçando a ponta do nariz. A mulher elegante solta um suspiro. Jean-Baptiste — que nada comeu desde a galinha do jantar de ontem — fecha os olhos e pega num sono tão profundo que o deixa morto para tudo à volta até que, despertando abruptamente três horas mais tarde, vê passarem do outro lado da janela salpicada de lama os campos invernais. Paris já ficou há muito para trás. A inglesa sorri para ele, balança a cabeça. O marido e o padre roncam, lado a lado, cada qual no seu ritmo.
Chegam a um morro. Os cavalos emperram. O cocheiro, espiando pela abertura no teto do coche, indaga se os cavalheiros se opõem a subir a pé. Os cavalheiros concordam e saem caminhando com cuidado na lama enquanto tecem comentários sobre a natureza cor de barro que os cerca de um lado e do outro. Voltam ao coche no topo do morro, espalham no chão a lama que grudou em seus sapatos e depois se agarram às correias de apoio enquanto os cavalos empreendem a longa e deslizante descida até a aldeia onde, para alívio geral, todos param para almoçar.
À tarde, depois de terem tomado um bocado de vinho branco para acompanhar a comida, tem lugar uma hora de conversa inofensiva, seguida de uma hora de sesta, enquanto o coche balança qual um navio, e o mundo passa do outro lado das janelas, despercebido e anônimo.
Aportam em Amiens duas horas depois do anoitecer, entrando por um dos velhos portões da cidade e esticando o pescoço para ter um vislumbre da sombra da catedral. Há um grupo de peregrinos hospedado na estalagem. Os recém-chegados são obrigados a se virar como podem no espaço que sobra. Jean-Baptiste divide com o padre uma cama no sótão, e este o convida para uma prece em conjunto. Não lhe apetece rezar, gostaria de anunciar que é um filósofo, um racionalista, um livre-pensador, mas educadamente acrescenta seus améns aos do padre e sente neles o velho conforto de sempre. Os dois trocam um aperto de mão e sopram a chama da vela. A barriga do padre ronca. Ele se desculpa. Jean-Baptiste lhe garante que isso não o incomoda.
De manhã, ele acorda com a cabeça aninhada no ombro do padre. Os dois se sentam na cama e trocam novamente um aperto de mão. Isso é viver; isso é viajar.
Coche novo, cocheiro novo, cavalos novos. Chegam a Douai no início da tarde. Lá, o grupo se divide. O velho padre é recebido por jovens padres do seminário, o casal inglês atravessa o pátio até o coche que aguarda para levá-los a Calais, a mulher elegante e tristonha faz um rápido inquérito sobre o próximo transporte para Bruxelas. Jean-Baptiste, agarrado a uma pequena valise, embarca apressado num coche apinhado com destino a Valenciennes. Duas horas depois, ele desce, rijo de frio, na rue de Paris. O tráfego é sempre intenso entre a cidade e as minas. Por dez sous, consegue carona numa carroça que transporta manteiga malcheirosa e que o deixa na entrada da colônia dos mineiros quando a claridade do dia está prestes a se apagar.
Mesmo ao crepúsculo, fica evidente que Lecoeur estava certo e que não houve qualquer mudança importante desde que Baratte aqui esteve por último. O mesmo denso aglomerado de barracões e cabanas, semelhante ao acampamento de um exército sitiador, um exército que finca o pé de má vontade sem a mais ínfima fé na vitória. Montes de pequenas fogueiras ardem, cada qual cercada por um grupo de silhuetas masculinas e femininas. À beira da estrada, as crianças brincam entretidas, algumas se detendo para olhar, cheias de espanto e incúria, a carroça que passa. As estradas foram abertas pela mineradora, as primeiras batizadas com nomes pomposos e plenos de promessas, como avenue de Charbon, avenue de l’Avenir e até avenue de Richesse. As posteriores receberam tão somente números: rue 1, rue 2. No centro de tudo, discerníveis como uma zona mais escura e mais densa de fumaça e alarido abafado, fica o canteiro de obras propriamente dito.
Os administradores possuem um alojamento exclusivo, ligeiramente a leste do canteiro. O vento incessante cobre tudo com uma nuvem de fuligem e pó de pedra. O estilo do alojamento lembra um acampamento provinciano, cada bloco dividido em seis, cada qual o lar de um administrador, quase sempre solteiro. Esse não é um lugar para onde levar uma esposa. Não é um lugar onde se espera encontrar uma. Os administradores graduados moram em Valenciennes. Os proprietários e acionistas estão em Paris, onde as minas talvez figurem em seus pensamentos como buracos na terra de onde se pode, simplesmente, tirar dinheiro às colheradas.
Há horas ameaça nevar. Justo quando o engenheiro entra no alojamento, os flocos começam a cair. Jean-Baptiste se lembra da casa de Lecoeur; foi vizinho dele durante quase um ano, respectivamente a segunda e a terceira divisões do segundo bloco. Na entrada, debaixo da janela da frente, Lecoeur tinha um pequeno jardim, um trecho de terra cultivada onde, no verão, cresciam cebolas e alfaces, além de um punhado de cravos-de-defunto. Não há vestígio de jardim agora.
Ele bate à porta, aguarda, torna a bater. A neve lhe assenta nos ombros, na aba do chapéu. Já vai bater uma terceira vez quando a porta se escancara e lá está Lecoeur, de vela na mão, a chama tremeluzindo.
— Companheiro! — exclama Lecoeur. — Ai, meu companheiro! A espera já estava me enlouquecendo!
A vela se apaga. Os dois atravessam o curto corredor no escuro. Entram na sala. A vela, ao cabo de uma busca pelos apetrechos necessários, é novamente acesa. Lecoeur está de pé no meio do cômodo, triunfante, cômico, meio cambaleante.
— Está lembrado? — indaga. — Hein? Não consegue ver sua antiga pessoa naquela poltrona ali?
— Consigo — diz Jean-Baptiste, registrando o aposento — a poltrona com suas manchas de gordura humana, o foguinho medíocre, os retratos em perfil de mãe e irmã... A constância, a imutabilidade, que, como aquela da colônia de mineiros, não são alvissareiras.
Sobre a mesa, uma refeição. Algumas fatias de cabeça de vitela defumada, batatas sem molho, pão com uma fina camada de manteiga malcheirosa de um carregamento anterior. No centro da mesa, uma garrafa que contém um líquido claro que Lecoeur agora despeja em dois copos, esvaziando o dele imediatamente e depois entregando o outro a Jean-Baptiste. Os dois se sentam cara a cara. Jean-Baptiste corta com dificuldade a fatia de vitela em seu prato (cujo gosto sugere que a coitadinha foi marinada em suas próprias lágrimas). Toma aos golinhos o líquido da garrafa, vê flocos negros de neve colidirem, silenciosamente, com o vidro da janela.
Faz três anos que os dois não se encontram — um abraço apressado sob a garoa na parada do coche em Valenciennes. Desde então, que dificuldades o tempo impôs a esse homem para desgastá-lo tanto? Ele não tem mais de trinta e cinco anos, talvez menos, mas parece cinquentão e doente. Perdeu a maior parte dos dentes. O nariz está inchado, vermelho, crivado de vasos dilatados. Emagreceu de dar dó e se mostra nervoso. Quando desata a falar, não para mais, e o que começou como conversa ligeira se torna, aos poucos, um lamento, depois um queixume amargo, centrado na mina, aquele leviatã, aquele moedor de ossos humanos.
É assim que ele passa as noites? Sozinho com uma garrafa, acusando o ar? Está vestindo um colete grumoso de lã marrom, tricotado talvez por um círculo de parentas solteironas para as quais o jovem Lecoeur, o Lecoeur com dentes, já representou a derradeira grande esperança da família. Quando ele se cala e estende novamente a mão para a garrafa com um suspiro de amante apaixonado, Jean-Baptiste já decidiu que precisa, se puder, levá-lo a Paris. Nesse lugar ele não há de durar mais um inverno. E terá realmente perdido todo o seu antigo talento? Toda aquela atividade mental saudável que um dia foi sua? Com o dinheiro do ministro, com a autoridade do ministro, não deve ser impossível arrancá-lo daqui. Existe um risco, é claro. Quão perdido estará? Em sã consciência, porém, Jean-Baptiste não consegue aceitar a ideia de largá-lo assim em Valenciennes.
Está refletindo, tentando montar mentalmente um retrato crível do primeiro dia de escavações em Les Innocents — ele mesmo em cima de algum tipo de plataforma ou andaime, os homens lá embaixo, enfileirados, com suas ferramentas —, quando Lecoeur de repente pergunta:
— Você se casou?
— Não — responde Jean-Baptiste, em cuja mente, de forma absurda, surge a sombra de Héloïse, a prostituta Héloïse.
— Foi o que achei — diz Lecoeur. — Um homem casado não usa um traje como esse.
— E você? — indaga Jean-Baptiste. — Você está... está envolvido com alguém?
Lecoeur sorri, balança a cabeça, fita o fogo.
— Há muito não sei o que é me envolver com uma mulher.
O toque de despertar soa às três e meia da manhã. O primeiro turno, a primeira descida, é às quatro. Jean-Baptiste acorda no quarto do segundo andar. Olha para a janela, mas não vê sinal de claridade. Levanta-se da cama. O quarto é ridiculamente frio. Ele se lembra perfeitamente de tudo.
Na sala, encontra Lecoeur totalmente vestido, o rosto uma máscara de concentração enquanto usa ambas as mãos para encher um copo com o líquido da garrafa quase vazia agora. Pousa, então, a garrafa e depois encosta a boca na beirada do copo e suga a primeira golada enquanto o copo continua sobre a mesa.
— Quer que eu lhe sirva um copo? — pergunta.
— Mais tarde, talvez — responde Jean-Baptiste.
Os dois conversaram um pouco, na noite anterior, sobre o esquema para Les Innocents, sobre os homens que serão necessários. Lecoeur foi muito profissional. Preparara uma lista de nomes e, passando-os em revista (Everbout, Slabbart, Block, Rape, Cent, Wyntère), forneceu a Jean-Baptiste um breve histórico de cada um, a idade aproximada, tempo de serviço, o caráter moral, na medida em que dele tinha conhecimento, na medida em que tal conhecimento era possível. Nada foi dito quanto a acrescentar seu próprio nome à lista, mas agora, na sala gélida, Jean-Baptiste pergunta se a ideia lhe apetece.
— Se me apetece?
Na pressa para apertar as mãos do amigo, Lecoeur esbarra na beirada da mesa com o quadril, quase derrubando a preciosa garrafa.
— Vão batizar praças em nossa homenagem! — grita. — Os homens que purificaram Paris!
Desanda a dançar; não consegue se conter. Jean-Baptiste ri, bate palmas para acompanhar. Salvou uma vida hoje e ainda nem tomou o café da manhã.
Durante quase uma hora, tendo redescoberto a velha retórica entusiasmada e a destreza do embate verbal que caracterizavam a época de Valenciana, os dois discutem os preparativos necessários. O transporte dos homens, alojamento para todos em Paris. Higiene, disciplina, remuneração. Todas as dificuldades imagináveis, do clima inclemente ao medo de fantasmas.
— E o lugar para onde serão levados os restos...? — pergunta Lecoeur.
— Uma velha pedreira.
— Já está tudo pronto?
— Logo estará.
— É seco? Temos usado uma nova bomba aqui, inspirada no modelo inglês. É muito mais rápida do que tudo que já tínhamos usado.
— Minha responsabilidade é o cemitério. Depois que as carroças saírem de Les Innocents...
— A que profundidade teremos que cavar?
— Dizem que algumas covas coletivas têm trinta metros.
— Fundas assim?
— A maioria, espero, nem tanto, mas para os homens o trabalho não será agradável.
— Não pode ser pior — atalha Lecoeur — do que descer às entranhas da terra com uma picareta sem saber quando vamos inalar gás tóxico ou quando o túnel atrás da gente vai desabar. Perdemos três na semana passada. Enterrados vivos. Eles não querem saber de escorar direito os túneis, porque sabem que não serão pagos por isso. Só pelo carvão.
Por trás da janela, o dia não parece estar clareando. Rajadas finas de neve golpeiam novamente o vidro. Jean-Baptiste se apressa. Não pretende ficar preso ali.
— Vou lhe deixar dinheiro. Use o tanto que precisar. E pode mencionar o nome do ministro quando for necessário. Mas tudo precisa ser feito sem demora. Se andarmos devagar, tenho certeza de que não precisarão de nenhum de nós. Eles foram bem claros comigo nesse ponto.
— Amicus certos in re incerta cernitur — diz Lecoeur, rindo e esfregando as mãos. — Agora, vamos comer alguma coisa. Umas fatiazinhas da vitela, talvez? — Ele a retira do guarda-comida e nina aquela pobre cabeça como se fosse um bebê querido.