Puro

Andrew Miller · Capítulo 35 de 48

Páginas do PDF

Puro

Capítulo 6

 

Armand se convida para ir à casa dos Monnard tocar o pianoforte de Ziguette. Contrata, às expensas dos Monnard, um sujeito imaculadamente cego munido de ferramentas, como um boticão, que resmunga, faz caretas e entra no instrumento até conseguir afiná-lo.

Quando se senta para tocar, Armand parece infundir sons nas teclas a partir dos próprios dedos. Quando troveja o primeiro acorde, Ragoût se esconde debaixo do sofá e depois sai dali, enfiando, num frenesi, as garras no trançado do tapete.

— Você está matando o meu órgão — grita Armand acima do som que ele mesmo produz —, mas, como me deu isto aqui, eu o perdoo.

— Eu não o dei a você — atalha Jean-Baptiste.

— O conceito de propriedade — diz Armand — em breve será muito mais flexível.

Jean-Baptiste padece de dores de cabeça. Padecerá de dores de cabeça pelo resto da vida. Ao longo das piores, o mundo se cobre de uma membrana roxa, como se visto pelo buraco em sua cabeça. É preciso ficar totalmente imóvel. A dor cresce até ser aliviada por acessos de vômito copioso. Outros episódios são menos intensos e podem ser controlados — por sugestão de Guillotin — com a ingestão de três ou quatro xícaras de café forte.

Algumas palavras perdidas — como pombos de volta ao ninho — ressurgem. Ele as anota, em tinta preta, nas costas do diário.

Navalha

Argola

Régua

Escora

Chapéu...

Ainda não consegue ler até o fim uma única página de Buffon, não lembra quando nem por que comprou o livro. Pergunta-se quanto da vida de um homem conta a história que ele conta a si mesmo. Pergunta-se quanto da própria história ele perdeu. Pergunta-se se isso faz diferença.

Em termos de ganhos, ele já não é mais perturbado por sonhos. Dorme profundamente. O frasco de remédio, a viscosa lachryma papaveris, fica em cima da lareira, em seu quarto, mas não é tocado desde a agressão, nem mesmo naquelas noites em que, deitado e acordado, ele pensa nas centenas de coisas que poderia ter dito a ela, à austríaca, naquele fim de madrugada na rue Saint-Denis.

No fundo da décima fossa, os restos mortais de umas trinta ou quarenta crianças. Não há tempo, realmente, para calcular o número exato. Guillotin e Thouret concordam que as crianças tinham entre quatro e dez anos de idade à época do falecimento. Manetti, consultado, assente. Uma epidemia no orfanato em Plessy — 1740? Talvez 1741. Ele não pode jurar. As crianças foram enterradas pés com cabeças, mais ou menos como deviam dormir no orfanato. Os homens ficam perturbados; fumam seus cachimbos, acariciam seus amuletos. Os médicos recolhem alguns crânios, empilhando-os como repolhos ou nabos numa das cestas de palha de Jeanne, e os levam para a oficina.

Neva durante os últimos dias de março. A neve gruda como cera derretida nos muros negros da igreja e se assenta, quebradiça e reluzente, sobre os ossos empilhados. Depois congela. As pás mais raspam que cavam, tinindo de encontro à terra. Para abrir a décima primeira cova, é preciso manter uma fogueira acesa sobre ela a noite inteira. É a última investida do inverno.

Durante toda a semana seguinte, o solo degela, vira lama, melaço. Quando um caixão, um crânio, é içado, o som é anfíbio, estranhamente sexual. Casacos são desabotoados, chapéus afastados do rosto. Mesmo em Les Innocents — e mesmo para aqueles cujo olfato se encontra tão comprometido quanto o do engenheiro —, o ar está mudado e, a intervalos imprevisíveis, é de uma pureza enervante, que faz com que todos, homens e mulheres, mineiros e seus patrões, se imaginem em algum outro lugar, quem sabe num longo passeio pelo campo, numa caminhada à beira de algum rio margeado de salgueiros.

Numa dada manhã, logo após a chegada do engenheiro ao cemitério, Jeanne o chama, o rosto brilhando de excitação. Ela o conduz até a extremidade do cemitério, próximo ao local onde a primeira das fossas coletivas foi escavada.

— Está vendo? — indaga, apontando para um punhado de florezinhas amarelas e folhas mosqueadas e, bem pertinho, uma moita de plantas mais altas com flores carmim. — As sementes estavam enterradas — explica. — A escavação fez com que revivessem.

Ele contempla as flores amarelas, as flores carmins. Nada diz. Está totalmente desconcertado.